Maria de Fátima Silva de Figueiredo

Título da dissertação: A REFORMULAÇÃO COMO ÍNDICE DE AUTORIA: UM ESTUDO DOS MANUSCRITOS POÉTICOS DE DA PAZ OLIVEIRA

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
MESTRADO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA

MARIA DE FÁTIMA SILVA DE FIGUEIREDO

A REFORMULAÇÃO COMO ÍNDICE DE AUTORIA:
UM ESTUDO DOS MANUSCRITOS POÉTICOS DE DA PAZ OLIVEIRA

MACEIÓ
2012

Maria de Fátima Silva de Figueiredo

A REFORMULAÇÃO COMO ÍNDICE DE AUTORIA:
um estudo dos manuscritos poéticos de Da Paz Oliveira

Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Educação do Centro
de Educação da Universidade Federal de
Alagoas, na área de Educação e
Linguagem, como requisito parcial para
obtenção do título de Mestra em
Educação Brasileira.
Orientadora: Profa. Dra. Adna de Almeida
Lopes

Maceió
2012

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico

Bibliotecária: Helena Cristina Pimentel do Vale
F475r

Figueiredo, Maria de Fátima Silva de.
A reformulação como índice de autoria: um estudo dos manuscritos
poéticos de Da Paz Oliveira / Maria de Fátima Silva de Figueiredo. – 2012.
116 f. : il., fots.
Orientadora: Adna de Almeida Lopes.
Dissertação (mestrado em Educação Brasileira) – Universidade
Federal de Alagoas. Centro de Educação. Programa de Pós-Graduação em
Educação Brasileira. Maceió, 2012.
Bibliografia: f. 100-102.
Anexos: f. 103-116.
1. Oliveira, Maria da Paz, 1944- . 2. Manuscritos 3. Processos de
escritura. 4. Autoria. 5. Crítica genética. 6. Subjetividade. I. Título
CDU: 372.882

Dedico esta dissertação a Marcelo, pelo incentivo e apoio para realização deste
Mestrado; a Lucas, Vítor e Caio, meus amados filhos; a Rosa, por cuidar dos meus
filhos com respeito; aos meus pais, que dão tudo de si para todos os filhos,
indistintamente, a quem devo tudo de bom que me completa e que me dão a
oportunidade de retribuir seu mais puro amor com o fruto do tesouro que recebi: a
educação; às minhas irmãs, à prima-irmã Nete e ao meu irmão que me renovam
com suas presenças; à amiga Maria José Ponciano; ao casal amigo Sandra Roque e
Fernando Mendonça e a todos os meus familiares, amigos, alunos e ex-alunos.

AGRADECIMENTOS
A Adna Lopes, orientadora da dissertação, pela dedicação, responsabilidade,
competência, inteligência e relevância das sábias intervenções, por respeitar o ritmo
da minha produção e por exigir com perspicácia meu crescimento acadêmico.
À Banca de Qualificação pela oportunidade de aprendizado, contribuição e incentivo
à produção teórica.
Às turmas de Licenciatura em Letras e Bacharelado em Ciências Sociais da
disciplina: Leitura e Produção de Texto - 2010.2 - Tarde UFAL, pela acolhida
respeitosa.
À Equipe da secretaria do PPGE, pela atenção, prontidão, compromisso.
Ao IFPE, pela oportunidade concedida.
Aos gestores do Campus Recife, Valbérico Cardoso, Francisco Granata, Gustavo
Estevão e Moacir Machado por todo apoio dispensado.
À CAPES, por viabilizar a realização deste Mestrado.
Aos meus professores do Mestrado e a todos os demais com quem já estudei.
À turma do Mestrado, por compartilhar esta luta.
À turma “Manuscrito Escolar, Ortografia e Interferência Didática” UFAL-2010.2, por
toda aprendizagem que compartilhamos no semestre acadêmico.
Aos colegas do Núcleo de Línguas Estrangeiras – IFPE.
A Edna Guedes, pela responsabilidade, compromisso e coordenação do Mestrado.
A todos que me apoiaram, ajudaram e incentivaram, em especial, Dr. Maurício.
Agradecimentos especiais:
A Deus, autor dos autores;
A Da Paz Oliveira, pelo grande encontro que esta pesquisa nos proporcionou
através dos manuscritos;
A Djair Teófilo, pela disponibilidade, imensa colaboração e incentivo, por sua visão
acadêmica, pela solidariedade, apoio e ajuda por ocasião do projeto de pesquisa
inicial;
A Denise, pelo companheirismo, amizade, solidariedade e convívio nas idas,
estadas e vindas das Alagoas;
Ao colega de Mestrado, Felisberto, in memoriam, que com solicitude nos deu
caronas em muitas idas e vindas no percurso Recife - Maceió - Recife.

O Lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
[...]
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Carlos Drummond de Andrade.

RESUMO

Nesta pesquisa, analisou-se a reformulação como índice de autoria em manuscritos
poéticos publicados em “Meu tesouro: verso e prosa”, pela escritora pernambucana
Da Paz Oliveira, para evidenciar um trabalho em que as reformulações se
sobressaem e permitem configurar traços de singularidade, bem como um estilo
individual que pode indiciar autoria. Tomaram-se como aporte teórico investigações
sobre o processo de escrita a partir dos pressupostos da Crítica Genética que tem
como representantes, entre outros autores, Grésillon (1991, 1994, 2007) e Willemart
(1986, 1996, 1997). Sistematizou-se a reflexão em quatro operações linguísticas que
guiam a construção de um texto: adição, substituição, supressão e deslocamento, à
luz de Fabre (1986). Neste contexto, partiu-se da hipótese de que em um manuscrito
há elementos indicativos de um processo autoral, manifestados por rasuras, borrões
e reformulações no processo de escritura, segundo marcas que nos permitam
identificar “movimentos de autoria”, conforme descritos por Calil (2009), que
desenvolve estudos sobre manuscritos para a compreensão de aspectos relevantes
do processo de aquisição da linguagem escrita. Sendo assim, as reformulações
como índice de autoria decorrem, sobretudo, de um investimento do scriptor na
construção de um autógrafo. Com base nesses fundamentos, a pesquisa apresenta
reflexões que facultam uma visão dos processos de gênese textual que revelem
indícios do processo de criação; além disso, discorre acerca da natureza da relação
Educação e Linguagem em estudos sobre a escrita.
Palavras-chave: Processos de Escritura. Manuscritos. Autoria. Crítica Genética.
Subjetividade.

ABSTRACT

On this research, reformulation is taken as authorial process within poetic
manuscripts which had just been published in “Meu tesouro: verso e prosa”, by a
pernambucana writer called Da Paz Oliveira; the research becomes evident
reformulations in manuscripts and they show us singularity ways, as well they allow
to configure features of the author’s singularity which may indicate authorship. It was
taken theoretical investigations of written process from assumptions of Genetic
Criticism whose researchers, among others, Grésillon (1991, 1994, 2007) and
Willemart (1986, 1996, 1997). Discussion was systematized in four linguistic
operations that guide the construction of a text: addition, substitution, suppression
and displacement, according to Fabre (1986). In this context, it emerges hypothesis
in which in a poetic manuscript there are principles which indicate an authorial
process that comes up by erasures, stains and reformulations within written process,
by following ways which show us “authorial movements”, in Calil’s writings (2009)
who researches on manuscripts for the understanding of relevant aspects of the
acquisition of written language. Consequently, reformulations as authorial process
pass by an act of the subject, principally for creating a manuscript. Based on these
principals, this research presents reflections that provide an overview of the process
of textual genesis that show us process of creation. In addition, it presents the nature
of the relationship in Education and Language about writing studies.
Key words: W ritten Process. Manuscripts. Authorship. Genetic Criticism. Subjectivity.

LISTA DE FIGURAS

Fluxograma 1 - Domínios discursivos presentes nos sete cadernos – visão geral . 25
Fluxograma 2 - Categorias de gêneros textuais nos sete cadernos - visão geral ... 26
Figura 1

Proust – Sodome et gomorrhe ............................................................ 49

Figura 2

Fragmento 1 de Sodome et gomorrhe .............................................. 51

Figura 3

Fragmento 2 de Sodome et gomorrhe .............................................. 52

Figura 4

Poema a Drummond de Andrade – Manuscrito autógrafo .................. 53

Figura 5

Fragmento 1 de Poema a Drummond de Andrade ............................ 55

Figura 6

Fragmento 2 de Poema a Drummond de Andrade............................. 56

Figura 7

Fragmento 3 de Poema a Drummond de Andrade............................. 57

Figura 8

Poema a Drummond de Andrade – versão final publicada ................ 60

Figura 9

Poema a Drummond de Andrade – versão final publicada ................ 61

Figura 10

Poema De Natal - Versão final publicada ........................................... 66

Figura 11

Poema De Natal - Versão final publicada ........................................... 67

Figura 12

De Natal – Manuscrito autógrafo ........................................................ 70

Figura 13

Verso 2 – De Natal ............................................................................. 73

Figura 14

Verso 28 – De Natal ............................................................................ 74

Figura 15

Verso 11 – De Natal ............................................................................ 74

Figura 16

Verso 5 – De Natal .............................................................................. 75

Figura 17

Verso 14 – De Natal ............................................................................ 76

Figura 18

Verso 19 – De Natal ........................................................................... 76

Figura 19

Verso 36 – De Natal ............................................................................ 77

Figura 20

O valor do tempo ou A pressa do tempo – autógrafo ......................... 86

Figura 21

Fragmento 1 de O valor do tempo ou A pressa do tempo .................. 87

Figura 22

Fragmento 2 de O valor do tempo ou A pressa do tempo .................. 88

Figura 23

Fragmento 3 de O valor do tempo ou A pressa do tempo .................. 89

Figura 24

A pressa do tempo autógrafo/reescrita ............................................... 95

Figura 25

A pressa do tempo – Versão final publicada ....................................... 97

LISTA DE SÍMBOLOS

Convenção para a transcrição das reformulações:
< > - acréscimo
§

- paragrafação

[ ]

- rasuras de adição + supressão

/ /

- adição

[/ /]

- deslocamento ou substituição que resulte em supressão ou adição

[< >] - rasura e acréscimo
-----

- supressão de segmento apagado ou riscado

# # - deslocamento
(...)

- leitura duvidosa

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Denominações, número de autógrafos e características dos sete
cadernos.................................................................................................................... 24
Tabela 2 - Aspectos da reformulação: Sodome et gomorrhe (textos periféricos) .... 51
Tabela 3 - Aspectos da reformulação: Sodome et gomorrhe (texto principal) ......... 52
Tabela 4 - Aspectos da reformulação no Poema a Drummond de Andrade ............ 54
Tabela 5 - Convenção para a transcrição de reformulações ................................... 71
Tabela 6 - Transcrição linear - De Natal .................................................................. 72
Tabela 7 - De Natal: rasuras de deslocamento, de substituição e de adição .......... 73
Tabela 8 - De Natal: resultados das rasuras de supressão ..................................... 74
Tabela 9 - De Natal: rasuras linear, branca, borrão, de tonalidade/tempo e instrumento
.................................................................................................................................. 75
Tabela 10 - De Natal: Tipologia geral das rasuras por ordem de recorrências ........ 77
Tabela 11 - De Natal: Tipologia das rasuras quanto às formas e ao espaço na folha
de papel por ordem de recorrências ........................................................................ 78

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABNT

Associação Brasileira de Normas Técnicas

AD

Análise do Discurso

ALAOMPE

Academia de Letras, Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco

ALB

Associação de Leitura do Brasil

APCG

Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética

APML

Associação dos Pesquisadores do Manuscrito Literário

CAPES

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

CEDU

Centro de Educação

CNRS

Centro Nacional de Pesquisa Científica (França)

CNPq

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

ET&C

Escritura, Texto & Criação

FALE

Faculdade de Letras

IFPE

Instituto Federal de Pernambuco

ISBN

International Standard Book Number

ITEM

Instituto de Textos e Manuscritos Modernos (França)

L’ÂME

Laboratório do Manuscrito Escolar

NBR

Norma Brasileira

NLE

Núcleo de Línguas Estrangeiras

UFAL

Universidade Federal de Alagoas

PPGE

Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira

PPGLL

Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística

PPGECIM

Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e
Matemática

PUC

Pontifícia Universidade Católica

UNESP

Universidade Estadual de São Paulo

UNICAMP

Universidade Estadual de Campinas

USP

Universidade de São Paulo

SBPC

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

WWW

World Wide Web (Rede mundial de computadores)

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..........................................................................................................13
1 A PESQUISA: METODOLOGIA E SUJEITO-AUTOR............................................18
1.1 A pesquisa, seus critérios e os autógrafos selecionados ....................................20
1.2 Os componentes da pesquisa: a constituição dos sete cadernos .......................22
1.3 O sujeito-autor.....................................................................................................27
2 A CRÍTICA GENÉTICA: OBJETIVOS E EXPANSÃO ............................................31
3 MANUSCRITOS LITERÁRIOS: DA (DES)CONSTRUÇÃO DO “EU” À
(NÃO)SEMELHANÇA DE OUTRO?..........................................................................38
3.1 Reformulação textual: as operações metalinguísticas ........................................40
3.2 A relação sujeito-língua .......................................................................................44
3.3 Comparação de manuscritos: Proust e Da Paz...................................................46
3.4 Aspectos de reformulação no manuscrito de Proust ...........................................49
3.5 Aspectos de reformulação no manuscrito de Da Paz Oliveira.............................53
3.6 Reflexões sobre manuscritos literários................................................................62
4 A REFORMULAÇÃO PELAS OPERAÇÕES METALINGUÍSTICAS NO POEMA
DE NATAL................................................................................................................. 65
4.1 Categorização das rasuras no autógrafo De Natal..............................................69
4.2 Reflexões sobre as rasuras no manuscrito .........................................................79
5 AUTORIA E REFORMULAÇÃO NO POEMA “A PRESSA DO TEMPO” ...............81
5.1 O termo “autoria” .................................................................................................81
5.2 Relação scriptor/autógrafo no processo de criação textual.................................82
5.3 Embates: palavras x scriptor? .............................................................................83
5.3.1 O valor do tempo ou A pressa do tempo (primeira versão) ..............................86
5.3.2 O valor do tempo (segunda versão) .................................................................91
5.3.3 A pressa do tempo: singularidade e subjetividade ...........................................95
CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................98
REFERÊNCIAS.......................................................................................................100
ANEXOS .................................................................................................................103
ANEXO 1: GLOSSÁRIO DE TERMOS ESPECÍFICOS ..........................................104
ANEXO 2: CAPA DO LIVRO “MEU TESOURO: VERSO E PROSA”......................112
APÊNDICES............................................................................................................113

13

INTRODUÇÃO
A linguagem, desde seus primórdios, é uma fonte de pesquisa e
aprimoramento intelectual do ser humano que serve de instrumento de investigação
para pesquisadores cujos estudos se voltam para movimento criativo de processos
de escrita, dentre outros aspectos, e, por isso, ganha espaços em trabalhos de
pesquisas literária e linguística, em geral.
Discussões sobre o movimento criativo de processos de escrita despertam o
fascínio pela linguagem e fazem com que pesquisadores busquem refletir processos
que contribuam para estudos neste campo, almejando aproximar textos de autores
consagrados a textos de autores ainda não reconhecidos canonicamente.
Esses aspectos contribuem, sobremaneira, para a perspectiva da presente
pesquisa que reflete sobre a reformulação como índice de autoria em manuscritos
para evidenciar reformulações como traços de singularidade, bem como indícios de
autoria, analisados sob a ótica da Crítica Genética, a fim de classificá-los e, assim,
imprimir-lhes um caráter científico.
As reflexões sobre a complexidade do processo de criação também podem
ajudar a compreender aspectos relevantes do processo de aquisição da linguagem
escrita, uma vez que processos de criação e recriação textual são ferramentas
significativas ao desenvolvimento de saberes linguísticos; esse conjunto de saberes
se converte, consequentemente, em saberes educacionais. Os manuscritos desta
pesquisa foram vistos não apenas como corpus para este estudo, mas também
pelas implicações teórico-pedagógicas, como atividades de pesquisa em Educação
e Linguística, em qualquer grau de ensino, na medida em que surjam interessados
no estudo de fontes de produção de manuscritos.
A partir desse ponto de vista, procuramos analisar a reformulação como
índice de autoria nos manuscritos poéticos de uma escritora pernambucana. Tais
manuscritos apresentam-se aqui como um objeto de estudo multifacetado e
caracterizado por uma natureza híbrida que atesta um processo de criação singular.
A complexidade do estudo requereu o aporte da Crítica Genética para melhor
elucidação dos rascunhos em destaque, caracterizados pelo aspecto inacabado da
criação, testemunhando labor do scriptor1 na busca de compreender a reformulação
1

[1] termo utilizado para denominar aquele que escreve, diferenciando do uso para “escritor”:
utilizado popularmente para nominar alguém que tenha textos ou livros publicados. [2] é um espaço

14

como indício de autoria nos movimentos de adição, substituição, supressão e
deslocamento, manifestados por rasuras, borrões e reformulações no processo de
escritura dos autógrafos.
Tais autógrafos foram selecionados dentre mais de quatrocentos manuscritos
e compõem um corpus de sete cadernos com rascunhos e versões de textos em
verso e em prosa, datados desde o início de 1994 até os dias atuais e deram origem
ao livro “Meu Tesouro: verso e prosa”2 da escritora Da Paz Oliveira; no entanto,
elegemos os textos em verso como componentes fundamentais deste estudo por
apresentarem mais características que consubstanciam reformulações, do ponto de
vista autoral.
Pesquisas sobre essa temática são recentes no contexto educacional
brasileiro. Para nosso estudo, buscamos como referencial teórico autores como Pino
e Zular (2007), que tratam do surgimento da Crítica Genética na França e no Brasil;
Hay (2007), que discorre sobre a natureza e os limites da linguagem, na perspectiva
da Crítica Genética; Willemart (1991), com a reflexão sobre a rasura no processo de
criação; Kato (1986), um dos pioneiros no Brasil como representante do modelo
psicolinguístico de Hayes e Flower (1980). Esse referencial, associado a
contribuições advindas de Pêcheux (1988), Orlandi (1996), vem desenvolvendo
estudos sobre manuscritos para a compreensão de aspectos relevantes ao processo
de aquisição da linguagem escrita a partir dos pressupostos da Crítica Genética e da
Linguística.
Esse fato se traduz num interesse mais acentuado por estudos de Fabre
(1986) sobre as operações metalinguísticas evidenciadas nas rasuras escritas; de
Grésillon (1991, 1994, 2007) com os estudos sobre a Crítica Genética em
manuscritos literários; de Abaurre, Fiad e Mayrink-Sabinson (1997), que abrangem a
compreensão de comportamentos da escrita e de seus autores em processos de
labor textual, retratam a Crítica Genética em estudos sobre reescrita de textos e
contribuem com a Linguística da Enunciação a partir de Fabre-Cols (2002), além de
Calil (1998, 2007, 2008, 2009) com a adoção dos pressupostos da Crítica Genética
para a análise de manuscritos escolares. Essas tendências apresentam vínculos
em que se fundem “aquele que escreve” e “aquele que lê”, enredado por forças de diferentes
ordens (linguísticas, discursivas, culturais, históricas) que convergem no texto, produzindo-o
(CALIL, 2008, p. 20).
2
Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa / Da Paz Oliveira. – Recife: Ed. Universitária da
UFPE, 2011. 302p. : il., fots. ISBN 978-85-7315-915-8 (broch.) 1. Poesia brasileira. 2. Poemas em
prosa. 3. Biografia como forma literária. I Título.

15

com o estudo da Crítica Genética e transpõem para o estudo de textos de
aprendizes da escritura.
As pesquisas universitárias brasileiras procuram abordar questões de
linguagem em seus múltiplos aspectos. Assim, consideramos as abordagens sobre
diversas pesquisas da psicolinguística, a partir da nossa participação na disciplina
“Manuscrito Escolar, Ortografia e Interferência Didática” (PPGE, 2010.2), ministrada
pela Profa. Dra. Adna de Almeida Lopes, integrante do grupo de pesquisa “Escritura,
Texto & Criação” da linha de pesquisa “Educação e Linguagem” (PPGE/UFAL). A
disciplina promoveu, efetivamente, o despertar para optarmos por uma investigação
de cunho qualitativo que possa contribuir para uma reflexão sobre a escrita como
processo. É possível que algumas dessas questões sejam de sentido comum, mas
estimamos que colocá-las no papel com critérios acadêmicos pode resultar numa
contribuição para novos estudos no âmbito das Ciências da Linguagem e da
Educação.
Nesse sentido, as reformulações dos autógrafos3 de um escritor podem
expressar movimentos de autoria que signifiquem a constituição do próprio sujeito
escritor e de suas marcas, visto que através de um
manuscrito legível e em ordem o crítico tenta circunscrever o nascimento e
a gênese da obra. Este estudo apaixonante necessita de uma teoria clara
do prototexto. As palavras gênese e nascimento [...] não tratam de um
projeto determinado do qual o escritor teria a presciência; [...] A linguagem e
a cultura se impõem através da escritura e co-dirigem a organização do
texto. [...] O prototexto não é portanto um embrião que se desenvolve
segundo uma lei de evolução definida e planejada, mas, apesar do prefixo,
é texto (WILLEMART, 1993, p. 18).

Nesse sentido, dentro dos limites desta pesquisa, despertamos interesse por
esse corpus, visto que ele facultou perscrutar a gênese de uma obra quanto aos
processos de reformulação e, nessa perspectiva, apresentamos uma investigação
sobre a reformulação como indício de autoria em movimentos manifestados em
manuscritos poéticos, a partir das marcas encontradas nos autógrafos selecionados
para esta pesquisa.
Respaldamo-nos na seguinte questão problema: é possível identificar indícios
de um processo autoral manifestados por rasuras a partir da investigação de
rascunhos de manuscritos? Para abordar essas peculiaridades, buscamos
3

Manuscritos da mão do autor, em oposição a alógrafos: cópias dos textos de autores por outra
pessoa.

16

contribuições de pesquisadores sobre processos escriturais que investigam a
subjetividade em manuscritos.
Assim, para apresentarmos nossa pesquisa, dividimos esta dissertação em
cinco capítulos organizados da seguinte forma: o primeiro capítulo trata sobre a
pesquisa: metodologia e sujeito-autor, abrangendo a pesquisa, seus critérios e os
autógrafos selecionados; os componentes da pesquisa: a constituição dos sete
cadernos; o sujeito-autor e sua intrínseca relação com os autógrafos.
O segundo capítulo abrange a história da Crítica Genética, seus objetivos e
expansão, e faz menção aos trabalhos de Genética de Texto de Grésillon (1983,
1991), Hay (2007), Grésillon e Lebrave (1983), Calil (1998, 2007) e Willemart (2008)
que têm abordado a questão das rasuras como reformulações, com destaque para a
investigação de versões e manuscritos de textos escolares e suas rasuras, para
construir sua gênese e história. Entretanto, salientamos que os manuscritos aqui
pesquisados, apesar de não terem surgido em contexto escolar, ganham relevância
para a Crítica Genética, pois a escritora preservou os autógrafos, essenciais para
uma pesquisa de gênese, visto que através deles podemos elucidar aspectos da
criação literária.
O terceiro capítulo apresenta reflexões sobre manuscritos literários em um
cotejo entre o manuscrito do consagrado romancista, ensaísta e crítico francês
Marcel Proust e da escritora Da Paz Oliveira; analisa a reformulação textual a partir
das operações metalinguísticas e sua aplicação na análise dos manuscritos e
também apresenta a natureza da relação sujeito-língua nos processos textuais e
analisa as possíveis contribuições para as interfaces entre educação e linguagem.
O quarto capítulo, intitulado “A reformulação pelas operações metalinguísticas
no poema De Natal”, apresenta a categorização de rasuras e investiga indícios que
possam demandar processos de constituição de autoria através do poema “De
Natal”.
O quinto capítulo versa sobre autoria numa visão prática entrelaçada a partir
da análise do poema A pressa do tempo. Aspectos voltados para a questão da
autoria, a saber: uma breve trajetória desse tema, a relação scriptor-autógrafoprocesso de criação textual no estudo do poema A pressa do tempo, bem como os
embates entre as palavras e o escritor compõem este capítulo.
Este

estudo

traz

uma

contribuição

detalhada

sobre

processos

de

reformulação com indícios de autoria em manuscritos poéticos e poderá instigar

17

novas pesquisas sobre esse tema em todo e qualquer processo escritural, tendo em
vista os assuntos expostos, pois é um campo muito vasto e bastante articulado que
enfoca abordagens de vários estudiosos que em épocas diferentes buscaram
elucidar os mistérios da gênese textual de maneira mais ampla.

18

1 A PESQUISA: METODOLOGIA E SUJEITO-AUTOR
Este capítulo trata do procedimento utilizado na pesquisa, esclarecendo a
organização metodológica, considerando que a perspectiva qualitativa em uma
pesquisa habitualmente demanda ou admite igualmente o seu cruzamento com a
perspectiva quantitativa. Destacamos, portanto, aspectos que privilegiam tanto o
enfoque

qualitativo

quanto

o

quantitativo

para

aprimorar

as

abordagens

desenvolvidas. Além destes, detalhamos os demais componentes da pesquisa,
como, por exemplo, os sete cadernos, como um todo, e os autógrafos, como partes,
buscando esclarecer sobre os elementos enriquecedores do processo de coleta de
dados.
Os componentes da coleta de dados são, neste estudo, representados pelos
sete cadernos, objeto de pesquisa, de onde derivam autógrafos da escritora
pernambucana. Justificamos a escolha destes autógrafos de acordo com os dizeres
de Willemart (1999, p. 120): “A estabilidade das letras, que parecia um ponto de
partida inabalável para o poeta na sua materialidade, poderia ser discutida a partir
do manuscrito”. Dessa necessidade de discutir o manuscrito, organizamos etapas
como aquisição do acervo: fonte primária, seleção e análise, sendo esta última
fundamental para a construção da compreensão dos autógrafos.
A metodologia aplicada para o progresso da pesquisa deteve-se, a princípio,
na investigação dos autógrafos que compõem os sete cadernos pelo fato de esta
investigação poder demonstrar, então, que é possível remontarmos ao processo de
criação através da análise de autógrafos, cuja gênese contém índices de elementos
que influenciaram as escolhas do scriptor, pois
[...] as marcas de rasura, que podem indicar apagamentos, deslocamentos,
substituições e acréscimos de letras, palavras, frases, versos, parágrafos,
estrofes, capítulos etc., deixadas ao longo do processo de escritura e por
todo e qualquer scriptor, funcionam como poderosos índices dos processos
de criação literária (CALIL, 2008, p. 20).

Portanto, a pesquisa nos autógrafos procurou abranger, predominantemente,
um paradigma indiciário de investigação, bem como uma modalidade de inferência
abdutiva4, a qual consistiu na busca de uma conclusão pela interpretação de indícios
4

Trata-se de uma modalidade de inferência descritível em termos de hipótese preliminar à
confirmação (ou não) do raciocínio. A abdução, na nossa pesquisa, é entendida como “processo de

19

que investigam, passo a passo, a gênese de um autógrafo, visto que o manuscrito,
segundo Pino (2007),
não se apresenta como uma sequência, mas como um espaço
heterogêneo, no qual diversos tempos convivem e dialogam entre si. A
tarefa do geneticista seria tentar colocar esses tempos dispersos no espaço
em uma ordem temporal – não uma ordem perfeita, não uma cadeia
indestrutível – mas um movimento com direção (2007, p. 25).

O cerne das inquietações está em buscarmos, nos autógrafos da scriptor Da
Paz Oliveira, o entendimento genético de autógrafos, comum à poesia, visto que,
segundo Willemart (1999),
a proposta do processo de criação é desvendar, analisando e reanalisando,
com paciência e infinitos escrúpulos, a matéria que se fez forma, o plano
que se fez escritura, o desejo que pulsa na espessura tantas vezes opaca
do texto (1999, p. 9).

Realizamos, então, a pesquisa a partir da investigação de manuscritos
autógrafos caracterizados num modelo qualitativo de pesquisa que buscou legitimar
o

conhecimento

científico

fundamentado

em

dados

naturalísticos

que

possibilitassem uma visão dos processos de gênese textual passíveis de revelar
indícios do processo de criação, visto que
a análise miúda do texto [...] mostra que o artista, ou, mais exatamente, o
“poeta” da linguagem [...] não trabalhou o seu estilo como o faria um
historiador cioso de acumular notícias graúdas e miúdas e expô-las todas
na vitrine da sua prosa. Ao contrário, o discurso descritivo, precisamente
aquele que tenderia a valorizar os materiais fornecidos pelo documento,
cede [...] o passo à “supremacia do poético, dando primazia ao
procedimento figural e não ao simples mimético (WILLEMART, 1999, p. 10).

Nesse contexto, iniciamos a coleta de dados no primeiro semestre de 2011,
época em que o acervo nos foi disponibilizado para fins de revisão linguística de
textos para um futuro e tão sonhado livro5, resultado de toda expressividade
emocional e intelectual da, até então, escritora anônima ou apenas sujeito scriptor

formação de uma hipótese explanatória”. O movimento abdutivo se cumpre quando um novo
sentido é atribuído a cada rasura como componente do significado contextual.
5
O lançamento do livro “Meu Tesouro” aconteceu na tarde de 25 de setembro de 2011, no auditório
do Hotel Brisa da Serra, Km. 102 Av. Major Aprígio da Fonseca, s/n Bairro São Sebastião –
Bezerros-PE. Este evento foi prestigiado por familiares e diversas autoridades acadêmicas e
políticas da região.

20

de autógrafos, ansiosa por galgar o tão sonhado status de escritora, visto que, para
Willemart (1999),
o poeta no fazer-se da escritura enfrenta a linguagem dotado de certo grau
de liberdade, ao menos o bastante para não ficar de todo prisioneiro do
código já estereotipado. Esse uso da liberdade seria, afinal, a cota possível
de invenção que se atribui ao sujeito da escrita ficcional (1999, p. 11).

Nessa perspectiva, buscamos caracterizar a expressão poética do sujeitoautor Da Paz Oliveira codificada em convenção linguístico-social através dos
autógrafos originários do livro “Meu Tesouro”.
1.1 A pesquisa, seus critérios e os autógrafos selecionados
Esta pesquisa compreende todo o conjunto de atividades relacionadas aos
autógrafos e tem como característica determinante a perspectiva qualitativa, por
direcionar a análise de seu objeto de estudo de forma interpretativa, numa
abordagem exploratório-descritiva, além disso, componentes quantitativos se
sobressaem.
Enfatizamos, então, a ideia de Pino e Zular que destaca o papel do
geneticista sobre o objeto de pesquisa da Crítica Genética:
É importante perceber que o objeto da Crítica Genética não é um texto, um
material, mas um processo, não aquele pelo qual o escritor passou, mas
aquele que o pesquisador construiu a partir dos manuscritos que esse
escritor deixou. Dessa forma, os geneticistas não fazem nada parecido com
buscar a “senha” da criação, não têm o objetivo de recriar, passo a passo, o
caminho que o escritor percorreu na elaboração de uma obra, como muitos
pensam (PINO; ZULAR, 2007, p. 31).

Análises dessa natureza tendem a seguir processos indutivos consolidados a
partir da inspeção minuciosa de um corpus eleito. Assim sendo, investigamos
movimentos de reformulação, dentre outros aspectos, uma vez que demandam
reflexões sobre indícios do processo de constituição da autoria do sujeito scriptor.
Mesmo inspeções minuciosas enfrentam limitações em estudos genéticos, por isso
devemos atentar para dois princípios indicados por Grésillon (2007), os quais
despertam nossa atenção para, ao investirmos no nosso objeto de estudo,
valorizarmos a construção de vestígios, mesmo que ínfimos.

21
O primeiro consiste em admitir que o “resgate genético” não visa alcançar o
“funcionamento real”, mas é, quando muito, uma simulação, um ato de
construção científica, onde, a partir de um observável, o pesquisador
formula hipóteses com as quais analisa e interpreta um processo de
escritura. O segundo princípio consiste em recorrer às especificidades do
escrito que de fato ajudam a traduzir vestígios materiais em operações
(GRÉSILLON, 2007, p. 199).

Nossas análises têm como foco as rasuras, os borrões e as reformulações
concebidas em autógrafos que elegemos entre os manuscritos que compõem os
sete cadernos e que podem fundamentar uma visão do processo de gênese textual,
bem como podem revelar movimentos de autoria.
Esse procedimento buscou recuperar a gênese e revelar a face não publicada
de um texto, ou seja, o esboço, visando demonstrar que uma obra não nasce pronta,
não é resultado espontâneo de pura inspiração. Assim, valorizamos, de fato, o
processo ao produto, visto que analisamos os mecanismos construtores de
autógrafos.
A coleta ocorreu no início de 2011, em etapas, pois, após a autora aceitar
ceder os autógrafos para a realização da pesquisa em seus manuscritos, ela pôs-se
a bisbilhotar “materiais perdidos”. Textos avulsos e até mesmo um caderninho
surgiram e foram entregues em momentos posteriores.
O critério adotado para a condução desta pesquisa teve como primeiro passo
a aquisição do acervo, seguida da leitura inicial dos autógrafos, da seleção e da
digitalização dos manuscritos usados como análises, dentre todos que compõem o
corpus da pesquisa, além da transcrição linear de um manuscrito como forma de
expressar sua mecânica e todos seus acidentes genéticos, resultado também de um
trabalho interpretativo,
um combate do artista com a matéria numa perseguição que procura pela
exatidão e precisão em um processo de contínuo crescimento. O artista lida
com sua obra em estado de permanente inacabamento. No entanto, o
inacabado tem valor dinâmico na medida em que gera esse processo
aproximativo na construção de uma obra. [...] O artista dedica-se à
construção de um objeto que, para ser entregue ao público, precisa ter
feições que lhe agradem, mas que se revela sempre incompleto. O objeto
“acabado” pertence, portanto, a um processo inacabado (SALLES, 2004, p.
78).

Materializamos ainda, na pesquisa, a versão final, estado relativamente
acabado da obra, publicada em “Meu Tesouro”, através da qual a escritora revela a
concepção de que seus poemas constituem uma possibilidade de compartilhar mais

22

do que um simples conhecimento linguístico, a concretização de um sonho. Esse
apanhado e suas análises enriquecerão o corpus desta pesquisa, uma vez que os
autógrafos refletem as vibrações da sensibilidade própria da scriptor, além do
enriquecimento oriundo dos autores que ela admira e pelos quais se deixou
influenciar.
No tópico a seguir, suscitaremos a constituição dos sete cadernos procurando
enfocar o mecanismo de construção de todos eles, que ilustram o trabalho de
diferentes tipos de textos e constam de peculiaridades as mais diversas, tanto
quanto à forma quanto ao conteúdo.
1.2 Os componentes da pesquisa: a constituição dos sete cadernos
Este enfoque abrangerá a constituição do corpus: os sete cadernos,
apresentando a temática dos textos, destacando, também, em um quadro-síntese,
os gêneros predominantes, para melhor assimilação da temática dos manuscritos.
Compreendemos que em tais manuscritos constam formas particulares de rasuras e
estas últimas buscam definir um propósito no processo criativo.
Os sete cadernos são constituídos por uma agenda capa dura, um caderno
espiral grande, dois cadernos espirais pequenos, um caderno brochura grande,
costurado pela própria autora, um caderno brochura pequeno e folhas avulsas que
juntas compõem um caderno; são considerados como representativos do ato
inacabado da criação. Segundo Grésillon (2007),
os papeis manuscritos podem apresentar todas as variações de formato, de
espessura e de cor. Eles existem sob a forma de folhas soltas, de cadernos,
de bloco de anotações, são paginados ou não pelo autor, são escritos
somente na frente ou, às vezes, na frente e no verso (GRÉSILLON, 2007, p.
56).

Os papéis manuscritos ganham existência e significado de valor cultural,
histórico etc. e são representativos de identidades autorais que podem contribuir
para enriquecer a história de um povo, de uma época, dentre outros valores
sublimes, tanto de natureza pessoal quanto de natureza científica.
Do conteúdo destes cadernos podemos inferir percepção de relações
intertextuais, conhecimentos literários e de outras manifestações culturais correntes
numa determinada época e numa dada sociedade em que foi produzido. Na

23

verdade, a autora busca dar significado poético concreto ao seu cotidiano, seja este
significado extraído do seu mundo real ou abstrato. Esta abordagem nos é
apresentada por Willemart (1999) com os seguintes dizeres:
Talvez o estudo do manuscrito permita encontrar elementos descritivos no
indescritível dos rascunhos, mas poucas vezes, para não dizer nunca,
poderemos descrever o conjunto em termos de leis, de regularidades, de
invariantes. O máximo que podemos talvez dizer é que há algo, uma
espécie de atrator, estranho ou não, que suscita as possibilidades do
poema mas que será determinado só depois. Esse atrator [...] não explicará
explicitamente todos os elementos que encontraremos no manuscrito, mas
somente aqueles que permanecerem no texto publicado (1999, p. 112).

Nesse sentido, tentaremos trazer a análise das formas e dos sentidos que
revestem, constroem e constituem textos desde momentos criativos do sujeito
scriptor até momentos de acabamento textual, representados pelas versões finais
publicadas em livro.

24

a) Resultados da descrição dos sete cadernos
Tabela 1 - Denominações, número de autógrafos e características dos sete cadernos
Denominação
No. de
Características dos cadernos
textos
Data de 02 de junho de 1994 a 26 de janeiro de
2009. Este caderno apresenta textos avulsos
organizados em uma pasta classificadora por
Caderno A
76
ordem cronológica determinada por datas ou
indicação do período por diligentes critérios de
aproximação de materiais.
Caderno feito a partir de um formulário contínuo
240x280mm, personalizado pela autora dos
manuscritos com capa plástica e acabamento
Caderno B
80
costurado à mão com cordão e tecido, para dar
maior durabilidade ao material. 1999 é o marco
cronológico de seus primeiros autógrafos.
Caderno brochura já sem capa. Dezessete
manuscritos compõem este caderninho de
Caderno C
17
15x21cm. O primeiro texto em prosa data de 01 de
março de 2005; nele a autora expressa o desejo de
lançar um livro, exalta o valor de um livro.
Caderno espiral 15x21cm, composto por 30
manuscritos, sendo o primeiro na contracapa. A
Caderno D
30
primeira página do caderno tem um texto em prosa
com período cronológico inicial 14 de outubro de
2000.
Caderno espiral grande: 20x24cm, sem capa,
inicia-se com um poema intitulado Gratidão Senhor,
no qual, em conversa com Deus, há
Caderno E
32
agradecimentos, súplica de clemência, declaração
de esperança de alcançar a eternidade. Data inicial:
27 de agosto de 2001.
Caderno espiral 15x21cm, capa conservada com
plástico adesivo transparente composto por 80
Caderno F
80
manuscritos de gêneros e temáticas variadas. Data
inicial: 19 de novembro de 2003.
Caderno composto por 150 manuscritos e
especialmente designado para ser o sétimo por
reunir a segunda versão de alguns autógrafos. Há,
Caderno G
150
no primeiro anverso, um poema compondo cinco
quadras heptassilábicas nas quais é apresentado o
futuro livro da autora e são citados os títulos dos
poemas preferidos da escritora. Data: 2003.
Fonte: dados da pesquisa (2011).

25

Apresentaremos os resultados da nossa pesquisa através de dados
desmembrados

em

análise

com

enfoques

qualitativos,

determinantes

de

características, e quantitativos, em que não predominam aspectos estatísticos. A
justificativa para a representação desses dados é que suas amostras possibilitam
melhor elucidação dos aspectos investigados.
b) Domínios discursivos presentes nos sete cadernos – visão geral
Estes domínios discursivos indicam instâncias de discursos e dão origem a
vários gêneros constituidores de práticas de discursos.
Fluxograma 1 - Domínios discursivos presentes nos sete cadernos – visão geral

DOMÍNIOS DISCURSIVOS

CURIOSIDADES
LITERÁRIO

RELIGIOSO
OSOOOO

INJUNTIVO
SOCIAL

COTIDIANO

Fonte: dados da pesquisa (2011).

c) Gêneros textuais presentes nos sete cadernos – visão geral
Estes gêneros textuais contribuem para a organização social de sujeitos e
também representam o lugar social do indivíduo envolvido no seu processo de
criação. Não iremos adiante com nossa investigação dos domínios discursivos e dos
gêneros textuais por não ser o foco principal desta pesquisa, pois, levamos em conta
a intenção de apresentar uma abordagem do que caracteriza o corpus em estudo,

26

visto que para a escritora iniciante a variedade de usos da língua representa a
relação entre as situações e os contextos de sua vida cotidiana.
Fluxograma 2 – Categorias de gêneros textuais nos sete cadernos – visão geral

GÊNEROS TEXTUAIS
CRÔNICAS
POEMAS
CARTAS
RECEITAS
SONETOS
ENSAIOS
BILHETES

RELATOS

CURIOSIDADES

MENSAGENS
ARTIGOS DE OPINIÃO

Fonte: dados da pesquisa (2011).

A produção concomitante de diversos gêneros permeia todo o percurso
literário produzido pela escritora Da Paz Oliveira e representa suas maneiras de
“dizer o mundo” sob o olhar de sua consciência instintiva em forma de conversa com
seus leitores, materializada a partir de poemas em prosa, ao mesmo tempo em que
lida com a linguagem como meio para descobrir-se como escritora sob a
perspectiva, ora de seu poder rememorativo, que por mais simples que pareça, às
vezes, enrosca pontos para o qual as ideias não convergem, ora vêm à luz a
percepção e a harmonia. E assim, na labuta mental e no desfrutar da liberdade
imposta pelo poder do fazer poético, foram-se constituindo os cadernos poéticos.

27

1.3 O sujeito-autor
O sujeito-autor, Da Paz Oliveira, nasceu em 03 de junho de 1944, em Serra
Negra, Bezerros - PE, Pernambuco. Sua inclinação para as letras surgiu ainda na
infância, quando ela, influenciada pelo compromisso de corresponder às cobranças
de sua mestra, interessou-se por letras e tornou-se, então, autodidata; assim,
adquiriu e desenvolveu autonomia com relação à escrita. Concluiu em tempo hábil
seu Curso de Admissão ao Ginásio. Como reconhecimento de seu autodidatismo,
ganhou contrato como professora da Rede Municipal de Ensino aos 16 anos, em
1961, pelo então prefeito, quando fundou a Escola Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro, tendo como sede a sala da própria residência e aí começou sua dedicação
à vida pública. Em 1965, casou-se com o Senhor João Bosco da Silva,
consequentemente, transferiu sua escola para a sala de sua nova residência.
Paralelamente às atividades de educadora, evocava seu lado poético. Tardiamente,
apenas em 1977, ela ingressou em um Segundo Grau ofertado em sistema modular
e semipresencial.
Buscando sobrepujar as dificuldades sociais que afetam a vida do homem
rural e preocupada em manter padrão de vida considerável para si e sua família,
manifestou o desejo de ir residir na zona urbana. Em 1979, mudou-se para a cidade
de Bezerros, quando iniciou o Curso de Magistério, entretanto, não cursou
graduação como forma de aprimorar seus conhecimentos por priorizar o trabalho e a
família. Em 1981, ganhou um contrato na Rede Estadual de Educação.
Sua instituição na literatura começou a se configurar timidamente, quando
participou da 11ª. Edição do Concurso Talentos da Maturidade, em 2009 e 12ª.
Edição do Concurso Talentos da Maturidade, em novembro de 2010, ambos
patrocinados pelo Grupo Santander Brasil e ao aposentar-se do exercício do
magistério retornou à zona rural para residir em sua propriedade onde se dedica ao
turismo rural e à poesia.
Lançou, em 25 de setembro de 2011, seu primeiro livro de poema em prosa
“Meu Tesouro”, lugar em que se insere sua “função discursiva autor” a partir de
textos que compõem o corpus desta pesquisa. Em suas produções, o “eu” emerge
como “produtor da linguagem, produtor de texto” (ORLANDI, 1999, p. 77). Seus
escritos apresentam dimensões da língua que também refletem sua identidade,

28

numa relação entrelaçada entre sujeito “mergulhado nas veredas da escritura” e
suas relações com a língua.
Em 04 de outubro de 2011, o professor, escritor e historiador Ronaldo José
Souto Maior, valorizando a “função-autor” e sua vinculação à “exterioridade do
dizer”, lançou sua impressão sobre a obra “Meu Tesouro”, escrevendo em um
especial para o Bezerros Hoje6 um artigo intitulado A arte de escrever.
Como reconhecimento social máximo da sua contribuição com uma obra de
gênero e valor literário, em outubro de 2011 foi indicada como neoacadêmica para a
cadeira de número 25 da Academia de Letras, Artes e Ofícios Municipais de
Pernambuco – ALAOMPE, e em 15 de novembro de 2011, em sessão solene,
tornou-se acadêmica efetiva, ocupando a cadeira de número 25, tendo como
patrono Ubirajara Raposo Monteiro.
Os autógrafos dessa scriptor, realizados em condição de produção
naturalística, representam uma cultura baseada predominantemente na oralidade,
entretanto, não podemos negar uma linguagem subjetiva que pressupõe
conhecimento literário, consequência de seu envolvimento em práticas sociais de
leitura e de escrita, adquiridas, principalmente, com o exercício do magistério. Este
fato delineou o início de uma trajetória de vinte e sete anos dedicados ao exercício
do ensinar ler e escrever, tema também presente em seus manuscritos. Essa
atuação profissional frente ao ensino influenciou particularmente o corpus, os sete
cadernos – coletânea de manuscritos. Como educadora, na trajetória possível e com
as limitações da vida rural, aprendeu a cultuar vários dos saberes necessários à sua
prática educacional através do enriquecimento literário que aos poucos foi sendo
transposto para sua coletânea.
Da Paz Oliveira produz seus textos a partir de seu lugar social, colocando-se
na função enunciativa de autora e exercendo a função-autor. Nessa perspectiva,
segundo Orlandi (2001, p. 21),
se a função autor é a que torna o sujeito mais visível, o mostra mais afetado
pelas determinações sociais, e é de quem se cobra a responsabilidade pelo
texto produzido (pelo que disse), também o texto é o lado mais visível do
discurso, o que se organiza segundo injunções da sociedade, das
instituições e que se apresenta com dimensões e textura. [...].

6

Jornal
eletrônico
que
funciona
no
sítio:
http://www.bezerroshoje.com/:
http://bezerroshoje.com/noticias.php?start_from=80&ucat=&archive=&subaction=&id=&. Acesso em
04 de outubro de 2011.

29

A função autor se constitui em sua forma afetada pelo seu meio, emergindo
de um futuro já presente, colocado à disposição do sujeito autor, seguindo uma
causa final ignorada e que de forma inesperada afirma um porvir poético.
A “Poetisa das Campinas”, autodefinição registrada em um de seus textos,
não hesita em recitar seus poemas àqueles que visitam sua residência rural - refúgio
de inspiração para a maioria de suas produções literárias. Seus temas abordam e
registram lembranças que chegam à sua mente antes de deitar e que bisbilhotam
seus pensamentos e sentimentos até mesmo antes de dormir.
Suas poesias resgatam leveza, criatividade, provocações, coragem e
esperança que perfazem o dia a dia da scriptor através de assuntos pautados na
ética e na dignidade. A integridade dos rascunhos, com rasuras, borrões e
reformulações, preserva ineditismo de textos que abrangem enredos inesperados
nos quais se sobressaem imagens de lembranças pessoais, do cotidiano, para
descrever lugares, emoções, pessoas, infância, recordações da infância aos dias
atuais, cenários da natureza, encantos da vida, o homem do campo, a vida do
campo, o próprio fazer poético, a valorização de temáticas que abrangem leitura,
criança, idoso, amigos, família, religião, fé, perdão, profissões, política, morte e vida,
amor, ódio, turismo, planos, sonhos, pensamentos e até mesmo os próprios
poemas; refletem um processo de criação instituído de labor artístico, representativo
de sua labuta mental e retrata o modo de conceber seu processo criativo através de
palavras rimadas enfim, encantos da vida vistos subjetivamente e representados
poeticamente.
Fundamentalmente, a imagem da natureza, “oásis privilegiado” e rico de
“ideias abundantes” – árvores, gramas, arbustos, pássaros, besouros, animais,
jardins, flores, campos, montes, horizontes, ventos, brisas, chuvas, águas, ondas,
luas, estrelas, universo, rios, mares, serras, pedras, primaveras, invernos etc. –
“ornamentos da natureza” que “enfeitam os versos” da poetisa, adornam seu eco
poético para o mundo, seja com um “aroma que acalma”, seja com o encanto das
“belezas do criador”7 ao mesmo tempo em que patenteiam a identidade da poetisa
Da Paz Oliveira.
Calil (2008) imprime em poemas um traço de singularidade e inventividade e

7

Todos os fragmentos deste parágrafo que surgem entre aspas são extraídos de “Meu Tesouro”.

30
vincula autoria ao movimento que indicia a criação em manuscritos, alçando
o lugar que o sujeito ocupa como scriptor a uma posição mais visível, em
que as pressões do funcionamento da língua e do discurso revelam-se sob
e sobre aquilo que se escreve (CALIL, 2008, p. 146).

O fazer poético cultivado por Da Paz Oliveira já alcança uma obra extensa
numericamente, paulatinamente fecundada e lapidada. Esta escritora não abre mão
da expressividade que lhe é peculiar. Ela se realiza com seus escritos, sejam em
prosa ou em verso, e permanece numa busca, desde a adolescência, da realização
da impulsão dos sentidos emocionais e subjetivos através da escrita.

31

2 A CRÍTICA GENÉTICA: OBJETIVOS E EXPANSÃO

A Crítica Genética, entrelaçada ao contexto francês, teve início em 1968,
quando Louis Hay conquistou novos pesquisadores originados da própria linguística
para analisarem os manuscritos do poeta romântico alemão Heinrich Heine. Para
Hay (2007), a Crítica Genética é um campo propício para pesquisas que analisam
processos de criação de textos e
deve penetrar nos mecanismos mais sutis de um processo muito estranho,
o da criação dos textos que nos confronta com questões de outra amplitude:
a natureza e os limites da linguagem, a relação de uma obra com uma
cultura e, em última análise, do indivíduo com seu universo (HAY, 2007, p.
71).

O final dessa década também destaca estudos textuais os quais se
distinguem por revestiram-se de atributos que caracterizaram uma reflexão sobre
processos de criação, desde o pensamento à concretização da escritura de uma
obra. Assim, o processo de construção textual se fortaleceu com contribuições da
Psicologia Cognitiva e a partir da década de 80 do século XX priorizou o ato da
escrita, o texto como processo, em detrimento do texto somente como produto, com
o modelo processual de escrita8 de Hayes e Flower (1980, p. 3 a 30).
Assim, desde a década de 60 do século XX, a Crítica Genética apresenta
uma visão para manuscritos literários dirigida para o processo de criação. Essa
perspectiva

diferencia

da

Crítica

Textual

(Filologia,

Ecdótica,

Paleografia,

Diplomática etc.) que investiga sobre as origens de um texto ou de um documento
para considerar e restituir configurações e mensagem quando ameaçados de
perderem sua integridade. Logo, desde 1968, os manuscritos literários estão
inseridos na história da França e ganham espaço nas pesquisas para a política
educacional daquele país. Como consequência, em 1982, é criado o Institut des
Textes et Manuscrits Modernes9 (ITEM), vinculado ao Centre National de Recherche
Scientifique10 (CNRS), na França, sob a liderança dos pesquisadores em
manuscritos literários Proust, Zola, Valéry e Flaubert. Assim, a França passa a ser o
grande centro de estudos dessa área e uma referência para o mundo.
8

Cognitive process model: esse modelo permite um autor textual tomar decisões de inserir, substituir,
acrescentar, excluir elementos textuais, enfim, operar reformulações.
9
Instituto de Textos e Manuscritos Modernos
10
Centro Nacional de Pesquisa Científica.

32

Para o Brasil, a Crítica Genética tem como marco o “I Colóquio de Crítica
Textual: o manuscrito moderno e as edições”, ocorrido na Universidade de São
Paulo, em 1985, dando abertura para a transdisciplinaridade da Crítica Genética. A
constatação básica em que ela se fundamenta é que o texto definitivo de uma obra é
resultado de um trabalho que se caracteriza por uma transformação progressiva a
partir de um complexo processo de investimento, tempo, dedicação e disciplina por
parte do escritor.
Também no Brasil, o professor pesquisador Eduardo Calil desenvolve
estudos na área desde a década de 90, o que levou à criação do Grupo de Pesquisa
ET&C, fundado em 2002, que apresenta vínculos com a Crítica Genética e outros
campos do conhecimento com estudos sobre escritura. Seus trabalhos neste campo
têm abordado a questão das rasuras como reformulações, com destaque para a
investigação de versões e manuscritos de textos escolares e suas rasuras, para
construir sua gênese e história.
Willemart (2008), em um artigo intitulado “A crítica genética hoje”, ilustra a
conjuntura da Crítica Genética no Brasil. Segundo seu estudo, livros e revistas
recentes, anais de congressos ou colóquios publicados por membros da Associação
dos Pesquisadores em Crítica Genética (APCG), ex-APML11 (Associação dos
Pesquisadores do Manuscrito Literário), mostram a conjuntura que estrutura a
pesquisa no universo sem fim da criação humana. Seu estudo enfatiza também que
o objeto da crítica genética não é fundamentalmente o que antecede a obra, mas os
processos de criação e, enfim, esclarece sobre o lugar essencial da crítica genética
na era do computador a partir da análise de rasuras ou substituições em discos
rígidos.
Esta contribuição destaca a expansão gradativa da Crítica Genética que
oferece um novo campo promissor a estudiosos do assunto, especialmente críticos
11

Desde 1985, ano de fundação, a APML, atual APCG, dedica-se a estudos sobre manuscritos
literários. No entanto, no decorrer das pesquisas e com a integração de novos membros,
notadamente pesquisadores da PUC de São Paulo que estudam as artes e as mídias, a APML
operou três mudanças, e percebeu, primeiro, que o estudo da crítica genética não abrange
necessariamente e somente os manuscritos literários, mas o universo sem fim da criação humana,
incluindo as artes, a literatura e até mesmo a mídia; segundo, que o objeto da crítica genética se
concentra no estudo dos processos de criação que podem ser captados tanto nos rascunhos,
croquis ou esboços quanto na obra exposta para o pintor, no texto publicado para o escritor, na
dança executada para o dançarino ou no jogo do ator para o teatro etc., sem o estudo obrigatório
do que antecede as obras; terceiro, que a crítica genética ainda é possível na era do computador, já
que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições do
escritor (WILLEMART, 2008).

33

literários, pesquisadores interessados sobre a natureza da linguagem em seus
múltiplos estados.
A Crítica Genética, segundo o dossiê da SBPC de 2007 (WILLEMART, 2008,
p. 133) abre-se a campos bem distintos, como a “crítica literária, a correspondência
e a biblioteca dos escritores, a história e a sociedade, os acervos de músicos
brasileiros, as artes plásticas, a dança, o teatro, a fotografia, a música, a arquitetura,
o jornalismo, a publicidade e as ciências da mente”, no intuito de contribuir com as
“interações do processo com o pensamento e com todas as atividades do ser
humano”.
É importante entendermos, no entanto, os princípios que parecem sustentar
a Crítica Genética em qualquer campo de pesquisa:
a vantagem do recorte operado pelo pesquisador que se opõe ao estudo
cronológico do manuscrito; a inserção progressiva do documento na rede
de criação, articulando as lógicas distintas que surgiram no processo; o
inacabamento inerente a qualquer texto; a visão dos manuscritos como
palimpsestos; a vertigem do autor equilibrada pela busca da exatidão; a
dissipação das estruturas anunciadas, reestruturadas sob a ação da
racionalidade e da invenção; a produção de possibilidades nos manuscritos
aventada pela busca do escritor; a tradução diferente da transcrição; o
manuscrito visto como um sistema complexo e instável ou como uma
reestruturação dos espaços (WILLEMART, 2008, p. 133 - 134).

Assim, entendemos que a Crítica Genética pode contribuir para toda e
qualquer arte que esconda uma expressão de arte a ser desvendada com suas
contribuições para desvendar processos que antecedem princípios inventivos.
Retomando o cenário francês, Fabre-Cols (2002) retrata sobre estudos de
escrita, com ênfase para a gênese de manuscritos literários. Sobre esse aspecto, ela
conclui que tanto escritores consagrados quanto escritores novatos escrevem por
desejo, dentre outros aspectos, e não por questão de saberes linguísticos.
Para Grésillon (2007), a Crítica Genética instituiu considerações singulares na
literatura francesa ao longo dos anos setenta, momento em que investiu em
pesquisas sobre manuscritos literários e legou-nos estudos sobre o movimento de
criação e hipóteses para desvendar o processo criativo do autor.
Grésillon (2007) apresenta definições sobre a Crítica Genética tomadas ao
acaso de suas leituras sobre este assunto norteador de tantas pesquisas que
envolvem o antetexto e as hipóteses sobre a “trajetória escritural do processo em
questão”. Destaquemos sua primeira definição:

34
Analisar o documento autógrafo para compreender, no próprio movimento
da escritura, os mecanismos da produção, elucidar os caminhos seguidos
pelo escritor e o processo que presidiu ao nascimento da obra, elaborar os
conceitos, métodos e técnicas que permitam explorar cientificamente o
precioso patrimônio que os manuscritos conservados nas coleções e
arquivos representam [...] (GRÉSILLON, 1991, p. 7).

A reflexão da citação ora apresentada alude ao fato de necessitarmos lançar
um olhar científico sobre antetextos, “documentos autógrafos”, e a partir desse olhar
desenvolvermos a construção advinda de um mergulho nessas fontes, “acervos”, de
onde pode brotar valorosas contribuições tanto para o campo das ciências humanas
quanto para o campo das ciências exatas, devido ao seu valor linguístico, histórico e
cultural. A visão da referida pesquisadora, em uma segunda definição, nos afirma
que
[...] o estudo genético confronta o que [o texto] é com o que foi, ao que teria
podido ser, ao que quase foi, contribuindo assim para relativizar, de acordo
com o desejo de Valéry, a noção de conclusão, para confundir o
demasiadamente famoso "fecho", e a dessacralizar a própria noção de
Texto". (G. GENETTE, Seuils apud GRÉSILLON, 1991, p. 7 - 8).

Este é o papel que deve ser exercido em pesquisas que se rotulam sob a
perspectiva da Crítica Genética, os quais não podem antecipar a abrangência de
uma investigação, devido à imensurável dimensão que um estudo genético –
processo complexo e interminável – pode alcançar e nos deixar como legado para
enriquecer pesquisas tanto no campo das Ciências Humanas quanto no campo das
Ciências Exatas.
Por último, e não menos importante, a pesquisadora nos dá sua terceira
definição sobre a Crítica Genética;
O que está em jogo é a variação dos estados, a confrontação de uma obra
com todas as possibilidades que a compõem, tanto com relação ao que vem
antes quanto ao que vem depois, é a mobilidade complexa e a estabilidade
precária das formas. [...] o que importa é tentar compreender processos de
invenção intelectual e estética que, através de tais atividades especiais,
próprias de uma obra ou de um grupo de obras, podem caracterizar um
gênero, um tempo, uma atividade cultural (J. NEEFS, "La critique génétique:
histoire d'une théorie" apud GRÉSILLON, 1991, p. 8).

Daí entendermos ou tentarmos entender este campo de pesquisa como um
campo que não promete desfechos, mas que sempre busca compreender o
processo textual; processo que é, muitas vezes, esquecido, jogado, queimado,
desprezado. Entretanto, quando encontrado em um lugar certo: "laboratório",

35

"ateliê", "canteiro", "fábrica"..., transforma-se em processo de "gênese", "criação". É,
pois, essa perspectiva que norteará o desenvolvimento de pesquisas nesse campo
que, embora já tenha realizado muitas pesquisas, apresenta muitos aspectos e
obras ainda não estudados e não explorados cientificamente.
Como ressalta Hay (2007, p. 41), o método da Crítica Genética destacou-se
por uma massa de trabalhos empíricos consagrados aos manuscritos do autor.
Também, a crítica moderna, ao mesmo tempo em que desenvolve pesquisas sobre
a teoria do texto, consagra um novo interesse: volta-se para a relação entre texto e
gênese, mecanismos de produção textual e reconstrução do processo de escritura.
Assim, o manuscrito passa a constituir o objeto que rege os estudos da Crítica
Genética. Ao analisar documentos escriturais devemos, segundo Hay (2007),
perceber que
o manuscrito é de uma extraordinária diversidade, pertence a todas as
etapas e a todos os estudos de trabalho, dossiês, cadernos, esboços,
planos, rascunhos. Mas desde que o pensamento ou a imaginação os
tocou, todos, do documento inerte, – dicionário, relatório – até a página
inspirada, encontram-se dotados de vida e convocados a desempenhar seu
papel num projeto de escritura (2007, p. 17).

Ao nos depararmos num processo de análise escritural devemos “apreender
o movimento que dirige a escritura e pelo qual a gênese instaura suas significações”
(HAY, 2007, p. 21) para extrairmos as várias possibilidades de desvendamento da
tessitura do scriptor e inferirmos o percurso genético da obra.
No cenário brasileiro, Willemart (1996) destaca scriptor, em sua perspectiva,
como sujeito inconsciente da escrita, que grava as combinações que as próprias
palavras sugerem, sem relação de causa-efeito e autor-obra. Para ele, a autonomia
da palavra poética domina o papel expressivo do poeta através de palavras que com
energia e velocidade ao se deslocarem no poema demonstram a sua instabilidade. E
assim, as palavras se unem e estruturam versos, desencadeando novos significados
e sentidos delineados pelo poeta escritor.
A Crítica Genética Francesa avançou seus estudos na década de 90 e
passou a reconhecer a escrita como um trabalho e a reescrita com o propósito de
que aprender a escrever é aprender a reescrever, considerando essas visões
aspectos diferentes de uma mesma atividade. Assim, essa ciência enveredou em

36

estudos que apreciam a gênese de manuscritos12, o esboço, os rastros, a parte não
apresentada na obra considerada “final” com o propósito de elucidar o processo que
precede a criação através da investigação dos passos realizados pelo escritor. Logo,
a reescrita e os rascunhos ganharam status nas pesquisas em Linguística e em
Didática como enriquecedores de um processo educacional. Nesse contexto, a
reescrita é considerada um fenômeno social capaz de contribuir para a interação
entre sujeitos e alimenta pesquisas que tematizam teorias de enunciação e Crítica
Genética.
Com o apoio da Crítica Genética, pesquisadores procuram ver e considerar
as diferentes condições nas quais um sujeito escritor trabalha e o que pode
influenciá-lo; o processo é valorizado, é privilegiado em relação ao produto
considerado “final”; também, em textos poéticos, pesquisadores procuram detectar a
própria poética que guia as estratégias de criação do autor. Nessa perspectiva,
“estatuto de manuscritos de trabalho” é o conjunto de manuscritos de um escritor e
esses manuscritos catalogados compõem o conjunto de “documentos genéticos” ou
avant-texte de uma obra literária.
No âmbito desta pesquisa, o acervo que compõe o corpus ora investigado
apresenta a compreensão de aspectos considerados relevantes em processos de
reformulações decorrentes de labor textual nos manuscritos de uma escritora
iniciante. A escritora, autora do corpus investigado nesta pesquisa, recebera o
tratamento scriptor por ocasião da escolha do tema, no segundo semestre de 2010;
porém, em setembro de 2011, a partir do lançamento de seu livro, o tratamento
scriptor ganha a conotação ‘escritor’ devido à especificidade do seu uso no contexto
desta pesquisa. Assim sendo, no decorrer deste estudo nos deparamos com o uso
de ambos os termos, pois ora o sujeito é tratado como autor de manuscritos
autógrafos, ora, como escritor.
Para melhor conduzir esta pesquisa, optamos por adotar algumas etapas, tais
como: seleção de autógrafos para análise de processos de reformulação;
organização temporal de textos avulsos, a partir de datas ou aproximação de
materiais de suporte; digitalização e transcrição dos manuscritos usados como
análises para melhor visualização dos movimentos de reformulação e para uma

12

Partituras de música, esculturas, pinturas etc. também compõem estudos da Crítica Genética.

37

representação qualitativa da evolução do processo de reformulação através do uso
de símbolos consagrados no processo representativo de reformulação.

38

3 MANUSCRITOS LITERÁRIOS: DA (DES)CONSTRUÇÃO DO “EU” À
(NÃO)SEMELHANÇA DE OUTRO?

Sabemos que determinar a autoria de textos de escritores não é atividade nova
no meio acadêmico. Essa atividade está primordialmente voltada a estudos religiosos,
com o objetivo de determinar a autenticidade de textos da tradição cristã. Não sem
razões, isso indica que a determinação de autoria é ocupação importante de filólogos,
teólogos e, mais recentemente, também passou a ocupar linguistas e críticos
literários.
A verificação de autoria de textos está enraizada nos hábitos intelectuais
europeus. Existe lá um permanente e inesgotável exercício na elaboração de técnicas
e métodos para determinação de autoria de textos manuscritos. No Brasil, cerca de
250 pesquisadores em 21 instituições (WILLEMART, 2008) têm trabalhos realizados
nessa linha. Destacamos o Grupo ET&C, da UFAL, na linha de manuscritos
escolares, que abrange, em suas pesquisas, os campos da Educação, Análise do
Discurso, Teoria da Enunciação, Crítica Genética e Psicanálise.
Há pesquisas que apresentam o estudo de autoria baseado em palavras raras
utilizadas pelo autor ou, ao contrário, uso abundante de determinado vocábulo como
características estilísticas e isso tem contribuído para o estabelecimento de autoria de
um texto; entretanto, nos textos selecionados buscamos aspectos de (não)evidências
estilísticas quanto à (des)construção do “eu” à (não)semelhança de outro, através de
itens comparáveis em processos de reformulações, representados por rasuras de
adição, substituição, supressão e deslocamento, às quais, quanto ao espaço da folha
de papel, podem se apresentar riscadas, sobrescritas, brancas, lineares, borradas,
intercaladas dentre outras formas, conforme mostra Calil (2009), pois
o processo de rasuramento que está marcado nas práticas de textualização
pode ser relacionado ao modo como os sentidos de um texto vão sendo
costurados. Na teia de efeitos de sentido, há tanto impedimentos de
determinadas rotas discursivas, quanto suspensões desses impedimentos,
produzindo um constante deslocamento do sentido estabilizado, cristalizado.
A posição autor está inserida nessa tensão constante e não seria estável do
começo ao fim do texto, garantindo o tempo todo a unidade e a coerência,
como um princípio dado pela exterioridade do dizer (2009, p. 169-170).

O conflito que um autor enfrenta para dar efeito de sentido a um texto é
pertinente ao processo de criação textual, bem como é denunciador da tensão que

39

busca estabelecer superioridade do autor no momento em que a palavra rebela-se
e gera um conflito que se apazigua e reacende, tornando mais ardente a busca pela
completude textual. Ainda sobre rasuras, vários estudos têm mostrado que
o manuscrito literário traz uma materialidade proteiforme na qual a rasura
se apresenta através de um caráter paradoxal, que está na simultaneidade
daquilo que ela apresenta como perda e ganho. Ao mesmo tempo em que
ela anula “aquilo que foi escrito, ela aumenta o número de traços escritos…
Seu gesto negativo transforma-se… no tesouro de possibilidades, sua
função de apagamento dá acesso a isto que poderá ser o devir de um
texto” (GRÉSILLON, 1994, p. 67).

É desse tesouro de possibilidades que transborda a criação. A efervescência
do processo de construção é fecundada como se um turbilhão de palavras
disputasse um espaço singular e na peleja... a rasura; e na rasura... o processo; e,
do processo... o resultado.
Assim, ao visualizarmos os manuscritos podemos inferir que os efeitos
produzidos pelas reformulações estão, de alguma forma, representando a
(des)construção do “eu”, pois assumem o lugar de produzir ou reformular
movimentos que rompem ou estabelecem novas posições dentro do texto,
acentuam o caráter do trabalho do escritor e contribuem para que o texto ganhe
forma.
Tentaremos, então, adentrar na intimidade de um manuscrito do consagrado
escritor francês Marcel Proust (1871-1922), visto, aqui, como patrimônio cultural,
pois, segundo Calil (2008, p. 18), um estatuto de manuscrito pode conferir-lhe
caráter de patrimônio cultural de uma sociedade, de uma época etc., se aquele que
o escreveu alcançar algum reconhecimento artístico, social, científico, dentre outros,
seja seu autor poeta, cientista ou escritor.
Em seus manuscritos, Proust sempre acrescentou comentários nas margens,
sugerindo mudanças, reescrevendo e substituindo cenas etc. Daremos uma
sintética amostragem de alguns aspectos constituidores da gênese textual do
manuscrito Sodome et gomorrhe, de Proust, ao mesmo tempo em que exporemos
um manuscrito da escritora Da Paz Oliveira como inserção de uma investigação
genética introdutória para buscarmos evidenciar aspectos da (des)construção do
“eu” à (não)semelhança do outro. Para dar conta desse percurso um tanto
complexo, buscamos compreender e interpretar o que cada traço que se implica

40

mutuamente pode nos revelar nessa peleja, nesse combate, nesse desafio que se
tece fio a fio.
3.1 Reformulação textual: as operações metalinguísticas
A Crítica Genética permite-nos inclinarmos nossos olhares para a gênese
textual visto que os textos por si só não são suficientes, aliás, a própria palavra texto
passou a ser substituída por “processo”, “escritura”, “relação” que consubstancia
“movimentos” com o objetivo de enriquecer estudos genéticos e estes se apropriam
de “textos” das Ciências Humanas, caracterizadores do processo de criação (rasuras,
traços...). Tais “textos” são denominados “dossiês” e ganham apreciação na
perspectiva das Ciências Exatas, a partir da visão específica da linguística e da
literatura, para revelar “movimentos de criação”.
Os movimentos de criação em manuscritos são processos de reformulação
textual que são embasados, segundo os teóricos da literatura, por quatro operações
linguísticas norteadoras da gênese de um texto. Os manuscritos classificados
cronologicamente compõem dossiês e contribuem para uma descrição ímpar de um
olhar que busca compreender uma ordem, estabelecer uma reconstrução,
transcrever, classificar, esboçar, discutir, decifrar e categorizar rasuras a partir de
movimentos de reformulação, concatenando um conjunto de condições que favorece
um processo de criação de um escritor.
É por esse caminho que vamos enveredar ao especularmos os manuscritos
Sodome et gomorrhe, de Proust, e Poema a Drummond de Andrade, de Da Paz
Oliveira, na tentativa de elucidar uma visão de um estudo de processos de escritura
lapidados a reformulações que, segundo Fabre (1986, p. 69), a partir de outros
teóricos da literatura, como Grésillon e Lebrave (1983), podem ser categorizadas em
adição, substituição, supressão e deslocamento. Buscaremos apresentar as marcas,
apagadas ou não, de um processo fértil e imprevisível entre os autógrafos e os
scriptors. Faremos a decifração do manuscrito e a classificação e a amostra de
rasuras significativamente reveladoras do processo de reformulação em manuscritos.
Calil (2009) nos conduz a interpretar o estudo das reformulações como algo
imperativo, uma
necessidade de se pensar as rasuras presentes em práticas textuais como
coisas que sobram, que transbordam, que não cabem no texto, no

41
enunciado, e que, no entanto, deixam uma espécie de indicação, de pista, de
rastro, que apontariam não somente de onde se veio, mas também para
onde se poderia ter ido (CALIL, 2009, p. 54).

Outro aspecto considerado é a visão do geneticista Willemart (1993, p. 61), na
perspectiva da psicanálise, que admite que “a rasura, apesar de ser entendida como
um fenômeno simples e comum entre os que escrevem, assume entre os escritores
uma importância enorme na maioria dos casos”. O referido autor já havia tratado este
assunto (WILLEMART, 1991) no artigo intitulado “A rasura, senha de entrada no
mistério de criação”, em que trouxe à tona o que está na mente do escritor e que
desabrocha através da rasura. Para ele,
rasura adquire uma importância excepcional porque constitui um dos
momentos privilegiados de contato entre o escritor e esse mundo. Mundo
vastíssimo, muito maior do que o texto publicado permite suspeitar, mas cuja
vastidão o manuscrito deixa entrever. No entanto, são zonas desconhecidas
que ultrapassam ao longe o próprio manuscrito, os cadernos de anotações
ou a correspondência do escritor (WILLEMART, 1993, p. 99).

Uma das razões que nos levou a eleger como corpus específico deste
capítulo autógrafos de Proust e Da Paz Oliveira e seus processos de escritura é
analisar, a partir deles, o fazer textual constitutivo de interesses peculiares
implicados materialmente com a aprendizagem dos traçados dos grafemas, do
ajuntamento das palavras e frases e do aspecto semântico que enriquecem
movimentos de reformulação.
Outra razão que destacamos é quanto à educação. Nessa perspectiva, a
prática docente deve orientar para um desenvolver que inclua conhecimentos em
matéria de criação e recriação textual indispensáveis para o desenvolvimento social
e humano, além de incluir uma educação na perspectiva de um desenvolvimento
que incite saberes linguísticos, com vista a conseguir o desenvolvimento e o domínio
necessários ao exercício da cidadania.
E mais especialmente, se é verdade que a formação permanente é uma ideia
essencial dos nossos dias, é preciso inscrevê-la para uma concepção mais ampla de
uma educação concebida como condição de desenvolvimento harmonioso e
contínuo da pessoa, entrelaçada nas relações entre educação e linguagem.
Este estudo segue a proposição metodológica de algumas categorias de
análise estabelecidas nos recentes trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa
ET&C. Entretanto, diferimos deste grupo que investiga a produção textual realizada

42

em sala de aula, pois investigamos textos cuja produção se dá em contextos
naturalísticos do cotidiano.
A partir deste procedimento metodológico é possível considerar certos
movimentos constitutivos de autógrafos, dentre os quais podemos citar aspectos
linguístico-semânticos constatados em reformulações que perfazem as posições
subjetivas de um scriptor. Observar o processo de escritura em um autógrafo, nesse
sentido, pode contribuir, de modo significativo, nas análises de aspectos de
reformulações que se estruturam ao longo do processo de escritura, posto que o
scriptor interage com sua produção e esses aspectos podem manifestar-se com
maior evidência nesse tipo de escritura.
Daí elegermos, para respondermos à demanda que move nossa pesquisa,
processos de escritura de dois scriptors que revelam sua subjetividade em relação à
língua, por considerarmos que esses sujeitos encontram-se imergidos na linguagem
e em toda estrutura que a compõe.
Nos textos selecionados, operações de reformulação serão analisadas.
Assim, consideramos pertinente dizer em que elas consistem quando rasuram ou
anulam segmentos escritos em espaços em branco ou entre duas linhas do texto ou
ainda em acréscimos na mesma linha para substituir por outro segmento ou para o
eliminar definitivamente, bem como deslocamentos que são depreendidos na
dinâmica da tessitura textual.
Estudos de reformulação foram sistematizados por Fabre (1986, p. 69) em
operações de reformulação textual em quatro tipos, a saber:
a) Adição ou acréscimo: acréscimo de um elemento gráfico, acento, sinal de
pontuação, grafema, palavra, sintagma, uma ou de várias frases que ajuda a corrigir
erros por considerar uma limitação linguística inicialmente negligenciada. Fabre
(1987) ajuda-nos a compreender adição ao afirmar que
a adição ou acréscimo é uma operação pela qual um elemento aparece em
uma modificação sem substituir qualquer elemento de uma modificação
precedente, de modo que a sequência AB de uma primeira situação tornase, por conseguinte, uma das sequências XAB, AXB ou ABX nas situações
seguintes. Ex.: Em “Um dia”, obtém-se, por adição simples: “Um belo dia”
(1987, p. 2).

Segundo a referida autora, pesquisas em manuscritos com escritores pouco
experientes constataram ausência de rasura de adição ao passo que estudos em
manuscritos de escritores adultos experientes concluíram que a adição é uma das

43

reformulações mais representativas; Grésillon (2007, p. 329) afirma que “acréscimo
é a expansão sintática e semântica por inserção de palavras, sintagmas ou frases
suplementares”.
b) Substituição: supressão, seguida de substituição por um termo novo. Esta
operação se aplica sobre um grafema, uma palavra, um sintagma, ou sobre
conjuntos generalizados.
Podemos classificar a substituição em subcategorias como substituição
riscada, que se dá através de um traço ou traços que suprimem letras, palavras ou
textos, mas, ainda assim, podemos recuperar o entendimento do termo rasurado.
A substituição à frente ocorre quando assinala o processo de substituição de
elementos textuais em que o substituto se coloca à frente do substituído; uma vez
que se verificou no momento da escrita, é um fenômeno de substituição em
processo de construção textual.
A substituição na entrelinha ocorre quando indica o processo de substituição,
pelo autor, de elementos textuais em que o substituto se coloca na entrelinha por
cima do substituído (raramente na entrelinha inferior), em virtude de o espaço à
frente já estar ocupado; por isso, é considerado um fenômeno de substituição de
segundo momento.
A substituição por sobreposição se dá quando marca o processo de
substituição de elementos textuais em que os traços gráficos do substituto adaptam
todos ou alguns traços do substituído; na prática, o novo elemento ocupa o espaço
da anterior.
De forma sucinta, Grésillon (2007, p. 334) define que “substituição é a
operação pela qual se troca um segmento, que geralmente é riscado, por outro;
sinônimo: “troca”.
c) Supressão: retirada, sem substituição, de um elemento textual; pode ser aplicada
sobre unidades diversas. A supressão é o ato de eliminar um elemento introduzido
por engano no texto. Para a crítica genética, designa o processo de eliminação pelo
autor de texto já escrito através de rasura ou riscado. Pode ser materializada ou não:
quando o autor elimina texto por riscado, a supressão é materializada; mas quando
o faz na passagem de um testemunho genético para o que se lhe segue no
processo, é não materializada.
Segundo Grésillon, “supressão é uma operação materializada geralmente por
um traço de risco; mas existe também supressão não materializada por um traço,

44

por exemplo, entre duas versões sucessivas, uma unidade dada pode ser
abandonada” (2007, p. 334).
d) Deslocamento: classificamos como deslocamento o processo de transferência, a
permuta de elementos que modifica uma ordem de elementos textuais em um
processo de encadeamento efetuado geralmente no momento de escrita. Segundo
Grésillon, “deslocamento é uma operação que consiste em trocar de um lugar uma
unidade já escrita, por exemplo, transportar um episódio para uma outra parte de um
romance” (2007, p. 330).
O autor subdivide a rasura em três formas: “riscada”, “borrão” e “branca”. Em
sua concepção, a primeira é imediatamente visível e permite em geral ao leitor
restituir o escrito rasurado; pode ser uma linha de rasura ou outras formas que
signifiquem anulação. A segunda, também imediatamente visível, mas não permite
restituir o escrito primitivo, é a rasura borrão, em que a tinta cobre a unidade escrita
com uma mancha preta. A terceira admite acesso aos termos rasurados, mas de
alguma forma imaterial, em todo caso não visível ao primeiro olhar; realiza-se
através de reescrituras sucessivas, frequentemente feitas sobre fólios diferentes,
sem que as versões “ultrapassadas” sejam marcadas como caducas.
3.2 A relação sujeito-língua
A concepção social discursiva da língua em processos de ensino da relação
sujeito/língua,

numa

perspectiva

sociointeracionista,

envolve

as

mudanças

discursivas constituidoras de modelos sociais para que aprendizes aperfeiçoem a
capacidade de lidar com a pluralidade de expressão linguística com autonomia
intelectual e demonstrem capacidade de análise crítica, interpretativa, produção
proficiente de textos e explicação de fatos linguísticos a partir dos rigores da
investigação científica.
Nesse contexto, a relação sujeito/língua envolve ações de natureza linguística
e sociocognitiva que facultam ao sujeito se mobilizar como verdadeiro ator social,
abordando questões relativas à produção de texto, sentido de leitura e
problematização de textos que investigam as modalidades escrita e falada da língua,
interligadas por questões semânticas.

45

Nessa perspectiva, consideramos que o mundo é representado pela relação
sujeito-língua

que

dita

padrões

estéticos,

culturais

e,

nesta

pesquisa,

especificamente, padrões linguísticos e literários, por meio das
palavras que se encontram e se defrontam no espaço limitado de um verso,
desencadeando novos significados e sentidos, através até de figuras
retóricas, como a metonímia e a metáfora: “São maneiras usadas pela
língua para evoluir e inovar, o que ressalta a importância dos poetas numa
cultura” (WILLEMART, 1996, p. 29).

Neste sentido, o encontro entre o escritor e a palavra vai sendo negociado,
planejado na invenção e na reinvenção da escrita, na transformação e no jogo de
palavras e com as palavras. Assim, o escritor se permite rever e reformular seu texto
e exercer sua autonomia intelectual e capacidade de lidar com a palavra. Ainda
nessa perspectiva de relação entre sujeito e língua, Calil (2008) afirma
que essas instâncias se entrelaçam a partir de uma estruturação
fundamental, a saber: o outro, como representante do funcionamento
linguístico-discursivo; a língua: que se manifesta pelos processos
metafóricos e metonímicos; e, finalmente, o sujeito aí inscrito, sujeito aos
movimentos previsíveis e imprevisíveis [...] (2008, p. 115).

Também convém lembrar a perspectiva bakhtiniana sobre a questão da
subjetividade, visto que o sujeito tem ampla autoridade na formação do enunciado.
Assim, o querer dizer do sujeito pode marcar sua individualidade no processo
de autoria, visto que,
em qualquer enunciado captamos, compreendemos, sentimos o intuito
discursivo ou querer dizer do locutor que determina o todo do enunciado:
sua amplitude, suas fronteiras. [...] O intuito, o elemento subjetivo do
enunciado, entra em combinação com o objeto do sentido para formar uma
unidade indissolúvel que elimina, vincula à situação concreta (única) da
comunicação verbal, marcada pelas circunstâncias individuais, pelos
parceiros individualizados e suas intervenções anteriores: seus enunciados”
(BAKHTIN, 2000, p. 300).

A emergência da palavra realiza o “querer dizer” do sujeito em suas práticas
de textualização. Este “querer dizer” produz sentido determinando o necessário para
o surgimento do objeto discursivo; todo esse processo se perfaz marcado pelas
peculiaridades subjetivas carregadas pelas influências anteriores. Toda essa
articulação deve ser considerada no que dá estrutura ao sujeito e ao produto.

46

A educação e a relação sujeito/língua são dimensões que perfazem o educar,
o desenvolver, o instruir, o humanizar. Todas essas perspectivas abrangem o
conhecer. Portanto, educar é descobrir e construir conhecimento e esse
conhecimento deve nos levar a sentir, pensar, viver e desenvolver competências
linguísticas e sociais.
A natureza da relação sujeito/língua nos processos de produção textual pode
oferecer contribuições para as interfaces entre educação e linguagem no sentido de
educar a sensibilidade para o estado da admiração do sublime, o estado poético,
não apenas para ler poemas, mas para pensar por analogias, por metáforas, através
da interação pela linguagem. Não sem razões a escritora exerce sua autonomia no
vaivém de fazeres e reformulações que se completam ou, ao menos, buscam
completude. Sendo assim, em termos de conhecimentos educativos, a educação e a
relação sujeito/língua deve ser pensada para conceber saberes que unam
objetividade e subjetividade, assim como o cognitivo e o afetivo. Nesse contexto,
consideramos o acervo, corpus desta pesquisa, teoricamente significativo para
estudos em Educação e Ciências da Linguagem, nesse sentido, também
significativos por representar a atividade do sujeito na sua relação constituída com a
linguagem.
Além disso, partindo do pressuposto de aprender processos de escrita, esta
pesquisa pode contribuir para estudos na área de Educação e Linguagem, tendo
como proposta uma temática que envolva processos de reformulação como
enriquecedores do ensinar e do aprender, visto que o ensino linguístico em
situações de refazimento de texto pode proporcionar apropriação de conteúdos e
estratégias necessários à boa produção escrita: aspectos semânticos e sintáticos
que estruturam a formulação coerente de processos de linguagem e que contribuem
para um ser se comunicar com o mundo.
3.3 Comparação de manuscritos: Proust e Da Paz
Dentro dessa visão de análise, nesta parte da pesquisa, ousamos comparar
traços de autoria, representados por reformulações, dentre outros aspectos, de um
dos textos do consagrado escritor Marcel Proust, constituidor de um dos
manuscritos de Sodome et gomorrhe, este, em par, “contracenando” com um

47

manuscrito da brasileira Da Paz Oliveira, apesar de seguirmos a crença de que “a
escrita traz em seu bojo características únicas para cada sujeito”.
Aspectos

de

(não)evidências

estilísticas

quanto

à

autoapresentação

manuscrítica no que tange à distribuição do texto no papel possivelmente não
podem classificar características da (des)construção do “eu”, entretanto, podem
contribuir para alguém se constituir escritor ao captar sua singularidade num
universo a partir destes mesmos aspectos em suas produções.
As características que configuram os pares de manuscritos a seguir
permitem-nos inferir observações estilísticas quanto à distribuição do texto no papel,
tipos de rasura, número de rasuras, forma textual (prosa ou verso), dimensões
(não)estéticas, como os acréscimos textuais deslocados, marcas de trajetória
individual, dentre outros aspectos. Todavia, nossa hipótese é que essa perspectiva
não dá conta da questão, pois,
atividade realizada dentro de manuscritos manifesta os esforços do autor
para chegar à formulação que ele julga a mais adequada para certa
intenção de significação e, correlativamente, à conceituação que melhor
satisfaça essa intenção (CULIOLI, 1982 apud CALIL, 2009, p. 60).

Seria plausível destacarmos neste momento da nossa investigação a visão
de Bakhtin (1992), quanto às considerações sobre a relação do autor compreendida
sob o ângulo das particularidades individuais que ela reveste neste ou naquele autor,
nesta ou naquela obra, bem como a concepção de linguagem em Bakhtin (1988, p.

88), que afirma que a linguagem é um fenômeno inerente a qualquer e todo
discurso e que, por meio de várias direções ou em seu caminho até o objeto,
encontra-se com outros discursos e participa com eles de uma interação viva e
intensa. Seria aceitável ainda discutirmos sobre os contornos que a palavra pode
ganhar, como exposto por Bakhtin e Volochinov (1992), em Marxismo e Filosofia da
Linguagem:
[...] a palavra constitui-se como o signo ideológico por excelência,
privilegiada pela consciência e pela comunicação entre os homens na vida
cotidiana. [...] penetra em todas as relações humanas, registra as lentas
mudanças sociais e é determinada pelas relações de produção e pela
estrutura sócio-política. A palavra como fruto de criação ideológica de cada
época histórica tem sua sobrevivência como signo vinculada à ideologia do
cotidiano. Desta se alimenta e ganha novos contornos. Ainda que, em uma
determinada época, uma palavra, uma obra literária, por exemplo, pareça
adormecida, é do vínculo com a ideologia de uma outra época que ela
pode renascer. A palavra está presente em todos os atos de compreensão

48
e em todos os atos de interpretação (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1992, p.
34-36, adaptado).

Entretanto, a justificativa para a investigação desses aspectos se deve ao
interesse

de

detectar

semelhanças

(homogeneidades)

e

diferenças

(heterogeneidades) que podem ser agrupadas e podem determinar o rumo de
novas pesquisas quanto ao processo de avaliação da qualidade de um manuscrito a
partir de suas características e representações. Assim, dentre as várias referências
teóricas que têm orientado essas pesquisas, Fabre-Cols (2002) referencia as
teorias da enunciação (Beneviste, Culioli), além do dialogismo discursivo de
Bakhtin. Tendo como base essas teorias, a análise de manuscritos mostra a
possibilidade de reconstruirmos parcialmente o processo de produção textual a
partir das marcas enunciativas inscritas nos rascunhos e nas rasuras dos
manuscritos.
Conforme exposto adiante, organizaremos os manuscritos em pares: o
primeiro contendo um manuscrito de um escritor reconhecido pelo cânone, aspecto
que lhe confere supremacia relativamente ao segundo. Após esse apanhado inicial,
teremos como propósito cotejar os achados nos manuscritos considerando que eles
estão marcados tanto pelo sentido constituído em um processo históricodiscursivo (processo de historicização de sentidos), quanto pelas
concordâncias [...] que produzem estas articulações, isto é, pelas relações
entre palavras (CALIL, 2009, p. 169).

Entretanto, visto que um dos manuscritos está grafado em um idioma diferente
do português, e, portanto, está articulado em uma língua diferente, enveredamos por
caminhos que inferem aspectos gerais. Assim, o resultado do cotejo está sintetizado
em textos explicativos para melhor visualizarmos a compreensão dos aspectos de
reformulação. Consideramos que, ainda que de forma incipiente, eles podem
contribuir para uma reflexão que dê origem a novas formas de comparação entre
textos de autores consagrados ou não, desde que aliados a embasamentos teóricos
pertinentes a esta temática.

49

3.4 Aspectos de reformulação no manuscrito de Proust
Figura 1 - Sodome et gomorrhe

Fonte: Biblioteca Nacional da França, acesso em fevereiro de 2011.

50

Ressaltamos que apenas um manuscrito de Proust já é sobremaneira
importante para salientarmos as características da reformulação. Destacamos a
excessiva quantidade de rasuras através de montagens e colagens, bem como sua
contribuição para o estudo dos manuscritos.
Manuscrito em prosa, com rasuras de adição (periférica, intercalada,
deslocada...),

de

substituição

(através

de

sobreposições,

intercalações...),

supressão (riscada, borrada...), deslocamento etc. nas quais constatamos
dimensões (não)estéticas através da materialização gráfica de movimentos
singulares que consubstanciam as análises das rasuras dos manuscritos literários
nas perspectivas textual, genética, funcional e estilística.
As operações de reformulação de adição e supressão se sobressaíram,
permitindo visualizarmos um maior número de ocorrências. Essas marcas de
reformulação revelam um trabalho sobre o texto e esclarece o sentido desse
trabalho, mas não permite a reconstituição da intenção do scriptor, visto que elas
têm caráter de indício que requer interpretação.
Empregamos este manuscrito com o intuito de refletir alguns aspectos de
reformulação que explicitem a competência de escrita tanto em escritos
canonicamente reconhecidos como os ainda não e esperamos com isso contribuir
para outras reflexões acerca do tema deste capítulo.
Os dados armazenados na tabela 2 são relativos à rasura tanto por linha de
localização como pela classificação do tipo a partir de dados extraídos dos textos
periféricos do próprio manuscrito. Já os dados armazenados na tabela 3 são
relativos à rasura tanto por linha de localização como pela classificação do tipo a
partir de dados extraídos do texto principal.
As informações referidas nas tabelas serão mais bem compreendidas através
dos fragmentos do manuscrito Sodome et gomorrhe reproduzidos em seguida e
apoiados por textos explicativos; além dos dados numéricos, quantitativos, é
imprescindível investigarmos as imagens que identificam, in loco, os aspectos de
reformulação.
O percurso de rasuras é abarcado levando em conta uma representação de
um contínuo caminhar, visando contribuir para a compreensão do processo
genético de uma obra.

51

Tabela 2 - Aspectos da reformulação: Sodome et gomorrhe (textos periféricos)
Localização: linha(s)

Tipo de rasura

1 a 12

Adição (todo texto superior esquerdo + deslocamento)

13 a 21

Adição seguida de supressão

22 a 28

Substituição (duas colagens sobrepostas)

29 a 34

Substituição (colagem)

35

Supressão (riscada)

36

Supressão (riscada parcialmente)

40 a 56

Supressão (colagem)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Figura 2 – Fragmento 1 de Sodome et gomorrhe (textos periféricos)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

52

Tabela 3 - Aspectos da reformulação: Sodome et gomorrhe (texto principal)
Localização: linha(s)

Tipo de rasura

5 a 10

Substituição (duas colagens sobrepostas)

14

Substituição (sobrescrita)

15

Substituição

21, 22, 24, 26

Supressão

31 a 34

Substituição (sobrescrita)

35

Sobrescritas

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Figura 3 – Fragmento 2 de Sodome et gomorrhe (Texto principal)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

53

3.5 Aspectos de reformulação no manuscrito de Da Paz Oliveira
Figura 4 - Poema a Drummond de Andrade

Fonte: acervo particular da autora (2011).

54

Tanto as análises sobre o manuscrito Sodome et gomorrhe quanto as
considerações sobre Poema à Drummond de Andrade ora expostas em tabela e
análises imagéticas fundamentam-se nas quatro operações de reescrita em suas
diferentes formas sugeridas pela literatura pertinente, à luz dos referidos
manuscritos autógrafos na busca por identificarmos quais dessas operações se
sobressaem.

Dessa

forma,

justificamos

a

necessidade

de

decompormos

detalhadamente as reformulações (des)estruturadoras dessas e nessas produções
textuais.
Tabela 4 - Aspectos da reformulação no Poema a Drummond de Andrade
Localização: verso(s)

Aspectos de reformulação

6
10
16
27
29
36 a 42
45
46
52
62

Supressão
Substituição (linear)
Adição (rasura sobrescrita)
Adição (linear)
Substituição (rasura riscada + adição sobrescrita)
Supressão
Supressão
Substituição (rasura sobrescrita)
Supressão
Substituição (rasura sobrescrita)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Os elementos referidos nas tabelas serão interpretados com mais concisão
se forem analisados os fragmentos do manuscrito Poema a Drummond de Andrade
reproduzidos a seguir e esteados por textos explicativos.
Através da análise comparativa, constatamos o levantamento dos dados dos
movimentos de reformulação que concernem à gênese textual e que embasam
quantitativamente a representação das tabelas. Trata-se de um resgate de
características de uma construção genética que através de traços evidenciou um
momento singular de gênese textual.

55

Figura 5 – Fragmento 1 de Poema a Drummond de Andrade

Fonte: dados da pesquisa (2011).

56

Figura 6 – Fragmento 2 de Poema a Drummond de Andrade

Fonte: dados da pesquisa (2011).

57

Figura 7 - Fragmento 3 de Poema a Drummond de Andrade

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Sobre manuscritos literários e suas rasuras, Calil (2008) afirma que
estes textos, que têm o estatuto de manuscritos, pesam, de um lado, uma
importância secundária, menor, que muitas vezes são tratados como
“rascunhos”, “esboços”, “planos” em que aquele que escreve ainda está
ensaiando o que será o texto final, definitivo, correto, limpo, enfim,
publicável! De outro lado, mas associado a esse efêmero aspecto, a
intimidade daquele que escreve é guardada nos manuscritos. Quase como
uma confissão das dúvidas, um receio revelado pelas hesitações e rasuras,

58
eles trazem uma espécie de jogo de esconde-esconde entre aquilo que não
se pretende mostrar, expor, divulgar, editar, publicar e o que se querer
realmente que apareça (2008, p. 18).

Esta pesquisa observa as ocorrências de rasuras em suas particularidades,
todavia, muitas delas convergem e se situam em contexto bastante próximo. Esse
conjunto de modificações permite interpretar desde o esboço textual, que esconde
os segredos do processo de criação de um poema no qual a autora não exige de si
versificação ou rigor formal, nem linguagem rebuscada, até um texto em seu estado
publicável.
Este manuscrito, publicado após nove anos de sua realização, prefigura
considerações que vislumbram exaltar atributos ao ilustre poeta Carlos Drummond
de Andrade em data natalícia centenária se vivo fosse, ao mesmo tempo em que a
scriptor exalta a façanha poética drummondiana e o desejo de merecer igual
reconhecimento.
A tentativa de expressar o desejo de merecer galgar a posição alcançada por
Drummond transpassa a alegria de um leitor fanático e converte-se no desejo de
ser escritor que, de fato, lança livros.
Os resultados até aqui apresentados corroboram com nossa perspectiva de
que as reformulações realizadas são não só uma etapa que auxilia no processo de
gênese de manuscritos, mas, o próprio processo.
O predomínio de rasuras em processos de reformulação caracteriza
intensamente nosso objeto de pesquisa que por sua natureza pode enriquecer
processos do ensinar e do aprender e, por essa razão, pode ser sistematizado e
repassado em práticas textuais de processos de aquisição da escrita se houver
como proposta uma temática que abranja processos de reformulação textual como
ferramenta de aprendizagem, visto que estudos de linguagem a partir de processos
de reformulação podem oferecer conhecimento de conteúdos e estratégias
necessários a uma produção escrita com qualidades que estruturem a formulação
coerente de processos de linguagem.
Para uma abordagem concreta sobre o manuscrito Um poema a Drummond,
destacamos alguns aspectos da versão final publicada, segundo Koch (2004), na
perspectiva da Linguística Textual.
O Poema a Drummond de Andrade, na hierarquia do sistema linguístico, é
um texto poético estruturado por frases simples, dentro da concepção de base

59

gramatical; é produto “acabado”; meio específico de uma ação discursiva, de um ato
de fala que mobiliza operações e processos cognitivos e lugar de interação entre o
autor e o leitor, e sua construção se perfaz entrelaçada a uma rede de fatores de
ordem linguística, cognitiva, sociocultural e interacional.
Esta versão final publicada esconde as marcas das reformulações e
apresenta o lado simples, de sobriedade poética da autora, de forma clara, através
de alusão nominal a Drummond, considerado um dos maiores representantes da
literatura brasileira do século XX. Esse fato remonta à valorização poética de
Drummond, poeta da primeira fase da literatura modernista brasileira, para
consumar a admiração à plenitude poética alcançada por ele.
A Crítica Genética ensina que o processo de criação de um texto poético é
sempre uma história íntima (e daí, o resíduo indecifrável que às vezes
sobra nas mãos do intérprete) e uma história social enquanto partilha
significações e valores com o outro, função primeira de toda linguagem
(WILLEMART, 1993, p. 11).

Buscamos, neste momento da pesquisa, apresentar conceituações para
perceber o poema em análise sem ditá-lo como verdade absoluta, mas como
possibilidade de interpretar sob o prisma da linguística textual, imbricada a aspectos
criativos literários.

60

Figura 8 - Poema a Drummond de Andrade

Fonte: Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa. Recife. Ed. Universitária da UFPE, 2011, p. 69.

61

Figura 9 - Poema a Drummond de Andrade

Fonte: Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa. Recife. Ed. Universitária da UFPE, 2011, p. 70.

62

3.6 Reflexões sobre manuscritos literários
Os manuscritos literários podem ilustrar movimentos do processo escritural
que ao revelar “as pistas do fazer poético” também revelem a intimidade poética,
pois à rasura é inerente desnudar não só a essência do texto, mas também do
escritor. Seria esta a razão para alguns escritores terem tanto primor por seus
cadernos, suas agendas e querer mantê-los a sete chaves dando-lhes suma
importância como se fossem uma riqueza de valor sem igual? E quem teria a
audácia de abrir tais relíquias para apenas espionar ou até ousar bisbilhotar? Ou
ainda: quem se atreveria a riscar ou acrescentar algo? Por que o autor de um
manuscrito a ele dedica tanto apreço se tal material é para muitos apenas um
entulho a juntar traças que deveria ser posto no lixo?
Seria porque, em sua labuta mental, eles escrevem, reescrevem; exploram
automecanismos de produção de sentido; registram combinações que as palavras
por si só adequaram; desprendem energia e velocidade; concatenam ideias,
delineiam

sentidos,

deixam-se

influenciar

por

reformulações;

constroem,

desconstroem, estruturam, reestruturam, substituem, excluem; vestem e desnudam
o texto; investem tempo e esforço; usam dinamismos peculiares para movimentar
palavras, frases, parágrafos e neste embate deixam seduzir-se, realizar-se, deleitarse no seu mundo com as palavras, com a escrita, com a criação reveladora de sua
autenticidade poética?
Provavelmente, do ponto de vista da estilística, os manuscritos ora analisados
poderiam fornecer bem mais elementos do que os aspectos que foram identificados,
visto que a investigação genética já pode contar com programas “inteligentes”, como
processadores de textos, planilha eletrônica, bases de dados, ferramentas
gráficas, hiperlinks, multimídia, reconhecimento das formas e especialmente
para a elaboração de instrumentos pedagógicos ou ferramentas de
assistência à criação. Enfim, além de usos possíveis sob forma de
aplicações, a perspectiva genética parece, sobretudo, destinada a realizar
uma junção histórica com a vasta e nova problemática das ciências
cognitivas e das pesquisas sobre inteligência artificial. No horizonte dessas
investigações, vemos perfilar-se uma convergência teórica que poderia
constituir uma meta científica maior para nosso século (BIASI, 2010, p. 166167).

63

Esta investigação nos conduz a dela tirarmos lições que pelo menos nos
permitam caminhar no sentido de criar um mecanismo para averiguação tanto de
textos de escritores não reconhecidos canonicamente como daqueles reconhecidos.
Como as diversidades subjetivas representadas nos manuscritos podem ser
explicitadas e operacionalizadas por outros caminhos, como, por exemplo, a literatura
e a linguística computacional, com este estudo esperamos contribuir para impulsionar
novas possibilidades de pesquisa que nos permitam caminhar no sentido de criar um
mecanismo para averiguação tanto de textos de escritores canônicos quanto nãocanônicos, a partir de investigações baseadas em estudos feitos sobre dados
estilísticos (qualitativos) em figuras de imagem manuscrítica com o auxílio de
aparatos tecnológicos.
A comparação entre os dois manuscritos serve para que compreendamos
que tanto o escritor Proust quanto a escritora Da Paz Oliveira estão sujeitos a
rasurar à medida que interagem com seus manuscritos, produzindo-os. Isso
constata que rasurar é inerente ao ato da escrita, seja este realizado por mãos e
mentes canonicamente reconhecidas ou não.
As rasuras dizem respeito às negociações feitas entre escritor e manuscrito
sobre o texto e sua construção de sentido estabelecida a partir da interação escritor,
texto e contexto que, ao se entrelaçarem, revelam o lugar social do escritor
materializado pela língua e pela linguagem. Assim, o sujeito produtor textual se
coloca na função enunciativa de autoria de um texto e revela sua função de autor.
O que o escritor apaga ou interpola na sua página pode bem representar
uma concessão ao gosto dominante no círculo literário a que pertence, ou
a que deseja pertencer; ou então, é gosto de obediência ou superego
(moral, político, científico, religioso). As causas eficientes da escrita não se
encontram fora da consciência autoral: são a sua própria regra ideal
imanente (WILLEMART, 1993, p. 12).

Dentre tantas considerações sobre o escritor e o manuscrito, ressaltamos os
dizeres de Willemart (1993, p. 97) sobre o assunto: “muito próximo do escritor, o
manuscrito mostra claramente a mão que escreve, hesita, rasura, escolhe, rabisca,
recomeça. Em nossa análise, tanto as mãos do poeta Proust, reconhecido pelo
cânone, quanto as mãos da poetisa Da Paz Oliveira não demonstraram diferenças
resultantes da competência poética e estilística, visto que suas práticas de
construção textual se assemelham quanto ao emprego das reformulações.

64

Assim, poderemos continuar a busca de uma (des)construção de autoria e
indicar as relações que se estabelecem entre manuscritos de escritores nãocanônicos e canônicos para, a partir disso, (des)construir “eu(s)” intrínseco(s) a uma
gênese textual e que com ela se confunde e se transforma em texto. Esses
elementos talvez possam ser um lugar em que se mostra essa construção.

65

4 A REFORMULAÇÃO PELAS OPERAÇÕES METALINGUÍSTICAS NO POEMA
DE NATAL
O poema intitulado “De Natal”, corpus desta pesquisa, figura o labor do sujeito
scriptor num processo de gênese textual. Partimos da hipótese de que no
manuscrito selecionado há elementos indicativos de um processo autoral que foram
investigados quanto a indícios que possam demandar reflexões sobre movimentos
de reformulação e processo de constituição de autoria, através da interpelação entre
o autógrafo e seu scriptor, bem como possam oferecer contribuições para as
interfaces entre educação e linguagem.
O texto poético De Natal gerou inquietações para realização desta pesquisa
no sentido de buscarmos indícios do que se passa na mente do artista ao criar para
remontarmos a gênese de uma obra e desvendarmos uma nova leitura dentro do
propósito peculiar à Crítica Genética. Assim, pesquisamos indícios de autoria em
seus processos, desde a metamorfose inicial do processo de criação até a versão
final, focalizados, principalmente, do ponto de vista da Crítica Genética. Essa
modalidade de crítica norteia os caminhos que atestam o processo da gênese de
uma obra.
Nessa concepção, apresentamos uma investigação na produção poética De
Natal e através dela buscamos legitimar o conhecimento científico a partir de uma
análise que se consolida com a inspeção minuciosa dos processos de reformulação
do corpus eleito, pois consideramos que a reformulação não só possibilita efetivas
melhoras do ponto de vista textual, como também, e, principalmente, demanda uma
resposta ao processo de compreensão da gênese textual. A investigação considera
dados caracterizadores das reformulações como indícios de autoria e analisa-os
seguindo a classificação de operações linguísticas de adição, substituição,
supressão e deslocamento como uma marca textual, propostas por Fabre (1986),
uma vez que esses dados de reformulação facultam indícios do processo que
constitui a autoria na relação entre o sujeito e o manuscrito analisado.
Na publicação da obra Meu Tesouro, 2011, o poema De Natal apresenta-se
da seguinte forma:

66

Figura 10 - Poema De Natal

Fonte: Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa. Recife. Ed. Universitária da UFPE, 2011, p.
292.

67

Figura 11 - Poema De Natal

Fonte: Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa. Recife. Ed. Universitária da UFPE, 2011, p.
293.

68

A scriptor produziu seu texto em situação natural espontânea e o reformulou
em níveis linguísticos apresentando movimentos que abrangem vocabulário,
gramática, ortografia e pontuação, ou seja, aspectos do nível de grafema e de
palavra. Nesse sentido, concluímos que um escritor pode aperfeiçoar suas escritas
em situações em que reformulações de conteúdo e forma são realizadas
simultaneamente, o que representa uma tendência mais atual.
Outro ponto importante é que a investigação abrange, ainda, aspectos
ilustrativos de reformulação de interesses semântico-literários para elucidarmos
indícios de autoria e percebemos que o ato inacabado da escrita possibilita uma
visão dos processos de gênese textual, uma vez que a Crítica Genética cumpre o
papel de buscar meandros da criação, materializados com marcas de rasura que
podem revelar indícios do processo de criação literária. Por isso, buscamos
desvendar a gênese textual e restabelecer as fases de escritura do manuscrito para
mostrar o fazer linguístico-literário percorrido durante o processo de labor da criação
textual uma vez que o manuscrito constitui o objeto físico principal do estudo da
Crítica Genética, como testemunho privilegiado de todo esse percurso.
Nesta pesquisa procuramos, então, pelos princípios que regem o ato de
qualquer criação artística e literária, adentrar e ver o caminho misterioso do
processo mental do manuscrito selecionado para constatarmos que as recorrências
de rasuras encontradas ao longo da análise genética revelam a estética da criação
própria do autor, mas não somente isso, revelam também as tensões internas e
externas que contribuíram à criação poética.
Paralelamente, investigaremos a observação do singular, bem como
hipóteses explicativas de aspectos que são captados através de indícios, uma vez
que estudos sobre indícios de autoria pressupõem procedimentos de investigação
para identificar, categorizar e analisar dados de rasuras a serem considerados como
representativos da revelação das marcas de autoria deixadas pelo sujeito na escrita.
Este estudo busca tratar das características específicas de processos de
escritura a partir da análise do manuscrito escolhido, vistos sob a ótica dos estudos
literários de Calil (2008), através dos estudos de Grésillon (2007) e de Fabre (1986)
sobre reformulação.
Destacamos também o pesquisador Willemart (apud CALIL, 2009) que
destaca a dependência do autor com relação à sua própria escritura. Em suas
pesquisas, ele

69
procura delinear uma teoria da gênese da escritura para mostrar como o
autor de numa obra literária é tomado pela escritura: a relação entre o
escritor e a gênese de sua obra não pressupõe o controle do primeiro sobre
o segundo, na medida em que o autor, durante o processo de criação,
perderia certa autonomia sobre sua própria escritura, passando a depender
dela (WILLEMART apud CALIL 2009, p. 95-96).

O manuscrito De Natal representa um processo de elaboração que busca dar
visibilidade à criação a partir de processos de reformulação. Nele analisamos as
rasuras, bem como as incidências e as reincidências de rasuras que revelam
indícios de autoria num processo de criação. Percebemos, nesse artifício, que os
manuscritos, ao serem reelaborados num discurso, consolidam um processo seletivo
que gera enriquecimento vocabular, tanto para enriquecimento linguístico quanto
para valorização de aspectos literários, especificamente no que tange à rima.
Quanto ao aspecto de reelaboração, esses escritos remetem a Willemart (1986) ao
argumentar que o escritor ao reler seu texto é influenciado a ordená-lo no processo
de escritura. Entretanto, a sensibilidade às influências de forças diversas que
conduzem a reformulações e a capacidade de reorganizá-las ainda fazem do autor
um ser autônomo que escreve, lê, dissemina e reconstitui sua autonomia num ritmo
ímpar.
4.1 Categorização das rasuras no autógrafo De Natal
O poema De Natal, documento autógrafo que registra a gênese de um
manuscrito na perspectiva da Crítica Genética, serve de ponto de partida para a
análise desenvolvida neste estudo que, numa perspectiva ampla, se insere nas
linhas de pesquisa sobre a escrita e seu processo de reformulação, porém, aqui
aborda a reformulação, mais especificamente, a reformulação como indício de
autoria em manuscritos literários.
O

manuscrito

selecionado

possui

marcas

linguístico-discursivas

que

materializam efeitos de sentido com a finalidade de harmonizar textualmente o
processo de significação. Nele constatamos algumas negligências ortográficas,
entretanto, em função do objetivo deste estudo, tais negligências não são
valorizadas nas discussões como negligências, erros, pois, conforme Calil (2008, p.
13), “os textos literários são objetos privilegiados quando se discutem os processos
de criação”.

70

Consideramos como procedimentos de análise adotados neste estudo as
operações

linguísticas

presentes

em

processos

de

reescrita

textual,

em

conformidade com a sistematização proposta por Fabre (1986) entre outros. De
acordo com essa sistematização, temos operações linguísticas de adição,
substituição, supressão e deslocamento durante processos de reescrita.
Observemos a versão textual reproduzida digitalmente; ela antecipa de forma
abrangente uma visão diagnóstica de um momento de labor mental e toda riqueza
de detalhes dos movimentos representativos de um processo de gênese textual.
Figura 12 – De Natal – Manuscrito autógrafo

Fonte: acervo particular da autora (2011).

71

Apresentaremos a transcrição linear. Elegemos este tipo de transcrição por
reproduzir o manuscrito com todos os seus acidentes genéticos, apesar de não
respeitar a respectiva topografia do poema. Usaremos símbolos conforme a tabela a
seguir, visto que eles transcrevem os elementos do original e ajudam a compreender
o manuscrito.
Símbolo
< >
§
[ ]
[< >]
----# #
(...)

Tabela 5 – Convenção para a transcrição de reformulações
Significado
Acréscimo
Paragrafação
Rasuras (de substituição etc.)
Rasura e acréscimo
Supressão de segmento apagado ou riscado
Deslocamento
Leitura duvidosa

Fonte: Fabre (1987).

Vejamos o que diz Grésillon (2007), sobre esse assunto:
A transcrição é a reprodução quase idêntica do original (salvo os tipos de
caracteres e alguns outros indícios da escritura manuscrita), ela pode
conter, assim como um original, somente traços cristalizados do escrito,
portanto, não da escritura (2007, p. 169).

A transcrição tem o propósito de facilitar a leitura e ajudar as pesquisas
genéticas; utiliza-se de símbolos que melhor estruturam sua apresentação. Para a
realização deste tipo de atividade é necessário o estabelecimento de algumas
normas, dentre as quais destacamos: fidelidade ao texto, uso de colchetes para as
interpolações, uso de chaves para as letras e as palavras expurgadas, indicação das
rasuras ilegíveis com o auxílio de colchetes e reticências, dentre outras.
Dentre vários tipos de transcrições, a saber: diplomática, que reproduz com
total

esmero

a

topografia

dos

elementos

presentes

no

manuscrito;

a

semidiplomática, que não atende a todos os rigores da diplomática quanto aos
aspectos topográficos, e a linear, que pode organizar prototextos13 que melhor
reproduzam e interpretem o manuscrito, adotamos, nesta pesquisa, este último
modelo citado por nos dar liberdade para tornar a versão mais legível e organizada.
Este tópico ganha dimensão neste momento da pesquisa com a análise do poema
De Natal.

13

Documentos autógrafos.

72

Tabela 6 - Transcrição linear - De Natal
De n[N]atal
1.
3.

§ Quando < >[C]hega o fim do Ano / 2. Chegam as < >[F]estas Natalinas
Todo o < >[P]ovo se prepara / 4. Todo < >[P]ovo se anima

5.
7.

§ Dig, Dimg, Dig-Dom / 6. Todos a cantar (Bis)
Um [F]eliz Natal /
8. [V]amos festejar.

9. § Quando < >[C]hega o Ano Novo
/ 10. Tudo recomeça
11.
Sempre aqui ou acolá / 12. Tem alguma festa
13. § Entra gente nova / 14. Gente marioi[r]zinha
15.
Formam festa[s] grandes / 16. [/Ou/] pequenininhas
17. § Crianças animada / 18. Cobra seu presente
19.
Cada uma deles mexe / 20. Com o bolso da gente
21. § Tem ceia animada / 22. Pr[á] toda família
23.
Quase todo lar / 24. Tem muita alegria
25. § Então nas cidades / 26. Em frente [à] Matriz
27.
Entre outras festas / 28. Tem os pastori[l]s
29. § [/A/]zul e ve[r]m[/e/]lho / 30. Numa grande luta
31.
Para ver que[/m/] ganha / 32. Lá em frente [/a/] gruta
33. § [/É/] aplauso, [/é/] emoção / 34. [/Muita/] [/g/]ente em grande linha
35.
[/Enfim,/] Na po[/ /]tuação / 36. Alguém sai [/fora/] da linha
37. § Beijos e abraços / 38. Só desejos bons
39.< >São os bons desejos / 40. Sempre os mesmos tons
Dapaz Oliveira
Fonte: dados da pesquisa (2011).

O cotejo entre esta versão transcrita e a versão digitalizada permite-nos a
construção de um olhar que busca perspectivas para encontrar construções de
interesse linguístico, bem como busca contribuir para a constituição de um sujeito e
para o entendimento de um processo de construção textual, e também pode
enriquecer estudos que buscam estabelecer indícios sobre semelhantes estudos
escriturais, visto que as abordagens teórico-metodológicas empregadas nesta
pesquisa podem ser percebidas sob prismas comparativos. Assim, estudos voltados
para processos psicolinguísticos de construção textual configuram-se singulares e,
portanto, revestidos de caráter subjetivo, o que os tornam intrinsecamente valorosos,
com conteúdos, estilos discursivos e propósitos comunicativos inerentes.
Agrupando o texto autógrafo De Natal pelo grupo de rasuras de
deslocamento, substituição e adição, percebemos a seguinte síntese:

73

Tabela 7 - De Natal: rasuras de deslocamento, de substituição e de adição
Verso
1
2
3
4
5
7
8
9
15
16
23
26
28
31
32
33
34
35
39

Termo rasurado
c de chega
f de festas
Povo
Povo
Dig, Dim/g
f de feliz
V de vamos
c de chega
ilegível (ver rasura borrão)
ilegível (ver rasura borrão)
ilegível (ver rasura borrão)
a (teria crase)
Tem
m de quem
a (teria crase)
A de aplauso
g de gente
n de na
s de são

Classificação
Deslocamento (sobrescrita)
Substituição (sobrescrita)
Deslocamento (sobrescrita)
Deslocamento (sobrescrita)
Deslocamento (substituição)
(possível) substituição
(possível) Substituição
(possível) Substituição
Substituição (sobrescrita)
Substituição (sobrescrita)
Substituição (sobrescrita)
(possível) Adição
(possível) Substituição
Adição
(possível) Adição
(possível) Substituição
(possível) Substituição
Substituição (sobrescrita)
Substituição (sobrescrita)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Com relação ao espaço da folha do papel, identificamos “rasuras
sobrescritas” que incidiram em posteriores “rasuras de deslocamento”, pelo fato de o
termo passar a ocupar a posição que seria de seu antecessor e que iniciaria o verso.
Essas rasuras se justificam pela tradição de se iniciar o verso com letra maiúscula,
fato predominante no poema em análise.
Constatamos uma “rasura de substituição sobrescrita” na construção da
locução adjetiva “festas natalinas”, verso 2, provavelmente para harmonizar a grafia
dos termos.
Figura 13 - Verso 2 - De Natal

O processo de refacção da ortografia na expressão “Feliz Natal”, verso 7, se
justifica, na nossa interpretação, pelo fato de esse termo ter se convencionado
socialmente ser grafado na forma de inicial maiúscula.
No 28º verso poderia ter sido realizada um “rasura de substituição” quanto
aos aspectos linguísticos e semânticos do verbo “ter”. Sobre esse fato ora verificado,

74

podemos inferir que tal rasura seria identificada em segundo plano, pois a finalidade
primordial num momento de criação não parece atender a aspectos normativos da
língua, uma vez que os aspectos semânticos se sobrepõem. Vejamos:
Figura 14 - Verso 28 - De Natal

Tabela 8 - De Natal: resultados das rasuras de supressão
Verso
1
2
3
4
5
9
11
17
22
33
34
35
36

Termo rasurado
Quando
Chegam / as
Todo / o
Todo / PDig, Dimg
Quando
Aços de crianças
Prá
É
Muita
Enfim
For a

Classificação
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada) + Deslocamento
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
(possível) Supressão do acento
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)
Supressão (riscada)

Fonte: dados da pesquisa (2011).

Alguns termos riscados permanecem visíveis e permitem ao leitor recuperar a
compreensão do termo suprimido. O risco representa um momento de ajuste do
processo de criação. A rasura de supressão do verso 11, por exemplo, praticamente
representa um momento de desconstrução que ao mesmo tempo pode simbolizar o
fazer poético e dar indícios de autoria a um processo de criação. Vejamos:

Figura 15 - Verso 11 – De Natal

75

No verso 22, haveria uma rasura de supressão do acento agudo, entretanto,
parece que a autora não se deteve a processos rigorosos quanto à violação da
convenção escrita. Essa possível supressão se faz representar pelo que é ou
deveria ser colocado ou retirado num processo de criação.
Tabela 9 - De Natal: rasuras linear, branca, borrão, de tonalidade/tempo e
instrumento
Verso
5
7
8
15
16
23
33
34
37/38/39/40

Termo rasurado
Dig, dim/g
f de feliz
v de vamos
Formam
Subscrito ilegível: ou
Subscrito ilegível: lar
a de aplauso
g de gente
tonalidade/tempo e instrumento

Classificação
Linear
Branca
Branca
Borrão
(possível) Borrão
Borrão
(possível) Branca
(possível) Branca
Tonalidade/tempo e instrumento

Fonte: dados da pesquisa (2011).

A rasura do 5º verso classifica-se como linear quanto ao espaço da folha de
papel, devido ao fato de essa locução ter sido riscada e imediatamente reescrita na
continuidade da linha. Essa rasura não parece revelar limitações do escritor iniciante
em usar um termo mais adequado; provavelmente esse fato remete ao valor
linguístico, pois o termo eliminado voltou à cena; na prática corresponde um agir
para corrigir, substituindo algo por ele próprio. Vejamos:
Figura 16 - Verso 5 – De Natal

Os indícios semânticos ora apresentados no verso 14 permitem a
comprovação de que “maioir” e “maioirzinha” são, respectivamente, “maior” e
“maiorzinha”. Vejamos:

76

Figura 17 – Verso 14 – De Natal

Constatamos neste verso 14 que, quanto ao espaço da folha de papel, há
uma rasura sobrescrita que incide sobre a primeira letra “r” da palavra “maioir”, além
do segundo “r” da mesma palavra para posterior rasura de “adição”. Além do mais, a
palavra “maiorzinha” antecipa uma rima com a palavra “pequenininhas”; essa
reformulação se deve à rima segundo a posição em que se apresentam, que é ao
final dos versos 14 e 16.
O 19º verso apresenta uma rasura de adição de forma riscada do anafórico
“delas”. A tensão do dizer poético está aí constituída numa relação entre sujeito,
língua e sentido. O mecanismo de adicionar um termo ao processo de escritura pode
constituir um movimento de autoria, apesar da eliminação do termo acrescido.
Provavelmente, a autora não se detém a aspectos puramente linguísticos na
primeira versão de seus textos.
Figura 18 - Verso 19 – De Natal

No verso 33, há indícios de uma rasura “branca” que pode ser constatada
devido à comparação entre esse e os demais versos dessa poesia, nos quais
predomina a inicial maiúscula. Uma ocorrência dessas pode ser compreendida como
uma pista do fazer poético, uma vez que um lapso assim pode contribuir para a
constatação de uma rasura que sequer se materializou, mas que pode ser “vista”
pelo espaço que ocupa no contexto da criação poética.
Sobre rasura “branca” ou “imaterial”, Calil (2008, p. 21) afirma que “somente
se tem acesso a ela pela comparação de versões sucessivas de um manuscrito”.
Entretanto, os casos de rasura “branca” nesse manuscrito são interpretados por
analogia a outros versos desse mesmo manuscrito.

77

No verso 34, o vocábulo “gente” deveria sofrer rasura de substituição de “g”
minúsculo para “g” maiúsculo, consoante os casos predominantes de inicial
maiúscula. Essa possível rasura branca pode ser assim considerada pela aplicação
simbólica de recursos estilísticos de comparação que permitem a “visualização” de
uma rede de estruturação do processo que compõe o texto poético em análise.
No verso 36, a rasura de supressão do vocábulo “fora” elimina-o da estrutura
frasal para harmonizar o número de sílabas e evitar uma construção pleonástica.
Nesses

versos,

principalmente,

não

houve

preocupação

com

eventuais

inadequações; não houve reconsideração sobre a proposta apresentada no título,
por isso, a escrita deles não parece ter sofrido revisão pela escritora.
Figura 19 - Verso 36 – De Natal

Os versos 33 a 36, conforme podem ser visualizados na figura 12 que retrata
o manuscrito em forma digital, ilustram a presença de elementos marginais verticais;
no

entanto,

tais

elementos

dão

continuidade

ao

próprio

fazer

poético,

subentendendo um aproveitamento do espaço vazio.
Os versos 37 a 40, conforme constata a ilustração do texto digitalizado, figura
12, apresentam uma mudança de tonalidade; tal ocorrência induz o leitor a supor
que houve troca de instrumento (caneta), consequentemente, de cor, ou esses
versos foram elaborados num momento posterior (de tempo).
Para tornar a leitura dos dados mais compreensível, sintetizamos as rasuras e
o número de recorrências encontradas no poema “De Natal”. Para isso, nos
utilizamos da tabela a seguir.
Tabela 10 - De Natal: Tipologia geral das rasuras por ordem de recorrências
Tipologia das rasuras
Substituição
Supressão
Deslocamento
Adição
Fonte: dados da pesquisa (2011).

Ordem de recorrências
1ª.
2ª.
3ª.
4ª.

78

Em nossas análises, predominou a operação de anulação de um segmento
escrito; essa rasura se apresenta ora com o intuito de substituí-lo por outro
segmento (substituição), ora para eliminá-lo definitivamente (supressão).
Tabela 11 - De Natal: Tipologia das rasuras quanto às formas e ao espaço na folha
de papel por ordem de recorrências
Tipologia das rasuras
Riscada
Sobrescrita
Branca
Tonalidade/tempo e instrumento
Borrão
Linear
Subscrita

Ordem de recorrências
1ª.
2ª.
3ª.
4ª.
5ª.
6ª.
7ª.

Fonte: dados da pesquisa (2011).

A

observação

do

poema

“De

Natal” permite

verificarmos

que

as

reformulações realizadas pela autora do manuscrito são indicativas de que a
investigação se apresenta com complexidade, tensão, tempo, sofrimento. Esse
processo remete-nos aos versos “... trabalha, e teima, e lima, e sofre” do poema “A
um poeta”, de Olavo Bilac (1997). Essa labuta mental parece tornar gratificante o
ofício de poetizar. Por mais simples que pareça, trata-se de um processo de
edificação, um esforço e não somente uma inspiração. Apesar de aspectos
gramaticais serem relatados, subentendemos que outros valores se sobrepõem às
rasuras e geram indícios de que as marcas de autoria predominam no discurso
poético.
Nesse

poema,

o

movimento

de

reformulação

sugere

uma

diretriz

mentalmente estruturada, reforçada na repetição de rasuras que se dão com um
fluxo estável, num caminho revisitado que atesta o desejo de uma melhor forma
reveladora de uma elaboração mental. A metamorfose do processo de criação vai se
consubstanciando com o avançar do texto poético, pois as ideias estão
concatenadas no processo de elaboração e, então, o poema emoldura-se numa
estruturação que sugere ser o caminho certo para a forma poética final.
As rasuras identificadas nesse poema movimentam palavras, frases,
parágrafos representativos de dinamismos peculiares do processo de criação que
lançam-nos a vontade de entender, descobrir, desnudar o texto, esse elemento tão
significativo para reflexões sobre a noção de autoria por ser provido de um modo de

79

articulação linguístico-discursiva singular que consente a nós, pesquisadores,
aproximar a relação entre as rasuras e o processo de autoria.
4.2 Reflexões sobre as rasuras no manuscrito
No manuscrito “De Natal”, assim como em manuscritos literários, constatamos
que as rasuras podem ter diversos modos de realização, bem como podem ilustrar
pistas do fazer poético. Os indícios de rasuras gramaticais comprovam uma rápida
releitura do texto, em momento de criação; entretanto, é muito mais interessante
considerarmos as intervenções de rasuras que revelam uma preocupação com o
discurso semântico-poético para melhor entendermos as motivações subjacentes ao
fazer poético.
Esse poema resgata uma vivência do passado, de uma época natalina,
quando o sujeito-autor deixa aflorar seu sentimento para apresentar flashes de
festejos profanos experimentados com emoção por famílias de cidadezinhas de
interior. A escritora, ao tentar encontrar o fio poético que estruture a ambientação
deste poema, condensa-lhe um rico material sobre um momento genético textual,
verdadeira fábrica que retrata movimentos de reformulação em suas diversas
rasuras.
Considerações sobre diferentes tipos de rasura do manuscrito poético “De
Natal” podem constituir indícios da gênese da enunciação escrita, pois o processo
de criação reelabora o discurso da escritora num processo seletivo que gera
enriquecimento vocabular, tanto linguístico quanto para valorização de aspectos
literários, especificamente no que tange à rima. As rasuras de tonalidade/tempo e
instrumento são hipóteses de que houve um intervalo de tempo e uma troca de
instrumento (caneta) na etapa final do poema.
Versos marginais, dentre outros dados, chamam-nos a atenção com relação a
manifestações de autoria do sujeito-autor, uma vez que esse estilo de
aproveitamento do papel é representado em outros textos do corpus que constitui o
acervo referido neste estudo. Ao aplicarmos este estudo de reformulações aos
manuscritos de Da Paz Oliveira, bem como, aproximando o poema “De Natal” à
perspectiva da Crítica Genética, as reincidências e a organização em verso
permitem que consideremos a produção do próprio poema como aprimoramento do

80

sentido de um ato de criação. Nesse ponto de vista, esse manuscrito abrangeu
estudos do processo de criação.
Nesse contexto, a reescrita no poema pode ser considerada um fenômeno
social capaz de contribuir, mesmo que de forma incipiente, para pesquisas que
abranjam as Teorias da Crítica Genética, portanto, esperamos que esta pesquisa
contribua com estudos sobre os processos de reformulação textual frente às
investigações e às constatações de que as reformulações permitem à referida autora
reinventar e consolidar o seu estilo.
Este estudo aponta para afirmações de que a autoria, a partir de
reformulações, vai constituindo um sujeito como autônomo frente à sua relação
linguagem/texto, ora com interferências metalinguísticas, ora com contribuições
estilístico-literárias e até mesmo ortográficas. Tais relações contribuem com indícios
singulares em processos de reformulação e aquisição da escrita.
O fato de defendermos a abordagem da reformulação como índice de autoria
nos manuscritos literários naturalmente não tem pretensões de reduzi-la a esse
aspecto; enquanto estudo, ela pode contribuir para reflexões sobre a análise de
manuscritos, como qualquer outra obra que analise processos de escritura. Porém,
podemos concluir como a reformulação faz parte do processo de autoria tanto de
autores proficientes quanto de iniciantes. A reformulação é, pois, um processo
estruturante da escritura poética.

81

5 AUTORIA E REFORMULAÇÃO NO POEMA “A PRESSA DO TEMPO”
5.1 O termo “autoria”
A questão do processo de autoria na antiguidade só era aplicada a textos
científicos, como, por exemplo, os tratados de medicina. Os demais textos, como os
narrativos literários, cultivavam o anonimato sem constituírem problemas de
processo de autoria. Entretanto, a partir do final do século XVIII, as relações de
direitos autorais passaram a ser sistematizadas devido ao fato de alguns discursos
se tornarem transgressores com origens passíveis de punições, segundo Foucault
(1992).
Nesse contexto, o termo “autor” passou a ser usado de modo genérico em
comparação ao termo “escritor”, que passou a ser usado para nomear escritores de
arte literária e este logo ganhou supremacia relativamente ao termo “autor”, visto
que nem todo autor poderia ser chamado de escritor. Também o termo scriptor,
usado amplamente para denominar aquele que escreve, diferenciando do uso
corrente para escritor, é utilizado popularmente para nominar alguém que tenha
textos ou livros publicados. Sobre noção de autoria, Calil (2008) afirma que
a discussão em torno da noção de autoria realizada por pesquisadores em
Análise do Discurso no Brasil, que tem em Foucault (1970) seu lugar de
referência, é ampla e produtiva e, por isso mesmo, controversa e
divergente. [...] Como pode ser facilmente constatado, há duas vertentes
bastante distintas sobre a noção de “autoria” nos estudos situados nesse
campo de conhecimento. De um lado, Orlandi (1988, 1996) apresenta uma
profícua leitura dos trabalhos de Pêcheux (1975, 1983), enquanto Possenti
(2001a, 2001b, 2002) a desenvolve a partir das reflexões bakthinianas
(Bakhtin, 1953, 1963) (2008, p. 108).

Segundo Possenti (2002), o fato de Foucault não se referir à questão da
autoria em outros domínios que não sejam de uma obra ou de uma discursividade
leva certos autores a pensarem na impossibilidade de fazê-lo. Possenti introduz
nova noção de autoria à noção de singularidade aliada à questão de estilo, enquanto
que Bakhtin (1992) discute autoria como domínio da atividade discursiva no interior
de certo gênero submetido a um projeto de dizer. Todas essas visões se entrelaçam,
não em sua totalidade, mas em sua complexidade e tendem a contribuir
enriquecendo pesquisas sobre processos genéticos textuais.

82

5.2 Relação scriptor/autógrafo no processo de criação textual
Neste tópico, temos o propósito de apresentar alguns aspectos voltados para
a relação entre o scriptor e o autógrafo e o processo de criação. O enfoque dado
sobre essas relações concentra-se nas produções literárias de uma escritora
iniciante, cujas condições de produção são representativas de um “lugar social”
alicerçado de uma expectativa refletida no termo “autor” ou “escritor”, segundo Calil
(2009, p. 3).
Quanto à concepção de autor, buscamos desvendar as relações entre quem
escreve e o que é escrito através da análise dos caminhos seguidos pelo scriptor,
pelas marcas sobre o papel, representadas por rasuras, uma vez que
a rasura também se mostrou como um lugar bastante produtivo para se
discutir estas relações. Na tentativa de entender suas marcas sobre o
papel, pôde-se estabelecer pontos de reflexão sobre o que estaria
produzindo ou mobilizando as rasuras que aparecem nos textos analisados
(CALIL, 2009, p. 7).

E a partir disso, tentar representar esse processo metodologicamente, bem
como a forma “singular” como a scriptor intervém durante o processo de criação
textual e que representa sua relação com o texto, pois “como poderá ser
constatado, esse efeito está de alguma forma relacionado com alguma idéia de
volta sobre o próprio texto, colocando em questão até mesmo o que se está
entendendo por “processo de produção de texto” (CALIL, 2009, p. 7).
Assim, metodologicamente nos propomos a representar os manuscritos
selecionados na forma digitalizada, vinculando a “busca teórica do que é o autor e
suas relações com o universo de articulações possíveis em que está inserido”
(CALIL, 2009, p. 7). Para isso, coletamos os autógrafos O valor do tempo e A
pressa do tempo, da scriptor Da Paz Oliveira.
Desejamos, com esta perspectiva, levantar reflexões sobre a relação scriptor
x autógrafo x processo de criação e que também possamos contribuir para a
progressão

do

conhecimento

linguístico,

mais

especificamente

para

o

aprimoramento da compreensão das relações entre quem escreve e o que é escrito
e reformulado através de rasuras, visto que este tema ainda não fora
suficientemente explorado quanto ao scriptor adulto iniciante e suas produções
escritas engendradas num contexto literário.

83

As abordagens teóricas selecionadas para este capítulo alicerçam e norteiam
de forma consistente e sistemática a compreensão dos autógrafos e seus estatutos
teóricos na busca da construção de um reconhecimento de seu valor no âmbito da
Crítica Genética.
5.3 Embates: palavras x scriptor?
Neste ponto, tentaremos refletir o que entendemos por “autor”, seu estatuto
teórico e sua relação com o texto, através da análise das produções textuais O valor
do tempo e A pressa do tempo. Compararemos os dois autógrafos e ainda
acrescentaremos nessa contemplação a versão em nível final, versão para
publicação, após última revisão da scriptor, visto que, para Foucault,
o lugar do autor está identificado como “princípio de agrupamento do
discurso, unidade e origem de suas significações, como centro de sua
coerência”. Ele enuncia ainda que o “princípio de autoria não é válido para
todos os tipos de discursos. Somente Marx, Freud, Saussure estariam em
uma posição de “autor”, uma vez que fundam uma discursividade (apud
CALIL, 2009, p. 11-12).

A linguística saussuriana, por exemplo, toma o sujeito como aquele que
emerge entre os significantes, estando submetido à linguagem. A vertente francesa
da Análise do Discurso (AD) surgiu nas Ciências Humanas na década de 60 do
século XX e constituiu-se basicamente a partir dos estudos de Saussure, Freud e
Marx a partir do pressuposto de que não há “transparência” quer seja na linguagem,
quer seja no sujeito ou na história.
Entretanto, o posicionamento de Calil (2009) é outro ponto que vem sendo
enfocado. Através dele, entendemos melhor o princípio da relação sujeito-texto, visto
que em suas palavras
uma das poucas ressonâncias dessa reflexão sobre o autor encontra-se no
trabalho de Orlandi (1988) e Orlandi; Guimarães (1987). Procurando
entender esse “princípio” à relação do sujeito com o texto produzido [...],
esses autores dizem, ao contrário de Focault, que há um princípio geral que
rege a “função-autor”, válido e necessário para qualquer discurso, já que “a
própria unidade do texto é efeito discursivo que deriva do princípio de
autoria”(ORLANDI; GUIMARÃES, 1987): esse efeito consiste em sempre se
procurar atribuir uma provável autoria a qualquer tipo de texto (CALIL, 2009,
p. 12).

84

Sobre esses aspectos, Orlandi (apud CALIL, 2009, p. 12) trata da relação do
sujeito equacionando-o às funções enunciativas do sujeito (locutor, enunciador)
apresentadas por Ducrot (1987). Nessa perspectiva, “função enunciativo-discursiva”
do autor é a “função que o ‘eu’ assume enquanto produtor de linguagem” (ORLANDI,
1988, p. 77) motivada pela “exterioridade” e, consequentemente, pelas “regras das
instituições” e condições de produção. Ou seja, o autor é visto na perspectiva de
“posição”, “lugar social” do sujeito do discurso.
Ainda segundo Calil (2009, p. 12), esse “lugar social” de responsabilidade
está determinado pela exterioridade (condições de produção), pela posição e lugar
social do sujeito, pois
aprender a se colocar – aqui: representar – como autor é assumir, diante da
instituição-escola e fora dela (nas outras instâncias institucionais) esse
papel social, na sua relação com a linguagem: constituir-se e mostrar-se
autor (ORLANDI apud CALIL, 2009, p. 13) (grifo do autor).

Assim, entendemos que as condições de produção sofrem coerções sociais
que são representadas na relação do sujeito com a linguagem e com o contexto
sócio-histórico para que o seu discurso tenha sentido, segundo a formulação teórica
de Pêcheux (1988) que compreende o sistema linguístico e suas leis internas
dotadas de relativa autonomia e a noção de processo discursivo-ideológico que
opera sobre a base dessas leis internas. Nessa perspectiva, apreendemos que o
sujeito desta pesquisa se representa no lugar de autor que se materializa e este lhe
proporciona completude.
Para Orlandi (apud CALIL, 2009, p. 14), precisamos entender articulações
entre efeitos de unidade, completude, dispersão e incompletude do sujeito e do
sentido no processo de produção de texto para darmos conta da noção de autor
posta em discussão. Sobre esses aspectos, Calil (2009) apresenta as seguintes
condições:
Se dentro de uma perspectiva linguístico-discursiva o processo de produção
de texto só pode ser entendido na relação do sujeito com a linguagem, a
posição de autor e suas vinculações às determinações institucionais ou às
exigências
de
“responsabilidade”,
“unidade”,
“não-contradição”,
“progressão”, “duração”, “clareza”, “originalidade” só podem ser
consideradas ao tornar-se os efeitos dessa relação sobre aquele que
assume esse “lugar social” de produtor de linguagem. Assim, a formasujeito mobilizada na “posição-autor” produz um efeito de visibilidade que o
responsabiliza pelo que diz e legitima seu dizer (2009, p. 14).

85

Isso nos conduz a procurar entender e fazer uma associação do que está
determinando os movimentos do sujeito nos dois autógrafos que originaram o
poema A pressa do tempo. Neles, o processo de produção de linguagem escrita
reúne relações de posições discursivas do ponto de vista do sujeito sobre A pressa
do tempo. Este ponto de vista também é, em outras palavras, um lugar social do
sujeito.
O movimento de construção textual indica rasuras devido à busca de sentido
empregada pelo autor que troca um termo por outro, que faz um deslocamento, que
substitui uma palavra. Isso indica, evidentemente, a busca por uma estrutura que
configure um processo, que determine uma escritura lógica, que realize o scriptor na
trajetória que perfaz a criação. No embate entre as palavras e o scriptor,
A rasura aparece como uma forma de “diálogo silencioso” com algo que já
está escrito e/ou com o que falta estar lá. Um diálogo que coloca em cena
possibilidades de outros dizeres, de outros escritos através de um
movimento retroativo do scriptor sobre a própria linguagem, sobre o próprio
texto. A rasura indicia que o scriptor, em algum momento do processo de
escritura, interrompeu o percurso para voltar-se sobre o escrito para marcar,
anotar, substituir, deslocar, acrescentar, escrever de outro modo algo que
estava efetivamente escrito. Esse retorno, que pode se dar durante o “fluxo
do pluma”, como dizem os geneticistas, momento em que se está
produzindo o texto ou após uma leitura do texto já escrito, é um índice
dessa relação entre sujeito, língua e sentido. Entretanto, mais que indicar
essa relação, a rasura ilumina o funcionamento da própria linguagem sobre
si mesma, isto é, sua propriedade reflexiva. O sujeito imerso no processo é
o representante desse funcionamento, o que significa dizer que tal
funcionamento põe-se em marcha através do sujeito (CALIL, 2008, p. 5051).

Devemos buscar entender que os movimentos do sujeito no processo de
produção se perfazem sem uma preocupação em atender a relação de causa-efeito
ou a relação de autor-obra, por exemplo. A palavra poética ganha vigor e agilidade e
torna-se a verdadeira revelação da dominação do papel expressivo do poeta ao
movimentar-se inconstantemente na busca de um norte que ajude a estruturar um
verso, outro verso, até dar sentido e forma ao que o scriptor tanto labuta para
construir. Este fato representa e realiza, como consequência, o ineditismo de uma
criação textual poética que ao perfazer um desejo artístico também se perfaz como
arte representativa da labuta mental em momento de genética textual, em processo
de constituição do fenômeno linguístico.

86

5.3.1 O valor do tempo ou A pressa do tempo (primeira versão)
O autógrafo ora apresentado figura uma trajetória de um sujeito mergulhado
por um universo significativo do pensamento, representado graficamente num
processo de produção de texto, constituído por marcas de rasuras representativas
de sentido e de subjetividade, e passíveis de reflexões sobre o entrelaçamento
scriptor, autógrafo e processo de criação. Tais rasuras e reformulações parecem
servir a interesses diferentes: processos de mudança semântica, de ajustes
sintáticos, de substituições lexicais, dentre outros que podem gerar ganhos
significativos numa produção textual. Nossa hipótese é a de que as rasuras e as
reformulações que marcam o retorno do sujeito sobre seu texto podem indiciar
processos de autoria.
Figura 20 - O valor do tempo ou A pressa do tempo – autógrafo

Fonte: acervo particular da autora (2011).

87

Figura 21 – Fragmento 1 de O valor do tempo ou A pressa do tempo

Fonte: dados da pesquisa (2011).

88

Figura 22 - Fragmento 2 de O valor do tempo ou A pressa do tempo

Fonte: dados da pesquisa (2011).

89

Figura 23 - Fragmento 3 de O valor do tempo ou A pressa do tempo

Fonte: dados da pesquisa (2011).

90

Dentre as condições que diferem o manuscrito em análise de manuscritos
escolares, destacamos o fato de seu scriptor produtor não tê-lo feito na condição de
aluno, consequentemente, este produto não teve a escola como cenário
contextualizador do ato de escrever, nem teve um professor como avaliador, destino
previsível dos textos escolares.
Diferentemente desse contexto, a scriptor procura palavras no âmago da
própria intuição poética para que o processo de articulação se realize de forma
poética e com rimas. De tanto manipular a língua, acha a solução: um tom, um ritmo,
uma melodia extraídos do seu próprio “fino pensar”14.
Para Teles,
o conhecimento do poeta, a sua virtuosidade artística e a sua audácia para
a obtenção do original, do nunca dito embora conhecido, são as forças
responsáveis por uma metáfora surpreendente, por uma elisão inesperada,
por neologismos, por rimas desconhecidas, quaisquer que sejam os níveis
em que elas se manifestam no discurso poético como possibilidades
articulatórias [...] (1988, p. 112).

Existe, então, pelo exposto, um poder poético intrínseco que forma o poeta,
que o faz ativar, experimentar, enfim, corrigir formas em cada trajetória singular de
cada momento, adquiridas, sem dúvida, não só da cultura popular, pois, formas fixas
foram recursos poéticos utilizados por Camões, Gonçalves Dias, Olavo Bilac,
Raimundo Corrêa, Manuel Bandeira, dentre outros e, segundo a abordagem do
poema em análise sobre o vocábulo tempo, trata-se de um produto dedilhado em
forma de ecos rímicos, lúdicos, acomodado vinte e duas vezes no nível final
publicado em Meu Tesouro.
O poema A pressa do tempo chega a ter característica paradoxal por
apresentar ao mesmo tempo simplicidade na essência vocabular e depurada
complexidade do uso do léxico tempo, tão sublimado no poema e extraído de dentro
do próprio tempo, de modo espontâneo. A poetisa alertou que o tempo cronológico é
fugaz e se esvai e enfatizou a temática tempo com desespero, lutando com as
palavras sob a perspectiva de uma fugacidade do seu próprio tempo, conforme
podemos constatar nos vocábulos me, quero, eu, mim, colocados em uso para a
primeira pessoa do discurso. Manteve a temática como fio condutor do poema até o
14

Locução usada pela autora de Meu Tesouro num poema intitulado Meu jeito de fazer verso (p. 72,
73), em que a escritora exalta o próprio fazer poético.

91

seu final, corroborando suas palavras, como tom temático, desde a primeira versão
autógrafa.
E nesse sentido o que estava inicialmente planejado pelo scriptor pode tentar
mostrar possíveis caminhos da criação que nem o próprio autor poderia prever. Para
melhor aplicarmos essa compreensão, sugerimos a leitura das três versões do
poema em análise: as duas versões autógrafas, mais a versão final publicada.
5.3.2 O valor do tempo (segunda versão)
Contribuições advindas da Crítica Genética ajudam-nos a significar elementos
dentre as infinitas possibilidades de realização do ir e vir de uma construção textual,
na tentativa de detalhar o trabalho de construção artística que pode levar a
contribuições decisivas para o conhecimento de processos de escritura.
A variante desse poema, representada em forma digitalizada, teve o título
definido para A pressa do tempo. Isso implica compreender o título do poema
também como processo, cuja escolha é realizada por diversas circunstâncias, sejam
elas advindas de termos marcantes como o tempo passa rápido, pra quase nada dá
tempo, o tempo é veloz, o tempo já acaba, seja por uma ilusão proporcionada pela
impressão do acabamento do poema. Por fim, venceu a onipotente pressa do
tempo, talvez por ser esta a coluna cervical que deu sustentação ao poema, que
deu-lhe possibilidade de uma estrutura sólida e por ser o vocábulo que remete ao
bem sucedido tema poético. Com isso, será possível considerar que o tempo poético
já nasce imbricado ao tempo do scriptor, fato que favorece intensamente a
construção do poema, produzindo um hibridismo poético-autoral através de uma
costura quase indissociável e significativa para o poema em momento de gênese
textual.
A temática tempo, mola propulsora do poema, aparece, não como repetição,
mas numa outra situação, como personagens que se articulam entre uma história,
os quais devem ser significantes para o sujeito-autor por historicizar o fio discursivo
que está tecendo. De acordo com Orlandi,
a função-autor se realiza toda vez que o produtor da linguagem se
representa na origem, produzindo um texto com unidade, coerência,
progressão, não-contradição e fim. [...] A nosso ver, a função-autor é tocada
de modo particular pela história: o autor consegue formular, no interior do
formulável, e se constituir, com seu enunciado, numa história de

92
formulações. O que significa que, embora ele se constitua pela repetição,
esta é parte da história e não mero exercício mnemônico (1996, p. 69).

Podemos dizer também que, além de escrever sobre o tema proposto, o
sujeito produz um texto poético, modelo que ele elege para sua produção, um tipo
específico de gênero: gênero poema, com rimas que o guiam para um processo de
interpretação gráfica de movimentos singulares e ajudam-nos a escolher alguma
forma enriquecedora de reflexão sobre posição discursiva, como, por exemplo, a
escansão15, movimento de composição em esquema de rima, perceptível nas
quadras16, o que conduz à construção de um texto em que predomina a dimensão
da sonoridade rímica que norteia o leitor a identificar a intimidade do sujeito entre a
forma e o conteúdo na produção textual.
Essas considerações estão relacionadas ao que Calil (2009) destaca sobre a
questão da escrita, pois, para ele,
vale ressaltar ainda que a questão da escrita apresenta-se como um lugar
privilegiado para se falar em autoria na medida em que o “efeito de
unidade”, a ela inerente, não pode desconsiderar o movimento em direção a
uma homogeneização própria de sua especificidade (2009, p. 17).

A compreensão de processos de construção textual congrega vários aspectos
que abrangem a complexidade dos processos de escritura, desde noções e
conceitos textuais, até estruturas textuais, bem como observações de elementos
escritos, sejam palavras, rasuras, traços ou qualquer outro elemento que contribui
para a construção textual.
Assim, em consonância com a Crítica Genética, enveredaremos na análise
das duas versões dos autógrafos apresentados, além da versão final, como
contribuições para Crítica Genética.
Ao buscarmos a compreensão das estruturas que compõem os manuscritos,
percebemos, em nossa abordagem, a valorização da expressão “tempo” a partir de
sistemáticas repetições realizadas pelo sujeito (eu-poético) na tentativa de explicitar
ao leitor a sua pressa em não desperdiçar o tempo, ao mesmo tempo em que tenta
convencer o leitor de que nada deve ser adiado devido à fugacidade do tempo. Este
sujeito-autor (eu-poético) se sente tragado pelo tempo representado como um “jogo
15

Escandir ou fazer a escansão dos versos é indicar suas sílabas métricas e seus acentos,
realizando a divisão e a contagem em sílabas métricas.
16
Quanto ao número de versos, é uma estrofe constituída por quatro versos, também denominada
quarteto.

93

durante o processo de produção”, relacionando sentido, sujeito e determinação
histórica, através de aspectos que Calil (2009) ressalta da seguinte maneira:
Se, por um lado, o processo de produção de linguagem (escrita) se dá por
meio dessas relações e, por outro, o texto é visto tanto como uma dispersão
do sujeito nas posições discursivas mobilizadas, quanto como um lugar de
produção de unidade e coerência, parece ser legítimo assumir que essas
posições e os sentidos colocados em jogo durante o processo de produção
relacionam-se com o sujeito, uma vez que se supõe uma determinação
histórica (2009, p. 14).

A interpretação dada pelo sujeito ao termo “tempo” coloca-o no lugar de
alicerce fundamental: é tempo de perdoar; é tempo de viver e observar
ensinamentos religiosos para que ao chegar a hora da morte a vida já tenha
alcançado a plenitude da glória do viver bem: mar de rosas (metáfora). Essa
“constituição de um lugar de interpretação” vai moldando a relação com o
interdiscurso e com o interlocutor como um jogo que formula a condição do dizer, o
que, segundo Orlandi (apud CALIL, 2009, p. 15), “a ‘posição autor’, enquanto
constituição de um lugar de interpretação, passa a ser mais fortemente definida na
sua relação com o interdiscurso e com o interlocutor (efetivo ou virtual)”.
Um autor ao criar seu texto figura formas e marcas que constituem
peculiaridades da sua escrita numa relação interdiscursiva, o que, segundo Calil,
(2009), faculta a Orlandi (1996) afirmar que
a relação entre autor e interpretação fica determinada pela historicidade do
dizer: é preciso dizer coisas que tenham sentido (memória do dizer), que
façam parte do domínio do dizível e do interpretável, mas também que
essas coisas tenham um sentido para alguém. Aqui está em jogo, no
processo de formulação do dito, a condição de produção do dizer [...]
(CALIL, 2009, p. 15).

Os autógrafos em análise, carregados de linguagem poética, mostram,
simbolicamente, a relação vida-tempo através de uma materialização gráfica de
movimentos que produzem o fluxo do dizer numa relação entre o dizível e o dito que
podem dar acesso a certa historicidade. O valor do tempo se traduz na linguagem
literária e pode ser interrompido pela hora da morte, hora da despedida (metáfora). E
o leitor, com quem o sujeito (eu-poético) conversa, e para quem dá o recado da
pressa do tempo, é aquele para quem o texto é escrito: é constituído por
movimentos que marcam um interdiscurso.

94

Enfim, o elemento tempo, além de servir de elo, de ponto de intersecção entre
o viver e a fugacidade do tempo, pressupõe um processo que pode vincular autoria
a um jogo de movimento de conteúdo e de sentido que são veiculados por uma
cadeia sonora que recria efeito de sentido e leva a um resultado. Todos esses
aspectos destacados na apreciação do autógrafo nos despertaram melhor visão do
processo de nascimento de um texto para, a partir disso, desvelar alguns aspectos
que consubstanciam sua estruturação histórica, seu encadeamento temático, seus
sentidos denotativos e conotativos, suas metáforas, sua ordenação temporal na
relação vida-morte: oposições fundamentais que lembram o caráter passageiro da
vida. No nível do léxico, houve a apresentação do vocábulo tempo, usado como uma
marca representativa de um modo de falar poético.
Assim, em busca de uma reflexão para compreendermos as relações entre o
“autor”, seu estatuto teórico e sua relação com o texto, percebemos que não
podemos dissociar essas relações se buscamos compreendê-las através das
produções textuais e das relações de autoria. Então, achamos oportuno apresentar
os autógrafos O valor do tempo e A pressa do tempo na tentativa de melhor
elucidarmos as relações entre o “autor”, seu estatuto teórico e sua relação com o
texto, dentro da perspectiva da Crítica Genética quanto aos estudos dos aspectos de
produção textual.
A versão ora exposta retrata uma reescrita. Neste caso, para Grésillon (2007),
esta versão
coincide com o que chamamos de “forma imaterial” da rasura: sem rasurar,
reescreve-se em um novo parágrafo ou em um novo fólio; pode-se até
mesmo reescrever o conjunto de um texto com dezenas de anos de
distância (2007, p. 101).

“Como saber o que virá à memória do escritor entre um episódio e outro do
seu relato, entre uma figura e outra do seu poema?” “Qual o segredo da composição
de uma obra?” (WILLEMART, 1993, p. 15). A partir dessas reflexões, poderemos
nos guiar por um dos pressupostos da Crítica Genética que é a relativa autonomia
conferida a cada esboço de um manuscrito, visto que
o leitor tradicional traria perda à sucessão temporal de um esboço, cujo
caráter evolutivo obrigatório lhe é atribuído pelo leitor, que tendia a julgar
menos perfeitas as versões anteriores de uma série, como se toda correção
tivesse levado o escritor, necessariamente, à melhor forma (WILLEMART,
1983, p. 12).

95

Figura 24 - A pressa do tempo – autógrafo/reescrita

Fonte: acervo particular da autora (2011).

5.3.3 A pressa do tempo: singularidade e subjetividade
Alguns aspectos que foram até aqui discutidos remetem aos estudos sobre a
relação sujeito-língua (CALIL, 2008, p. 115) que podem ser identificados no poema
em estudo em que o processo de produção escrita é revisitado para que o vocábulo
tempo cumpra a função preconcebida pela escritora: o entrelaçamento entre os
sentidos denotativo e metafórico.
A versão final publicada no livro intitulado Meu Tesouro: verso e prosa (p.
257), concretizada num processo sócio-histórico em que há um movimento
constante de criação e reformulação e representativa de um processo discursivo de
construção do pensamento da escritora, bem como de um processo linguístico de
produção textual instituído de tensão, é, indubitavelmente, um desafio vencido,
produzido de forma natural e gradativa, com originalidade e criatividade.

96

Através das duas versões manuscritas pela scriptor buscamos mostrar
possíveis caminhos da criação, visto que a obra publicada é o momento de
suspensão do processo em que o autor “investe a sua obra do status de acabada e
a concebe à leitura de outros”, o que, segundo Willemart (1999, p. 199), somente o
texto publicado apresenta a estrutura determinante do texto e através do estudo das
várias versões pode ser detectada a sua elaboração.
Abaurre,

Fiad

e

Mayrink-Sabinson

investigam

singularidade

e

heterogeneidade em reformulações em produções textuais. Seus estudos permitemnos refletir que
trabalho de modificação de algo anteriormente escrito sob forma diversa
esconde frequentemente limitações as mais variadas, reveladoras das
singularidades dos sujeitos e da relação por eles estabelecida com a
linguagem (1997, p. 24).

Desse modo, argumentamos que as diferentes versões textuais que
conduzem a uma versão “acabada” podem justificar a dedicação do autor, senhor de
suas escrituras, à construção de um texto que tenha feições que lhe agradem.
Mesmo que não constatemos explicitamente, não podemos negar que o contexto
histórico-social, a cultura, a tradição, a condição de produção dão dimensão e forma
ao manuscrito visto que estes elementos aprisionam o sujeito ao que está sendo
produzido. A subjetivação presente pode garantir singularidade, mas não pode negar
as influências exteriores. Vejamos, a seguir, a versão final publicada de A pressa do
tempo.

97

Figura 25 - A pressa do tempo – versão final publicada

Fonte: Oliveira, Da Paz. Meu Tesouro: verso e prosa. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2011, p.
257.

98

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar das mais variadas abordagens e contribuições linguísticas no que se
refere aos estudos de análise da gênese textual e, em especial, à reformulação
textual, percebemos que esta última não fora ainda suficientemente problematizada
no que tange ao escritor (adulto) em seu discurso escrito. Assim, a proposta desta
pesquisa partiu da necessidade de analisarmos a reformulação como índice de
autoria empregada pela escritora Da Paz Oliveira em seus manuscritos para
compreendermos índices de autoria em manuscritos poéticos e investigarmos as
marcas concretizadas nas produções textuais selecionadas. Para isso, as nossas
investigações tiveram como objeto as reformulações de operadores linguísticos, por
as considerarmos de significação para esse processo.
Nesta pesquisa estudamos a reformulação como índice de autoria em
manuscritos poéticos. Deste lugar, emergiu a expressão linguístico-literária de um
conjunto de obras representativo de um momento de criação de uma escritora
pernambucana. Tal estudo privilegiou determinados componentes, à luz da
orientação de diferentes teóricos, que enriqueceram as análises sobre a revelação
da capacidade criadora de uma escritora nas perspectivas textual (texto e contexto),
genética (criatividade), funcional (necessidades e funções comunicativas) e
estilística (perspectiva estrutural à linguagem: registros, variedades de língua e sua
adequação às situações comunicativas).
Estudos que abordam aspectos textuais representam, desde remotas datas,
componentes de reflexão de linguistas, críticos literários, psicólogos, jornalistas,
pedagogos, fonoaudiólogos, dentre outros; também, seus códigos teóricos têm sido
expressivamente investigados na perspectiva da Genética Textual. Os estudos
sobre manuscritos ganham cada vez mais espaço em pesquisas universitárias visto
que almeja valorizar não somente este precioso objeto cultural, mas, sobretudo,
suas relações com as coerções próprias dos processos de ensino e aprendizagem.
As reflexões apresentadas nesta pesquisa fundamentaram dimensões linguísticas e
cognitivas do processo de escritura em condição de produção naturalística.
Este estudo é mais um instrumento de abordagem que se junta à Crítica
Genética para ganhar significação sobre a reformulação em manuscritos poéticos e
contribuir, mesmo que de forma incipiente, com pesquisas neste campo. Assim,
buscamos reconstruir a atuação de uma escritora iniciante que, ao produzir e

99

retificar seu texto, parece já ter ciência do que é o texto e conhecimento do que
subjaz a sua construção; parece já ter ciência, também, da interdependência e
complementaridade entre autor e obra. Com isso, almejamos asseverar que, por trás
de toda etapa do procedimento da escrita, há uma intenção enunciativa de uma fala
que busca explicitar o caráter dialógico da linguagem. Escrever envolve, assim, além
dos conhecimentos cognitivos e linguísticos, conhecimentos sociais.
Após as análises dos manuscritos realizados pela scriptor Da Paz Oliveira,
percebemos que eles, aliados à investigação, à análise e ao embasamento teórico
da nossa pesquisa, oferecem referenciais que contribuem para fazer desse estudo
um momento de reflexão relacionado ao processo de gênese textual analisado a
partir de reformulações, uma vez que nas nossas investigações apreendemos que o
processo de reformulações realizado em manuscritos poéticos, numa relação
entrelaçada entre scriptor, autógrafos e linguagem, pode resultar em significativas
descobertas sobre processos de construção e reconstrução textual.
Igualmente, a contribuição que esta investigação pretende trazer para o
campo da aquisição, do processamento e do desenvolvimento da escrita e para a
educação está associada ao norteamento de questões relevantes à apropriação de
estratégias e/ou habilidades de reformulações da escrita.
Esperamos que este estudo contribua para uma mudança nas práticas
textuais no sentido de que o uso da reformulação durante o processamento da
escrita e depois dele seja tido como uma estratégia eficaz para a boa produção
textual, visto que as rasuras diversas realizadas nos manuscritos analisados
permitem que constatemos as etapas de um processo de criação, o que indicia que
as reformulações completam o processo de autoria tanto dos autores consagrados
quanto dos iniciantes. Por isso, vemos reformulações como um processo
estruturante da escrita em produções manuscríticas de autores iniciantes. Por fim,
ressaltamos que as reformulações percebidas nos autógrafos analisados reforçam o
nosso posicionamento de que processos de escritura em condição naturalística
podem ser objeto didático, bem como podem valer de parâmetros para estudantes
compreenderem processos de aquisição e desenvolvimento da escrita.

100

REFERÊNCIAS
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março de 2012.

103

ANEXOS

1 GLOSSÁRIO DE TERMOS ESPECÍFICOS
2 CAPA DO LIVRO “MEU TESOURO: VERSO E PROSA”

104

ANEXO 1: GLOSSÁRIO DE TERMOS ESPECÍFICOS
A
Alógrafo: cópia do texto de um autor manuscrita por outra pessoa.
Ante-texto: tradução do francês avant-texte; conjunto de todos os testemunhos
genéticos escritos conservados de uma obra ou de um projeto de escrita, e
organizados em função de uma cronologia das sucessivas etapas da sua escrita.
Ver dossiê genético e processo genético.
Autógrafo: manuscrito da mão do autor (por oposição a alógrafo).
Autor: instância que assina e assume um texto, por manifestação ou atribuição,
embora, ao longo da história da escrita, a acepção da palavra tenha variado
substancialmente. Na Idade Média, diferentes funções organizam-se em torno do
texto antigo. Destaquemos o scriptor, que apenas faz cópias, e o autor, que escreve
em seu próprio nome, embora se apoie constantemente em outras autoridades.
Depois do Iluminismo e, sobretudo, do Romantismo o autor ganha uma tal dimensão
que passa a centrar toda a crítica textual, regendo todas as tarefas de fixação e
disposição do texto em nome das suas intenções finais.
B
Bifólio: suporte de escrita obtido a partir de uma folha (ou fólio) dobrada.
C
Caderno: bifólios, dispostos por encasamento ou encarte, que constituem um livro.
Um caderno é bínio se for constituído por dois bifólios, terno se por três, quaterno se
por quatro, quínio se por cinco etc. A designação que se consagrou pode ter a ver
com uma composição tradicional de quatro bifólios.
Codicologia: disciplina que estuda o códice nas perspectivas material (suporte,
tinta, letra, cadernos, encadernação), histórica e cultural (vs. bibliografia material e
manuscritologia).
Cópia: processo de reprodução de um texto, a partir de um exemplar modelo, pela
mão do autor ou de um copista, e que constitui um novo testemunho. A noção
essencial é a de que, sempre que é feita, introduz erros novos.
Critérios de transcrição: conjunto das regras e procedimentos adotados na
transcrição de um texto (ortografia, pontuação etc.), que devem ser devidamente
descritos e justificados.
Crítica genética: crítica textual aplicada a conjuntos complexos de manuscritos
autógrafos (notas, esboços, versões transitórias, cópias a limpo e texto definitivo),
com o objetivo de estudar e determinar o processo de gênese do texto neles escrito

105

e reescrito, dando-se especial atenção aos aspectos materiais que a documentam
(marcas de manipulação autógrafa).
Crítica textual: disciplina que tem por objetivo reproduzir o texto na forma do
original ou equivalente, eliminando para isso as intervenções espúrias da tradição
(quando se trata de textos antigos), ou, nos casos em que existam autógrafos e
primeiras edições (textos modernos), na forma que é definida pelo editor crítico
como melhor correspondendo à vontade do autor.
Crítica textual moderna: modalidade da crítica textual aplicada a textos com
original disponível, com o objetivo de o editar, corrigindo, se for o caso, os erros
introduzidos na tradição impressa.
Crítica textual tradicional: modalidade da crítica textual aplicada a textos com
original ausente, com o objetivo de o reconstituir, eliminando os erros introduzidos
na tradição.
D
Deslocamento: processo de transferência, no espaço, de elementos textuais,
efetuada geralmente no momento de escrita, quando o copista procura compensar
um erro de cópia resultante de um salto de igual para igual no sentido progressivo.
Diplomática: disciplina que estuda os manuscritos solenes e fontes documentais ou
diplomas. Termo criado em Paris, nos finais do séc. XVII, por Dom Jean Mabillon.
Discurso interior: sequência de palavras e de frases – ou nó nocional gerador –
que o autor concebe no seu espírito, antes de o fixar pela escrita.
Dossiê genético: ver processo genético e ante-texto.
E
Ecdótica: termo cunhado por Henri Quentin para designar o conceito comum de
crítica textual (termo mais vulgarizado); as duas designações coexistem.
Edição: [1] qualquer cópia de um livro feita a partir de uma mesma composição
tipográfica, incluindo todas as impressões, tiragens e estados daí resultantes. [2]
Conjunto de operações filológicas necessárias para escolher, fixar e anotar um texto,
inédito ou édito, preparando-o para publicação num determinado circuito de leitura –
isto é, para o oferecer a um tipo caracterizado de leitor.
Edição autêntica: a lição do original. Sempre que num dado lugar de uma tradição
os vários testemunhos apresentem lições variantes entre si, é autêntica a que
corresponde à do original, sendo as restantes inautênticas.
Edição crítica: reprodução do texto do autógrafo (quando existente) ou do texto
criticamente definido como mais próximo do original (quando este não existe).

106

Edição crítico-genética: edição que combina os objetivos e os métodos da edição
crítica e da edição genética: por um lado, reproduz o texto que o seu responsável
considera criticamente como contendo a última vontade do autor, registrando todas
as intervenções do editor e, no caso de textos já publicados e que originaram
tradição, elaborando um aparato de variantes da tradição; por outro lado, faz a
recensão de todos os manuscritos relacionados com o texto, classificando-os,
organizando-os e descrevendo-os, registrando em aparato genético as sucessivas
alterações autorais, lugar a lugar e testemunho a testemunho, utilizando para isso
um dispositivo técnico que permite ao leitor reconstituir a gênese do texto e,
eventualmente, no caso em que o texto não foi claramente acabado pelo autor, fazer
a escolha de cada uma das variantes alternativas.
Edição diplomática: reprodução tipográfica rigorosa da lição de um testemunho,
conservando todas as suas características (erros, lacunas, ortografia, fronteiras de
palavra, abreviaturas etc.). Também se diz edição paleográfica. Está em desuso
porque a reprodução fotográfica tem tomado o seu lugar (esta tem, contudo, alguns
inconvenientes também).
Edição genética: edição que apresenta, sob forma impressa e na ordem
cronológica do processo de escrita, o conjunto dos documentos genéticos
conservados de uma obra ou de um projeto, anotados de modo a perceber-se o
processo da sua escrita.
Edição paleográfica: ver edição diplomática.
Edição sinóptica: edição que reproduz, lado a lado, as lições de pelo menos dois
diferentes testemunhos, com o objetivo expresso de as comparar.
Encadeamento dos testemunhos: processo de relacionamento cronológico e de
grau de parentesco entre os vários testemunhos (num processo genético ou numa
tradição).
Entrelinha: espaço em branco existente entre duas linhas de texto; nos manuscritos
(sobretudo nos modernos, mas também nos antigos), este espaço é frequentemente
usado para introduzir correções ou acrescentos ao texto escrito na linha.
Esboço: manuscrito que contém uma forma ainda muito precoce do texto, mas
prenunciando já a sua forma final.
Escriba: agente que executa transcrições ou ditados manuscritos de textos; o termo
aplica-se geralmente aos artífices do livro antigo e, por vezes, coincide com o de
copista.
Escritor: [1] o que escreve; [2] autor de composições de qualquer gênero literário.
Estatuto de manuscritos de trabalho: conjunto de manuscritos de um escritor; tais
manuscritos catalogados compõem o conjunto de documentos genéticos ou avanttexte de uma obra literária.

107

Espaço gráfico: espaço da página escrita sobre a qual se distinguem espaços em
branco e significantes gráficos; o espaço gráfico de uma página impressa é o
mesmo no interior de um livro; o de um maço de manuscritos pode variar de página
para página.
Exemplar: [1] manuscrito modelo do qual se transcreve o texto; [2] manuscrito
copiado a partir de um modelo ou apógrafo.
F
Filologia: disciplina que tem por objetivo a reprodução ou a reconstrução dos textos
do passado.
Fólio: designa uma "folha"; suporte em papel de formato variável, cujas faces se
designam por reto e verso; na tradição do livro manuscrito, o fólio, de grande
formato, foi dobrado em dois, em quatro ou em oito antes de chegar ao formato de
códice.
G
Gênese: história do nascimento e do devir escrito de uma obra, desde os seus
primeiros esboços escritos até a sua última forma atestada.
I
Incipit: início de um texto. Termo também usado para referir, usando as suas
primeiras palavras, um texto desprovido de título.
Inédito: em absoluto, qualquer texto não publicado; aplica-se correntemente a
textos não publicados em vida do autor. Opõe-se a texto édito.
Instrumento de escrita: qualquer utensílio usado para escrever ou desenhar signos
gráficos sobre um suporte: estilete, pena, pena de aço, qualquer tipo de lápis,
esferográfica etc.; a máquina de escrever e o computador são igualmente
instrumentos de escrita.
ISBN: International Standard Book Number – é um sistema que identifica
numericamente os livros segundo o título, o autor, o país e a editora,
individualizando-os inclusive por edição.
M
Manuscrito: todo documento no qual seja possível encontrar um traço do processo
de criação e não necessariamente os manuscritos autógrafos.
Manuscrito autógrafo: manuscrito composto pela mão do próprio autor (do próprio
punho do escritor).
Manuscrito-base: [1] o manuscrito cuja lição é adotada, em detrimento das lições

108

de outros manuscritos; [2] o manuscrito do qual o amanuense fez o fundamento da
sua edição.
Manuscrito eletrônico: texto escrito pessoalmente pelo autor utilizando
instrumentos e suportes eletrônicos (processador de texto, disco magnético etc.).
Manuscrito moderno: termo que designa os manuscritos que fazem parte de uma
gênese textual atestada por uma diacronia de testemunhos sucessivos e que
expõem o trabalho de escrita de um autor; ao contrário do manuscrito antigo, que
tinha por função assegurar a circulação dos textos, o manuscrito moderno é
normalmente um escrito que prepara a produção futura do livro.
Manuscritologia: área científica que tem como objeto o manuscrito moderno
autógrafo enquanto tal, incluindo os dactiloscritos e os impressos, com marcas
manuscritas ou não, que integram o processo genético da escrita, rasura, reescrita
ao longo da produção de um dado texto (vs. codicologia e bibliografia material).
Metalinguagem: [1] Linguagem que se utiliza para descrever outra linguagem ou
qualquer sistema de significação; [2] Linguagem que o crítico literário utiliza para
investigar as relações e as estruturas presentes numa obra.
Momento genético: estado de um texto numa determinada gênese, ou processo
genético. De acordo com o método de trabalho do autor, há certas operações
(linguísticas ou estilísticas) que tendem a ocorrer num momento específico do
processo.
N
Nível final: fase do processo genético do texto documentada no último testemunho
em que o autor interveio e que se pode considerar como o texto definitivo.
Nível terminal: fase do processo genético do texto documentada no último
testemunho em que o autor interveio; distingue-se do nível final por se considerar
que o autor abandonou o texto antes de o considerar terminado.
Notas: elementos acrescentados ao texto pelo editor, ou pelo autor numa fase
posterior à escrita ou à primeira edição, e que esclarecem sentidos, tiram dúvidas,
indicam fontes, contextualizam em termos histórico-culturais, referem leituras
anteriores etc.
O
Obra: impresso não periódico; resultado concreto da produção literária, científica ou
artística.
Original: texto escrito pelo autor ou por ele revisto e sob a sua responsabilidade
publicado; tanto pode ter a forma de um manuscrito autógrafo como de um
dactiloscrito ou de um impresso.

109

P
Página: cada uma das faces de uma folha ou fólio sobre a qual se escreve.
Paleografia: disciplina que estuda a história e a tipologia dos sistemas gráficos das
escritas antigas, nomeadamente os aspectos que têm a ver com a decifração;
embora se aplique aos textos antigos, com o desenvolvimento dos estudos na área
da crítica textual moderna e genética, o seu âmbito alargou-se aos manuscritos
modernos e contemporâneos.
Palimpsesto: Papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado para dar lugar a
outro; atualmente pode-se decifrar o primitivo mediante a fotografia com raios
ultravioleta.
Passar a limpo: fazer uma cópia final sem rasuras nem correções.
Processo genético: conjunto das operações que conduzem ao texto final (ou ao
seu nível terminal), observável apenas através dos conjuntos de manuscritos
autógrafos deixados pelo autor; estes conjuntos são classificados em função da
cronologia das suas fases sucessivas. O mesmo que gênese e dossiê genético.
Prototexto: documento autógrafo.
R
Rascunho: manuscrito autógrafo de trabalho, integrando um momento primitivo do
processo genético do texto, apresentando, por isso, normalmente, marcas físicas de
manipulação autoral (correções, reescritas, acréscimos etc.).
Rasura: operação de anulação de um segmento escrito, seja para o substituir por
um outro segmento (substituição), seja para o eliminar definitivamente (supressão).
Reescrita: [1] operação que consiste em voltar a escrever um texto, ou parte dele,
que já fora escrito, na sequência de alterações introduzidas. [2] Termo que, segundo
a perspectiva da crítica genética, pode substituir-se ao termo variante.
Regularização: operação que consiste em uniformizar, submetendo-as ao mesmo
critério, as alternâncias verificadas no interior de um mesmo paradigma gráfico.
Riscado: traço ou traços que suprimem letras, palavras ou mesmo grandes porções
de texto. É usado nas operações de supressão e de substituição.
S
Scriptor: [1] é um espaço em que se fundem “aquele que escreve” e “aquele que
lê”, enredado por forças de diferentes ordens (linguísticas, discursivas, culturais,
históricas) que convergem no texto, produzindo-o (CALIL, 2008, p. 20). [2] termo
utilizado para denominar aquele que escreve, diferenciando do uso corrente para
escritor, utilizado popularmente para nominar alguém que tenha textos ou livros
publicados.

110

Scriptorium: dependência de uma instituição eclesiástica onde eram produzidas
cópias manuscritas de livros.
Sistema gráfico: conjunto lógico de símbolos utilizados para representar sons préexistentes.
Sistematicidade da assistematicidade: designação utilizada para descrever
situações em que uma dada forma gráfica não ocorre obrigatoriamente em
determinados contextos, mas, quando ocorre, ocorre geralmente num contexto
determinado.
Substituição à frente: designa o processo de substituição, pelo autor, de elementos
textuais em que o substituto se coloca à frente do substituído; uma vez que se
verificou no momento da escrita, é um fenômeno de substituição em curso de
redação.
Substituição na entrelinha: designa o processo de substituição, pelo autor, de
elementos textuais em que o substituto se coloca na entrelinha por cima do
substituído (raramente na entrelinha inferior), em virtude de o espaço à frente já
estar ocupado; por isso, é um fenômeno de substituição de segundo momento.
Substituição por sobreposição: designa o processo de substituição, pelo autor, de
elementos textuais em que os traços gráficos do substituto adaptam todos ou alguns
dos do substituído; na prática, a nova lição ocupa o espaço da anterior.
Suporte: material que veicula a lição. Designa quer a tinta utilizada quer o material
sobre o qual se escreve: pedra, metal, madeira, cera, pele, papiro, pergaminho,
papel, acetato, fita e disco magnéticos etc.
Supressão: ato de eliminar um elemento introduzido por engano na cópia. Para a
crítica genética, designa o processo de eliminação, pelo autor, de texto já escrito,
através de rasura ou riscado. Pode ser materializada ou não: quando o autor elimina
texto por riscado, a supressão é materializada; mas quando o faz na passagem de
um testemunho genético para o que se lhe segue no processo, é não materializada.
T
Testemunho: manuscritos ou impressos que transmitem a obra. Designa o
exemplar de um texto com todas as características próprias: suportes, lições,
variantes.
Texto: material semiótico delimitado (por exemplo, os signos da língua natural), do
qual são determináveis um princípio e um fim, com uma sequência ou uma extensão
correspondendo a dimensões muito variáveis (que, por exemplo, tanto podem
coincidir com uma frase como com um livro inteiro).
Tradição: totalidade dos testemunhos, manuscritos ou impressos, conservados ou
desaparecidos em que um texto se materializou ao longo da sua transmissão. Pode
indicar dois conceitos diferentes: 1) conjunto de lições que caracterizam um

111

manuscrito ou família de manuscritos; 2) conjunto de testemunhos de uma obra,
sejam eles manuscritos ou impressos.
Transcrição: processo de produção de um novo testemunho de um texto, feito de
acordo com critérios previamente definidos, tendo em conta as características do
texto e do público a que se destina; aplica-se, geralmente, no âmbito da elaboração
de edições críticas.
Transcrição linearizada: reprodução mecânica de um manuscrito com todos os
seus acidentes genéticos, mas sem respeitar a respectiva topografia; para que o
leitor possa ficar com uma ideia exata desta topografia, são usados sinais
convencionais devidamente descodificados (indicando, por exemplo, se um
determinado acrescento está na margem ou na entrelinha, ou que uma dada
alternativa não solucionada foi escrita depois de uma outra para o mesmo lugar).
Esta operação já é o resultado de um trabalho crítico, uma vez que o transcritor teve
que, previamente, interpretar os dados existentes no manuscrito.
V
Variante: lição divergente, num dado lugar do texto, entre dois ou mais
testemunhos.
Variante de autor: unidade verbal que difere de uma outra forma, anterior ou
posterior; diferentes versões de um texto distinguem-se pelas suas variantes; a
noção de variante supõe em princípio uma versão considerada como referência; é
tendo-a em conta que numa edição crítica se pode estabelecer um aparato de
variantes.
Versão: estado de um texto que considera todas as variantes nele introduzidas, num
processo de cópia, pelo autor ou por alguém autorizado, em oposição ao estado
anterior e a eventuais estados posteriores resultantes de novas reformulações;
qualquer uma das versões é um original.
Verso: face posterior de um fólio; num livro ou caderno abertos, é a página da
esquerda.

112

ANEXO 2: CAPA DO LIVRO “MEU TESOURO: VERSO E PROSA”

113

APÊNDICES
1 APÊNDICE A – AUTORIZAÇÃO PARA DIVULGAÇÃO DE IMAGEM DE TEXTOS
AUTÓGRAFOS, OBJETO DE PESQUISA DE DISSERTAÇÃO
2 APÊNDICE B – AUTORIZAÇÃO PARA DIVULGAÇÃO DE NOME PRÓPRIO
DEVIDO AO ESTUDO DE TEXTOS AUTÓGRAFOS, OBJETO DE PESQUISA DE
DISSERTAÇÃO
3 APÊNDICE C – AUTORIZAÇÃO PARA DIVULGAÇÃO DE QUALQUER PARTE
DA OBRA MEU TESOURO: VERSO E PROSA REPRODUZIDA TOTAL OU
PARCIALMENTE

POR

SISTEMAS

GRÁFICOS,

MICROFÍLMICOS,

FOTOGRÁFICOS, REPROGRÁFICOS, FONOGRÁFICOS E VIDEOGRÁFICOS
DEVIDO À PESQUISA DE DISSERTAÇÃO INTITULADA A REFORMULAÇÃO
COMO ÍNDICE DE AUTORIA: UM ESTUDO NOS MANUSCRITOS POÉTICOS DE
DA PAZ OLIVEIRA

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