Edvaldo Francisco do Nascimento
Título da dissertação: DELMIRO GOUVEIA E O PROCESSO EDUCACIONAL DESENVOLVIDO NO NÚCLEO FABRIL DA PEDRA, NO SERTÃO DE ALAGOAS. (1902 – 1926).
EDVALDO FRANCISCO DO NASCIMENTO.pdf
Documento PDF (4.2MB)
Documento PDF (4.2MB)
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CENTRO DE EDUCAÇÃO
MESTRADO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA
EDVALDO FRANCISCO DO NASCIMENTO
DELMIRO GOUVEIA E O PROCESSO EDUCACIONAL DESENVOLVIDO NO NÚCLEO
FABRIL DA PEDRA, NO SERTÃO DE ALAGOAS.
(1902 – 1926).
MACEIÓ AL
2012
EDVALDO FRANCISCO DO NASCIMENTO
DELMIRO GOUVEIA E O PROCESSO EDUCACIONAL
DESENVOLVIDO NO NÚCLEO FABRIL DA PEDRA, NO SERTÃO DE ALAGOAS.
(1902 – 1926).
Dissertação apresentada ao curso de Mestrado
em Educação Brasileira do Centro de Educação
da Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do título de
mestre.
Orientador: Prof. Dr. Elcio de Gusmão Verçosa.
Maceió – AL
2012
Antes de mais nada, ao povo do Sertão de
todas as latitudes e longitudes deste imenso
país, razão principal deste estudo, sobretudo
porque, historicamente, tem tido seu acesso
cerceado ou limitado à educação formal e,
também, porque faço parte dessa gente.
À Idnelma Rocha,
à Professora Drª. Graça Loiola
e ao Professor Dr. Elcio de Gusmão Verçosa,
meu orientador,
pelo que representam na minha caminhada
como pesquisador no espaço da Academia e
fora dele.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
Muitos foram os que me estenderam as mãos para que levantasse sempre
que tropeçava e caía. Muitos foram os que tiraram as vendas que impediam que eu
enxergasse o mundo com a capacidade de refletir, decidir e opinar. Muitos foram os
que me mostraram os caminhos para que pudesse escolher aquele a seguir.
Ao longo de minha caminhada, muitos daqueles nos quais me espelhava,
partiram. Outros seguiram novos caminhos, mas todos deixaram em mim um pouco
de si.
Agora, se, com muito orgulho, sigo em frente, cumpre-me, antes de mais
nada, agradecer, especialmente à minha mãe, Maria Cícera, ao meu pai, José
Francisco e aos meus irmãos Evaldo, Edson, Ednaldo e Erivelton, Jackson,
Franclérison e Franciara.
Agradeço, igualmente a Idnelma e Edilene, mães exemplares que se
dedicam, nas minhas ausências, a cuidar – mais do que habitualmente cuidam - de
Dandara e Eloísa, minhas jóias preciosas, pelas quais nutro imenso e inesgotável
amor.
Ao Padre Eraldo Cordeiro, a Oberman Alves Silva, a Marconi Freire, a Alaíde
Leal, a Alba Correia,
a Estevão Oliveira, a Amaro Hélio Leite, a Gilberto Geraldo Ferreira, a Luis
Abílio de Souza Neto (in memoriam), a Marcelo da Silva Lima, a Antonio Leal Rocha
(in memoriam), a Elizeu Gomes, a Tairone Feitosa,
a Sônia Lucena, a Fernando Aldo (in memoriam), a Ambrósio Queiroz (in
memoriam), a Maria Helena Gouveia (in memoriam), a Michael e Bruna Gouveia, a
Jayme Lustosa de Altavila, a Alba e Abel Barreto, a Sérgio Xavier, a Sérgio Moreira,
Moisés Aguiar, Márcio Pinto, Ronaldo Melo, a Edileuza Patriota, a Alderiva Santana,
a Liciane Peixoto,
A Adair Nunes, a Dorival Oliveira, a David Roberto Bandeira da Silva, a Enio
Lins, a Maikel Marques, Fernando José da Silva, a João Paulo Maranhão Aguiar,
companheiros de caminhada, agradeço, igualmente, pela prestimosa colaboração.
A Frederico Pernambucano de Melo, a Moacir Medeiros de Santana,
à Professora Drª. Telma de Barros Correia e ao Professor Dr. Dilton Cândido
Santos Maynard, que foram minha inspiração para que procurasse conhecer sempre
mais Delmiro e sua trajetória no sertão de Alagoas.
Por fim, propositalmente, a minha imensa gratidão pela oportunidade e pela
presteza que tive do meu orientador, Professor Elcio de Gusmão Verçosa, ser
humano de muitas qualidades, mas, principalmente, capaz e fraterno. Ele e eu
sempre compartilhamos com Elcio Verçosa Filho e Ivanilda Verçosa, os nossos
momentos de reflexão e aprendizado.
RESUMO
Este texto constitui o relatório de uma pesquisa cujo tema central é a trajetória de
Delmiro Gouveia como industrial e “civilizador”, no núcleo fabril de Pedra, situado no
alto sertão de Alagoas. Considerando o período que vai de 1902 a 1926, em que
Gouveia e, depois, seus descendentes, atuaram, primeiro no beneficiamento e
comércio de peles, e depois na montagem de uma usina hidrelétrica e uma fábrica
de linhas de coser, o estudo analisa, de modo particular, o processo de socialização
de trabalhadores rurais do sertão de Alagoas e dos Estados circunvizinhos para a
vida urbana e fabril. Esse processo de incorporação de massas rurais à indústria,
denominado, frequentemente, por muitos, como “processo civilizatório”, por conta de
ser tomado como modelo desejável de mentalidade e conduta para o operariado,
aquele adotado pela indústria europeia e estadunidense, e que eu designo aqui
como “educacional”, é considerado levando-se em conta as políticas educativas
desenvolvidas na Pedra, as quais são vistas à luz das ciências sociais e da
pedagogia, tematizadas e postas em prática no Brasil no mesmo período. Delmiro
Gouveia é olhado aqui como aquele que, com a construção de um núcleo fabril,
iniciou um ciclo de desenvolvimento industrial e de urbanização de curta duração,
mas, que ainda hoje é descrito como modelo de capitalismo progressista e civilizado
por visitantes da Pedra, e tomado por intelectuais, jornalistas, políticos e escritores
de várias vertentes ideológicas como exemplo de experiência desenvolvida no
sertão, digna de ser admirada e seguida em todo o Brasil, na Primeira República,
como nos dias atuais. É feita, nesse trabalho, a análise de princípios e práticas
escolares, a par da consideração da imposição de novos hábitos e os modos de
torná-los efetivos, buscando entender seus efeitos sobre o próprio sertão e seus
habitantes, no contexto da República Velha, enquanto são problematizados os
ideários educacionais republicanos, os conceitos vigentes sobre o sertanejo e o
sertão e o processo de escolarização desenvolvido no sertão de Alagoas, nas
primeiras décadas do Século XX.
PALAVRAS-CHAVE: Delmiro Gouveia. República. Processo civilizatório.
Educação. Sertão alagoano.
ABSTRACT
This text is the final report of a research effort on Delmiro Gouveia as industry chief
and “civilizing” agent for the Vila da Pedra, in the Alagoas Hinterland. Covering the
period from 1902 through 1926, when Gouveia and, after him, his descendants, were
active first in the skin trade and then in the building of a hydroelectric plant and the
incorporation of a thread factory, this study analyses the process of urbanization and
factorization of the rural workers of the Sertão of Alagoas and the neighboring states.
This process of transplanting the rural masses into the industrial way of life, lauded
by many as a “civilizing process” for attending to the mind-frame of the European and
American proletariat taken as a model, and which I’d rather call “educational”, is
viewed from the perspective of the educational policies effectively implanted at
Pedra, which in their turn are viewed in the light of the social sciences and the
pedagogy then thought and practiced in Brazil. Delmiro Gouveia is thus viewed as
one who, by building up an industrial complex, was responsible for kick starting a
short-lived cycle of industrial development and urbanization which is, nevertheless,
described up until now by visitors and students of the phenomenon (intellectuals,
journalists, politicians and authors of almost every ideological bent) as a model of
progressive and civilized (humane) capitalism worthy of admiration and imitation all
over Brazil then and now. This study pursues these goals through the analysis of
School principles and practices as well as the imposition of new habits and of the
ways of making them effective, trying to understand their effects on the Hinterland
and its inhabitants in the Old Republic against the backdrop of the republican
educational ideals, the prevailing concepts regarding the hinterland man and country
and the processes of schooling in Alagoas in the first decades of the 20th Century.
Key-Words: Delmiro Gouveia. Republic. Civilization process. Education. Alagoas
Hinterland
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – l Leonila Gouveia e José Vicente Meira – Delmiro, 4 anos de idade.. 39
Figura 2 – Delmiro Gouveia com, aproximadamente, 10 anos de idade.............. 40
Figura 3 – Vila Anunciada – o palacete de Apipucos............................................. 43
Figura 4 – Delmiro Gouveia aos vinte e dois anos de idade.................................. 45
Figura 5 – Mercado Coelho Cintra, conhecido como Mercado do Derby.............. 47
Figura 6 – Grande Hotel Internacional do Recife.................................................. 48
Figura 7 – Francisco de Assis Rosa e Silva, Chefe de uma das Oligarquias de
Pernambuco........................................................................................ 50
Figura 8 – Usina Beltrão........................................................................................ 53
Figura 9 – Delmiro Gouveia com Carmela Eulina do Amaral Gusmão................ 58
Figura 10 – Mapa montado indicando a situação geopolítica do Núcleo Fabril da
Pedra – atual Delmiro Gouveia............................................................. 59
Figura 11 – Açude construído por Delmiro na Pedra............................................. 60
Figura 12 – Rua 13 de maio – uma rua da vila operária da Pedra......................... 63
Figura 13 – Usina Hidrelétrica de Angiquinho, Cachoeira de Paulo Afonso.......
65
Figura 14 – Governador Euclides Vieira Malta....................................................... 82
Figura 15 – Comitiva do Governador Costa Rego em visita à Pedra.................... 86
Figura 16 – Coronel Ulysses Vieira Araújo Luna................................................... 92
Figura 17 – Vista panorâmica do Núcleo fabril da Pedra....................................... 119
Figura 18 - Fábrica de Linhas da Pedra, da Cia. Agro Fabril Mercantil.................. 120
Figura 19 – Fábrica de Linhas da Pedra, com seus operários à frente.................. 121
Figura 20 – Operários/as da Fábrica de Linhas da Pedra...................................... 123
Figura 21 – Vista da Rua 13 de Maio, no Núcleo Fabril da Pedra, na década
de 20.................................................................................................... 124
Figura 22 – Cachoeira de Paulo Afonso................................................................. 125
Figura 23 – Delmiro, com acompanhante, em visita ao Angiquinho....................
125
Figura 24 – Governador de Pernambuco, Manoel Borba, no núcleo fabril da
Pedra................................................................................................... 126
Figura 25 – Adolpho Santos, gerente da Fábrica da Pedra e inspetor de ensino.. 143
Figura 26 – Cine Pedra inaugurado em 1915, também funcionava como escola
144
Figura 27 – Residência de Delmiro Gouveia “Dentro do arame”........................... 146
Figura 28 – Prédio e alunos do Grupo Escolar Delmiro Gouveia........................... 152
Figura 29 – Quadro de Horário da Fábrica de Linhas da Pedra............................. 158
Figura 30 – Banda de música da fábrica de linhas da Pedra................................. 162
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Número de escolas públicas em Alagoas período 1900 – 1919.......... 109
Tabela 2 – Dados referentes às escolas, professores e alunos, classes,
conceitos nas escolas no Núcleo Fabril da Pedra em 1924................. 147
Tabela 3 – Escolas existentes no sertão de Alagoas em 1921.............................. 163
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – População de Alagoas e número de alagoanos frequentando as
escolas públicas – 1901 – 1926........................................................... 110
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
FUNDEG
Fundação Delmiro Gouveia
IHGAL
Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas
SINTEAL
Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas
UFAL
Universidade Federal de Alagoas
UNEB
Universidade do Estado da Bahia
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO............................................................................................... 15
1
A TRAJETÓRIA NADA ORTODOXA DE UM INDUSTRIAL
SERTANEJO................................................................................................... 36
1.1 Os Primeiros Passos................................................................................... 37
1.2 Os Primeiros Empregos.............................................................................. 41
1.3 O “Rei das Peles” e suas várias “Peles”.................................................... 44
1.4 O Regresso Forçado ao Sertão.................................................................. 57
1.5 O Sertão de Delmiro e o Sertão do Conselheiro e Padre Cícero............ 68
2
EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA DOS CORONÉIS...................
74
2.1 O Novo Sistema e as Velhas Estruturas nas Alagoas.............................. 77
2.2 Aos Amigos os Favores da L153ei! Aos Inimigos, os Rigores da Lei!.. 86
2.3 A República dos Coronéis no Sertão do São Francisco......................... 90
2.4 A Educação na República: pensada para muitos, assegurada a poucos 93
2.5 Educação em Alagoas da Primeira República.......................................... 98
3
“CIVILIZAÇÃO” E EDUCAÇÃO NA PEDRA.........................
114
3.1 O Núcleo Fabril da Pedra............................................................................. 117
3.2 A Educação e Escolarização na Pedra....................................................... 139
3.3 Prêmios, Castigos e Multas para “Educar e Civilizar”.............................. 153
3.4 O Lazer Regrado como Expressão de uma Vida Honesta........................ 160
3.5 Pedra no Cenário Educacional do Sertão Alagoano................................. 163
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................... 167
REFERÊNCIAS.............................................................................................. 175
ANEXOS........................................................................................................ 186
15
INTRODUÇÃO
Lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
João Cabral de Melo Neto
(Educação pela pedra e outros poemas)
Este estudo teve como origem mais imediata, minha trajetória de educador
nas redes estadual e municipal de ensino, atuando no município de Delmiro
Gouveia, Alagoas. Investigar a região do sertão alagoano, em seus aspectos de
ordem histórica, política, social e educacional sempre se apresentou a mim como
uma necessidade desde que iniciei o exercício do magistério, vez que jamais me
limitei a atuar profissionalmente apenas no espaço das quatro paredes de uma sala
de aula e, muito menos, me restringi ao mundo que se encontra encerrado nos livros
didáticos, por mais que eu reconheça a importância pedagógica do lugar e dos
objetos aludidos.
Atuando inicialmente como professor-atividade (da 1a à 4a série do Ensino
Fundamental) e, posteriormente, com a disciplina História, nos níveis fundamental e
médio, procurei sempre proporcionar aos meus alunos e às minhas alunas lições
contextualizadas da cultura e da história do povo sertanejo, ora trazendo os temas
regionais para o contexto das aulas, ora excursionando por museus, cidades,
eventos e lugares de referência na formação social do interior brasileiro e,
particularmente, do Estado de Alagoas.
Assim, temas como o cangaço, a comunidade de Canudos, o Rio São
Francisco, o povo ribeirinho e sua formação cultural, as cidades históricas
sertanejas, a Estrada de Ferro Piranhas–Jatobá, a indústria e o núcleo operário da
Pedra, antes povoado de Água Branca e depois município autônomo, a usina
hidrelétrica de Angiquinho, nas quedas do São Francisco, os engenhos de açúcar
em Água Branca, os povos indígenas que viveram e continuam a viver no sertão, o
vaqueiro e sua lida com o gado, as manifestações da cultura popular típicas do
sertão nordestino, enfim, tudo o que proporcionasse conhecer melhor a alma da
região sertaneja motivava a minha procura para reencontrar os fatos, coisas e
lugares da região onde nasci, em que tive minha primeira socialização e na qual vivo
16
por mais de vinte anos - o sertão – vêm sendo objeto de interesse nas salas de aula
em que tenho atuado como professor.
Neste trajeto de vida, tive a oportunidade de conhecer ex-cangaceiros e
integrantes de volantes, convivendo com os descendentes de Lampião, Corisco,
Luís Gonzaga e do próprio Delmiro Gouveia, de modo a perceber, cada vez com
maior intensidade, a riqueza histórico-cultural dos sertões nordestinos.
Sendo testemunha e vítima da forma como as autoridades sempre trataram
as expressões mais legítimas do viver do povo sertanejo, enquanto via a
preocupação com a preservação das manifestações culturais da região se
expressar, apenas, pela ação de um ou outro estudioso vindo de realidades
diversas, mais do que do próprio sertão, logo me lancei a uma espécie de militância
cultural, procurando, por todos os modos, mecanismos de defesa, resgate e
preservação das manifestações que representam e caracterizam a identidade
cultural do povo do sertão do São Francisco. Com este propósito é que envidei todos
os meus esforços para que fosse realizada a primeira Semana de Cultura Delmiro
Gouveia, em outubro 1997, na sede do município homônimo, para homenagear
Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, na passagem dos 80 anos de sua morte.
Coordenei o referido evento, por meio do qual procurei estabelecer uma relação
estreita entre a história e a cultura do Sertão, utilizando-as como instrumentos de
formação educativa escolar e não escolar. A I Semana Delmiro Gouveia foi o
embrião do que logo viria a ser a Fundação do mesmo nome, que passaria a ser
mais conhecida pela sigla FUNDEG (Fundação Delmiro Gouveia), que teria sua
sede na cidade homônima, e a qual eu viria a presidir.
Um dos resultados desse evento foi uma interação bastante viva da
comunidade escolar e de parte da população com especialistas e pesquisadores de
questões sociais, históricas e educacionais referentes a fatos que influenciaram a
formação histórica sertaneja.
Neste ano de 2011, a Semana Cultural Delmiro Gouveia, consolidado evento
anual de caráter histórico e cultural, prosseguiu suas as ações voltadas a toda a
população, sendo parte das atividades dirigidas a estudantes e professores do
município de Delmiro Gouveia e da região sertaneja. Foi durante as primeiras
17
edições dessa semana de cultura que tive contato com a literatura existente sobre a
história das cidades de Água Branca e Delmiro Gouveia, estando o desenvolvimento
e a consolidação desta última, relacionados com a chegada do industrial Delmiro
Augusto da Cruz Gouveia ao sertão alagoano, em 1902, para o município de Água
Branca, onde se estabeleceu. Nesta época, existia nas proximidades da sede da
cidade um vilarejo chamada de “Pedra”– na verdade um povoado - uma estação da
estrada de ferro Paulo Afonso, sendo tudo domínio político-administrativo do
município de Água Branca.
Foi em razão do curtume, das construções da Usina hidrelétrica de
Angiquinho, da Fábrica de Linhas fundadas por Delmiro Gouveia e da estação de
trem que lá já existia quando da chegada do cearense ao lugar, que o núcleo fabril
da Pedra transformou-se, muito rapidamente, num lugar que atrairia sempre mais
gente de todos os lugares1, desde a primeira década do Século XX.
Sendo eu filho de barrageiro, meu pai, como muitos brasileiros, trabalhou nas
usinas hidrelétricas de Paulo Afonso, no leito do Rio São Francisco, nas décadas de
1970 e 1980, vindo eu a ser natural do sertão baiano, já que nasci na capital da
energia, nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, confluência dos Estados
de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, como se pode ver no mapa apresentado
a seguir, que mostra muito claramente a situação geopolítica privilegiada da Pedra,
hoje cidade de Delmiro Gouveia, no sertão do Rio São Francisco.
Ter nascido no sertão e aí haver vivido a maior parte de minha vida, faz-me
um sertanejo que jamais deixou de se envolver com as coisas e os fatos ocorridos
nos sertões onde nasci. Assim, uma vez estabelecido na Pedra, como quase tudo na
cidade girava em torno da fábrica têxtil e da memória do seu fundador, Delmiro
Gouveia, fui levado por minha curiosidade a conhecer a história do lugar e de um
dos seus principais personagens. Desde o início dessa aventura, o que mais
chamava minha atenção eram as inúmeras histórias que ouvia de pessoas que
foram contemporâneas de Delmiro Gouveia, sobre a vida do homem que deu nome
1
Mesmo com todo o incremento populacional e de recursos, porém, a Pedra somente seria elevada à
categoria de município em 1954, passando a sede à condição de cidade, por meio da Lei Estadual nº.
1628 de 16 de Junho de 1952. Esta Lei, de autoria do Deputado Estadual Mário de Siqueira Torres,
foi sancionada pelo então governador Arnon de Mello.
18
ao lugar e que, segundo eles, desbravou os sertões. Na Pedra/Delmiro2, a memória
coletiva existente ainda no final dos anos de 1980, sobre o fundador do núcleo,
quando lá fui viver, era muito forte. Isso se fazia patente nas histórias recorrentes
contadas pelos moradores. Ouvia-se de ex-operários e dos habitantes mais antigos
da Pedra, falas do tipo “foi graças a Delmiro que hoje esta região é desenvolvida”.
Se, no plano oral, era viva a presença de Delmiro e muitos de seus feitos
entre os delmirenses, de outra parte, encontrava-se pouco material bibliográfico na
cidade sobre a trajetória daquele que praticamente a fundara. O que existia estava
disperso nos acervos particulares, o que dificultava o conhecimento por meio de
documentação materializada em objetos, imagens ou simplesmente por meio de
escritos. Assim, nos primórdios de minha trajetória de investigador, sem a menor
noção da quantidade de publicações existentes sobre Delmiro Gouveia e sua
experiência como mentor de tudo o que se fez na Pedra nas quase duas décadas
iniciais do Século XX, só foi possível ter ideia do que existia produzido sobre ele,
quando saí a pesquisar em outros lugares. Alguns poucos objetos e documentos de
que dispunha encontram-se, hoje, no Museu Regional que leva o nome do Delmiro e
que se localiza na antiga estação de trem da Pedra, uma das paradas da ferrovia
Paulo Afonso, mantida pela Great Western e que fazia o trajeto de Piranhas, em
Alagoas, a Jatobá/Tacaratu3, em Pernambuco, e resume-se a algumas máquinas da
antiga Fábrica de Linhas e outros de uso pessoal de Delmiro (algumas cartas e um
birô do escritório da fábrica), e objetos da própria estação, como telégrafo, sino de
aviso das chegadas e partidas dos trens, etc.
Foi, pois, incursionando pela Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), no
Recife, pelo Arquivo Público de Alagoas (APAL) e pelo Instituto Histórico e
Geográfico de Alagoas (IHGAL), em Maceió, que primeiro localizei um considerável
acervo documental, iconográfico e textual, sobre o sertão alagoano e um de seus
principais personagens da Primeira República. Enquanto isso, continuava eu a
presenciar o desprezo dos agentes públicos em relação aos acervos localizados na
2
Daqui para frente, toda vez que me referir aos tempos mais antigos, em que somente existia o
núcleo fabril da Pedra, juntamente com os tempos mais recentes, quando o núcleo passou a ser a
cidade de Delmiro Gouveia, utilizarei a expressão Pedra/Delmiro para indicar realidade impossível
de situar num ou noutro lugar, porque simultaneamente presente em ambos.
3
Jatobá na época de Delmiro Gouveia era uma vila do município de Tacaratu / PE, onde ficava a
última estação do ramal do Trem Paulo Afonso. Hoje, município emancipado de Tacaratu.
19
região sertaneja do Estado de Alagoas e na própria capital, Maceió, a exemplo dos
arquivos judiciais e paroquiais que até hoje vêm se decompondo por falta de
cuidado. Além de inexistir, ainda hoje, na própria região, uma instituição pública que
recolha e salvaguarde o disperso, inacessível e deteriorado acervo documental
sobre o sertão alagoano, causa indignação a falta de apoio dos governos às
instituições que têm esta finalidade e estão sediadas em sua maioria na capital do
Estado, tendo em vista que estas poderiam recuperar e guardar o pouco que resta
de documentos e da memória sertaneja4. Aos poucos, vão-se perdendo documentos
essenciais para futuros trabalhos de pesquisas e para cada vez mais conhecermos a
nossa história.
Foi, portanto, em meio a essa realidade que iniciei um movimento articulado
de artistas, profissionais liberais, líderes comunitários e professores, no intuito de
conhecer a história da Pedra/Delmiro e do seu fundador, no qual teve papel
fundamental, a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) e alguns de seus dirigentes.
Foi dessa mobilização que resultou, em última instância, a criação da
Fundação Delmiro Gouveia (FUNDEG), que passou a realizar cooperação com fins
de pesquisa e difusão cultural com o “Centro de Documentação” da Fundação
Joaquim Nabuco que, inclusive, funciona no palacete em que Delmiro residiu no
auge de sua permanência na cidade do Recife, no bairro de Apipucos.
Estes foram os primeiros passos de um longo processo de pesquisa sobre a
trajetória de um homem que, desde o início, percebi ser controverso, polêmico e
temido por uns, enquanto por outros, admirado, respeitado e frequentemente
idolatrado. Desse modo, se para muitos Delmiro Gouveia foi apenas um astuto e
pragmático coronel da República Velha, com as marcas fortes da exploração, da
trapaça e da violência em seu agir, para outros tantos, admiradores de sua obra, ele
foi responsável por um processo de industrialização no sertão brasileiro ainda hoje
tido como referencial de progresso e de civilização. Foi, pois, a partir, sobretudo, da
articulação com a FUNDAJ e desse olhar controvertido sobre Delmiro, que me senti
4
A bem da verde, é preciso reconhecer que, ao menos no plano da organização administrativa, o
Arquivo Público de Alagoas sofreu, nos últimos anos, uma intervenção governamental, por conta da
pressão de historiadores alagoanos, tendo á frente a AMPUH/AL. Isso abriu as portas do APA aos
interessados por fontes documentais para a produção de um conhecimento mais fundamentado sobre
Alagoas. Os resultados dessas mudanças, porém, por conta da natureza do Arquivo – inclusive do
prédio em que se encontra abrigado -, ainda levarão algum tempo para serem sentidas plenamente.
20
estimulado a realizar novas pesquisas sobre a trajetória de vida daquele de quem
muito se falava, mas pouco se conhecia com profundidade, pelo menos na cidade
que ele praticamente fundou e da qual é patrono.
Enquanto isso, ao longo dos últimos 14 anos, em que fui curador da Semana
Delmiro Gouveia, conheci e entrevistei contemporâneos do personagem, ao mesmo
tempo em que, paulatinamente, ia tendo acesso a uma literatura para mim
surpreendente e que existia em várias partes do Brasil sobre a experiência ocorrida
a partir do núcleo fabril da Pedra e sobre seu mentor, principalmente no Rio de
Janeiro, em São Paulo, em Fortaleza, em Recife e mesmo em Maceió. Levantado o
primeiro véu, logo fui me deparando com reportagens, depoimentos, biografias,
dissertações, teses, roteiro de peças de teatro e de filmes, letras de músicas, artigos
de jornais, crônicas, livros e até filmes sobre a vida e a obra de Delmiro Gouveia,
compondo uma vasta produção sobre a sua experiência de industrial no sertão
alagoano e mesmo antes, quando ele ainda vivia em Recife. Em meio às inúmeras
descobertas num balanço feito para avaliar em que pé se encontrava a temática aqui
referida5, merecem registro, por ordem cronológica de divulgação, o que foi
produzido por Assis Chateaubriand (1917), Oliveira Lima (1917), Plínio Cavalcante
(1917), Adolpho Santos (1947), Gylberto Freire (1959), Mauro Mota (1961), Octávio
Brandão (1962), Pedro Motta Lima (1962), Tadeu Rocha (1963), seguidos por Felix
Lima Júnior (1963), Olympio de Menezes (1963), Alencar Araripe (1965), Caio Mário
Meira de Vasconcelos (1974), Graciliano Ramos (1977)6, Francisco Magalhães
Martins (1979), Luiz Nunes Alves (1979), Jorge Oliveira (1984), Adalberon
Cavalcanti Lins (1988), Hidelbrando Menezes (1991), Moacir Medeiros de Santana
(1996), Frederico Pernambucano de Mello (1998), até chegar às teses de Telma de
Barros Correia (1998) e de Dilton Cândido Santos Maynard (2008), sem se deixar de
ter em conta o que escreveu Geraldo Sarno (2006), autor e diretor do único longametragem feito até hoje sobre Delmiro e ainda Vingt-Un Rosado (2001), David
5
Neste trabalho, ao levantar em que pé se encontram os estudos sobre Delmiro, prefiro a expressão
“balanço da temática” em referência ao levantamento do que existe produzido sobre o tema, já que
considero a expressão “estado da arte” uma tradução literal do inglês “state of the art”, que, em nossa
língua, diz praticamente coisa nenhuma.
6
Embora alguns desses trabalhos - como os de Graciliano Ramos e de Mário de Andrade, por
exemplo - tenham sido escritos e publicados muito antes das datas aqui citadas, faço as referências
com a indicação das datas mais recentes da publicação dos escritos porque, infelizmente, foi a estes
que tive acesso. A primeira edição de Viventes das Alagoas é de 1962, e a de Os Filhos da Candinha
de Mário de Andrade de 1943.
21
Roberto Bandeira da Silva (2007), Jacques Marcovitch (2008), Mário de Andrade
(2008), Alberto Cosme Gonçalves (2010) e Gilmar Teixeira (2011).
Minhas pesquisas empíricas levaram-me a perceber que eram cada vez mais
abundantes os trabalhos de término de curso sobre a região e inúmeras dessas
produções acadêmicas voltadas a compreender o pioneirismo de Delmiro Gouveia
ao construir, no alto-sertão alagoano, uma usina hidrelétrica e uma fábrica de linhas,
com habitações operárias dotadas dos mais atualizados equipamentos urbanos de
saneamento básico, escolas, e equipamentos de lazer, ainda nos primeiros anos de
1900. O balanço dessa questão pela academia, por exemplo, revelou-me um
conjunto de produções que abordam várias dimensões da vida social verificada na
Pedra, tais como a urbanística, a arquitetônica, a econômica e a histórica, no seu
sentido mais amplo.
Nesses escritos, sem exceção, logo me chamou a atenção o que quase todos
mencionam como importante, que foi o processo de socialização de trabalhadores
rurais para a vida urbana e fabril – denominado frequentemente por muitos como
“processo civilizatório” – e ao qual eu vou chamar amiudadamente, como
“educacional”.
O termo “civilizatório” aqui utilizado, como, às vezes, tem suas raízes na
discussão travada desde o iluminismo e muito bem sistematizada em Norbert Elias
(1993), quando este busca entender a civilização ocidental a partir dos modos de
perceber e se conduzir na chamada “sociedade civilizada”. No que pese o caráter
eurocêntrico desse conceito tematizado por Elias, ele se apresenta como operativo
para o que me proponho a estudar, sobretudo porque o que quero entender é um
fenômeno modelado a partir da matriz europeia de civilização, primeiro urbana e, em
seguida, industrial que exigiu outro tipo de indivíduo com valores e comportamentos
indispensáveis aos novos tipos de convivência que se impunham. Mesmo assim,
pela natureza deste trabalho e porque é necessário, usarei, sempre que possível,
educação e socialização do modo como se deu na Pedra, como sinônimos do que
Elias chama de “processo civilizador”, inclusive no que tange à escolarização formal.
Refiro-me, aqui, evidentemente, ao que foi desenvolvido no sertão de
Alagoas, mais especificamente, de 1913 a 1917, sob as ordens de Delmiro Gouveia
22
e, mesmo depois, até 1926, enquanto tinham poder de decisão os que o sucederam,
os quais parecem não ter infringido qualquer ruptura significativa, ao menos no que
diz respeito aos objetivos, ao projeto urbanístico e industrial implantado por Delmiro.
Trata-se de um período que começa quando Gouveia, refugiando-se no
sertão alagoano, iniciou um ciclo de desenvolvimento industrial e de urbanização
ainda hoje descrito como modelo de capitalismo progressista e civilizado por alguns
visitantes da Pedra, e tomado por intelectuais, jornalistas, políticos e escritores de
várias vertentes ideológicas como exemplo de experiência a ser seguida em todo o
Brasil, na Primeira República, e mesmo depois desta7.
Analisar esta experiência com um olhar especificamente focado no processo
educacional seria algo que, segundo pensei, poderia contribuir para uma certa
sistematização, com uma possível releitura de aspectos da atuação de Delmiro
Gouveia na Pedra e seus efeitos sobre o próprio sertão e seus habitantes no
contexto da República Velha. Além do que, em assim procedendo, acreditei que
poderia atrair para a atuação de Delmiro na Pedra o olhar dos educadores, já que o
trabalho, desde seu título, tem uma marca fortemente educacional.
Foi, então, que procurei unir o útil ao agradável: dando continuidade a minha
vida acadêmica, logo que possível busquei realizar o Mestrado em Educação
Brasileira, no Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
dentro do Grupo de Pesquisa “Caminhos da Educação em Alagoas”, da linha de
investigação “História e Política da Educação Brasileira”.
Para a construção do projeto da pesquisa cujos resultados são aqui
apresentados, foi preponderante perceber que, mesmo havendo já inúmeras
referências ao papel da educação no projeto industrial implantado por Delmiro
Gouveia no núcleo fabril de Pedra, faltava um enfoque mais detido – mais
formalizado, quero dizer - que, não somente se referisse à educação escolar
implantada no núcleo fabril, mas que, sobretudo, fizesse um levantamento e uma
análise mais detida e, se possível, até mais aprofundada dos processos
7
Para uma mais aprofundada compreensão desse modo frequentemente mitificado de se interpretar
a ação de Delmiro na Pedra, vale a leitura da tese de doutorado de Dilton Candido Santos Maynard,
intitulado “O Senhor da Pedra”, defendido na UFPE, em 2008.
23
educacionais não escolares tidos por admiradores do chamado “Senhor da Pedra,8”
como verdadeira “cruzada civilizatória” empreendida sistematicamente naquela
porção do sertão alagoano.
Para tanto, impunha-se uma análise mais apurada sobre o que se quer dizer
por “processo civilizatório” e como se deu o processo educacional liderado por
Delmiro, bem como a inserção do sertanejo nele, enquanto era desenvolvida a
empreitada industrial da Pedra. E foi a partir dessa preocupação que passei a
desenvolver a pesquisa que resultou nessa dissertação, tomando como elementoguia do estudo essa estreita relação entre o que se convencionou chamar de
“moldes civilizados” e “processo educacional” introduzidos no sertão alagoano, bem
como o lugar do sertão no contexto da vida política regional e nacional.
Neste estudo, a minha contribuição, segundo penso, encontra-se na
abordagem mais focada nos aspectos da educação na Pedra, que foi utilizada por
Delmiro Gouveia como instrumento de divulgação das suas ações no sertão
alagoano e enfatizada por seus observadores e visitantes como algo novo a ser
exibido para todo o Brasil que ainda se debatia no dilema de se manter atrasado ou
tornar-se moderno como requeriam os ideais da República recém-implantada no
país. Desta forma, pensar a educação desenvolvida na Pedra em processo de
industrialização, em confronto com o que se tinha como educação naqueles tempos,
tanto no país, quanto, sobretudo, nos sertões, parece, além do mais, ser uma
contribuição para se conhecer os caminhos da educação escolarizada na região em
que Delmiro desenvolveu seu projeto econômico e social dos últimos anos de sua
vida, – o sertão alagoano – e mesmo no Brasil, inclusive nos núcleos fabris que se
multiplicavam àquela altura.
De fato, historicamente limitada à consideração do acesso à escolarização, a
educação na região sertaneja, em razão da base cultural hegemônica dos estudos
desenvolvidos pelos interessados pelo tema, centrados nos padrões europeus
dominantes no pensamento da intelectualidade nacional, teve que ser, nesse
8
Este é um termo cunhado por Dilton Candido Santos Maynard para se referir a Delmiro Gouveia em
várias passagens da tese escrita sobre este em 2008 e defendida na UFPE. É assim, inclusive, que o
autor se refere com muita propriedade a Delmiro em várias passagens de seu trabalho, evitando, com
essa estratégia, sempre que possível, o epíteto de “coronel” frequentemente utilizado para se referir
ao todo-poderoso da Pedra.
24
estudo, ressignificada, assim como o próprio conceito de sertão e de sertanejo e até
de República, de modo a se perceber a chamada “ação civilizatória” empreendida
por Delmiro Gouveia nos seus devidos termos, o que, segundo penso, representa,
também, outro aspecto relevante frente à maioria dos escritos divulgados até hoje
sobre a temática educacional.
Assim, para chegar a perceber com maior clareza como os sertanejos e as
sertanejas se converteram de trabalhadores rurais e artesãos, em operários fabris
da Fábrica de Linhas da Pedra e o que Delmiro almejava com suas ações de
“civilizador de terras, águas e gentes” (MOTA, 1961), foi necessário, rastrear, dentro
da moldura construída por décadas para enquadrar o homem, o industrial, seu
projeto - este, sobretudo – e o cotidiano dos sertanejos.
Para tanto, impôs-se a mim, igualmente, numa esfera mais ampla, uma
releitura das realidades mais gerais em que se encontrava inserido o projeto
industrial da Pedra, como o de República nascente embalada num discurso de
modernidade e progresso, segundo se anunciava, à contraluz do coronelismo que
vicejou em todo o período considerado (1902–1926)9 bem como do sertão e do
sertanejo por se tratar do locus onde iria ser implantado, sob a liderança de Gouveia,
o seu empório industrial, frente à política dos governadores, já que, para o sucesso
de seu empreendimento industrial tornar-se-ia necessário trazer ao ideário dos
sertanejos a importância e a prática dos chamados “modos civilizados”, tudo isso
vinculado a uma nova perspectiva de desenvolvimento social e cultural. Esta foi,
evidentemente, a formulação central que guiou minha pesquisa. E, para desenvolvêla, tomei como referências as seguintes questões que serviram de guia para as
minhas investigações:
•
Se a educação escolar ou extraescolar, na sociedade capitalista industrial
nascente – como no capitalismo de hoje - representa ferramenta fundamental
na formação de um novo sujeito – no nosso caso, de um novo sertanejo, até
9
Embora, às vezes, refira-me ao período 1914-1917 como aquele que abarca a ação industrial de
Delmiro na Pedra - e assim o faço por ser nele que a dimensão industrial de sua ação efetivamente
se desenvolveu -, no entanto, considerando-se que a Fábrica de Linhas teve um processo de
maturação que remontou não somente à construção da usina Hidroelétrica do Angiquinho e mesmo a
um período anterior de montagem da sua infraestrutura, antecipo bem mais o período a ser
considerado, recuando-o para o ano da chegada de Delmiro Gouveia ao sertão das Alagoas.
25
que ponto ela contribuiu para o projeto de industrialização ocorrido no sertão
de Alagoas no início do século XX?
• Segundo parece ser possível se conjecturar, com base nos estudos
produzidos sobre Delmiro Gouveia e sua ação, sobretudo na implantação da
Fábrica da Pedra, o industrial não teria introduzido no seio da sociedade
sertaneja em que atuou um novo processo de organização social como
“fenômeno social total” 10, desconhecido em Alagoas e pelo país afora nos
moldes
em
que
foi
empreendido,
que
serviu
como
modelo
de
desenvolvimento social e econômico até depois de sua morte, e que foi
motivo de espanto a tantos “viajantes” que tiveram oportunidade de conhecer
a experiência e avaliá-la pela imprensa?
• A República, instalada no Brasil, a partir de 1889, teria trazido uma nova
perspectiva política, econômica, social e educacional, capaz de romper com
um modelo social e político arcaico, ou teria dificultado ainda mais a fixação
das “novas ideias civilizadas” na mente e no agir dos que viviam no meio
rural, sendo a ação de Delmiro um ato ditado, em boa parte, pelo seu modo
de perceber o sertão, o sertanejo, a República e mesmo a Nação brasileira
frente a seus projetos de industrial ali naquele lugar e no tempo em que se
deu?
• O desenvolvimento de uma mentalidade calcada em “moldes civilizados” não
teria sido, portanto, um desafio enfrentado por Delmiro Gouveia na
materialização e no êxito do seu projeto social por conta da primazia do perfil
de homem pragmático que teria orientado sua ação enquanto industrial e bem
antes como negociante experiente e obstinado pelo sucesso?
10
A expressão tem por referência a categoria cunhada por Marcel Mauss (1974), até porque, como
veremos, ao isolamento já provocado pela localização geográfica do empreendimento de Delmiro,
juntar-se-ia o isolamento físico por meio de uma cerca, no interior da qual o industrial tinha inteiro
controle de tudo o que era feito. Abordando a experiência desse modo, penso ter proveitos já que
pretendo compreender o fenômeno da socialização empreendida por Delmiro Gouveia na Pedra,
conforme nos ensina Maria da Graça Jacintho Setton (2012) ao definir o fato social total, como “uma
prática social vivida por uma dinâmica processual, fundada na troca de bens e mensagens simbólicos
entre instâncias socializadoras e agentes sociais, prática que envolve simultaneamente a todos, em
todas as dimensões da vida dos agentes e tem como tarefa manter o contrato e o funcionamento de
um consenso social na unidade da ação individual.“Essa forma de abordar parece-me adequada,
sobretudo, pelo isolamento que fazia com que as relações se dessem como pensada por Mauss em
relação aos grupos de organização simples que estudou.
26
• Por último, mas não sem uma importância igual às questões anteriores, a
decisão de Delmiro em empreender um negócio moderno e de natureza
urbana nos confins das Alagoas teria representado um ato heroico de um
visionário, como muitos dos que tratam do tema parecem entender, ou
representou a ação calculada de quem, sendo, simultaneamente, sertanejo e
“civilizado”, sabia exatamente o que estava fazendo?
Trabalhar com essas questões obrigou-me a rastrear, antes de tudo, o que
sobre o homem diziam seus biógrafos (principalmente SANTOS, 1947; ROCHA,
1963; MARTINS, 1979; MENEZES, 1991), atentando para a personalidade, o
comportamento pessoal, o modo de empreender e de conduzir de Delmiro Gouveia,
sem o que sempre me pareceu impossível captar o cerne de sua ação como
educador.
Se a opção em privilegiar as fontes acima referidas para a construção da vida
de Delmiro assentou-se no fato de que aqueles biógrafos com ele conviveram, como
foi o caso de Santos (1947), ou tiveram acesso a testemunhos e à uma ampla
documentação pessoal deixada pelo bigrafado, como Rocha (1963), Martins (1979)
e Menezes (1991), a consideração de Delmiro como um educador, por sua vez,
prende-se ao conceito cunhado por Durkheim (1955), quando este define o ato de
educar como referido a processos sociais que atuam como ação homogeneizadora
e, também, diferenciadora, ambas indispensáveis à vida social.
Assim, busquei refazer a trajetória de vida de Delmiro desde a infância obscura em muitos pontos, diga-se de passagem - até sua ascensão social, quando
já era tido como um dos homens mais ricos do Nordeste, seguindo seus passos até
sua mudança para o sertão alagoano.
Com vistas à melhor compreensão do contexto social brasileiro, na época em
que Delmiro atuou no sertão alagoano, possibilitando um panorama mais geral do
país e ampliando nossa visão sobre a realidade social, política, econômica e suas
influências na vida das pessoas, foi fundamental entender o sertão como uma
importante categoria de análise, até porque “os operários de Pedra eram, na sua
quase totalidade, originários do próprio sertão. A maioria compunha-se de flagelados
da seca de 1915”. (CORREIA, 1998, p. 229).
27
Como o sertão é caracterizado, quase sempre, por seus estudiosos, como
região inóspita, infértil, seca, carente de tudo e o seu habitante rude, violento,
incivilizado e até bárbaro, foi indispensável para mim, perceber como Delmiro via a
região e seus nativos. Afinal, quando ele chegou a Água Branca, em novembro de
1902, Pedra era uma povoação com pouco mais que uma estação ferroviária, a 20
km das quedas de Paulo Afonso, no rio São Francisco, vindo Delmiro a transformála num centro industrial tido como um dos mais impressionantes e significativos do
Brasil, a se considerarem os indicadores de população, produção e dos testemunhos
de inúmeros visitantes e mesmo colaboradores e operários que viveram a
experiência juntamente com Delmiro.
O sertão foi, durante séculos, para os letrados do Brasil e do estrangeiro, até
mesmo em pleno século XX, reiteradamente apresentado como um meio hostil e
imerso no atraso, afastado do litoral pela distância geográfica e, mais ainda, pelo
grau de civilização (CORREIA, 1998). Analisando como se formou a concepção do
sertão na nação brasileira, por sua vez, percebe-se que os conceitos predominantes
de nação, até fins da República Velha, relacionavam-se com as categorias de raça e
meio,
sendo
a
nação,
segundo
interpretações
francamente
hegemônicas,
“prejudicada” por grupos populacionais que a impediam de ser civilizada. Os
discursos tradicionais sobre o sertão e seus habitantes foram reiterados de um modo
tal que “os paradigmas centrais desses discursos se reproduzem na categoria do
jagunço, concebido como o sertanejo por excelência” (BARTELT, 2009, p 22).
Segundo este estudioso da região em que se desenvolve meu objeto de estudo, a
consciência que a nação brasileira teve do sertão se intensificou e somente se
transformou após a guerra de Canudos, quando a barbárie cometida pela própria
civilização se tornou patente, sendo os sertanejos deslocados do “exterior nacional”
para seu âmbito interior. Por isso, a leitura de Bartelt sobre o sertão foi muito
utilizada por mim, ajudando-me a desmistificar a concepção predominante e
difundida pela elite brasileira ainda hoje - mesmo que não mais de modo
hegemônico - de que o sertão é lugar onde a modernidade é impossível.
Parti, assim, como um dos marcos iniciais deste estudo, da posição de que a
visão predominante sobre o sertão, além de ter sido construída no estrangeiro,
ignorava a diversidade cultural existente, o que tornou indispensável identificar as
28
possibilidades e particularidades de uma região composta de especificidades
geográficas no clima, solo, vegetação, sendo, inclusive, composto de algumas
regiões de solo fértil e apropriado para toda espécie de cultivo, desde que dispondo
de água suficiente.
Como o vilarejo da Pedra, apropriado por Delmiro, estava localizado no sertão
alagoano, tendo representado o seu ideário de organização social o trabalho
intensivo de transformação de matérias primas - primeiro pela pecuária e o
beneficiamento do couro e depois por meio da industrialização -, incorporando, por
mais de uma década quase todo o contingente de trabalhadores que o procuravam
na vida econômica da região sertaneja, importava a mim entender como esta
parcela de sertão se situava no projeto de civilização idealizado por setores da elite
brasileira, e, sobretudo, por um grupo de republicanos, na I República. Afinal, foi,
especialmente, por estar localizada no sertão, que o núcleo fabril da Pedra passou a
ser difundido com todo o entusiasmo por apóstolos do progresso e da modernização
do Brasil, em meio a um misto de susto e espanto, como sociedade modelo de
civilização para o resto do Brasil.
A experiência industrial da Pedra foi, de fato, utilizada como propaganda do
regime republicano, marcado, no Brasil, por contradições e divergências de ordem
política e ideológica, por ter os primeiros passos do regime inaugurado em 1889,
resultado da paradoxal convergência de interesses diversos de militares e
fazendeiros do café, duas forças sociais empenhadas na luta pela consolidação
desse regime político: enquanto os militares defendiam um federalismo moderado e
a centralização do poder nas mãos da União, os senhores latifundiários defendiam a
autonomia dos Estados e o favorecimento do núcleo agrário exportador em
detrimento de setores ligados ao mercado interno. Assim, neste trabalho, a
compreensão de que a República estava em jogo quando se apresentava o exemplo
da Pedra fez-se, igualmente, central, impondo-se, portanto, a construção teórica e
instrumental de uma concepção de Estado, para o que lancei mão das reflexões de
Faoro (1975); Carvalho (1987); Cardoso et al. (2004), Verçosa (2006); e Tenório
(2009), por sustentarem em suas leituras - tanto no plano nacional, quanto no plano
regional - que a mudança de regime político não representou a mudança
proclamada, tendo o povo continuado inteiramente excluído da vida política nacional,
29
ao menos por toda a República Velha. Segundo os autores aqui considerados, ao
contrário de um discurso frequentemente trazido à luz, no Estado republicano
implantado no Brasil, houve o fortalecimento do poder exercido pelos coronéis,
tornando-se, no sertão, república e coronelismo como sinônimos perfeitos,
determinando que as relações de poder a partir dos municípios do interior do Brasil
viessem a ter um peso jamais visto, mesmo no império.
Para uma compreensão mais exata do fenômeno específico do coronelismo,
que reforçou ainda mais a histórica indissociabilidade entre público e privado na vida
nacional - e no quotidiano sertanejo, em particular - vali-me, especialmente das
considerações de Vitor Nunes Leal (1997) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (2004).
É que o entendimento do que significava efetivamente esse potentado político no
mundo sertanejo da Velha República tornou-se essencial para mim, nessa pesquisa,
vez que Delmiro foi assim considerado por muitos que o estudaram, em
contraposição aos que o tiveram como expressão da modernidade que da República
se esperava. Para essa compreensão, fez-se indispensável, por sua vez, entender a
estrutura agrária do interior brasileiro, já que era ela que fornecia a base de
sustentação das manifestações do poder privado no interior do Brasil.
Segundo Bartelt (2009), conforme já assinalei, foi em consequência da Guerra
de Canudos que a nação brasileira passou a considerar o sertão como uma de suas
regiões e, consequentemente, como espaço possível de ser integrado à civilização.
E é justamente no rastro desse debate sobre o mestiço-sertanejo como incapaz de
se alinhar ao progresso e à modernidade que se impunha à nação brasileira, que
surge, toma corpo e é apresentada como exemplo a experiência liderada por
Delmiro no núcleo fabril da Pedra. Importa, pois, captar as particularidades desses
discursos, até porque eles não foram, em muitos aspectos, homogêneos, tendo sido
um produzido com base na “raça” e outro a partir do “meio”.
Neste trabalho, para melhor análise do processo denominado de “civilização”
que se empreendeu no núcleo fabril da Pedra, sob a liderança de Delmiro Gouveia,
tive, como já referido, que ampliar o conceito de educação, de modo a que esse
fenômeno ultrapassasse os muros escolares, tendo em vista que é particularmente
forte e inclusivo o registro de uma pedagogia total aplicada por Delmiro na Pedra,
por meio de novos padrões de sociabilidade que ia até ao mundo do trabalho, sem
30
negligenciar as relações de sociabilidade que se davam no dia-a-dia. Assim, parti
da compreensão de que a educação, como prática social e histórica, consiste em
processos de socialização formais e não formais, podendo, esses, inclusive, serem
sempre mais formalizados, quanto mais restrito e controlado o grupo social a eles
submetido. Nesse particular, vali-me das reflexões feitas por Durkheim (1955) e
Mauss (1979), o que me obrigou, na busca de entender o “processo civilizatório”
desenvolvido por Delmiro Gouveia no alto sertão alagoano, a caminhar pelo interior
da vida social e cultural da sociedade sertaneja, rastreando a ação quotidiana de
Delmiro Gouveia considerado como educador social. Evidentemente que, nem por
isso, deixei de problematizar os processos e modelos de educação escolar do final
do Império e principalmente da Primeira República, fundado nos ideais de civilização
e progresso instaurados pelo regime republicano e bastante tematizados por Nagle
(1976); Saviani (2006); Decca (1991), Aguiar (1997) e Gondra (2004; 2008).
Especificamente, quanto aos aspectos educacionais que predominaram na
Primeira República, por ter sido este o marco do processo educacional e
“civilizatório” realizado no sertão de Alagoas e que será especificamente objeto de
análise desta dissertação, tomei em conta os referenciais teóricos produzidos por
Craveiro Costa (1983; 2011), e Verçosa (2006). Esta foi a chave para compreender
o tipo de educação já existente no sertão alagoano e como foram introduzidos, na
sociedade sertaneja, hábitos e valores ainda desconhecidos pela maioria dos
viventes nessa região do país, buscando captar até que ponto as dimensões escolar
e não escolar desse processo se relacionam com o projeto de progresso industrial,
desenvolvido numa região marcada por características rurais e coronelísticas e
estigmatizadas, como já assinalei, como impermeáveis ao progresso e à
modernidade.
Junto ao passo preliminar que consistiu no levantamento da bibliografia
existente sobre a temática, nesta pesquisa foi fundamental a observação histórica do
período em que se deu o fenômeno, tendo eu o cuidado de não ignorar testemunhos
não escritos, para o que precisei recorrer a uma multiplicidade de documentos e
técnicas. Assim, para rastrear a trajetória educacional do sertão de Alagoas foi
fundamental, igualmente, o acesso ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de
Alagoas (IHGAL), em que se encontram os relatórios de Presidentes da Província de
31
Alagoas, relatórios dos diretores da Instrução Pública, dos Governadores do Estado,
bem como almanaques que registraram indicadores do período, além de uma série
de documentos oficiais e não oficiais sobre a educação da fase histórica analisada.
Sendo os dados presentes nos documentos referidos, em sua maioria,
genéricos, com poucas informações sobre a região sertaneja estudada, foi-me
indispensável proceder a novas pesquisas em outras instituições. Neste caminho,
analisei documentos oficiais públicos e privados, a legislação educacional nacional e
estadual, bem como recolhi depoimentos de operários da fábrica, contemporâneos
de Delmiro de sertanejos e sertanejas descendentes de moradores da Pedra,
buscando analisar o funcionamento das escolas criadas no núcleo fabril, a sua
função e um conjunto de normas de comportamentos e valores impostos por Delmiro
aos moradores e frequentadores de seu núcleo fabril, assim como o modo como
essas normas e valores eram recebidos pelos sertanejos.
Na busca de elementos capazes de informar adequadamente um fenômeno
que teve lugar há um século, mais ou menos, foi fundamental localizar muitos
exemplares do Jornal “Correio da Pedra”, por permitir este o levantamento do
cotidiano da Pedra no período que vai de 1918 a 1930. Ainda que esse jornal não
tenha sido contemporâneo à ação direta de Delmiro até seu assassinato, ele se
reveste de importância para esta pesquisa, vez que foi criado e circulou logo após o
desaparecimento do “senhor da Pedra”, em meio a uma realidade que, sob a direção
de sócios e herdeiros de Delmiro, não sofreu, quanto aos objetivos, grandes
alterações. No “Correio da Pedra” 11 encontrei inúmeros artigos, matérias e notas
sobre a educação ali desenvolvida. Com o acervo existente na hemeroteca do
Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) foi possível identificar o número
de escolas existentes e entender a sua função na educação das crianças e dos
adultos da Pedra, bem como identificar onde eram ministradas as aulas, a relação
nominal de alunos e professores, calendário escolar, além da vida social de todos os
habitantes do núcleo e, principalmente, dos operários e operárias da Fábrica de
Linhas Estrela, bem como o monitoramento exercido pela Companhia Agro Fabril
Mercantil sobre todos.
11
Mesmo tempo iniciado a circular em 1918, este jornal foi projetado por Delmiro e traz muitas
informações e memórias sobre o período de Delmiro Gouveia à frente do núcleo fabril da Pedra.
32
Aos depoimentos colhidos de ex-operários e moradores da Pedra, vieram se
juntar depoimentos encontrados em livros, artigos, e entrevistas de visitantes deste
núcleo fabril no período em que Delmiro Gouveia ainda estava vivo, e mesmo depois
de sua morte, destacando-se o artigo escrito por Assis Chateaubriand, intitulado
“Uma Resposta a Canudos”, publicado em 1917 e reeditado em 1990. Este foi
resultado da visita que o jornalista fez à Pedra quando Delmiro ainda era vivo e que
passou a ser um dos marcos referenciais para o modo como foi construída a
imagem de “civilização” para o empreendimento industrial sertanejo criado por
Delmiro e que permaneceu em funcionamento por vários anos após o assassinato
de Gouveia.
Seja para compreender o que na Pedra foi apresentado como exemplo de
conduta civilizada, e por que assim foi por décadas, fez-se necessário, igualmente,
analisar os personagens que participaram da experiência, bem como suas ideias e
seus contextos de vida. Outros documentos que também permitiram reconstruir o
fenômeno e suas representações foram os encontrados no arquivo do Museu
Regional Delmiro Gouveia, onde está, por exemplo, o registro de despesas com
educação dos herdeiros de Delmiro Gouveia, no Rio de Janeiro e na Inglaterra, no
período que vai de 1918 a 1923, pelo que expressam em termos do valor conferido à
educação escolar e ao modelo europeu que representava paradigma de vida
civilizada para Delmiro e os que o sucederam. No arquivo da Fábrica da Pedra
outros importantes documentos permitiram interpretar partes significativas do
cotidiano dos operários da indústria de linhas.
No acervo da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), localizei imagens do
núcleo fabril da Pedra, entre as quais a do Grupo Escolar Delmiro Gouveia,
possivelmente do final da década de 1920 e o depoimento manuscrito pelo exoperário da Fábrica de Linhas (no período de 1914 a 1917), Lauro Góes, intitulado
“Recordações de um passado relativamente bem vivido, mas que jamais
desejaríamos revivê-lo (1962)”, que me ajudou entender como era o funcionamento
da fábrica, o dia a dia do seu escritório, bem como o cotidiano dos rapazes e moças
solteiras e, até, o temperamento de Delmiro Gouveia.
Ao adotar, neste estudo, a postura crítica assumida pela Nova História,
cumpre-me evidenciar a minha compreensão da história como História-problema,
33
que procura captar caracteres gerais das instituições sociais e das mentalidades (LE
GOFF, 2007). Esse é um enfoque que possibilita captar fenômenos de longa
duração entranhados nas estruturas da vida social e da cultura (BLOC 1957;
BRAUDEL, 1966 apud VERÇOSA, 2006, p. 21) que é do que se trata, quando penso
captar modos de pensar e de sentir dos habitantes de determinada porção do sertão
alagoano.
Foi também por sua capacidade de apontar para a historicidade dos
processos de constituições das relações sociais que ancorei meu estudo numa
modalidade da chamada História Social: por sua exigência de determinação mais
rigorosa do lugar de fala dos discursos constituídos pelo historiador como
documentos, pelo relevo dado à escola na constituição das referidas relações; pelo
alargamento da concepção de fontes e recurso a novos procedimentos de análise,
presentes especialmente nos seus estudos de história oral, pela maneira com que
põe em evidência a interpretação necessária entre estudos históricos da educação e
contribuições de campos como antropologia, a psicologia, a linguística e a filosofia,
etc. Creio ter, assim, encontrado, nessa forma de abordar a História, uma ferramenta
fundamental para compreender os fenômenos que me propus estudar.
Essa minha escolha leva em consideração que a história passou por
importantes transformações desde a segunda metade do Século XIX, sobretudo
quanto ao uso de novas categorias de análise e de aportes teóricos e
metodológicos. Desde a emergência do pensamento de Karl Marx, porém, a obra de
Marc Bloch, em parceria com Lucien Fèbvre, foi aquela que, na primeira metade dos
anos de 1930, tornou-se marcante e despontou como uma nova possibilidade para
os estudos históricos do mundo ocidental. Bloch, um dos fundadores da “Escola dos
Annales” revolucionaria, de fato, a História, afirmando que esta disciplina, a partir de
suas proposições, não seria mais entendida como a ciência do passado, uma vez
que, segundo ele, “passado não é objeto de ciência”. Ao contrário, era no jogo entre
a importância do presente para a compreensão do passado e vice-versa que a
partida era, de fato, jogada. Este é um caminho da história que busca “novos
problemas, novos caminhos, novos objetos”, ou seja, uma história ampliada e
verticalizada. Essa concepção representou, na verdade, uma ruptura tal que,
segundo Peter Burke (1992), poderia ser denominada uma verdadeira “revolução
34
francesa” na historiografia. É, pois, essa perspectiva da história que busquei assumir
na aproximação do meu objeto nesta pesquisa.
Feita a pesquisa, estruturei a exposição deste trabalho em cinco partes, assim
dispostas:
A primeira parte, que é a Introdução, já devidamente apresentada, situa o
estudo, seus objetivos, sua justificativa, seus problemas, as referências teóricas
mobilizadas, bem como a metodologia adotada, elegendo e explicitando as
categorias-chave instrumentais à leitura da ação educativa – ou civilizatória, como
querem alguns - de Delmiro Gouveia no núcleo fabril da Pedra.
A segunda parte, denominada “A trajetória nada ortodoxa de um industrial
sertanejo”, apresenta a vida e a obra do “self-made man” que veio para o sertão e
nele construiu o principal empreendimento de sua vida, não tão longa assim, e com
características apresentadas por muitos como modelares para os empreendedores
do Brasil da Primeira República. Também discorre sobre o contexto histórico e
político nacional e do sertão, com destaque para as relações de poder dominantes,
trazendo elementos conceituais sobre “Sertão”, capazes de explicar a trajetória e os
feitos de Delmiro Gouveia no sertão de Alagoas e, quem sabe, as características
centrais do modo de agir desse industrial sertanejo.
A terceira parte, intitulada de “Educação na República dos Coronéis”
apresenta um quadro da realidade socioeducacional na sociedade brasileira e
alagoana contemporânea à atuação de Delmiro na Pedra.
A quarta parte, chamada “Civilização e educação na Pedra”, apresenta uma
leitura do quotidiano da comunidade da Pedra enquanto busca empreender uma
análise sobre os “moldes educacionais e civilizatórios” implantados no perímetro do
núcleo fabril da Pedra, ao tempo em que traço um perfil do processo educacional
escolar instituído na Pedra e, consequentemente, no sertão alagoano na gestão de
Delmiro Gouveia e no período imediatamente posterior à sua morte, até 1926
quando assumem o comando do núcleo fabril sertanejo industriais pernambucanos
que redirecionam o projeto da Pedra, encerrando o ciclo de comando iniciado por
Delmiro Gouveia.
35
Na quinta e última parte, chamada de CONSIDERAÇÕES FINAIS, busco
fazer uma síntese de todos os elementos considerados, abrindo, mais que fechando,
questões para estudos que possam vir a ser desenvolvidos sobre a educação no
sertão alagoano, nordestino e mesmo brasileiro. Dessa forma, espero vir a contribuir
para uma leitura dos caminhos percorridos pela educação em nossa sociedade, para
o que me imponho o prosseguimento de uma jornada que, espero, seja também
percorrida pelos leitores aos quais o tema venha a interessar.
36
1
A TRAJETÓRIA NADA ORTODOXA DE UM INDUSTRIAL SERTANEJO.
Quem se dispuser a escrever uma biografia de Delmiro Gouveia menos
ascética e enumerativa, voltada para dentro do homem e não apenas
para suas reações exteriores, há de sentir que ele já utilizava o
primeiro emprego, de modesto ferroviário, como um aprendizado de
liderança e contacto com os problemas econômico-sociais de sua
época.
Mauro Mota (A “Estrela” de Pedra: Delmiro Gouveia, civilizador de
terras, águas e gentes )
A trajetória de Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, a seguir delineada, desde o
seu nascimento, passando por sua ascensão na sociedade pernambucana até o
início de suas atividades empresariais no sertão de Alagoas, no começo do Século
XX, buscou como referências básicas os textos escritos pelos biógrafos que
considero terem procurado acompanhar a trajetória do Delmiro em todas as suas
fases. Suas narrativas parecem ser a expressão da fala e dos sentimentos de
pessoas que tiveram estreitos vínculos com o empresário e sua obra, bem como
com os seus descendentes. Ainda que todas essas biografias tragam em suas
narrativas opiniões e sentimentos de admiradores do cearense nascido na cidade de
Ipu, foram elas, a meu ver, as que buscaram percorrer os meandros da conturbada
vida deste comerciante-industrial sertanejo.
Assim, quatro obras biográficas foram fundamentais para o conhecimento da
trajetória pouco linear de Delmiro, a saber: o escrito “Delmiro Gouveia: depoimento
para um estudo bibliográfico”, da autoria de Adolpho Santos (SANTOS, 1947), a
obra “Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso”, escrita por Tadeu Rocha,
(ROCHA, 1963), “Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista”, de Francisco
Magalhães Martins, (MARTINS, 1979), e “Delmiro Gouveia: Vida e Morte”, de
Hidelbrando Menezes (MENEZES, 1991). Isso não significa que outros trabalhos
sobre o pioneiro não tenham sido utilizados, pelo contrário, utilizamos todos os que
consideramos contribuir de alguma forma com o levantamento da trajetória que
realizamos. No entanto, a base maior foram os trabalhos acima referidos: a de
Adolpho Santos, porque ele trabalhou na Pedra por quase dezenove anos, lá
chegando em 15 de Novembro de 1908 e só saindo em Fevereiro de 1927 por
divergências com os herdeiros de Delmiro Gouveia, tendo sido gerente da Fábrica
da Pedra no início de seu funcionamento, em Junho de 1914, e editor do Jornal
Correio da Pedra, além de ter se casado com Laura Gouveia, sobrinha de Delmiro; a
37
biografia escrita por Tadeu Rocha foi fundamental porque, tendo ele nascido em
Santana do Ipanema, sertão de Alagoas, era filho do Coronel Manoel Rodrigues da
Rocha, chefe político deste município e amigo de Delmiro Gouveia, a quem recebia
no seu sobrado, quando da passagem deste por Santana do Ipanema, em viagem
para Garanhuns, em Pernambuco, ou Palmeira dos Índios, Quebrangulo e Maceió,
em Alagoas, tendo o autor, desde criança, conhecido o biografado; já as de
Francisco Magalhães Martins e de Hidelbrando Menezes me serviram também de
base porque são aquelas que se apoiam em fontes primárias, muitas das quais de
propriedade dos familiares de Delmiro Gouveia.
Do ponto de vista de documentos e fatos relacionados à trajetória de Gouveia,
apesar de ser considerável a quantidade de textos escritos, percebe-se uma
recorrência destes trabalhos sobre praticamente tudo o que tem sido produzido
sobre a sua vida. Poucos têm sido os autores e pesquisadores que ousaram analisar
a trajetória de Delmiro para além do que esses biógrafos produziram. Assim, apesar
de algumas biografias serem apresentadas como originais, quando examinadas
detidamente reproduzem o que já foi dito e pouco acrescenta no que concerne a sua
trajetória.
1.1 Os Primeiros Passos
Somente a partir da inauguração das usinas hidrelétricas de Paulo Afonso na
década de 1950, com o propósito de produzir energia para o Nordeste, é que se
inicia o processo de recuperação sistemática da memória e da trajetória de Delmiro
Augusto da Cruz Gouveia, pioneiro na utilização das águas do São Francisco na
produção de energia. Também contribuiu para este fato a determinação oficial de se
celebrar, na década de 1960, o centenário de seu nascimento, com a realização de
eventos comemorativos como seminários e a publicação de várias biografias. Isso
ocorreu simultaneamente em Alagoas e Pernambuco e envolveu jornalistas,
empresários, políticos, estudantes e intelectuais como Mauro Mota, Gilberto Freyre,
Félix Lima Junior, Tadeu Rocha, para citar apenas alguns. (MAYNARD, 2008) Com
a publicação de diversas biografias sobre o pioneiro da Hidroeletricidade no Norte do
Brasil passam então a ser conhecidos diversos aspectos da trajetória nada ortodoxa
e polêmica de Delmiro Gouveia.
38
Já no anúncio da data de celebração do centenário do seu nascimento (06 de
junho de 1961), surge a primeira celeuma entre biógrafos e o Governo de Alagoas,
tendo em vista haver divergências sobre a data e o local em que Delmiro teria
nascido. Após requerimento feito ao Bispo de Sobral, por Tadeu Rocha, este
recebeu uma certidão do Padre Francisco Sadock de Araújo, escrivão da Câmara
Eclesiástica da Secretaria do Bispado da referida diocese (ROCHA, 1963, p. 141)
tendo também o Governo de Alagoas consultado o Bispo de Sobral sobre a data de
nascimento de Delmiro. Para ambas as consultas, foi reafirmada, pela diocese de
Sobral, a data já referida. De ordem do Bispo, o Padre Sadock, estudioso de história,
realizou pesquisa para localizar o batistério de Delmiro Gouveia nos livros de
assentamento da igreja de Santa Quitéria, que se encontram no arquivo da sede
diocesana. Como resultado das investigações, em resposta ao Governo de Alagoas
e ao pesquisador Tadeu Rocha, informaria o Bispo de Sobral, à vista de certidão
lavrada pelo Padre Francisco Manoel de Lima e Albuquerque, o que segue:
Delmiro B. filho natural de Leonila Flora da Cruz Gouveia, nasceo a cinco de
junho e a trinta do mesmo mez e anno de mil oitocentos e sessenta e três
foi batizado solenemente e com os santos óleos em desobriga de licença
minha pelo Rdo. Choadjuntor Bernardino d´Oliveira Memória: foram PP
Capm. Elmiro de Sousa e Oliveira e D. Anna Rodrigues Veras. Do que para
constar fiz este assento que assino. O Vigr.o Francisco Manoel de Lima e
Albuquerque. (MARTINS, 1979, p. 13)
Finda a dúvida, ficaria esclarecido que Delmiro Gouveia, como chegaria a ser
conhecido, tinha nascido na fazenda Boa Vista, região da serra da Ibiapaba,
município de Ipu, no Estado do Ceará, em 05 de junho de 1863. Embora na certidão
de batismo somente conste o nome da mãe, por ter ele nascido fora de um
casamento formal, era filho do cavalariano Delmiro Porfírio de Farias, promovido a
Major e morto em dezembro de 1867, na Guerra do Paraguai.
Sua mãe, Leonila Flora da Cruz Gouveia, “apelidada de Curica nos sertões de
Ipu”, era uma moça de família influente na Paraíba e em Pernambuco. Moça de
educação fina, tocava piano e foi professora. Fugiu com o “Belo de Farias” do Recife
para região de Santa Quitéria, nas proximidades do Ipu - Ceará. Leonila,
apaixonada, foge com o pai de Delmiro, como ousavam fazer os enamorados que,
por alguma razão, eram impedidos de casar, indo para o sítio São Paulo, próximo de
onde Delmiro pai já tinha uma residência na qual morava com a esposa legítima,
Francisca Mesquita de Farias, e cinco filhos. Delmiro de Farias, procurado pela
39
família de Leonila e pressionado por parentes, não encontraria outra saída a não ser
alistar-se para servir no corpo de voluntários na Guerra do Paraguai, para onde
partiria para não mais voltar. Morto em combate, deixaria desamparada Leonila, com
duas crianças: a filha mais velha, Maria Augusta Gouveia, com seis anos de idade, e
o menino Delmiro, com quatro anos, o que obrigou mãe e filhos a retornar a
Pernambuco.
A mãe do menino Delmiro era filha do Comendador Ismael Cruz Gouveia,
senhor de engenho em Itabaiana-PB, e deputado por Pernambuco. Tendo
regressado a Pernambuco logo após a notícia da morte do companheiro, ela iria,
primeiro para a cidade pernambucana de Goiana e, depois, para o Recife. Filha de
uma relação conjugal extraoficial, Leonila, com a morte do pai, assim que retornara a
Pernambuco, não entraria no testamento, ficando desamparada e sem posses
(ROCHA, 1963, p. 143), o que a obrigaria, já no Recife, para sobreviver e criar o
casal de filhos, a ter que ir trabalhar como empregada doméstica na casa do
promotor e advogado, Dr. José Vicente Meira de Vasconcelos, que era um
importante líder socialista em Pernambuco.
Figura 1 – Leonila Gouveia e Meira de Vasconcelos com Delmiro, aos 4 anos de idade.
Fonte: Acervo da Fundação Joaquim Nabuco.
40
Após alguns anos trabalhando na residência do advogado, passaria Leonila a
manter uma relação conjugal com o Dr. Meira, situação que duraria pouco tempo,
pois, tendo adoecido gravemente do coração, ela viria a falecer, tendo, porém, antes
se casado in extremis. De fato, na manhã do dia seguinte, aos 7 de outubro de 1877,
morreria a mãe de Delmiro. (MARTINS, 1979, p. 31)
Depois do falecimento de Leonila Flora, Meira de Vasconcelos continuou a
amparar os enteados, como fizera em vida daquela e, então, como padrasto. Como,
seis meses antes da morte da mãe, a jovem Maria Augusta tinha deixado o lar do
padrasto, a fim de construir o seu, Delmiro, já um rapazinho com 15 anos de idade,
mas, bastante desenvolvido para a idade e senhor de si, deixaria também a casa do
padrasto para enfrentar, sozinho, a vida.
Figura 2 – Delmiro Gouveia com aproximadamente 10 anos de idade.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Vê-se, por esse ato de Delmiro, que a independência era um traço de seu
caráter. Em vez de acomodar-se à situação de enteado aceito e mantido pelo
41
padrasto, podendo, inclusive, completar seus estudos formais numa cidade que
punha à disposição de quem quisesse e pudesse até o ensino superior, preferiu
aventurar-se na vida por conta própria, com uma escolaridade cujos pormenores
sãos praticamente deixados à margem pela maioria dos seus biógrafos. De qualquer
modo, Rocha (1963, p. 34) nos conta que, segundo depoimento de Arsênio Meira de
Vasconcelos, filho de José Vicente Meira de Vasconcelos, foi o pai deste quem
botou nas mãos de Delmiro a cartilha do ABC, tendo o mesmo na escola aprendido
as quatro operações aritméticas e a escrever carta com boa letra, logo abandonando
a educação escolar para iniciar-se no mundo do trabalho, como vimos, ainda bem
cedo.
1.2 Os Primeiros Empregos
Assim, órfão de pai e mãe, Delmiro Gouveia, após deixar a casa do padrasto,
vai iniciar-se na vida profissional para sobreviver. Assim, seu primeiro emprego foi o
de bilheteiro de estação de trem na Maxabomba, como era chamado a Brazilian
Street Railways Company12, concessionária de um sistema de transporte ferroviário
urbano, que fazia a ligação do Recife com Apipucos, com ramais estendidos
posteriormente a outros bairros. Aplicado ao que fazia, não demorou muito para
chegar a chefe de estação. Em busca de novas oportunidades, em seguida, iria
trabalhar como despachante de barcaças no cais de Ramos, no Recife, sendo neste
emprego que Delmiro iniciaria a comercializar a serviço de outros algodão e peles de
animais, negócios bastante prósperos na época.
Ao enxergar a importância desses negócios – do último, sobretudo -, ele logo
iniciaria suas viagens pelo interior para entrar em contato com negociantes e
produtores, no intuito de comprar algodão e, posteriormente, peles de animais,
primeiro na qualidade de empregado e, depois, como corretor das firmas que então
incrementavam muito o comércio de courinhos no Nordeste, com armazéns e
escritórios no Recife. É nesta época que Delmiro conhece Herman Lundgren13,
12
Os trens da “Brazilian Street Railway Company” e da “Companhia de Trilhos Urbanos do Recife e
Olinda” ficaram conhecidos por este nome de “maxabomba”, abrasileiramento das palavras inglesas
“machine pump”, dando ao Recife a glória de possuir o primeiro serviço de trens urbanos de toda a
América Latina.
13
Sueco radicado no Recife, era comprador e exportador de peles, tendo financiado Delmiro nas
primeiras incursões pelo interior de Pernambuco na compra de peles que eram exportadas para a
Europa. Foi um dos principais industriais pernambucanos.
42
Clement Levy14, Lionello Iona15 e Guido Ferrário16, com os quais iria estreitar
relações pessoais e de negócio, como veremos adiante.
Percorrendo constantemente o interior de Pernambuco para a compra de
peles de animais, Delmiro constituiria um núcleo dos seus negócios na cidade de
Pesqueira, por ser um ponto estratégico do sertão pernambucano com os mercados
fornecedores. Nesta cidade, recebeu sempre o apoio de Antonio Severiano de Melo
Falcão, tabelião respeitado, e de sua esposa, Cândida Campelo Falcão. E foi nestas
incursões por Pesqueira e frequentando a residência do tabelião que Delmiro
conheceria e se apaixonaria pela filha do casal. Assim, com vinte anos de idade,
Delmiro Gouveia casa-se, no dia 28 de agosto de 1883, na cidade de Pesqueira,
com Anunciada Cândida de Melo Falcão. Aqui estava já em franca ascensão o
capitalista, cuja fortuna seria construída e mais e mais ampliada com base no
comércio.
Delmiro e “Iaiá”, como Anunciada era chamada, foram morar no Recife.
(MARTINS, 1979, p. 147) Ele adquiriu e reconstruiu, mais tarde, um palacete a que
deu o nome de “Vila Anunciada” em homenagem a sua esposa.
Segundo relato de seus biógrafos, o palacete de Apipucos17 tinha luxuosos
salões e paredes decoradas por artista francês e os banquetes ali oferecidos ficaram
famosos pela excelência das comidas e pela gentileza dos anfitriões. Por esses e
outros dados da biografia de Delmiro pode-se facilmente perceber o refinamento
urbano de um homem oriundo de situação familiar bastante acidentada que fizera
sua trajetória de trabalhador em meio às classes populares, rurais, na maior parte do
tempo. Poucas ou nenhuma são as explicações a justificar a construção desse perfil
14
Inglês que constituiu sociedade com Delmiro Gouveia, na firma Levy & Delmiro, tendo o contrato
social registrado na Junta Comercial de Pernambuco no dia 30 de Julho de 1891. Essa sociedade foi
desfeita em abril de 1893, tendo ele se mudado para o Ceará.
15
Italiano, casado com a pernambucana Marieta, foi uma espécie de testa-de-ferro de Delmiro. Na
Pedra, exerceu a função de auditor, encarregado de relatar contratos e documentos, traduzir papéis
em línguas estrangeiras, tendo sido consultor financeiro de Delmiro. Após a morte de Delmiro,
ocupou sua vaga na direção dos negócios na Pedra. Afastado no final de 1924 pelos herdeiros de
Delmiro da condução dos negócios da Cia. Agro Fabril Mercantil retornaria para Recife e tempos
depois para a Itália.
16
Italiano, radicou-se no Brasil, onde morreu em 1923, de modo estranho, sob suspeita de
envenenamento. Era o gerente de Iona & Cia., em Maceió-AL, falava seis idiomas e possuía grande
prática bancária-comercial, pois fora empregado do River Plate Bank, tendo servido até na Grécia.
Era homem da confiança de Delmiro, de quem tinha carta branca para resolver todos os negócios.
17
O prédio, ainda hoje existente no subúrbio homônimo da cidade do Recife, é atualmente a sede do
Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco.
43
de “homem civilizado” – de dandy18 muitas vezes – em meio à rudeza da trajetória
do homem de negócios, cujos obstáculos, segundo seus biógrafos, tinham sua
transposição buscada até a pauladas, como veremos a seguir.
Figura 3 – Vila Anunciada – O Palacete de Apipucos.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Os modos refinados de Delmiro iriam levá-lo, inclusive, a patrocinar
espetáculos teatrais e musicais e a frequentá-los – evidentemente quase sempre
com os olhos voltados para uma ou outra atriz das companhias -, fazendo com que,
não somente tornasse amplamente conhecidas suas relações extraconjugais, como
caísse na tentação até de levar uma ou outra para sua própria mansão em
Apipucos, por ocasião das festas que promovia para a “nata” da sociedade
pernambucana.
Já rico, Delmiro, com pouca escolaridade, mas bem articulado no mundo dos
negócios, sobretudo com o mercado externo, gozaria da amizade de personalidades
da alta sociedade recifense, como os intelectuais Faelante da Câmara, Gonçalves
18
Termo inglês corrente na língua portuguesa para homens elegantes e galantes que não eram
oriundos da nobreza. No caso de Delmiro, tendo-se em vista que o termo costuma ser tomado
pejorativamente para quem é, inclusive, estroina e fútil, trata-se de um qualificativo aplicável apenas
no que ele significa de elegância física, gostos refinados, modos galanteadores e, de preferência,
quando não agindo na qualidade de empresário.
44
Maia, Martins Júnior e Balthazar Pereira, sempre presentes nos eventos realizados
no palacete do “Rei das Peles”, que é como Delmiro é denominado por muitos de
seus biógrafos por ter sido ele um dos principais exportadores de peles de animais
do Brasil para a América do Norte no período das duas últimas décadas do século
XIX e nas duas primeiras décadas do século XX. O seu palacete era frequentando,
igualmente, por músicos, pintores e artistas. Foi numa época em que Delmiro ditou
moda, a ponto de ter batizado com seu nome o famoso “colarinho Delmiro Gouveia”,
pois, frequentando a alta sociedade recifense, sempre bem vestido, utilizava um tipo
de colarinho alto, engomado e branco, o qual passou a ser conhecido por seu nome.
Nesse período, devido aos casos amorosos que viria a manter, sobretudo
com artistas cujos espetáculos patrocinava no Teatro Santa Isabel, Delmiro
provocaria muito ciúme em Anunciada que, humilhada pela publicidade dos
romances do marido e cobrada por não lhe proporcionar nenhum herdeiro,
terminaria por se separar dele, retornando à casa dos pais no município de
Pesqueira, onde faleceria, muitos anos depois, em 1937.
1.3 O “rei das peles” e suas “várias peles”
Delmiro, ainda bem jovem, mas já conhecido como o “rei das peles”,
continuaria revelando suas várias “peles”. Nessa trajetória, percorreria o interior
nordestino por conta de Herman Lundgren, comprando peles que eram exportadas
para Europa, Ásia e África. Posteriormente, vindo a ser fornecedor do curtume norteamericano Keen Sutterly & Co., de Filadelfia, em 1892, Delmiro passaria a ser
gerente da filial dessa firma em Pernambuco. Em 1896, fundaria a firma Delmiro
Gouveia & Cia., tratando logo, para consolidar seus negócios, de eliminar os
concorrentes, o que o levou a encampar os negócios da Ernest Kant, aproveitando
Lionello Iona, Guido Ferrário e Luiz Bahia, que eram os mais experientes
funcionários da firma encampada.
45
Figura 4 – Delmiro Gouveia aos vinte e dois anos de idade.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Foi pela intensificação de suas incursões pelas cidades do interior de vários
Estados brasileiros e por meio dos intermediários de compra de peles de animais
que ele conhecia que, em breve espaço de tempo, Delmiro Gouveia constitui-se
efetivamente como “o rei das peles”, pelo controle que mantinha nesse ramo do
comércio, tornando-se um dos homens mais ricos do Norte brasileiro, o que lhe abria
ainda mais as portas da alta sociedade do Recife, para frequentar os ricos e
famosos e ser por eles frequentado. Com o dinheiro ganho no comércio de
exportação de peles, Delmiro daria andamento a novos empreendimentos no Recife.
Segundo Adolpho Santos:
As compras de peles se estendiam por uma vastíssima zona de operações,
que abrangiam o interior de Pernambuco até as fronteiras da Paraíba e
Ceará, inclusive ao Norte; Sergipe e Bahia, ao Sul, e mais o Estado de
Alagoas (SANTOS, 1947, p. 27).
E era com movimentos de audácia, argúcia e habilidade comercial que, ainda
de acordo com Santos (1947, p. 27), Delmiro conseguia ganhar muito dinheiro,
46
possibilitando-o realizar investimentos em outras atividades, inclusive, no campo
industrial.
Na verdade, Delmiro fez fortuna neste ramo comercial em boa medida porque
as peles eram vendidas para a América do Norte pelo peso, tendo Delmiro criado
um processo que duplicava, segundo Hidelbrando Menezes(1991, p. 58), o peso de
cada uma. O fenômeno se dava da seguinte forma: para as compras, Delmiro
classificava as peles em três categorias: “especiais, de primeira e de segunda
classe, sendo as especiais as que pesavam um quilograma ou mais; de primeira, as
que pesavam de 700 a 900 gramas; de segunda, as de 400 a 600 gramas e de
terceira, as de peso menor” (MENEZES, 1991, p. 58). Mas, conforme Hidelbrando,
que residiu no núcleo fabril da Pedra, de posse da mercadoria, Delmiro mandava
imergir as peles em salmoura preparada com diversos produtos químicos, o que
ocasionava um grande aumento no peso das peles quando de sua venda, de tal
forma que as de terceira categoria se transformavam em especiais e as especiais e
de segunda em extra. O fato é que, depois de imersão das peles por 48 horas “não
ficava indício nenhum do processo pelo qual haviam passado.” (MENEZES, 1991, p.
59). Com o lucro ganho no comércio empreendido dessa forma, Delmiro Gouveia
partiria para novos empreendimentos na capital pernambucana. Vê-se, por esse
exemplo, o quanto Delmiro Gouveia era astuto nos negócios, não medindo esforços
e artimanhas quando a questão era aumentar sua fortuna, fazendo crescer seus
negócios. Nesse aspecto, pode-se dizer que o nosso biografado era um capitalista
modelar.
Com os olhos sempre voltados para o exterior, após viagem a Chicago, nos
Estados Unidos, já rico e depois de adquirir, em 1898, os terrenos do antigo Derby
Clube, que se situava às margens do rio Capibaribe, Delmiro firmaria contrato com o
então prefeito do Recife, Dr. José Cupertino Coelho Cintra, para realização de
melhoramentos, mediante o privilégio da isenção de impostos municipais, durante 25
anos, findos os quais passaria o que fosse construído ao município.
Fechado o acordo, o Mercado Coelho Cintra, erguido por Delmiro, no Derby,
teve a sua primeira seção inaugurada em 13 de maio de 1899, tendo sido todo ele
entregue ao público, em 7 de setembro do mesmo ano. Segundo Martins (1979, p.
56) ¨a sua área media 129 m de comprimento, por 28 de largura, tendo 18 portões e
47
112 janelas e venezianas. No centro, erguia-se um pavilhão superior, de onde se
observava todo o movimento¨.
Figura 5 – Mercado Coelho Cintra, também conhecido como Mercado do Derby.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Estava o mercado dividido em muitas seções, possuindo 264 boxes com
balcão de mármore, dispostos em alas paralelas. As cobertas laterais dos dois
lances principais eram suspensas por quatro linhas e várias colunas de ferro, e a
coberta central, sobre tesouras, tinha poços de ventilação, dando luz à parte interna.
Chafarizes e torneiras distribuíam água por todo o prédio, servido por perfeito
sistema de esgoto. Em frente à fachada principal, havia uma área ajardinada, e em
todo o pátio, um velódromo, com a extensão de quatrocentos metros. Existiam
dependências, ao lado, destinadas a uma luxuosa hospedaria – que seria Grande
Hotel Internacional do Recife - e a vários jogos, bares, divertimentos. Delmiro
denominou o estabelecimento de Mercado Coelho Cintra, em homenagem ao
prefeito do Recife que lhe outorgara a concessão para a construção do
estabelecimento. Na boca do povo, porém, popularizou-se como “Mercado do
Derby”.
48
Figura 6 – Grande Hotel Internacional do Recife.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
No Recife, quando a iluminação elétrica ainda era ignorada, esta já se
espalhava profusamente pelo mercado e grande parte do pátio. Havia uma linha de
bondes puxados por burros, vinda do centro do Recife, com a indicação do Mercado,
ficando a parada em sua frente. No Derby, até altas horas da noite, se expunham e
comercializavam mercadorias nacionais e estrangeiras, muitas desconhecidas do
comércio comum. Para lá ia gente das diversas camadas sociais, principalmente à
noite, para fazer compras ou participar das diversões lá instaladas, como carrosséis,
barracas de prendas, teatro, regatas, além do velódromo para ciclismo, que estava
em moda, tudo acompanhado por retretas. Delmiro, que testemunhara o efeito da
modernização procedida no exterior e seus efeitos benéficos na prosperidade dos
negócios, não medira esforços para implantar as novidades no Recife, ao tempo em
que fazia funcionar as leis do mercado – sobretudo a da livre concorrência -,
baixando os preços, para ganhar em escala o que seus concorrentes queriam
ganhar pela elevação dos preços.
Nesse novo empreendimento do Derby, inteiramente voltado para o ramo
comercial, que Delmiro dominava como ninguém, os gêneros alimentícios e de
primeira necessidade eram comercializados durante o dia, abastecendo a
população, sobretudo as classes populares, que para lá se dirigia em vista dos
preços que eram inferiores aos dos demais mercados. Essa nova forma de fazer
comércio em um meio ainda atrasado – no dizer de Mauro Mota – “inspiraria o ódio a
grosso e a granel de alguns donos de armazéns e eles içam na praça a bandeira
negra de guerra e morte”. (MOTA, 1961, p. 12) Por conta disso, dificuldades foram
49
criadas ao tráfego dos gêneros, tendo os agentes das repartições fiscais ordens
para embargá-lo, alegando o não cumprimento de leis. Escreve a tal respeito Tadeu
Rocha:
A pretexto de fiscalização, várias diligências policiais foram feitas no
estabelecimento do Dérbi(sic) e até mercadorias da empresa foram
mandadas apreender pelo prefeito Esmeraldino Bandeira, quando
aguardavam embarque nas estações ferroviárias. (ROCHA, 1963, p. 49)
O fato é que essa situação cada vez mais acirraria a relação de Delmiro com
as autoridades pernambucanas, especialmente com Esmeraldino Bandeira e
Sigismundo Gonçalves, poderosos que eram ligados a Rosa e Silva, grande oligarca
pernambucano da época. A fim de remover óbices criados aos seus negócios, foi
Delmiro ao Rio de Janeiro, em 1899, entender-se com o Conselheiro Rosa e Silva,
então Vice-Presidente da República (período 1898 – 1902), e que ocupou
interinamente o lugar do presidente Campos Sales em outubro e novembro de 1899.
Com a interferência de um amigo comum, Deputado Cornélio da Fonseca,
conseguiu audiência na própria casa do Conselheiro, que, mal o ouvira, tendo
exigido sua intervenção apaziguadora na campanha dos jornais oposicionistas
movida contra o prefeito Esmeraldino Bandeira, pessoa que ele muito elogiou.
(MARTINS, 1979, p. 57-58). Delmiro, atendendo apelo do Conselheiro Rosa e Silva,
telegrafou, pedindo uma trégua a seus amigos jornalistas, Baltazar Pereira,
Gonçalves Maia e José Mariano - e, para provar as suas medidas, mandou a Rosa e
Silva cópia dos despachos. Mas, logo depois, sabendo que acabava de chegar do
Recife um pistoleiro conhecido por João Sabe-Tudo, com a missão de assassiná-lo,
solicitou, mas não conseguiu novo entendimento com o poderoso chefe político, a
fim de convencê-lo de suas razões e responsabilizá-lo pelo que viesse a sofrer.
(MARTINS, 1979, p. 58).
De qualquer modo, depois de tentar as negociações acima referidas, tendo se
encontrado com Rosa e Silva em hora de grande movimento na Rua do Ouvidor,
importante artéria do Rio de Janeiro naquela época, ao solicitar que o ouvisse e ao
ser repelido com termos ofensivos pelo Conselheiro, Delmiro, ali mesmo, naquele
sábado à tarde, dia 17 de junho de 1899, agrediu o oligarca pernambucano com a
bengala, bem em frente à Chapelaria Inglesa de Artur Watson, na qual Rosa e Silva
entrou para abrigar-se, “perseguido aos muxicões” (MARTINS, 1979, p. 58).
50
Figura 7 – Francisco de Assis Rosa e Silva, Chefe de uma das Oligarquias
de Pernambuco.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Pelo que se pode concluir, frente a uma ameaça aos interesses de seus
negócios e ao conceito de respeito de que se achava merecedor, Delmiro, uma vez
malogradas as negociações, não titubeara em lançar mão até da força física para
buscar alcançar seus intentos, ainda que seu antagonista fosse um todo-poderoso
da dimensão de um Rosa e Silva19.
No caso específico aqui em consideração, a conduta de Delmiro frente ao
grande oligarca pernambucano que era, simultaneamente, Presidente do Senado e
Vice-Presidente da República, gerou um escândalo de tal proporção, que logo
repercutiu no Recife, levando à instauração de um inquérito. Nele depuseram Rosa
e Silva e Delmiro, bem como Esmeraldino Bandeira e Nilo Peçanha. Defendido pelos
advogados Martins Júnior e Baltazar Pereira, Delmiro concedeu entrevistas e
19
Para conhecer mais sobre este todo poderoso chefe de uma das oligarquias pernambucanas ler:
Os Tempos de Rosa e Silva. (PORTO, 1970).
51
escreveu nos jornais, explicando as origens do ocorrido e exibindo autêntica e
comprometedora carta de Esmeraldino, por meio da qual apresentava o marginal
Sabe-Tudo ao chefe de polícia Sampaio Ferraz, como homem trabalhador e
honesto. Como bem se pode imaginar, a grave ocorrência havia de provocar revide
por parte dos correligionários do Vice-Presidente agredido. E assim foi que um
contingente de policiais realizaram a incumbência de, na noite de 1o para dois de
janeiro de 1900, atearem fogo ao Mercado do Derby, já que o inquérito terminaria
sendo arquivado.
Assim, num ambiente do vale tudo, o troco dos adversários de Delmiro foi
fazê-lo ver o Derby em chamas, além de levá-lo e Napoleão Duarte, seu sócio no
empreendimento do Derby, presos incomunicáveis para averiguações. Frente a esse
episódio, com apoio da Associação Comercial, que representava o lado menos
conservador daquela sociedade de senhores de terras, o comércio do Recife fechou
as suas portas, sendo nomeada uma comissão da classe para entender-se com o
Governador Sigismundo Gonçalves, levando o protesto contra a sua prisão. A essa
altura, a insegurança reinava na cidade, correndo boatos de que Delmiro iria ser
morto. Naquele dia não circularam os jornais “Gazeta da Tarde” e “Jornal Pequeno”,
e, na manhã seguinte, não apareceram nem “A Província”, nem “A Concentração”.
No dia 3, porém, perante habeas-corpus, impetrado pelo Dr. José Vicente Meira de
Vasconcelos que, mais adiante, funcionará outra vez como seu defensor perante a
Justiça, os dois seriam postos em liberdade. (MARTINS, 1979, p. 58-59).
Um testemunho sobre o incêndio do Derby está inscrito nas “Memórias de um
Cavalcanti”, livro incorporado às obras de Gilberto Freyre, que traz a memória do
cotidiano na capital pernambucana e que registrou o episódio do incêndio:
Amanheceu o dia 2 de janeiro de 1900, no Recife, sob a mais dolorosa
impressão, causada pelo incêndio do Dérbi, tendo sido lançado o fogo ainda
a horas mortas da noite de 1o de janeiro. Ao incêndio seguiu-se a prisão do
proprietário daquele estabelecimento, o coronel Delmiro Gouveia. Esta
prisão foi executada com todo o aparato, por um verdadeiro exército [...].
Trancaram o preso em um quartel, deixando-o incomunicável. Segundo a
voz pública, iam matá-lo envenenado. A notícia da prisão espalhou-se pelo
Recife, criando indignação entre muita gente. O comércio fechou em sinal
de protesto. (FREYRE, 1959, p. 121)
O impacto causado pelo incêndio e pela prisão de Delmiro Gouveia terminaria
sendo fartamente noticiado pela imprensa pernambucana, pois o episódio mobilizou
52
aliados e adversários em fervorosos debates sobre o incidente. A grandiosidade do
Derby20 e as inovações promovidas pelo empreendimento foram marcantes, não só
no aspecto urbanístico do Recife. Se a região onde foi construído o empreendimento
era ainda subúrbio naqueles tempos, por ser pioneiro na introdução de um novo
conceito de empreendimento comercial, representava um marco de modernização
que não poderia causar indiferença à população. Cavalcanti, nas suas memórias,
deixa claro o sentimento provocado pelo novo mercado:
O que era o Mercado do Dérbi? Um monumento. Certo Alemão, indo visitálo, disse que o Brasil não estava em condições de possuir obra daquele
porte. Qual o empenho do Coronel Delmiro em empreender tão importante
obra? Abrilhantar a cidade, proporcionar cômodos a mais de 100 famílias,
melhorar a vida do pobre, vendendo gêneros de primeiras necessidades
mais barato. Além disso, era um centro de divertimento. Qual o empenho do
Governador em acabar com o Dérbi? Agradar a Rosa e Silva, inimigo de
Delmiro. (FREYRE, 1959, p.122)
A construção do mercado expressaria, assim, duas características de Delmiro
– o urbanista que buscava modificar as feições do Recife com construções
modernas e a marca de sua característica empresarial que funcionava no comércio
de peles e que, transportada para todas as suas atividades empresariais, consistia
em alijar a concorrência.
Após o incêndio do Derby, resolveu Delmiro afastar-se daquele ambiente e
acabar, inclusive, com a antiga firma que levava seu nome, criando outra sob a
razão Silva, Cordeiro & Cia. Passou procuração para um dos sócios e chefe do
escritório da nova empresa Luís Bahia e, juntando a estas razões a recente
separação de Anunciada Cândida, partiu para a Europa, atraído pela matriz da
civilização ocidental, com seu glamour e seus modos refinados.
No mês de setembro de 1900, encontrando-se Delmiro ainda na Europa,
soube ele, em Nápoles, da grave crise financeira no Brasil, quando o Banco da
República, suspendendo os pagamentos, abalou o comércio do país inteiro,
correndo ele perigo de execução, portanto, de suas dívidas bancárias em montante
superior a 1.700 contos de réis. Daí ter telegrafado a seu procurador, autorizando
hipotecar o patrimônio do Derby, para garantir esses créditos – do Banco de
20
Delmiro é considerado o primeiro supermercadista do Brasil, tendo os supermercados modernos
surgido no Brasil só a partir de 1953. Sobre isto, ler “Cinqüenta anos de supermercado no Brasil”,
2002.
53
Pernambuco, London Bank, River Plate, Banco Popular e do Recife. (MARTINS,
1979, p. 65- 66)
Incursionando por outro ramo do capitalismo, até então não intentado por ele,
Delmiro tornar-se-ia proprietário da usina de açúcar Beltrão, sendo este último um
dos poucos fracassos no jogo dos negócios que marcariam a sua trajetória
econômica até então, já que a destruição do Derby tinha se dado pelo uso da força,
justamente em reação ao sucesso empresarial alcançado por Delmiro.
Entre Recife e Olinda estava localizada a Usina Beltrão, que, conforme
Martins:
Não era propriamente “usina” e, sim, refinaria, destinada a trabalhar com
açúcar bruto dos engenhos e bangüês, segundo processo de dupla
cristalização, a vácuo, isto é, preparava o açúcar refinado, á moda da
Europa. Delmiro acabava de vir de lá, com a cabeça cheia de planos. A
Usina parara e entrara em leilão. Empreendedor, amante do progresso e da
técnica, desejando melhorar a qualidade do açúcar, principal indústria e
esteio econômico da região, ele se interessou em entrar no negócio.
Convidou para sócio José Maria Carneiro da Cunha, com quem constituiria
a firma Cunha & Gouveia. Arrematando em hasta pública a chamada Usina
Beltrão, tornou-se proprietário da “maior refinação de açúcar da América do
Sul”, segundo registro consignado na Enciclopédia e Dicionário
Internacional, da Jackson. MARTINS,1979, p. 63)
Figura 8 – Usina Beltrão.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
A Usina Beltrão tinha instalações para ser a maior refinaria de açúcar da
América do Sul. No entanto, o povo nordestino, naquela época de crise, carente de
54
poder aquisitivo, só consumia açúcar bruto, tipo mascavo. Mas, Delmiro, como de
hábito, estava pensando no mercado externo - europeu e norte-americano -, sendo o
refino uma forte agregação de valor ao açúcar semielaborado, com perspectiva de
grandes lucros. O que o projeto futurista de Delmiro não veio a considerar foi o peso
das oligarquias, das quais faziam parte inextrincável os senhores de engenho que
deveriam fornecer a matéria prima para a indústria de refino de açúcar. Assim, o seu
desentendimento com o Prefeito Esmeraldino Bandeira, que resultara no incêndio do
Mercado do Derby, tinha tornado Delmiro, nos anos de 1900, incompatibilizado com
os usineiros e senhores de engenho que, por bem ou por mal, viviam submetidos à
chefia de Rosa e Silva, a quem Delmiro devia as bengaladas. Muita gente temia
represálias no caso de fornecer a matéria-prima à Usina Beltrão para refinar, como
se pode ver a seguir:
A empresa, fundada com o “propósito de encontrar solução definitiva para o
caso da refinação do açúcar pernambucano” e “com capacidade para
beneficiar toda produção açucareira do Estado – segundo expressões de
José Bonifácio de Souza – continuava apresentando déficit, “não só à vista
do elevado custo das instalações, como também porque não apareceu a
produção que se esperava para o seu funcionamento Full Power
(MARTINS,1979,p. 64).
Como a Usina Beltrão estava situada ao lado do canal de Tacaruna, que vem
do Derby, houve quem dissesse que a sua falência decorreu de não ser permitido o
uso da água desse canal, ou para que este não recebesse os rejeitos da usina. O
fato concreto é que, frente ao olhar de capitalista de Delmiro, que via no refino do
açúcar a agregação de valor à matéria quase bruta do açúcar mascavo, prevaleceu
o interesse dos oligarcas que temiam o poder potencialmente concorrente de um
empresário que já demonstrara sua popularidade no caso do Mercado do Derby. De
qualquer modo, com esse boicote das oligarquias, o olhar modernizante de Delmiro
parecia não contar, tendo sido esse o seu primeiro fracasso nos negócios e
justamente no ramo industrial.
Nesta época – fins dos anos 1800 e início dos anos de 1900 - era intensa a
ligação de Delmiro com outra grande empresa americana – J.H. Rossbach, Brothers,
de Nova Iorque, para a qual, mediante apoio financeiro, trabalha Delmiro,
comprando e exportando peles de cabra e ovelhas e couros de boi. A ligação entre
eles ia ser por toda vida, acabando por se traduzir não apenas em interesses
comerciais, mas, transformando-se em verdadeira amizade e confiança mútua. O
55
apoio financeiro, largo e ilimitado, proporcionava à firma de Delmiro meios de abrir
postos e entrepostos de compras do sertão da Bahia ao interior do Ceará e Rio
Grande do Norte e “distribuir dinheiro aos criadores, sem papéis em cartório, sem
comércio de juros, inovação com que espantava os sócios [...]” (MARTINS, 1979, p.
47).
Em novembro de 1900, tendo recebido em Paris notícias alarmantes enviadas
por Luís Bahia, resolveu viajar, chegando inesperadamente ao Recife a 21 de
dezembro. Logo procurou Napoleão Duarte, vindo a desentender-se, realizando
disparo de revólver por baixo da mesa em que discutiam, ferindo o interlocutor sem
gravidade. Daquela discussão resultaria a ruptura da sociedade Gouveia & Cia.,
oficializada em 31 de janeiro de 1901.
Em 17 de fevereiro de 1901, o Rei das Peles tornava a embarcar para o Velho
Mundo, tendo, na véspera, registrado contrato da sua nova sociedade - Iona &
Krauser - da qual era árbitro único, a cuja decisão os sócios teriam de submeter-se
durante a vigência. Igualmente, já lhe era assegurada essa atribuição de “árbitro”
pelo contrato de Silva, Cordeiro & Cia. (MARTINS, 1979, p. 66). Dessa segunda vez,
Delmiro iria demorar na Europa também por quase um ano, a espairecer pelas
principais cidades, na fase esplendorosa da Belle Époque, chegando de volta
definitiva ao Recife somente a 7 de fevereiro de 1902. Entretanto, seus inimigos não
o esqueceram, continuando a insistir pela liquidação de suas empresas, como meio
de destruí-lo. (MARTINS,1979).
Para piorar a situação de Delmiro – então com 39 anos de idade – este se
envolveria num relacionamento amoroso com a menor Carmélia Eulina do Amaral
Gusmão, uma jovem de 16 anos de idade, filha de Ana do Amaral Gusmão,
chamada Doninha, que era amante de Sigismundo Gonçalves, então Governador de
Pernambuco, seu mais feroz inimigo e, segundo alguns biógrafos, pai de Carmélia
Eulina, a qual, segundo comentários, namorava Esmeraldino Bandeira, prefeito do
Recife, amigo e aliado do Governador pernambucano e então entre os maiores
inimigos de Delmiro. (CAVALCANTI, 2008, p. 143) Este episódio provocou a ira do
Governador Sigismundo Gonçalves que se utilizou do cargo e do prestigio - como,
aliás, era de praxe - para que fosse decretada a prisão de Delmiro Gouveia.
56
Determinada a prisão pela justiça, Sigismundo Gonçalves colocaria a polícia na
captura de Gouveia, sendo procurado até na chaminé da usina Beltrão.
Dias após, encontrada a moça noutro local e entregue a um tutor, ficando
comprovada a culpa de Delmiro, foi contra ele expedida ordem de prisão pelo
suplente do Juiz de Direito do 5º Distrito Criminal de Pernambuco que, no dia 24 de
novembro, informou a pronúncia do réu por rapto e defloramento da menor.
O fato teve grande repercussão na sociedade recifense contra Delmiro que,
procurado pela polícia e sob a ameaça de prisão, viu-se obrigado a deixar
Pernambuco. Delmiro instituiu como advogado de defesa neste processo, mais uma
vez, seu padrasto, o Dr. José Vicente Meira de Vasconcellos, que, baseado na
Constituição Federal de 1891, art. 72, § 22, impetrou Habeas Corpus, o que foi
negado em primeira instância pelo juiz, sendo necessário recorrer ao Superior
Tribunal Federal.
A decretação da prisão de Delmiro Gouveia em razão de ter sido
pronunciado, seguido de ato de despacho de prisão com efeito imediato, em
consequência de um inquérito policial no qual, segundo Vasconcelos (1974, p. 34)
as provas foram forjadas, provocou entre o Dr. Meira de Vasconcelos e a justiça de
Pernambuco um ferrenho debate jurídico, deixando claro na argumentação do
advogado a favor do seu cliente o fato de que a justiça pernambucana e a polícia
agiam por interesses pessoais e políticos dos mandatários, passando a justiça por
cima da legislação vigente. As razões de Meira de Vasconcelos levaram o Superior
Tribunal Federal a conceder a Delmiro o Habeas Corpus, ainda que ele já não
estivesse mais em Recife.
É importante para compreender a trajetória comercial e industrial e até os
insucessos de Delmiro Gouveia, tanto no período em que viveu em Pernambuco,
como no período em que viveu em Alagoas, analisar como estes episódios estavam
ligados a fatos políticos e econômicos destes Estados e do Brasil. Na época, o país
estava sob o regime republicano e o Governo de Campos Sales nada mudara a
ordem das coisas; ao contrário, a fim de poder sustentar-se, mais havia fortificado as
oligarquias estaduais. Com isso, “convertia-se a Federação em vasto agrupamento
de feudos, grandes e pequenos, muito mais atentos aos interesses regionais do que
57
aos de ordem geral da nação”. (MARTINS, 1979, p. 62). E Pernambuco não estava
imune a esta situação. “A decadência econômica do açúcar, reduzido aos modestos
mercados internos, arruinava os senhores de engenho do Nordeste, tão fracos,
aliás, de iniciativas”, (MARTINS, 1979), diferentemente do comportamento ativo e
agressivo de Delmiro que, talvez por isso, tivesse ainda mais reforçada a oposição
que lhe era feita, inclusive pela popularidade e pela repercussão positiva de seus
empreendimentos junto à população.
1.4 O Regresso Forçado ao Sertão
Alagoas, no início dos anos de 1900 - na verdade, de 1900 a 1912 - vivia sob
o poder da oligarquia Malta, que consistia no comando do Governo do Estado por
Euclides Vieira Malta, o qual se fazia auxiliar e, até, alternar por Joaquim Paulo
Vieira Malta, seu irmão. Em 1902, enquanto Delmiro se transferia para Alagoas, ele
iria se esforçar para evitar o processo falimentar de suas empresas. Com a saída de
John Krause de suas organizações, ele logo fundou a Iona & Cia., com sede no
bairro de Jaraguá, em Maceió.
Chegado ao sertão alagoano, em novembro de 1902, Delmiro instalou-se em
Água Branca, situada no alto de uma serra e que, no tempo do Império, tinha sido
sede de um baronato. Lá, por recomendação expressa de Euclides Vieira Malta, foi
recebido justamente pelas famílias Torres e Luna, que descendiam dos barões de
Água Branca, vindo a ser seus amigos mais próximos Dr. Miguel Torres, juiz de
direito, o engenheiro Luiz Torres e o Dr. Antonio Torres. A recomendação do
Governador Euclides Vieira Malta foi feita diretamente ao Coronel e Senador
Estadual Ulisses Vieira de Araújo Luna21, sendo Delmiro seu hóspede na fazenda
“Cobra”, localizada próxima da sede do município, para onde veio posteriormente lhe
fazer companhia Carmélia Eulina do Amaral Gusmão.
21
Na República Velha, o sistema legislativo alagoano era bicameral, tendo Câmara e Senado, sendo
Luna integrante deste último.
58
Figura 9 – Delmiro Gouveia com Carmélia Eulina do Amaral Gusmão.
Fonte:Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Com Eulina, Delmiro teve os filhos que não conseguiu ter com Anunciada. Da
união nasceram Noêmia, Noé, e Maria Augusta. (SANTOS, 1947, p. 20).
Decidido a se estabelecer no sertão de Alagoas, em março de 1903, Delmiro
comprou uma fazenda que denominou Rio Branco, perto da Pedra, um pequeno
povoado pertencente ao município de Água Branca, às margens da Ferrovia Paulo
Afonso22, construída por ordem do Imperador D. Pedro II, após sua viagem pela
província de Alagoas, quando visitou, em 1859, a cachoeira de Paulo Afonso, no Rio
São Francisco. A construção desta linha de trem tinha os objetivos de gerar
emprego para uma grande massa de sertanejos atingidos pelas secas,
principalmente a de 1877, enquanto ligava o baixo ao médio São Francisco, no
trecho onde se localizava a Cachoeira, o que impossibilitava a navegação da parte
baixa à parte alta do rio. Esta estrada de ferro possibilitou a Delmiro a retomada de
seus negócios de compra e exportação de peles de animais, tendo em vista que a
confluência dos Estados de Bahia, Sergipe, Pernambuco e Alagoas favoreciam a
22
A linha de trem Piranhas – Jatobá foi inaugurada no dia 02 de agosto de 1883, com um total de 115
km de extensão e as seguintes estações: Piranhas, Olho D’água, Talhado, Pedra, Sinimbu, Moxotó,
Quixaba e Jatobá. Para saber mais sobre esta Estrada de Trem ler “Estrada de Ferro Paulo Afonso
1882 – 1964”, de Luiz Rubem F. Alcântara Bonfim.
59
chegada das peles até a Pedra, donde podiam seguir para o mundo pelo leito do Rio
São Francisco.
Figura 10 – Mapa montado indicando a situação geopolítica do Núcleo Fabril da Pedra
– atual Delmiro Gouveia.
Fonte: Gonçalves, 2010.
Com a chegada e permanência de Delmiro no vilarejo da Pedra, a compra e a
exportação de peles fizeram com que o lugar tivesse um grande movimento, pois,
era um comércio que se estendia pelo interior de Pernambuco, Paraíba, Ceará,
Sergipe e Bahia. Os comboios de animais chegando e saindo eram diários. E para o
serviço de transporte mantinha a organização uma tropa de mais de duzentos burros
e um grupo de almocreves. Como essa estrutura própria não era suficiente, tamanho
o volume de peles a serem transportadas para a Pedra, Delmiro ainda se utilizava
de comboios fretados. Segundo Santos, o volume de peles compradas chegou a um
milhão e meio de peles em média por ano. (SANTOS, 1947, p. 27-28) Após passar
por processo de tratamento, elas eram organizadas em fardos e levadas de trem até
Piranhas, onde eram embarcados em vapores de carga até o porto de Jaraguá, em
Maceió, sendo então despachadas de navio para os Estados Unidos.
Na extremidade da fazenda próxima ao povoado e à ferrovia, construiu
Delmiro currais, açude, uma residência e prédios para abrigar um curtume.
60
Figura 11 – Açude construído por Delmiro na Pedra.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Delmiro, em 1909, já tinha retomado o monopólio do comércio de peles no
Nordeste brasileiro. Com o acúmulo de capitais e a ajuda de sócios brasileiros e
estrangeiros, preparou-se para novos empreendimentos. Instalado definitivamente
na Pedra e já refeita a sua fortuna, depois dos desastres do Recife – um político e
outro industrial, mas, ambos com fortes repercussões financeiras -, Delmiro Gouveia
recebeu uma missão americana chefiada por Mr. Moore, capitalista que realizava
entendimentos com o chefe da Pedra, para a produção de energia hidrelétrica e a
criação de uma grande empresa agrícola e industrial. (SANTOS, 1947, p. 30)
Os detalhes desta visita não foram tornados públicos, segundo Adolpho
Santos (SANTOS, 1947, p. 31), em razão de necessitar Delmiro, para realizar tais
empreendimentos, de adquirir terras nas proximidades da Cachoeira de Paulo
Afonso e adjacências. A publicidade iria provocar especulações por parte dos
proprietários de terra na região, criando obstáculos as suas pretensões.
Acompanhou a comitiva o engenheiro Stewart, que levou equipamentos de precisão
que o ajudassem a fazer um relatório sobre a viabilidade dos empreendimentos
pretendidos, principalmente após estudos do Rio São Francisco, desde Piranhas até
Jatobá, em ambas as margens. (SANTOS, 1947, p. 30-31). Ao final da visita foi
firmado entre Delmiro e Mr. Moore “contrato de opções de compra da cachoeira de
61
Paulo Afonso (sic) e terrenos marginais com todas (sic) as cláusulas acauteladoras
dos recíprocos direitos, deveres e obrigações” (MENEZES, 1991, p. 63)23.
O local escolhido por Delmiro para instalação da usina hidrelétrica foi a
cachoeira de Paulo Afonso, entre os Estados da Bahia e de Alagoas. O grande
volume de águas e as várias quedas da cachoeira impressionavam todos os
visitantes, inclusive o Imperador Dom Pedro II, que lá esteve em 20 de outubro de
1859:
Tentar descrever a cachoeira em poucas páginas, e cabalmente, seria
impossível, e sinto que o tempo só me permitisse tirar esboços muito
imperfeitos. O terreno é todo pedregoso e se muito se tem exagerado a
respeito desta cachoeira, não sou eu exagerado dizendo que há verdadeiro
perigo em percorrer todos os pontos de vista da cachoeira e principalmente
descer à furna dos morcegos, como eu fiz, dando contudo três quedas
nesta última exploração, felizmente sem me machucar. (PEDRO II, 2003, p.
136).
Delmiro foi, aos poucos e sem demonstrar grande interesse, comprando as
terras marginais à cachoeira. Em 1910, Delmiro tenta entendimento com o
Governador de Pernambuco, General Dantas Barreto, para obtenção de autorização
para passar com fios e redes de energia pelo Estado Pernambucano, levando
energia que iria produzir na Usina Hidrelétrica de Angiquinho até o Recife,
acreditando que não teria dificuldade em conseguir tal autorização, tendo em vista
não mais comandarem o Estado os aliados de seu adversário Rosa e Silva. Embora
tivesse o próprio Delmiro participado da campanha ao Governo de Dantas Barreto,
recebeu do Governador Pernambucano um taxativo não às suas intenções. Este
episódio marcou a sua trajetória, pois, sem o apoio deste Estado os sócios
americanos desistiram dos negócios com Delmiro. (SANTOS, 1947)
Apesar da negativa do Governador de Pernambuco, Delmiro Gouveia dá
prosseguimento aos planos de produzir energia utilizando-se das forças das águas
da cachoeira de Paulo Afonso. Para isso, consegue de Euclydes Malta, Governador
23
Hidelbrando Menezes salienta que antes destes estudos encomendados por Delmiro sobre o vale
do São Francisco, especificamente da cachoeira de Paulo Afonso, já tinham sido feitos estudos de
viabilidade econômica por Halfeld, Liais, Saint-Clair, propondo desviar a água para os Estados onde
essa era escassa. Segundo ele, “não se deram conta, estes, de que para transformar o grande vale
sanfranciscano, sáfaro, mas de terras úberes, num grande produtor de riqueza, falta apenas a água.
Seu destino agro-industrial depende apenas da água (MENEZES, 1991, p. 63).
62
de Alagoas, a publicação do Decreto Nº. 520, de 12 de Agosto de 191124, cujo facsimile encontra-se no Anexo 1 deste texto e cujo teor é, na íntegra, o que segue:
Concede a Iona & C. ou Empreza que organizarem o direito de se
utilizarem, pelo praso de noventa (90) annos, da força hydraulica que
possuem em terrenos de sua propriedade situados em margens fluviais e
ribeirinhas dos Municipios de Agua Branca e Piranhas, neste Estado, para
transformarem-n´a em energia electrica que poderão conduzir em fios ou
cabos de alta e baixa tensão, para qualquer parte do território alagoano
aproveitando-a em todas as industrias e fornecendo-a, como força motora, a
todas as fabricas existentes e as que de futuro possam ser creadas, quer
nesta capital quer na zona do S. Francisco ou em outra qualquer do Estado,
bem como o direito de construírem casas para estações de transformadores
á margem da faixa de terras por onde passarem os fios ou cabos
conductores e fazerem tudo o mais que necessário for á segurança dos
seus machinismos e apparelhos para o que lhes concede o direito de
desapropriação por utilidade publica sobre os terrenos necessários á
passagem dos referidos cabos e fios e ao alevantamento das mencionadas
estações, e comprometendo=se a encaminhar os pedidos de iguais
isenções dos impostos federaes respectivos, na forma das leis em vigor.
(ALAGOAS, 1911).
Não tendo desanimado com a negativa do Governador pernambucano e a
perda dos sócios, ele, que sempre fora criador de oportunidades em meio às crises
por que passara, resolveu buscar outros sócios para tocar o empreendimento
hidrelétrico. Iniciada em 1911 a construção da usina, foi inaugurada em 26 de janeiro
de 1913. (ROCHA, 1963, p. 106)
Assim descreve Menezes a inauguração da Usina de Angiquinho:
[...] Delmiro reuniu os sócios, técnicos de serviço e funcionários de mais alta
categoria. À mesa, aguardavam todos a ligação, o que ocorreu sem nenhum
contratempo, em meio a grandes manifestações de júbilo, que se
estenderam a todo vilarejo. (MENEZES, 1991, p. 76)
Como ramificação da usina, projetara Delmiro a construção de uma fábrica de
linhas, para o que realiza os preparativos no intuito de implantar o núcleo fabril, que
incorporou às primeiras edificações, enquanto constituía, em 1912, a Cia. AgroFabril Mercantil com sede em Recife.
24
Como as casas legislativas de Alagoas somente funcionavam dois meses por ano, estas concediam
ao Governador permissão, por lei, de estabelecer concessões ou, então, quando nas reuniões da
legislatura seguinte, referendavam os decretos do chefe do executivo, sendo este o caso.
63
Figura 12 – Rua 13 de maio – uma das sete ruas integrantes da vila operária da Pedra
e a única com casas dos dois lados.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Delmiro, mais uma vez, voltava ao campo industrial, depois das tentativas
feitas com a Usina Beltrão. Afinal, se não era viável a venda de eletricidade,
permanecendo ele no campo comercial, que dominava como ninguém, urgia
encontrar um emprego rentável para a usina que acabara de construir no leito do rio
São Francisco.
Tratava-se de uma sociedade anônima para garantir o funcionamento da
fábrica projetada. Esta empresa incorporou, com os seus sócios, a firma Iona & Cia.,
bem como seus principais auxiliares. (MENEZES, 1991, p. 67) Todos eles tinham
participação na organização e foi destinado certo número de ações para cada sócio.
Conforme Art. 4º do Estatuto da recém criada empresa, a Cia. tinha por finalidade:
Explorar nos Estados de Pernambuco, Alagôas e Bahia o commercio de
gado vaccum, cavallar, cabrum e ovino, plantio de algodão, irrigação de
terras seccas, fôrça elétrica e suas aplicações e industria fabril
[...].(GOUVEIA, [1912], p. 2)
Para tanto, Delmiro já havia obtido, também, do Governo do Estado de
Alagoas o decreto Nº. 499 de 20 de setembro de 1910 (fac-simile no Anexo 2), nos
seguintes termos:
64
concede a firma Iona & Cia. Ou empresa que organizasse, as terras
devolutas autoadas entre os logares denominados “Vai e Vem” “Fazenda
Burnil”, “Riacho do Talhado” e “ Buraco”, município de Água Branca, afim de
serem aproveitadas no cultivo de algodão, cereais e forragens por meio de
serviços de irrigação montados pelos systemas mais aperfeiçoados, e
isenta dos impostos municipais e estaduais os machinismos e matériaes
importados, e concede uma bonificação aos produtos agrícolas obtidos nas
mesmas terras (ALAGOAS,1910a).
Também recebeu Delmiro, por meio do Decreto Nº. 503, de 30 de Novembro
de 1910 (fac-símile no Anexo 3) a
concessão através da Iona & Cia. isenção por dez anos, de impostos
estaduaes para a importação dos maquinismos necessários á fundação de
uma fábrica destinada á confecção de redes, linhas simples ou em carretel
ou novelos que pretendem montar neste Estado, bem como os de
exportação dos produtos da mesma fabrica a contar da data de sua
instalação. (ALAGOAS,1910b).
De fato, dessas concessões públicas, que representavam condição
indispensável para maior lucratividade dos empreendimentos, junto à garantia de
que as iniciativas não viessem a sofrer obstáculos no futuro, encontram-se
referências registradas no livro de Ata de registro da sociedade, nos seguintes
termos:
[...] utilizar-se-á dos direitos e concessões feitas pelo Govêrno do Estado de
Alagoas aos incorporadores ou organizadores da companhia, os Snrs. Iona
& Cia., conforme os decretos N° 499 de 29 de setembro de 1910; N° 503 de
30 de novembro de 1910; N° 520 de 12 de agosto de 1911, que concedeu o
direito de aproveitamento das terras seccas e devolutas no município de
Água Branca naquelle Estado, a isenção de impostos para exploração de
uma fábrica de linhas, e o aproveitamento da fôrça hydro-eletrica e sua
transmissão em todo Estado, concessões e direitos estes que entram para
composição da Companhia no valor arbitrado pelos peritos. (GOUVEIA,
[1912], p. 2)
Como se pode ver, Delmiro tinha se cercado de todas as garantias e
benefícios do Poder Público, inclusive desfrutando de concessões legalmente
inadmissíveis, como a de uso do Rio São Francisco e de suas margens, que faziam
parte do domínio da União. Mas, era para isso que, na República dos Coronéis,
valiam as relações estabelecidas – no caso de Delmiro, desde que chegara a
Alagoas – com o Governo Estadual e as oligarquias locais, contra os quais a frágil
oposição política existente quase nada podia fazer.
Com os novos empreendimentos a todo vapor, todo o lucro obtido no
comércio de peles era consumido, sendo necessário solicitar adiantamentos à firma
65
Rossbach Company. Delmiro, para conseguir tais empréstimos, se utilizava de
alguns artifícios. Um deles consistia em fazer com que os comprovantes de
remessas de peles à firma estrangeira fossem sempre superiores à mercadoria
efetivamente despachada. Segundo Menezes (1991), isso foi feito até que a
empresa americana ficasse ciente do artifício e suspendesse as remessas de
dinheiro a Delmiro. Mas, então, ele já tinha recebido vultosas somas de recursos,
capazes de viabilizar os seus empreendimentos. (MENEZES, 1991, p. 72)
Figura 13 – Usina Hidrelétrica de Angiquinho, na Cachoeira de Paulo Afonso.
Fonte – Acervo Particular de Edvaldo Nascimento.
A conclusão das instalações da primeira turbina de Angiquinho e de uma
bomba de 150 HP, que deu início ao abastecimento de água na Pedra, foi celebrada
pela população, chefes da empresa, técnicos, chefes de serviços e operários.
(MENEZES,1991,p. 73) Pedra ficava distante da cachoeira 24 quilômetros e Delmiro
tinha mandado construir uma estrada carroçável ligando as duas localidades. Assim:
Em 1913, o edifício da fábrica estava concluído e o trabalho das instalações
da maquinaria prosseguia ativamente, sob rigorosa fiscalização de Delmiro.
Técnicos eram substituídos a qualquer demonstração de incapacidade.
Também os operários que se mostravam indolentes, vagarosos ou
indisciplinados eram prontamente afastados. Todos teriam que produzir o
máximo e atender as suas exigências. (MENEZES, 1991, p. 74)
Com a fábrica pronta, Delmiro reuniu-se com os sócios para organizarem os
orçamentos necessários para aquisição de matéria prima e insumos, como algodão
de fibra longa e os carretéis. O algodão viria do Rio Grande do Norte e da Paraíba e
66
os carretéis eram comprados da concorrente escocesa. E, por unanimidade, os
sócios definem o nome na linha, que se chamaria “Estrela”.
Foi, então, no dia 05 de junho de 1914, inaugurada a fábrica de linhas da
Pedra, fato que, segundo Menezes (1991, p.76), foi comemorado festivamente, ao
tempo em que se ouvia o som da sirene como que anunciando à população a notícia
do feito sertanejo.
A concretização dos acontecimentos referidos acima, segundo Adolfo Santos,
que foi testemunha dos episódios, deu-se da seguinte forma:
É agradável lembrar o dia em que chegou o primeiro jato d´agua e acendeuse a primeira lâmpada; toda a população da Pedra estava fora de casa
assistindo o(sic) espetáculo maravilhoso da transformação que se operava
na localidade sendo contagiante a alegria geral. Delmiro exultava vivamente
emocionado. (SANTOS, 1947, p. 35).
A fábrica passou a funcionar em fase de experiência, com jornada de trabalho
de oito horas diárias, produzindo o tipo de linhas glacê, linhas de bordar e de crochet
macramê. Os operários principiantes e técnicos procuravam regular as máquinas e
estudar a resistência do produto fabricado, tendo as primeiras linhas vendidas
causado má impressão, ocasionando a demissão de vários técnicos.
Segundo Santos, “o corpo de operários chegou a atingir, na quadra do
movimento máximo, dois mil indivíduos de ambos os sexos que trabalhavam dia e
noite, de segunda a sábado” (SANTOS, 1947, p. 34). Ainda consoante o que ele
relata:
A maioria do operariado era brasileiro, recrutado na população bronca do
sertão bravio, o qual, recebendo os ensinamentos do chefe e dos
profissionais contratados para amestrá-lo, tornara-se dentro de pouco
tempo hábil no manejo de todos os aparelhos e de toda a maquinaria e,
ainda hoje, são esses nativos que Delmiro instruiu e mandou instruir, os
mesmos que executam as mais difíceis tarefas concernentes ao serviço
elétrico e fabril que se desenvolvem na Pedra nesta sua segunda fase
(SANTOS, 1947, p. 36)
Os grifos na última citação, que são de minha autoria, tornam bem patentes a
perspectiva educativa assumida por Delmiro e seus auxiliares mais diretos que se
encontravam à frente do empreendimento fabril e da usina de Angiquinho: havia que
civilizar a “população bronca do sertão bravio” (sic), para “tornar-se, dentro de
pouco tempo, hábil no manejo de todos os aparelhos e de toda a maquinaria”,
67
tarefa que, segundo Santos, exigia “amestrar os nativos” (sic). Afinal, a mão de
obra empregada na fábrica, à exceção dos técnicos qualificados que vinham de fora
e até do exterior, era inteiramente proveniente do próprio sertão. (SANTOS, 1947)
Segundo afirmou Lauro Góes em depoimento sobre o período que trabalhou
na fábrica da Pedra:
Na seca de 1915, Delmiro atendeu toda uma multidão de famintos que
chegaram à Pedra à procura de trabalhos e alimentos. Vários - a maioria ficavam na localidade como operários da Fábrica e outros seguiram a sua
caminhada, mas ajudados pela direção da empresa, com uma pequena
ajuda para a viagem. Nessa época o número de operários elevou-se a
quinhentas pessoas. (GÓES, 1962, p. 26).
Para prevenir-se das secas periódicas, Delmiro manda erguer silos para
encher de milho e feijão, produtos obrigatórios na culinária do sertanejo. Abastecido,
Delmiro pôde atender os sertanejos que, segundo Menezes:
Tangidos pelas secas de seus pobres lares, chegavam à Pedra, às
dezenas, diariamente, infelizes vítimas do flagelo, procedentes do Ceará, da
Paraíba, de Pernambuco, de todos os Estados nordestinos enfim, à procura
de alimento. Eram, sem exagero, frangalhos humanos, tão esgotados e
maltrapilhos chegavam (MENEZES, 1991, p. 78).
Para justificar as enérgicas ações de Delmiro junto aos operários, é comum
se argumentar que o operariado não tinha ainda habilidade no manuseio das
máquinas, produzindo pouco e uma linha defeituosa, o que levaria Delmiro a adotar
medidas enérgicas para melhorar a produção. Essas providências, segundo
Menezes, eram “muitas vezes ásperas, que escandalizavam os sertanejos,
habituados a uma vida trabalhosa, mas de liberdade e de revolta contra imposições”.
(MENEZES, 1991, p. 79) De qualquer modo, montada e posta a fábrica em
funcionamento, Delmiro iria, como vimos, voltar-se inteiramente à preparação e
monitoramento da mão de obra para que o empreendimento tivesse êxito. Para
tanto, poria em movimento um projeto de clara configuração educativa, tanto se
utilizando das escolas que passaram a funcionar em residências do núcleo fabril,
como pelo conjunto de normas por ele estabelecidas no perímetro do núcleo fabril,
voltando às atividades escolares tanto as crianças, quanto os jovens e adultos
trabalhadores, num projeto articulado que será analisado detidamente no último
capítulo deste estudo.
68
1.5 O Sertão de Delmiro e o Sertão do Conselheiro e Padre Cícero
Segundo Bartelt (2009), o episódio da Guerra de Canudos (1893-1897) foi
mais que um acontecimento militar, tendo em vista que ganhou significado central
para a República brasileira recém-proclamada. O sertão até então representava o
hinterland25 da Nação Brasileira e é a partir daquele acontecimento no interior da
Bahia que o sertão passaria a ser visto pelo Brasil como parte dele, mesmo sendo
concebido ainda como espaço de barbárie, resistente ao moderno, afastado do
poder público, em contraponto ao litoral, lugar do moderno e da civilização
(MAYNARD, 2008, p 17).
Se, por um lado, parece estranha a relação entre Canudos e a República
nesta discussão que envolve Delmiro Gouveia e seus projetos econômicos e sociais,
sua centralidade apresenta-se crucial
quando
se
discute
o
lugar
desse
empreendedor no cenário geopolítico do recém-proclamado regime político, a partir
do momento em que o resultado da disputa no interior dos grupos republicanos –
jacobinos positivistas e liberais oligárquicos da burguesia cafeeira de São Paulo –
que mediram forças contra os seguidores do beato de Belo Monte, viria a determinar
as relações que enquadrariam as ações levadas a efeito no núcleo fabril da Pedra,
no interior alagoano, pelo industrial do sertão. Afinal, sabe-se, pela história brasileira,
que, nos sertões, por conta das forças que viriam a se tornar hegemônicas na I
República – também conhecida como República Velha - exerceria função destacada
a figura do coronel, originária do período imperial, mas, que ganha ainda mais força
política nos albores da República.
É em meio ao poder avassalador dos coronéis que o núcleo fabril da Pedra
seria ampliada em pleno sertão alagoano e tornar-se-ia o centro econômico e social
de vasta região sertaneja que ultrapassaria as fronteiras do Estado. Como a maioria
dos trabalhos sobre a Pedra e seu fundador relegaram a segundo plano as
25
O termo alemão hinterland – literalmente, “terra de trás, traseira”, ou também “terra do além” -,
tomado de Dawid Bartelt (2009), condensa a perspectiva de uma teoria da modernização, que
estabelece como norma de desenvolvimento o modelo de Estado representado pelo que estaria
vigente no centro que precisava ser estendido à periferia, à “terra do além”, ou também “terra de trás,
traseira”. O termo comporta, assim, uma perspectiva de superioridade territorial e cronológica dos
grandes centros do litoral – em oposição ao que é percebido como espaço afastado e atrasado,
subdesenvolvido e que, segundo entendo, tem um forte potencial explicativo para se entender a I
República e muita coisa do que nela ocorreu, inclusive a experiência da Pedra, com seu projeto
educativo.
69
conjunturas
políticas
nacional
e
regionais,
assim
como
as
estruturas
socioeconômicas brasileiras do período em que ali se deu a atuação de Delmiro,
entendo ser fundamental, para análise da experiência de uma nova configuração do
urbano, do industrial e do educacional no sertão alagoano na Primeira República, a
explicitação da categoria “sertão”, até porque identifiquei nela o mesmo alcance
explicativo que Bartelt (2009) enxergou quando intentou e, a meu ver, conseguiu
explicar com toda clareza o conflito de Canudos. Foi desta forma que vi a
possibilidade de entender porque “o núcleo fabril da Pedra” foi transformada em
“Pedra de Delmiro”, e quais as razões que levaram esta comunidade a ser apontada
por liberais modernizadores na Velha República como síntese viva e concreta do
ideário de sociedade a ser emulada e o trabalho do seu “dono” de transformar
“bárbaros” sertanejos em seres “civilizados” como exemplo a ser seguido. Afinal, não
foi por acaso que a Pedra foi transformada em “símbolo de civilidade” no sertão que
se contrapunha a Canudos e Juazeiro.
Com efeito, se Pedra foi vista por muitos dos seus estudiosos como uma ação
isolada, ou seja, o resultado de um projeto individual, feito um levantamento da
conjuntura política nacional e regional que permite um olhar mais largo sobre a
experiência em foco, percebe-se que ela esteve diretamente relacionada e articulada
à conjuntura mais geral da sociedade brasileira. E isso não significa que eu não
esteja considerando a influência do local e do regional no fato aqui estudado; pelo
contrário, considero que a dinâmica sociohistórica do sertão alagoano e
circunvizinho torna patente o quanto o local influencia o nacional e é por este
influenciado.
A imagem do sertão difundida na literatura brasileira tem sido bastante
divergente, sendo o enfoque negativo questionado por intelectuais como Graciliano
Ramos, que atribuía aos escritores ficcionistas do final do século XIX a imagem até
então difundida sobre o sertão (MAYNARD, 2008, p. 40). A ideia do sertão como um
espaço de miséria e atraso econômico provocou reação de inúmeros letrados. Em
geral, a natureza no sertão é tratada como uma natureza sem vida, cruel e
ameaçadora, caracterizada como região infértil, seca e de onde surgem os
sertanejos - seus habitantes - rudes, violentos, incivilizados, prisioneiros de
crendices e superstições e, até mesmo, bárbaros. Na verdade, a região
70
caracterizada como sertão costuma englobar diferentes áreas com distintos índices
de aridez, indo desde locais com balanço hídrico negativo, onde se desenvolve a
caatinga característica de lugares secos (caatinga hiperxerófila), até regiões com
balanço hídrico positivo, que resulta em solos bem desenvolvidos. Apesar dessas
variações extremas, porém, toda a área está sujeita a secas anômalas com
periodicidade frequente. (GONÇALVES, 2010, p. 30)
Na verdade, a seca não tem correlação com a quantidade de chuvas que
costuma cair no sertão: a média anual é superior à quantidade de chuva que cai no
continente europeu, por exemplo. A seca, segundo Gonçalves (GONÇALVES, 2010)
está diretamente relacionada com a péssima distribuição temporal e espacial das
precipitações. Outro fator importante para ser considerado é a flutuação
pluviométrica, que alterna estiagens acentuadas com períodos de chuvas intensas.
Tudo isso, mais o excessivo calor que provoca aumento na denominada
evapotranspiração, faz com que a água que cai se dissipe frequentemente, antes
mesmo de encontrar o solo quente. (GONÇALVES, 2010) O fato é que, com o
passar dos anos, essas características tornaram-se uma marca registrada dos
sertões, que viria a influenciar a política, a economia e a sociedade brasileira como
um todo. O que importa das constatações acima registradas é que esses
estereótipos de sertão vão contribuir para a construção da imagem de um sertão
inóspito, de constante falta de água, solo quente e seco e com uma crônica falta de
alimentos. Enquanto isso se estabelece como senso comum, Bartelt (2009),
referindo-se às proximidades de Canudos, conclui que o sertão sempre possuiu
significativo potencial econômico, tendo em muitos lugares solo fértil em que:
[...] a maioria da população conseguia tirar [...] o que precisava para viver:
dispunham de madeira, barro e folhas de icó ou telhas para construir e
cobrir casas. Teciam suas redes de dormir e fabricavam suas panelas e
caçarolas. Em tempos de chuva regular, o plantio e a criação de gado
garantiam uma alimentação rica e preciosa, complementadas por alimentos
obtidos na colheita e na caça. Em tempo de escassez de água, os
sertanejos eram obrigados a se alimentar sobretudo de seus estoques. O
clima seco favorecia o armazenamento de alimentos não-perecíveis: a
farinha de mandioca, o feijão e a carne seca, base da alimentação e,
durante a seca, praticamente os únicos alimentos no sertão. (BARTELT,
2009, p. 59)
Nesse contexto, pelo que se pode perceber, o que caracteriza os sertões do
norte brasileiro não é apenas a curta ou inexistente estação das chuvas, mas,
71
principalmente, uma política incapaz de criar sistemas de irrigação no sentido de
diminuir a dependência do clima. (BALTELT, 2009).
É sabido que o sertão foi fartamente retratado na literatura brasileira mesmo
antes do episódio da Guerra de Canudos, mas foi a obra referencial “Os Sertões”, de
Euclides da Cunha, publicada em 1902, ou seja, cinco anos após o final da guerra,
que mais influenciou a formação da imagem sobre o sertão e o sertanejo. É inegável
que a obra euclidiana representa uma das mais completas leituras sobre os
aspectos sociológicos, antropológicos, biológicos e geográficos do sertão. No
entanto, outras leituras também existentes não foram ou não costumam ser levadas
em conta quando se quer pensar esta região do Brasil. Outros clássicos da nossa
literatura que ajudaram a construção de uma imagem do sertão e do sertanejo foram
“Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (2000); “Grande Sertão Veredas”, de João
Guimarães Rosa (1986); e Viajando o sertão (2009), de Luís da Câmara Cascudo.
O sertão alagoano, lugar onde ocorreu um processo de industrialização
levado a efeito por Delmiro Gouveia, até então pioneiro no interior do Nordeste
brasileiro, não difere muito das características sociais, políticas e geográficas aqui
levantadas e referidas na nossa ficção; na verdade, uma dessas obras – a de
Graciliano Ramos – é ambientada no próprio sertão alagoano, trazendo à cena
personagens que são a corporificação do que se imagina ser o sertão brasileiro.
Um dos motivos de maior admiração de importantes personalidades
brasileiras e estrangeiras pela obra de Delmiro é justamente de ter sido esta
realizada no sertão brasileiro, lugar que, segundo Andrade (1963, p. 25), é “[...]
quente, porém, seco, e não só seco, como sujeito, desde a época colonial, a secas
periódicas que matam a vegetação, destroçam os animais e forçam os homens à
migração”.
Apesar de estar localizada no sertão alagoano, é verdade que Água Branca,
onde estava o núcleo fabril da Pedra, ainda que situada numa serra e bem próxima
do caudaloso Rio São Francisco, guardava as características gerais do sertão.
Segundo Marroquim (2000), do ponto de vista fitogeográfico, Alagoas se dividia em
duas faixas caracterizadas: central ou da caatinga, e a oriental ou da mata -, sendo a
primeira composta por caatinga, exceto nos municípios de Água Branca e Mata
72
Grande, que representavam “verdadeiros oásis no seio daquela aridez, taes o
aspecto e a exhuberancia de sua vegetação florestal” (MARROQUIM, 2000, p. 1-2).
Nas primeiras décadas dos anos de 1900, o sertão alagoano era formado pelos
municípios de Água Branca, Pão de Açúcar, Paulo Afonso (atual município de Mata
Grande), Piranhas e Santana do Ipanema, compreendendo o alto sertão: Paulo
Afonso, Piranhas e Água Branca e, estando Pedra localizada neste município, a
região em que se situava o núcleo fabril da Pedra era cercada pela catingueira, pela
macambira e por diversas cactáceas, como o chic-chic, o mandacaru, o facheiro, a
coroa de frade e o quipapá. É que o município de Água Branca era composto de
solo ondulado, estendendo-se ao longo de caatingas nuas e pedregosas, tendo ao
centro a Serra de Água Branca, de natureza idêntica à das matas, onde se situava a
sede municipal.
Na perspectiva de reconstruir a experiência do processo educacional da
Pedra, torna-se essencial conhecer a terra e quem nela vive, em suas
particularidades físicas e sociais como elementos que contribuirão para um olhar
apurado da dimensão humana e social do lugar sertão. Nesse sentido, pode-se dizer
que ali existia uma população cuja esmagadora maioria era mantida praticamente
sem instrução escolar, vivendo num sistema de poder de origem privada que apenas
sugeria a presença do poder do Estado. Era um povo que desconhecia os conceitos
de Estado e de formas de governo, assim como devia carecer de uma ideia concreta
e comparativa do tamanho e da forma de seu país – o Brasil. Sobre eles vale dizer,
como Bartelt, referindo-se à população da região de Belo Monte, que “certamente
sabiam que eram brasileiros, entretanto, é questionável se se sentiam, no sentido de
Anderson, como parte de uma comunidade imaginada chamada nação brasileira”
(BARTELT, 2009, p. 48).
Tratando-se do regime republicano que intentava se firmar em fins do Século
XIX e inícios do Século XX, se os sertanejos esperassem com muita expectativa por
vantagens da parte do novo sistema – o que não era o caso – logo iriam se
decepcionar, pois, com a República ali nada mudou para melhor. Na verdade, com a
República,
As instituições políticas no sertão não ganharam maior estabilidade, os
amplos poderes dos coronéis, resultantes da instabilidade institucional, não
foram limitados e as possibilidades de participação formal na vida política
73
não aumentaram. Revogar o censo no direito eleitoral praticamente não
mudava essa situação enquanto o direito de voto fosse vetado às mulheres
e continuasse dependendo da capacidade de ler e escrever (BARTELT,
2009, p. 48).
De que maneira, então, o sertão alagoano se constituiu historicamente na
primeira República? É possível afirmar que a experiência industrial da Pedra foi o
ideal de sociedade republicana e exemplo para a nação brasileira? Como e por que
o discurso de intelectuais, políticos e industriais de várias matrizes ideológicas
reproduziam a experiência da Pedra como um marco na civilização do povo
sertanejo?
Pedra, Canudos e Juazeiro foram e ainda servem de comparação como
experiências opostas, onde a primeira representaria o modelo de civilização e as
outras de barbárie. Ao difundir a imagem do sertão como de uma região de solo
infértil, seco, quente, atrasada, incivilizada e habitada por uma sub-raça (os
sertanejos, jagunços), que, além de inferiores, tinham vocação para o messianismo
e a violência – a elite brasileira usou Canudos para reforçar sua concepção de
sertão fundamentada em teorias produzidas por intelectuais, como Nina Rodrigues,
ao mesmo tempo em que tentava consolidar seu projeto de República, enquanto
uma plêiade de intelectuais adeptos da modernidade, à frente Assis Chateaubriand,
Manuel de Oliveira Lima e Plínio Cavalcante, alçaram a experiência industrial de
Delmiro na Pedra como a condição efetiva de possibilidade de um outro sertão
civilizado e moderno, sobressaindo-se a educação escolar, segundo eles, como o
principal instrumento para se conseguir esse feito.
74
2
EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA DOS CORONÉIS
Pensar a educação supõe inscrever em nosso horizonte os
interesses que esse tipo de prática aciona e mobiliza.
José Gonçalves Gondra
(Educação, Poder e Sociedade no Império Brasileiro)
O fim do Império e o início da República foi um período povoado por ideias
trazidas da Europa, com o positivismo, o socialismo e o anarquismo tomados e
difundidos muitas vezes equivocadamente. Neste caldeirão de ideias que se
confrontavam com um liberalismo construído sob diversas formas, de modo a se
adequar às necessidades de um capitalismo que vinha se conformando desde o
período colonial, o que é certo é que a mudança de regime do Império à República,
em 15 novembro de 1889, não alterou substancialmente as relações sociais na
sociedade brasileira. Se os modos de convivência social não permaneceram
intocados na Primeira República (1889–1930), boa parte do que a Constituição de
1891 alterou nas estruturas sociopolíticas permaneceu intocada, quando não foi
reforçado no que tinha de mais arcaico.
Para Bartelt (2009), a chegada da notícia sobre a mudança de regime no
sertão nordestino deve ter sido recebida como algo sem sentido por agricultores,
vaqueiros, pequenos comerciantes e feirantes. (BARTELT, 2009, p. 47) É possível
afirmar isso porque até no Rio de Janeiro, onde o regime foi proclamado, a maioria
da população ignorou o que estava ocorrendo, quando não ficou bestializada com o
que teria sido um grande feito, segundo nos diz Carvalho (1987). Por isso, a
Primeira República foi um “período de insegurança jurídica e de carência de leis
administrativas” (BARTELT, 2009, p. 40), tendo se caracterizado por contradições e
divergências de ordem política e ideológica, até porque, nos seus primeiros passos,
tenha resultado na convergência entre militares e fazendeiros do café, duas forças
sociais com interesses diversos. Neste confronto de projetos terminou vitoriosa a
burguesia agrária dos grandes Estados, de modo que a República seria
caracterizada como um “sistema político cujo foco se localiza nos Estados, sob a
hegemonia dos economicamente mais fortes, liberal na sua forma, oligárquico
quanto ao seu funcionamento” (CAMPELO DE SOUZA, 1976, p.166).
75
Foi, assim que se edificou a força política dos coronéis em nível municipal e
das oligarquias nos planos estaduais e federal. A primeira Constituição dos Estados
Unidos do Brasil (1891) seguira de perto, do ponto de vista formal, a Constituição
norte-americana, baseando–se nos seguintes princípios: federalismo, um sistema
presidencialista com um parlamento bicameral com competências maiores; o
fortalecimento dos Estados; um amplo catálogo de direitos fundamentais e direitos
eleitorais restringidos foi, na prática, o que se impôs. Assim, ganhava corpo o
modelo formalmente liberal, mas fundamentalmente autoritário nas suas práticas,
residindo aí uma das razões para o fortalecimento do coronelismo como sistema
político e sua importância para a manutenção dos interesses da sociedade agrária,
em que o coronel exercia uma ampla autoridade sobre seus dependentes, estando o
seu poder assentado no latifúndio que vinha constituindo a forma de organização
geopolítica brasileira desde os primórdios da colonização.
Outro aspecto importante para se pensar a dinâmica política da Primeira
República foi levantado por Bóris Fausto:
a concentração das atividades econômicas em áreas geográficas definidas
propiciou a formação, no país, de uma estrutura regional de classes. As
oposições de áreas geográficas, no interior da classe dominante, ganharam
maior importância do que as divisões setoriais (burguesia agrária,
comercial, industrial). (FAUSTO, 1973, p.5).
Dessa forma, para José Murilo de Carvalho, (2004, p. 43), “consolidou-se
entre nós uma república embebida de uma ideologia liberal pré-democrática,
darwinista, reforçadora do poder oligárquico”. Se, na constituição do poder anterior à
República, votavam apenas os cidadãos de posses que, de acordo com a última lei
eleitoral do Império, precisavam justificar uma renda anual mínima de 200 mil réis -,
quantia elevada na época, segundo Queiroz (2004, p. 160) -, com a Constituição
Republicana de 1891 outorgando a todo brasileiro ou naturalizado o direito ao voto,
desde que fosse alfabetizado, o que se viu, com a instauração do novo regime,
apesar da ampliação das bases eleitorais, foi o controle ainda maior, por parte dos
chefes
políticos
locais,
na
eleição
de
Deputados,
Senadores
e
Presidentes/Governadores dos Estados, que continuariam sendo os seus parentes,
aliados e/ou prepostos. Como, apesar da passagem do Império à República, a
estrutura econômica baseada no latifúndio permaneceria a mesma, o poder não
somente foi mantido nas mãos dos Coronéis, como passou até a ser reforçado pelo
76
controle do voto agora teoricamente universal. (QUEIROZ, 2004, p. 160) Temos aqui
uma suprema ironia: a extensão do voto a todos os alfabetizados, que representava
uma conquista republicana, em lugar de implantar um sistema de escolha livre do
eleitorado, que, com sua base alargada, votaria nos candidatos que lhes
parecessem os mais adequados, ampliou o antigo sistema em que o voto sempre
fora um bem de troca. Se na eleição de tipo censitária o indivíduo dava o seu voto26
porque já recebera um benefício, ou porque esperava ainda recebê-lo, no voto
formalmente universal, a troca do voto permanecia, quando este não era
simplesmente atribuído a quem aquele que tinha ascendência sobre o eleitor pobre
e fragilizado determinava como destinatário do sufrágio. Adicione-se a isso o fato de
que, tal qual no Império, também na República ficaram excluídos do direito ao voto
os pobres, os mendigos, as mulheres, os menores de idade, os membros de ordem
religiosa, os praças, ou seja, a grande maioria da população. Para Queiroz (2004, p.
155)
[...] verificou-se desde logo que a extensão do direito de voto a todo cidadão
alfabetizado não fez mais do que aumentar o número de eleitores rurais ou
citadinos, que continuaram obedecendo aos mandões políticos já
existentes.
A tudo isso se acrescia a ação muito frequente de falsear os resultados das
eleições se assim fosse conveniente a quem, tendo poder, controlasse a máquina
oficial: para Carvalho (1987, p. 89) “o cidadão republicano era o marginal
mancomunado com os políticos; os verdadeiros cidadãos mantinham-se afastados
da participação no governo da cidade e do país”, de modo que votavam defuntos,
ausentes e as atas das seções eleitorais eram forjadas para garantir a eleição dos
chefes políticos que mantinham o poder ou aqueles que eram por eles apoiados.
Na consolidação do regime republicano, pois, a base seria o poder dos
governadores, apoiada num sistema de compromisso em que o aliciamento eleitoral
do coronelismo dava estabilidade àquele. Sendo essa prática denominada pelos
estudiosos de “política dos governadores”, ela era tecida numa malha de relações
que, vindo do poder central, passava pelos chefes dos executivos estaduais e tinha
o poder constituído pelo voto, mediante a capacidade dos senhores locais de
26
Durante o Império, havia uma série de exigências de idade e de fortuna para que o indivíduo fosse
considerado eleitor - a qualificação de eleitor era dada por “mesas” ou por “conselhos”, compostos de
pessoas influentes que tinham, assim, poderes para eliminar das listas a quem quisessem. Para
maiores informações sobre o tema, ver Maria Isaura Pereira de Queiroz, 2004.
77
arregimentar adeptos ou fraudar resultados eleitorais, em troca de poder para agir
no lugar do Estado, preenchendo a ausência de partidos políticos ou impedindo o
surgimento destes. Nessa perspectiva, tem-se, por toda a República Velha,
sobretudo nas duas primeiras décadas que inauguram o século XX, um sistema de
poder político em que
os governadores garantiam a eleição do governo federal e dos candidatos
apresentados pelo governo e, em contrapartida, adquiriam liberdade de
ação no próprio Estado e apoio federal, em caso de conflitos em seus
Estados. O mesmo princípio determinava também a relação entre governo
estadual e coronéis nos municípios (BARTELT, 2009, p. 50).
Enquanto perdurou essa forma de organizar a vida política brasileira, inexistiu
uma política voltada para a economia e a infraestrutura do sertão por parte do
Estado Nacional. E, enquanto na capital da República o sertão era considerado
espaço homogêneo e, consequentemente, “Estado nacional republicano”, onde a
República deveria se impor, no sertão a “República” era sinônimo de “coronelismo”,
sendo este “promovido ativamente pelo governo republicano, por interesses políticos
próprios, e era elemento integrante e funcional do sistema político”. (BARTELT,
2009, p. 89).
2.1 O Novo Sistema e as Velhas Estruturas nas Alagoas
Essas características coronelistas e oligárquicas com profundos traços de
violência vão, assim, como não poderia deixar de ser, pela natureza fundiária e de
formação social da região, marcar a primeira República em Alagoas. Há por parte
dos principais estudiosos do período (CRAVEIRO COSTA, 1983; LIMA JUNIOR,
2001; VERÇOSA, 2006; TENÓRIO, 2009), uma opinião similar quanto ao caráter
particularmente conturbado da Primeira República, justamente na terra do
proclamador do novo regime e daquele que foi considerado seu consolidador, a
saber, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, respectivamente.
Quando da proclamação da República, em Alagoas continuava predominando
como principal atividade econômica a cana-de-açúcar27, atividade que vinha
vivendo, desde o século anterior, momentos de dificuldade pelos prejuízos
27
Ainda que não negue a importância do algodão para a economia alagoana, mesmo depois da
República Velha, tenho como certo que é impossível negar a primazia do açúcar para o Estado como
um todo, sobretudo nesse período que estou a considerar, até porque se trata de uma época em que
a produção açucareira vai começar a se revitalizar, via usinas e tecnologias menos atrasadas.
78
causados, principalmente, pela utilização de mecanismos rudimentares no processo
de moendas e de cozimento da cana-de-açúcar, juntamente com a dificuldade dos
canavieiros alagoanos, por conta de seu espírito autárquico, de se juntarem para
fazer funcionar os engenhos centrais que foram, em outros Estados da região, os
precursores da usina, e que deram um alívio, ainda que temporário, à crise
açucareira que mais se aprofundava desde o final do Império (VERÇOSA, 2006).
Somente no período compreendido entre 1901 e 1911, foram instaladas em
Alagoas as primeiras usinas de cana-de-açúcar, o que tornou essa atividade
bastante lucrativa (CRAVEIRO COSTA, 1983, p. 159). Assim, para este pesquisador
da história alagoana, mesmo com as dificuldades enfrentadas pela principal
atividade produtiva na província, o novo regime político encontrou Alagoas com suas
principais atividades econômicas em processo de expansão, sendo a usina o carrochefe dessa recuperação. Enquanto isso, por conta do caráter monocultor da
economia alagoana, a produção de cereais atendia apenas às necessidades de
consumo interno (CRAVEIRO COSTA, 1983, p. 160).
Para se ter uma ideia da amplitude do aparato político-administrativo quando
da proclamação da República, a Província das Alagoas contava àquela altura com,
“29 municípios, 14 comarcas, 27 termos com 21 juizados municipaes e 55 juízes de
paz, 7 cidades, 22 villas. As rendas eram pequenas, as industrias parcas, vivendo
penosamente” (CARVEIRO COSTA, 1983, p.167).
Para Tenório (2009), que, como afirmei, tem seu pensamento sobre a
sociedade alagoana pós-imperial convergente com os principais estudiosos do
período, em Alagoas "a República Velha é marcada pela hegemonia agrícola e, por
via de consequência, pelo domínio das classes agrárias" (TENÓRIO, 2009, p. 10).
Segundo este pesquisador da história e da política alagoanas, em confirmação ao
que se diz sobre o Brasil como um todo,
A proclamação da República [...] pôs fim à centralização monárquica e
assim alterou-se a estrutura de poder, pois as decisões políticas passaram
a ter como ponto de partida as antigas províncias, agora denominadas
Estados. De certo modo, o novo regime foi a concretização dos interesses
das oligarquias ou dos grupos detentores do poder econômico nos Estados,
a quem já não convinha mais um regime de governo que centralizasse na
corte, o Rio de Janeiro, a prerrogativa de todas as decisões" (TENÓRIO,
2009, p. 10)
79
Para se ter uma ideia de como o movimento republicano era frágil e sem
substância em Alagoas, tão logo se confirmou a notícia chegada da capital federal,
foi crescente a adesão dos, até então, defensores do antigo regime. Diz-nos Tenório
que
O frágil núcleo republicano local, que vegetava na maior indiferença por
parte da maioria da classe dominante, viu abrir-se à sua frente uma torrente
de novos adeptos que surgiam eufóricos ou reservados de todos os lados,
como se fossem republicanos desde o nascimento, oferecendo apoio
incondicional ao novo regime (TENÓRIO, 2009, p. 54-55).
A nomeação de Tibúrcio Valeriano de Araújo pela junta governativa como
primeiro
governador
republicano
em
Alagoas
frustrou
o
entusiasmo
das
comemorações da sua nomeação, haja vista que, por ato do Governo Central, fora
nomeado no mesmo dia para o cargo Pedro Paulino da Fonseca, irmão do
proclamador da República, Deodoro da Fonseca, tendo sido o irmão do marechal,
de fato, o primeiro governador de Alagoas sob o regime republicano.
Pedro Paulino veio do Rio de Janeiro para Alagoas assumir o mandato, tendo
aí ficado pouco mais de dez meses. Depois de eleito senador, Pedro Paulino
entregaria o cargo de governador ao vice e retornaria ao Rio de Janeiro para tomar
posse no Senado. O seu substituto, Roberto Calheiros de Mello, também passou o
governo a Manuel de Araújo Góes. Com o novo regime esperava-se que a
estabilidade que nunca se havia conseguido plenamente em Alagoas durante o
período imperial fosse, então, assegurada. No entanto,
quem esperava um início venturoso do novo regime, um período de união e
concórdia com a presença de um dos integrantes do lendário clã dos
Fonseca à frente do governo alagoano, enganou-se redondamente. O que
se verificou foi o começo de uma intensa disputa entre os chefes políticos
locais, cada um "mais ardorosamente republicano" que o outro, procurando
influir no controle da administração estadual (TENÓRIO, 2009, p. 56-57).
Assim, o clima de instabilidade política só aumentaria na gestão Araújo Góes,
que reagiria com violência às manifestações contra o seu governo. Rechaçadas com
tiros pela polícia, a situação e o clima de tensão levariam à deposição do
governador, no mesmo dia em que Deodoro da Fonseca veio a renunciar ao cargo
de Presidente da República. Novamente, o Estado seria governado por uma junta
governativa até que o presidente do Senado, que era o Barão de Traipu, assumisse
o governo e convocasse novas eleições (CRAVEIRO COSTA, 1983, p. 163).
80
Foi, então, realizada novamente eleição para governador e vice-governador,
sendo eleitos Gabino Besouro como Governador e Manoel Gomes Ribeiro, Barão de
Traipu, como Vice-Governador. E a esperança de tranquilidade seria frustrada mais
uma vez, pois, com apoio político na capital federal, a oposição conseguiria a
deposição deste governador por forças federais. Com a instabilidade política, a
violência e a disputa entre os grupos políticos que se engalfinhavam pelo poder,
ninguém se propôs a assumir o cargo de Governador, que se encontrava vago.
Nova junta governativa seria, então, constituída por Manoel Sampaio
Marques, coronel José Tavares da Costa e Miguel Soares Palmeira, permanecendo
até 17 de outubro, já que em 16 de setembro de 1894 seria eleito governador do
Estado o Barão de Traipu, que teria como seu vice o coronel José Vieira de Araújo
Peixoto.
Com a eleição de Prudente de Moraes para Presidente da República (1894),
a oposição ao Barão de Traipu liderada por Gabino Besouro voltaria a se articular de
tal modo que, no dia 1o de maio de 1895, “forças policiais dissolveram com violência
agrupamentos de partidários do Barão [...] Aconteceu uma verdadeira batalha entre
os dois grupos, com vários mortos e feridos”. (TENÓRIO, 2009, p. 72).
Desta vez foi o Barão de Traipu quem foi deposto do cargo. A tensão eleitoral,
o enfrentamento deste com o Poder Judiciário, do qual parte significativa era
representante de setores das oligarquias agrárias e a falta de habilidade política do
Barão e de aliança com setores produtores de açúcar contribuiriam, na avaliação de
especialistas, para a sua queda. E, mais uma vez, o governo seria exercido por uma
junta governativa. A deposição do Barão de Traipu foi produto de uma refrega tão
acirrada que ocasionou dezenas de mortes, havendo a determinação do Governo
Central para que o governador fosse reempossado. Mas, o Barão de Traipu não quis
permanecer no poder, tendo passado o governo para seu substituto, o coronel José
Vieira de Araújo Peixoto, no dia 14 de janeiro de 1896 (CRAVEIRO COSTA, 1983, p.
164-165).
Diante dos fatos acima referidos, percebe-se que as disputas políticas pelo
comando político do Estado de Alagoas, desde a Proclamação da República até as
vésperas do século XX, caracterizaram uma instabilidade verificada nas inúmeras
81
deposições e juntas que governaram o Estado que, num certo sentido, suplantaria a
situação de muitos Estados da nova federação. Segundo Tenório, ao analisar esse
período da vida alagoana,
vinte e dois governos se sucederam no espaço de apenas sete anos, sete
meses e 13 dias, exatamente do dia 18 de novembro de 1889, quando do
advento da primeira Junta Governativa, até o dia 12 de junho de 1897,
quando tomou posse Manuel Duarte, governador eleito pelo sufrágio direto.
Dias houve, como na deposição de Gabino Besouro, que subiram e caíram
cinco governadores, recorde que nem a democracia boliviana alcançou. [...]
Naqueles dias do começo do novo regime, o fragor encarniçado das
disputas dos clãs gerou um período de terror onde nem liberdades
individuais, nem imunidades congressuais, nem sentenças judiciais eram
respeitadas pelo governo do coronel Besouro (TENÓRIO apud VERÇOSA,
2006, p. 98).
Finalmente, após tantos confrontos, assumiria, em 12 de junho de 1900, como
governador, Euclides Vieira Malta, que venceu as eleições que disputou com Miguel
Soares Palmeira. Genro do Barão de Traipu e primo do Presidente da República,
Floriano Vieira Peixoto, Euclides era sertanejo de Mata Grande (antiga Paulo
Afonso), que ficava vizinha ao município de Água Branca, onde seria montado o
núcleo fabril da Pedra.
82
Figura 14 – Retrato de Euclides Vieira Malta – Governador de Alagoas.
Fonte: Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
No primeiro governo deste sertanejo, Alagoas iria finalmente vivenciar o
primeiro período de estabilidade política após a proclamação da República, ainda
que sob um forte poder autoritário. A chegada de Euclides Malta no comando do
governo de Alagoas só foi possível em razão da subida de Prudente de Moraes ao
Governo Central, pois foi, então, que se encerrou a fase militarista no governo
republicano, ascendendo, em definitivo, as oligarquias. Sem contar que foi pelas
mãos de Prudente que o Barão de Traipu, sogro de Euclides Malta, pôde se afirmar
como potentado local, vez que foi aquele presidente que garantiu que ele voltasse
ao executivo estadual após sua deposição. Euclides Malta representaria, assim,
paradoxalmente, na república que se queria moderna, [...] o início do domínio
político das classes agrárias ligadas à produção açucareira, que assumem as
lideranças das demais frações senhoriais, mesmo sob a batuta de um astuto
sertanejo como Euclides Malta (TENÓRIO, 2009, p. 73).
Conta-nos a história da Primeira República que o governo civil de Prudente de
Moraes tinha, de fato, passado por momentos difíceis e só foi possível manter-se
83
graças à tentativa de assassinato sofrida por ele, que vitimou o Ministro Bittencourt,
fato que possibilitou ao Presidente se recuperar politicamente e afastar os grupos
que lhe ameaçavam a permanência no poder. Com a derrota dos últimos
monarquistas e dos republicanos militaristas, era chegada a hora de as elites
agrárias estaduais darem as cartas do jogo, passando a exercer com exclusividade
o comando político nos Estados, sendo esse o caso de Alagoas, em que o poder
oligárquico assumiria, segundo penso, um caráter paradigmático. Tanto foi assim
que, conforme Tenório, em Alagoas
senadores e deputados federais, congressistas estaduais, conselheiros
municipais, juízes, intendentes, governadores e vice, todos os nomes saíam
dos ramos dos proprietários, das famílias tradicionais ou de seus prepostos
(TENÓRIO, 2009, p. 74).
Em Alagoas, os que ocupariam essas funções seriam facilmente identificados
pelos sobrenomes característicos das famílias tradicionalmente integrantes dos
grupos senhoriais ou economicamente abonadas. Tenório cita alguns dentre os
principais clãs que passariam a assumir os cargos de mando no Estado:
Gusmão, Malta, Vieira, Peixoto, Gracindo, Mello, Miranda, Tenório, Acioli,
Vasconcelos, Cavalcanti, Araújo, Góes, Rego, Hollanda, Mendonça,
Wanderley, Leite e Oiticica, Cunha Rego, Santos Pacheco, Sarmento,
Lessa, Arroxelas, Fernandes, Palmeira, entre outros" (TENÓRIO, 2009, p.
74).
Euclides Malta, por conta da estabilidade conquistada por meio de manobras
políticas e do pulso de ferro, exerceria, assim, o comando político em Alagoas por
quase uma década e meia, sendo "a mais longa era de poder exercida por um
homem e sua família na história de Alagoas" (TENÓRIO, 2009, p. 75).
Euclides categorizou-se politicamente, frente às principais esferas de poder
em Alagoas, por meio de laços familiares, ao casar-se com a filha do Barão de
Traipu. Tendo assumido o governo estadual em 1900, segundo Tenório,
uma vez eleito, Euclides monta uma azeitada máquina administrativa que o
torna o líder máximo do Estado até 1912, em sucessivas reeleições. Seu
modo de agir vai repetir-se com os demais grupos oligárquicos estaduais:
controle partidário, controle dos órgãos municipais, prática clientelista,
nepotista e patrimonialista, garroteando qualquer tentativa da oposição. Os
protestos de grupos preteridos pela própria oligarquia são abafados e
contornados pela habilidade do caudilho sertanejo. [...] Creio que não houve
ainda quem polarizasse tanto ódio nem atraísse tanta dedicação como esse
sertanejo de Mata Grande. (TENÓRIO, 2009, p. 76)
84
De fato, com o governo na mão e o controle sobre os coronéis, Euclides
elegeria para seu sucessor no governo, o irmão Joaquim Paulo Vieira Malta, que iria
exercer um mandato entre o seu primeiro e os dois seguintes. Enquanto isso, a
oposição a Euclides, não satisfeita com a longa permanência deste à frente do poder
e de suas manobras para mudar a Constituição Estadual para atender aos seus
interesses, reagiria com agressividade, fato que contrariava o espírito republicano,
além de impedir a renovação política.
Euclides, que passou a ser chamado de “corvo da República” (TENÓRIO,
2009, p. 85), iria ver, finalmente, seu poder enfraquecido com a volta dos militares
ao centro do poder nacional. Com Hermes da Fonseca na presidência, este, para
conseguir governabilidade, não escaparia de ter de buscar apoio também nos
grupos regionais dissidentes e que faziam oposição aos grupos de comando nos
Estados. Assim, ainda que o seu discurso das chamadas “Salvações” preconizasse
a derrubada das oligarquias, isto iria significar efetivamente a substituição das
oligarquias que representavam oposição ao poder central por aquelas que viessem a
se alinhar ao novo governo federal. Frente a esse cenário político, o poder da
oligarquia comandada por Malta tornar-se-ia vulnerável. Nesse sentido, em Alagoas,
Como nunca dantes imaginado, a oposição é fortalecida. Surgem, nos
bairros populares da capital, os primeiros núcleos de oposição fora dos
trilhos partidários, com características dos sans-culotte de 1789. O inusitado
pulsar das ruas é um sintoma de uma vida urbana em gestação. Cresce a
força dos jornalistas, dos estudantes, dos bacharéis, dos artistas, dos
oradores de comícios que, unidos no vigor antigovernamental, cavalgam
suas ambições junto com as promessas transformadoras. (TENÓRIO, 2009,
p. 95).
Em meio a esse caldo político, o Partido Democrata apresentaria a
candidatura de Clodoaldo da Fonseca para governador, tendo como candidato a
vice-governador um dos principais lideres da oposição, José Fernandes de Barros
Lima, que não dera tréguas a Euclides Malta, sobretudo nos seus últimos tempos de
governo. Assim, “o povo exulta com as propostas inovadoras e manifesta sua
condenação àqueles que considerava tiranos e exploradores” (TENÓRIO, 2009, p.
99), terminando por cair nos braços daqueles que eram apoiados pela “Liga dos
Combatentes”, movimento paramilitar criado e apoiado por Fernandes Lima.
Num clima de luta política assentada em um discurso antioligárquico muito
simpático ao povo e à minúscula classe média alagoana, Clodoaldo da Fonseca e
85
Fernandes Lima venceriam as eleições e assumiriam o governo estadual em 12 de
junho de 1912, numa refrega que iria ocasionar a morte de correligionários do
governador Euclides Malta e da oposição. Findo o mandato dos primeiros
adversários de Malta no poder, o grupo que tinha o controle dos instrumentos de
favores e castigos elegeu o seu sucessor, João Baptista Accioly Júnior que, tal qual
Fernandes Lima, era ligado ao setor canavieiro. Este foi um período de menor
pressão sobre os adversários, o que veio a provocar um racha com o grupo liderado
por Fernandes Lima que, já tendo estado à frente da máquina governamental como
vice-governador, passou a ver a situação como propícia para novos vôos.
Assim, apesar de questionar o poder de Euclides Malta e sua permanência no
poder por tanto tempo, tendo feito do discurso antioligárquico sua bandeira e o trunfo
que lhe daria notoriedade e prestígio, Fernandes Lima passaria de articulador a
chefe de mais uma convergência da oligarquia, dentro da coligação oligárquica
maior, a comandar a política estadual. Desse modo, finalmente eleito para a chefia
suprema do Executivo Estadual no dia 12 de junho de 1918, prolongaria sua
presença à frente do poder estadual por meio de uma reeleição, o que o fez ficar no
governo até 1924.
Em junho de 1924, o mandato passaria de três para quatro anos, vindo o
governo a ser exercido pelo jornalista Pedro da Costa Rego, o qual viria a ter um
papel fundamental, enquanto líder do grupo no poder, na manutenção dos bens e da
Fábrica nas mãos dos herdeiros de Delmiro.
86
Figura 15 – Comitiva do Governador Costa Rego em visita à Pedra, estando o
governador sentado, no centro da foto.
Fonte: Acervo particular de Edvaldo Nascimento.
2.2 Aos Amigos, os Favores da Lei! Aos Inimigos, os Rigores da Lei!
O surgimento do vocábulo “Coronelismo” deve-se aos “coronéis” da Guarda
Nacional criada em 18 de agosto de 1831. Esses poderosos tinham asseguradas
prerrogativas, dadas pelo Poder Central, de organizar grupos armados e, diante de
ameaças à ordem estabelecida, agir militarmente. Com o tempo e as relações de
poder que foram se plasmando, além dos que realmente exerciam tal posto, o
tratamento de “Coronel” passou a ser empregado pelos sertanejos a todo e qualquer
chefe político, e a todo e qualquer detentor de posses e assim passou a ser mesmo
no período republicano, quando o cargo deixou oficialmente de existir. O fato é que o
sistema ficou tão enraizado na mentalidade do sertanejo que o tratamento de
coronéis é até hoje atribuído aos que têm o comando da política local. Segundo
Basílio de Magalhães,
homens ricos, ostentando vaidosamente os seus bens de fortuna, gastando
os rendimentos em diversões lícitas ou ilícitas, - foram tais “coronéis” os que
deram ensejo ao significado especial que tão elevado posto militar assumiu
designando demopsicologicamente “o indivíduo que paga as despesas”. E,
assim, penetrou o vocábulo “coronelismo” na evolução político social do
nosso país, particularmente na atividade partidária dos municípios
brasileiros. (MAGALHÃES apud LEAL, 1997, p. 291).
87
Barbosa Lima Sobrinho, em prefácio ao clássico trabalho de Victor Nunes
Leal (BARBOSA SOBRINHO apud LEAL, 1997, p. 16) sobre o tema, citando Marcos
Vinícius Vilaça e Roberto de Albuquerque, revela que era prática comum que os
coronéis delimitassem seus domínios de terra à custa de propriedades tomadas à
força de adversários ou até mesmo de amigos e apaniguados seus. Sendo detentor
de poder político, econômico e social, este sistema criou o “filhotismo”, como
expressão de uma relação de favor aos amigos e perseguição aos inimigos.
Na essência, o coronelismo era um compromisso por meio de uma relação de
trocas entre o poder público, em crescente fortalecimento, e a descendente
influência social dos chefes políticos locais, principalmente os senhores de terra. Daí
ser impossível compreender o fenômeno do coronelismo sem uma análise da
estrutura agrária no Nordeste, pois é ela que fornece a base de sustentação das
manifestações do poder privado ainda tão visível no interior do Brasil. (LEAL, 1997,
p. 40).
O fortalecimento do fenômeno do coronelismo se deu para Lima Sobrinho
porque “o desamparo em que vive o cidadão, privado de todos os direitos e de todas
as garantias, concorre com a continuação do ‘coronel’, arvorado em protetor ou
defensor natural de um homem sem direitos” (LIMA SOBRINHO apud LEAL, 1997,
p. 18).
Assim, entre os favores dispensados pelo coronel aos seus “apadrinhados“
estavam os de
arranjar emprego, emprestar dinheiro, avalizar títulos, obter créditos em
casas comerciais, contratar advogado, influenciar jurados, estimular e
“preparar” testemunhas, providenciar médico ou hospitalização nas
situações mais urgentes, ceder animais para viagens, dar pousada e
refeição, impedir que a polícia tome as armas de seus protegidos, ou lograr
que as restitua, batizar filhos ou apadrinhar casamentos, compor
desavenças, forçar casamentos em caso de descaminhos de menor (LEAL,
1997, p. 299).
Nesse jogo, era praxe o controle de grande quantidade de “votos de
cabresto”, pelo coronel. O poder político dos coronéis era medido através da
quantidade de votos de que dispõe um chefe local ou regional, no momento das
eleições. O coronel, por meio da sua força eleitoral, tinha um prestigio político que
representava o,
88
Natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de
donos de terras. Dentro da esfera própria de influência, o “coronel” como
que resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições
sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus
dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes,
verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam (LEAL, 1997, p.
42).
Analisando a definição de Leal (1997) sobre o coronelismo na obra
“Coronelismo, enxada e voto”, em que destaca o aspecto político como principal
característica do coronelismo, Maria Isaura Pereira de Queiroz chama a atenção
para outros aspectos que foram ignorados por Leal. Assim, segundo ela, é
necessário para uma compreensão mais ampla sobre o coronelismo, considerar os
aspectos socioeconômicos, sendo, então, preponderantes estes aspectos para a
existência e fortalecimento do coronel. Neste aspecto, Queiroz (2004) diverge de
Leal (1997) quanto à definição do coronelismo. No fundamento da estrutura
coronelística no Brasil, sustenta Queiroz (2004, p. 172), estão a herança, o
casamento e o comércio. Para ela, embora a herança fosse o meio natural de
preservação de status e de poder, “o exemplo mais claro, porém, da ascensão
mediante a aquisição de bens de fortuna no comércio, é o do coronel Delmiro
Gouveia” (QUEIROZ, 2004, p. 174). Nesse particular modo de se tornar “coronel”,
Queiroz afirma que:
A história do coronel Delmiro Gouveia evidencia a importância dos bens de
fortuna na aquisição de posição sócio-histórica e de influência política, fator
superior ainda à integração numa parentela. Sua fortuna lhe permitiu
prescindir desta, tanto na ascensão social quanto na manutenção de sua
posição econômico-política. (QUEIROZ, 2004, p. 175).
Delmiro Gouveia torna-se, assim, de acordo com esta autora, o exemplo
clássico de indivíduos que chegaram ao coronelato devido ao poder econômico sem
que a falta de uma parentela poderosa constituísse obstáculo.
Outra característica marcadamente do fenômeno coronelístico é o esforço do
coronel pela melhoria do seu município, vila ou lugar. Sendo boa parte das
conquistas como escolas, correios, estradas, posto de saúde, igreja, rede de esgoto,
água encanada, luz elétrica, cinema, o clube, fruto do seu esforço e prestigio político
e econômico, o que concorre para sua posição de liderança local ou regional, sendo
ele a personificação do poder do Estado que, ausente, num certo sentido, por meio
dos mandatários, como que terceiriza os serviços que, numa república de verdade,
89
cabe ao poder público executar como atendimento aos direitos da cidadania. Assim,
dois aspectos inerentes ao fenômeno do coronelismo merecem destaque nesta
nossa analise: uma é o fraco papel do Estado brasileiro, o que contribuiu para
fortalecer a força e o papel dos coronéis; o outro é a ausência do Estado no
cumprimento do seu papel, o que favoreceu a uma efetiva atuação do poder privado.
Assim, feitas essas considerações, é importante, ainda, assinalar, que, de
qualquer modo, o entendimento entre os chefes políticos municipais e os coronéis foi
importante para a manutenção da boa relação entre poder privado e poder público,
mantendo, assim, o sistema da reciprocidade. Juntos, os chefes políticos e os
coronéis podiam conduzir eleitores, enquanto a situação política dominante do
Estado dispunha do erário, dos favores do Estado e do que Victor Nunes Leal
chamou de o cofre das graças e o poder da desgraça (LEAL, 1997, p. 64). Ainda,
segundo o mesmo autor,
o prestígio próprio dos “Coronéis” e o prestígio de empréstimo que o poder
público lhes outorga – são mutuamente dependentes e funcionam ao
mesmo tempo como determinantes e determinados. Sem a liderança do
“Coronel” – firmada na estrutura agrária do país -, o governo não se sentiria
obrigado a um tratamento de reciprocidade, e sem essa reciprocidade a
liderança do “Coronel” ficaria sensivelmente diminuída
Nessa perspectiva, o apoio oficial tornava-se importante, não só no aspecto
do favor individual, mas, também e, sobretudo, na realização de obras públicas,
tendo em vista que sem essas a liderança local ficava ameaçada. Além disso, o
custeio dos gastos com as eleições era dividido com o Governo Estadual que
pagava ora através de dinheiro, ora através do pagamento em serviços e, às vezes,
através de contratos de obras públicas, com grande margem de lucro.
Essa análise sobre o coronelismo, tanto quanto sobre a conjuntura política de
Alagoas, sobretudo nos 25 primeiros anos do regime republicano, mais a situação
particular de Delmiro tido como um coronel, feita até aqui com alguma
pormenorização e uma certa dose de teorização, pareceu-me fundamental para a
compreensão de aspectos sociais, políticos e econômicos inerentes à região
sertaneja em que sempre atuou Delmiro – na Pedra, em particular, já que foi aí,
além do Recife, o único espaço em que desenvolveu atividade sedentária, sendo o
sertão de Alagoas o espaço social em que reconstruiu sua riqueza e instaurou seu
projeto urbano-industrial.
90
2.3 A República dos Coronéis no Sertão do São Francisco
Quando Delmiro chegou ao sertão de Alagoas, embora a era Malta estivesse
em seu inicio, o poder de Euclides já era demonstrado pelo incondicional apoio que
este recebia da maioria dos coronéis sertanejos. Estes coronéis do sertão alagoano,
segundo o estatuto do coronelato, agiam de acordo com seus interesses e se
utilizavam de mecanismos de proteção do governo estadual para agir de todas as
formas, a fim de obter seus intentos, nem que para isso, na maioria das vezes,
tivessem que usar o expediente da violência. Considerando-se o Sertão do São
Francisco, onde se encontrava o núcleo fabril da Pedra, eram as famílias Luna e
Torres que mandavam em todo o município de Água Branca. Os grupos enquistados
nessas duas famílias, por seu turno, ainda que tivessem certo grau de parentesco,
como era de costume disputavam o comando político municipal e se alternavam no
poder, saindo vitorioso aquele que estivesse aliado ao governador que viesse a ser
eleito.
O coronel Ulysses Luna, um dos senhores de Água Branca, seguindo o
princípio de que era fundamental estar no poder, depois de ter sido membro do
Partido Libertador, passou para o Partido Conservador no período do Império, tendo
exercido os cargos de Deputado Estadual e Senador Estadual, este último cargo já
na República (VASCONCELLOS, 2005, p. 13).
Já em Piranhas, município vizinho de Água Branca, muito próximo da Pedra que ficava entre os dois -, e que, diferentemente da sede do município ao qual
estava administrativamente ligada ao núcleo, tinha relação direta com esta (que
passaria a ser controlada inteiramente por Delmiro Gouveia), pontificava o coronel
José Rodrigues de Lima, que era proprietário de grande curtume e comerciante.
Chefe político em Piranhas, segundo Vasconcellos, sobre o Coronel Rodrigues
pesava “o labéu de ambicioso, perverso e desonesto”, (VASCONCELLOS, 2005, p.
7). O coronel José Rodrigues mantinha divergências com o tenente José Lucena de
Albuquerque Maranhão28, chegando a ser acusado de organizar atentado contra o
28
Integrante da polícia alagoana, Lucena Maranhão comandava o batalhão de Santana do Ipanema,
que representava um posto avançado contra o cangaço na região sertaneja. Tendo sido autoridade
forte por diversos governos da Velha República, passou a ser considerado como uma espécie de
executor dos “serviços” violentos que os governantes tinham interesse que fossem feitos. Integrante
91
mesmo. Com Delmiro Gouveia ele teve, ao menos uma vez, uma forte discussão no
escritório da Cia. Agro Fabril, na Pedra, a respeito da retirada de lenhas pelo
“Senhor da Pedra” em terras que ambos diziam serem proprietários29. Foi quando
Delmiro estava construindo o prédio da Fábrica e as casas para os operários, e teve
de alimentar as caieiras com lenhas retiradas destas propriedades para produção de
tijolos para suas construções, sendo a quantidade retirada de lenha o estopim do
entrevero.
Já Manoel Rodrigues da Rocha, natural de Águas Belas, teve que migrar com
a família por desavenças políticas com o Coronel Constantino, do sertão de
Pernambuco. Fixando-se inicialmente em Penedo, no baixo São Francisco,
destacou-se como comerciante e curtidor de couro e comerciante de algodão.
Depois de ver prosperar seus negócios na cidade sertaneja de Santana do Ipanema,
transfere-se para lá em 1901. Este coronel, segundo seu neto, mantinha
[...] fraternal amizade com os coronéis sertanejos José Rodrigues de Lima
(Piranhas), Ulysses Luna (Água Branca) e o coronel Delmiro, a quem,
corroborando com o coronel Ulysses Luna, deu guarida, quando demandou
aquelas pragas e passou a ser o maior fornecedor de matéria prima
(algodão e couro) para a indústria que ali se implantava, comungando dos
seus êxitos e desventuras (VASCONCELLOS, 2005, p. 22)
Seria este cenário político que Delmiro Augusto da Cruz Gouveia iria encontrar
ao se estabelecer no sertão de Alagoas, em novembro de 1902. Euclides,
governador, logo lhe garante proteção, vez que ele estava segundo sabemos, sob a
ameaça de prisão e morte em Pernambuco. Recomenda-o, o governador, ao
parente e aliado político de Água Branca, Ulysses Luna, determinando que lhe fosse
dada proteção para que nada viesse a acontecer a seu protegido.
de grupos armados a serviço do Estado, ele constituiu-se no principal combatente do cangaço sobretudo de lampião e seu bando -, o que lhe rendeu a fama de homem forte e destemido.
29
Por conta dessa discussão chegou José Rodrigues a ser pronunciado como um dos autores
intelectuais do assassinato de Delmiro Gouveia. Dez anos após a morte de Delmiro, José Rodrigues
seria assassinado em Maceió, quando saía de uma sessão no Cinema Floriano, no centro desta
capital, no dia 28 de agosto de 1927. Pela forma como agia, tendo muitos inimigos, chegou o Coronel
José Rodrigues, em audiência com o Governador Costa Rêgo, a pedir garantias de vida.
92
Figura 16 – Coronel Ulysses Vieira de Araújo Luna.
Fonte: Acervo particular de Edvaldo Nascimento.
Os raios de ação de Delmiro Gouveia fizeram com que, em pouco tempo ele
atingisse, além do Sertão Alagoano, municípios de Pernambuco, Sergipe, Ceará,
Bahia, Rio Grande do Norte (que ele já frequentara quando comerciante de peles,
ainda muito antes de se fixar em Alagoas), chegando a manter contato e amizade
com coronéis que exerciam poder político e econômico nestes Estados.
Era esse, em breves linhas, o cenário político que prevaleceria em Alagoas
até fins da Primeira República. Nesse contexto, as lideranças locais, antigas
defensoras do Império, preocupavam-se em usufruir da nova reestruturação
institucional, nas eleições e na ocupação de cargos chaves da administração dos
municípios e do Estado. A “Política dos Governadores” que, na sua essência, não
seria desmantelada com a “derrubada” promovida pela chamada “Política das
Salvações” instaurada por Hermes da Fonseca, para, segundo ele, extinguir de vez
as oligarquias, continuaria determinando o controle que os governadores exerciam
93
sobre coronéis e chefes políticos locais até a morte de Delmiro, em 1917, os quais,
por sua vez, permaneceriam trazendo o povo “em rédeas curtas”, ou dentro dos
“currais eleitorais”, como se veio a dizer muito frequentemente sobre a falta de
autonomia dos viventes das áreas rurais e até urbanas do país.
Dito
isto,
parece
indispensável
entender
mais
claramente
como
o
empreendedor Delmiro Gouveia e os que assumiram os negócios após seu
assassinato iriam navegar sob as bênçãos de Malta e seus adversários – inclusive
em meio às dissensões entre as frações destes - com uma desenvoltura que a
história comprova e que somente é possível a quem conhece e segue a cartografia
política, cujos acidentes nem sempre são tão permanentes quando na geografia,
mas que, uma vez desconsiderados ou desdenhados, podiam trazer desastres
irreparáveis.
Se Delmiro foi protegido pelo manto inexpugnável de Euclides Malta no auge
do poder deste e por suas mãos foi se instalar na Pedra, como fez ele para avançar
nos seus intentos e deixar para seus descendentes um terreno propício para
desfrutar de tranquilidade e condições propícias para levar à frente os
empreendimentos econômicos e sociais sem serem importunados pelos governos
estaduais – pelo contrário, contando com o beneplácito de todos?
2.4 A Educação Escolar na República: pensada para muitos, assegurada a
poucos
Como tudo o que iria desenvolver Delmiro Gouveia na Pedra, também as
ações educativas empreendidas para tornar seu empreendimento fabril exequível
estariam inseridas no contexto político local, regional e sob o influxo da conjuntura
nacional em que se daria o projeto, para o que se faz, ainda, indispensável, antes de
analisá-las em sua concretude específica, proceder ao estudo das ações e
condições de possibilidades da educação organizada e/ou posta em prática na I
República, no país e em Alagoas.
Educar, no sentido não escolar, foi uma prática livremente desenvolvida na
Pedra, por Delmiro, tendo em vista o poder de que livremente desfrutava do alto de
sua condição de senhor todo poderoso, por conta da autonomia que lhe era
94
concedida pela conjuntura política, econômica e social vigente no perímetro do
núcleo fabril, haja vista que, para além do letramento, a difusão de novos hábitos e
normas de conduta, nas formas de comer, vestir, morar, conversar, amar e sentir
eram indispensáveis ao projeto industrial que ele resolveu implantar. Afinal, se assim
era em referência à vida social como um todo, o que não dizer de um projeto fabril a
ser tocado na prática por trabalhadores rurais, na quase totalidade analfabetos,
socializados num estilo de vida livre, cujo tempo era escandido pelo clima, pelos
astros e até pelo comportamento dos animais?
Já quanto à educação entendida como escolarização, para entendê-la no
âmbito do núcleo fabril da Pedra impõe-se um balanço da educação em Alagoas,
numa perspectiva histórico-crítica, pois, se queremos ampliar a compreensão de
aspectos da educação alagoana ainda não estudada, isso só é possível, segundo
Verçosa, (2006, p. 17) quando se “contextualizam os aspectos socioeconômicos e
culturais, permitindo a compreensão do fenômeno da baixa escolaridade e do
analfabetismo como problemas intrínsecos à própria formação social alagoana.”
Pelo caráter monográfico deste trabalho, enfocarei minhas considerações nos
aspectos educacionais que predominaram na I República, sendo dentro deste
período destacado o que foi desenvolvido entre 1902 e 1926, por ter sido este o
marco inicial de um processo educacional e “civilizatório” com características e
finalidades bem específicas realizado no sertão de Alagoas - primeiro por iniciativa
de Delmiro e, depois, por seus sócios e descendentes.
Mesmo tendo em conta o que diz Gondra (2008, p. 35), quando afirma que “o
predomínio e a coexistência de múltiplas formas de educação (familiar, religiosa,
artesanal, profissional, entre outras) foram características da formação social
brasileira”, é possível se afirmar que prevaleceu a concepção de que educar era,
sobretudo, instruir a população livre por meio das instituições escolares.
De fato, não se pode negar que a educação escolar proporciona à população
certas noções, certas práticas e sentimentos que deveriam ser gerais assim
para as primeiras como para as classes superiores da sociedade. É essa
instrução comum, essa identidade de hábitos intelectuais e morais [...] que
constituem a unidade e a nacionalidade (MATTOS apud GONDRA, 2008, p.
36).
95
Mesmo assim, os regulamentos da Instrução no Império atribuíram, tanto ao
governo
provincial
quanto
à
iniciativa
particular,
a
responsabilidade
pela
organização, manutenção e fiscalização das escolas de instrução básica, somente
ficando mais evidente a intervenção do Estado a partir da segunda metade do
século XIX, quando
[...] o processo de escolarização não foi imposto a população do “sertão”
[brasileiro] sem resistências. Ao contrário, contou com respostas sociais
variadas, nem sempre de acordo com as propostas originalmente
formuladas nas leis e nos regulamentos, o que demonstra os limites e os
contornos possíveis de um projeto que se pretendia nacional em meio às
diversidades regionais e ao heterogêneo, multifacetado e silenciado
universo cultural (SIQUEIRA apud GONDRA, 2008, p. 37).
Assim, a construção do processo de escolarização levada a efeito no território
nacional no século XIX, entrando pelo Século XX, deu-se de forma diferenciada, seja
em consequência da desigualdade de condições financeiras entre as Províncias
que, por conta do Ato Adicional à Constituição Imperial, efetivado em 1834, tinha
transferido a responsabilidade do ensino básico para aquelas, seja pela profusão de
reformas e a complexidade de normas produzidas pelas Províncias e depois, pelos
Estados por toda a República Velha por conta dessa mesma descentralização,
conforme é possível constatar pela pletora de reformas realizadas pelos governos de
Alagoas apenas na República Velha – que abrange o período aqui estudado -, como
se pode ver no anexo 4 a este texto.
Como não ficou unicamente a cargo do Estado o processo de escolarização,
A família configurou-se [...], no contexto de criação da rede de instrução
Pública, como uma instância que, por um lado, mantinha-se firmemente
ligada à tradição, preservando seu espaço privado das interferências do
Estado, e por outro, constituía-se como instância avaliativa daquele mesmo
processo. Suas interferências na educação escolar funcionaram como
meios de redefinição das práticas docentes e até mesmo das
determinações do governo. Colocavam às autoridades a necessidade de
criação de escolas e de fiscalização da conduta dos professores e
denunciavam a fragilidade de um Estado que se erguia a partir dos ideais
das luzes, mas sobre uma estrutura marcada por uma tradição em que o
público se inscrevia na esfera do privado. (VEIGA; VIANA apud GONDRA,
2008, p. 39).
Assim, conviveram mesmo que conflituosamente, ao longo do século XIX e
começos do XX, uma multiplicidade de formas de educação e instrução, as quais
estavam associadas, como já dito, à civilização e buscavam
96
[...] expressar os níveis de desenvolvimento artístico, tecnológico,
econômico e científico da humanidade, numa perspectiva claramente
etnocêntrica, que conferia superioridade à civilização europeia. (ABREU,
2002b; ELIAS, 1994a e 1994b; REVEL, 1991, apud GONDRA, 2008, p. 69).
De fato, a construção de um Estado Nacional por parte da elite dirigente
desde o Império brasileiro foi o tempo todo norteada por discursos e ideias
fundamentadas na necessidade de proporcionar ao país a civilização. Analisando o
uso dessa categoria “civilização” por setores dirigentes da sociedade no Império,
Gondra (2008) defende que essa expressão virou uma panaceia para legitimar uma
série de ações que objetivavam a superação dos problemas e males do país, de
forma especial entre os que se preocupavam com a difusão de práticas educativas,
como o ensino e a formação profissional. Diz-nos Gondra (2006, p. 69) que:
Aos olhos dos contemporâneos que compartilhavam os ideais de
civilização, era urgente, para o Império do Brasil, educar e instruir a
população. Assim, logo nas primeiras décadas do século XIX, sobretudo a
partir do processo de independência política e em meio às disputas em
torno de diversificados projetos de construção da nação, emergiram grupos
e agremiações dispostos a promover a instrução e a educação, constituindo
novos espaços de sociabilidade e novos mecanismos de contato entre as
elites políticas, as camadas médias urbanas e o “povo miúdo”.
Mesmo em Alagoas, no plano do discurso relacionava-se a pobreza e a
mendicância com a falta de educação e com a incivilidade, a que se contrapunha a
necessidade de civilizar e disciplinar como meios indispensáveis à eliminação
desses males tidos como verdadeiras chagas. Isso implicava a necessidade de
intervir nos hábitos e comportamentos das classes populares tidas como classes
perigosas ao sistema estabelecido. Neste sentido, propagava-se, por meio de
campanhas educativas, a positividade do trabalho, do modelo familiar nuclear e da
religião. Assim, o discurso legado pelo Século XIX como herança educacional ao
século XX foi aquele que exaltava os aspectos positivos da institucionalização da
escola, enquanto, no plano prático, o que se constatava era a desoneração das
responsabilidades efetivas do Estado com a educação escolar.
De qualquer modo, como uma das preocupações que predominou nos
primeiros anos da República se direcionou ao voto como instrumento formal de
constituição da representação política, fazia-se necessária a instituição do voto
secreto, o alistamento eleitoral honesto, a apuração rigorosa dos pleitos e um
reconhecimento sem fraudes, para o que se impunha a alfabetização dos eleitores.
97
As condições econômicas e sociais, por seu turno, proporcionaram ao período
da I República um campo fértil para o desenvolvimento e estruturação de ideias
nacionalistas no Brasil, que se expressariam, no campo da escolarização, “com
ampla divulgação de livros didáticos de conteúdo moral e cívico ou, melhor, de
acentuada nota patriótica...” (NAGLE, 1976, p. 44). Sobre os propósitos desses
instrumentos didáticos, Nagle ainda afirma que pretendiam fornecer à criança e ao
adolescente, através da educação escolar, uma imagem do País adquirida por via
sentimental, tendo esta doutrinação influenciado, mais que qualquer outra ideologia,
o campo educacional do período.
Nesse contexto, um dos resultados, no campo educacional, foi o
aparecimento do “entusiasmo pela educação” e do “otimismo pedagógico”30, dois
movimentos defensores da disseminação da educação escolar como o caminho que
levaria a incorporação das camadas da população para o progresso nacional,
levando o Brasil ao patamar das nações civilizadas do mundo, bem como a inclusão
sistemática do tema educacional em programas de diferentes organizações. Os
líderes desse grande movimento em prol da educação escolar continuavam a atribuir
todos os males do Brasil ao analfabetismo, que trazia, como consequência, a
ausência de cultura cívica e política, a ignorância dos preceitos higiênicos, a
incapacidade para grande número de profissões, atraso nos processos agrícolas e
industriais. Assim, segundo era cada vez mais defendido, sem se propagar por todos
os recantos do país a instrução primária, tornar-se-ia inútil qualquer tentativa de que
o Brasil viesse a ser uma nação civilizada.
O entusiasmo pela educação, se por um lado apresentava-se ingênuo quanto
aos resultados da escolarização para as transformações políticas do Brasil, por outro
lado pressionou inegavelmente os poderes políticos no sentido de ampliar as
responsabilidades do Estado na oferta da educação escolar onde as forças sociais
tinham capacidade de se impor, denunciando o descaso do poder público para com
a escola no campo das ações concretas de escolarização. Este movimento foi
resultado, na verdade, da desilusão dos republicanos com o descaso do novo
regime com a educação popular, frente à dualidade existente entre as escolas para
30
Enquanto o “entusiasmo pela educação” se manifestava pelo esforço de difundir e ampliar a escola,
o “otimismo pedagógico” representava o remodelamento da educação, com foco na melhoria da
qualidade e na forma como se ensinava.
98
a elite (secundária e superior) e a escola popular (primária e técnico-profissional),
com os Estados sentindo-se, na sua maioria, impotentes para a ampliação dessas
modalidades de ensino. Em seu lugar multiplicavam-se instituições como bibliotecas,
museus, escolares, clubes de leitura, pelotões de saúde, escoteirismo, rádios
educativas e cinema como auxiliares da função educativa.
Esse era o panorama político-ideológico reinante no Brasil nas primeiras
décadas do Século XX, com políticas efetivas de escolarização conseguindo se
efetivar em Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do
Sul com alguma largueza, enquanto nas unidades da Federação mais atrasadas
econômica e politicamente, como Alagoas, não se viam efetivar medidas mais
enérgicas voltadas à superação da restrição do acesso à escola, daí resultando a
permanência dos altos índices de analfabetismo e subescolarização herdados do
Império.
2.5 A Escolarização em Alagoas da Primeira República
Quando ocorreu a abolição da escravatura, Alagoas tinha vendido a maior
parte de sua população escrava para a região cafeeira de São Paulo e buscava
alternativas no trabalho livre para a lavoura de algodão e do açúcar ainda
preponderantes na economia local. Para Verçosa, (2006, p. 89)
Embora Sérgio Buarque de Holanda afirme que a abolição tenha marcado o
fim do predomínio agrário no Brasil, para Alagoas isso deixa de ser verdade,
inclusive pelas próprias razões por ele invocadas: se em São Paulo, com o
café, como ele mesmo afirma, a lavoura deixa progressivamente de ser o
modo de vida do fazendeiro para constitui apenas seu meio de vida,
eliminando-se, com sua mudança para a cidade, a autarquia da propriedade
rural e configurando-se um tipo de atividade que exige menos capitais e não
necessariamente o ativo representado pelas terras do latifúndio, em
Alagoas, a dependência quase exclusiva do açúcar e do algodão - duas
culturas que estruturam formas de vida social fortemente marcadas pelo
tradicionalismo – irá empurrar, para um tempo a perder de vista, o
desvencilhamento da sociedade alagoana da dependência em relação ao
velho engenho e ao ruralismo que por ele é engendrado.
Entender essas questões da economia e da vida social alagoana é
fundamental
para
uma
compreensão
ampliada
da
história
deste
Estado,
principalmente em se tratando da história da educação. Se no período colonial as
iniciativas educacionais efetivadas em Alagoas voltaram-se todas para o ensino dito
secundário, a incumbência dada pela Constituição Imperial às Províncias de
99
promover a instrução primária31 não surtiu efeito entre nós, apressando-se o
Governo provincial em ampliar apenas aquele nível de ensino. Segundo Verçosa,
nesta época, além de a Província carecer de pessoal intelectualmente preparado
para ocupar os cargos mais desejados no aparelho de Estado recém-criado, sendo
estes preparados, em nível superior, na Faculdade de Direito de Olinda (VERÇOSA,
2006, p. 66), impunha-se, ainda, no ambiente reinante, atender aos filhos da
população situada em Maceió, Penedo e Alagoas (atual Marechal Deodoro), que
eram as cidades mais desenvolvidas onde se concentravam os principais aparelhos
do governo imperial e provincial e as camadas da população capazes de fornecer
trabalhadores para o aparelho de Estado que mais e mais ia se ampliando.
A educação pública em Alagoas começa, pois, direcionada aos rapazes ricos
(VERÇOSA, 2006, p. 68), como aos não tão ricos – inclusive, às moças que
procuravam, sobretudo, o magistério -, que, além de necessários às ocupações de
caráter urbano que iam surgindo, buscavam se colocar nos empregos para os quais
certo grau de instrução era indispensável. Percebe-se, pelos estudos empreendidos
por Craveiro Costa (1931) e Verçosa (2006) que a educação em Alagoas, da
Colônia ao Império, viveu uma situação de exclusão das camadas mais populares
do acesso à educação escolar, sendo, até a educação primária destinada a uns
poucos mais aquinhoados e em geral residentes na zona urbana. A situação
vivenciada no Império e que chegaria como herança educacional à República,
encontra-se expressa em relatório de Tomaz Espindola, diretor geral da Instrução
Pública em 1872, que diz que a Instrução Pública era desenvolvida em
exíguos espaços tomados das casas alugadas, onde vivem o professor e
toda sua família, pois, o que ele recebe, a título de ajuda, não lhe permite
alugar outro prédio que se destine, exclusivamente, á escola. (ESPÍNDOLA
apud VERÇOSA, 2006, p. 94)
31
Ora com a designação de Instrução Primária, ora com esse nome de Ensino Primário, os
primeiros anos de escolarização – que terminavam sendo fixados em quatro – vêm sendo assim
chamados desde a primeira Constituição do Império (1824), que, no Art. 179 do Título 8° - Das
Disposições Geraes e Garantias dos Direitos Civis e Políticos dos Cidadãos Brazileiros refere-se a
Instrução Primária, em oposição aos “collegios e universidades” (inciso XXXIII). A Constituição de
1934, ao tempo que designa título (V) e capítulo (II) para a educação e a cultura, estabelece, no plano
constitucional, as designações de ensino primário e secundário, que foram mantidos na
Constituição do Estado Novo, registrando-se, ali, além do ensino primário, o normal e o secundário
(Art. 130), o pré-vocacional e o profissional propriamente dito. Na Constituição de 1946 mantémse a designação de primário e secundário. Ainda na Constituição outorgada de 1967, no Art. 168,
3°, o nome de “ensino primário”, sendo a mudança feita somente a partir de 1971, quando se
fundem as quatro primeiras séries daquele com o Ginásio – que representa a primeira etapa do
secundário, para formarem o 1° Grau, com oito anos. (CRAVEIRO COSTA, 2011, p. 33)
100
Mesmo com a mudança do Império para a República, no novo regime
a ação educacional continuou como dantes: a criação da escola e a
nomeação do professor de acordo com o desejo dos chefes políticos, no
que pesem as inúmeras reformas nacionais e locais que todos,
estarrecidos, viam ser decretadas (VERÇOSA, 2006, p. 102).
Ao entrar na República, Alagoas foi descrita por vários historiadores como
uma civilização rural, de base latifundiária, com perfil profundamente arcaico.
Segundo Craveiro Costa, “a República encontrou analfabeta a grande massa
proletária. Analfabeta e sem formação profissional” (CRAVEIRO COSTA, 2011, p.
46).
Nos relatórios dos Governadores enviados ao Congresso Estadual no período
da I República, que foi quando se deu o empreendimento fabril levado a efeito por
Delmiro e seus descendentes no núcleo fabril da Pedra, encontra-se uma reiterada
preocupação dos governantes com a precariedade da Instrução Pública. Já no
relatório enviado pelo primeiro Governador republicano de Alagoas, vê-se que, no
plano do discurso, a educação era tida como “um dos mais importantes ramos do
serviço público, de cujo desenvolvimento, depende a prosperidade dos povos [...]
(ALAGOAS. GOVERNO PEDRO PAULINO DA FONSECA, 1890, p. 13).
Percebe-se, ainda, segundo o relatório de Pedro Paulino, que se continuava a
buscar atacar o problema da Instrução, sobretudo, com sucessivas e fracassadas
reformas, como se os males da escola se encontrassem nas normas e não nas suas
condições de funcionamento. Tanto é assim que no mesmo relatório o Governador
afirma que
É incontestável que o número de cadeiras de instrucção primária é
insufficiente para attender ás necessidades da população, havendo
constantemente reclamações para creação de novas; ao que não tem
sido possível satisfazer, por não poder presentemente o Estado o
augmento de despeza nessa verba. (FONSECA, 1890, p. 13
Nesta época – 1890 - contava o Estado com 184 escolas públicas primárias
para atender 6.458 alunos, sendo 3.111 do sexo masculino e 3.347 do sexo
feminino, segundo relatório do Governador aos legisladores estaduais (FONSECA,
1890, p. 13).
101
Passados dez anos da instauração do regime republicano, a situação da
instrução pública ainda seria um problema de graves proporções, segundo relatório
do Governador Euclides Vieira Malta, enviado à Assembleia Legislativa, no qual o
chefe do executivo afirmava:
A instrucção pública primária, sinto annunciar-vos, não corresponde as
espectativas dos poderes públicos, pois o seu resultado não attinge ao gráo
de aproveitamento que era de esperar e não compensa o dispendio que
com ela tem o Estado (ALAGOAS. GOVERNO EUCLIDES VIEIRA MALTA,
1901, p. 9).
No inicio do primeiro Governo de Euclides Vieira Malta, contava Alagoas com
241 escolas primárias, sendo o ensino secundário oferecido no Liceu Alagoano de
Maceió e em Penedo, estando o primeiro constituído de quatro cursos - Ciências e
Letras, Agrimensura, Normal e Comercial (ALAGOAS. GOVERNO EUCLIDES
VIEIRA MALTA, 1901, p. 8).
Para o mandatário estadual dos primeiros doze anos do século XX as razões
para o quadro da educação que era por ele apresentada aos legisladores no
relatório acima referido estavam na inaptidão e ausência de idoneidade por parte
dos professores, ocasionadas pela má formação dada pelo curso Normal, que era
pública estadual, a par da ausência de critérios na seleção de professores, a falta de
fiscalização, a falta de regimento interno das escolas, a falta de material e de mobília
nas escolas e os precários salários dos professores, que ele atribuía aos governos
que o antecederam.
Desse modo, se a desorganização dos serviços públicos, inclusive no campo
da escolarização, em todo o país vai reforçar o poder dos coronéis, em Alagoas,
onde o Estado, enquanto prestador de serviços, vinha, há muito, sendo um grande
ausente para a maioria da população, a presença do coronel vai se mostrar com
grande vigor. É possível ver que, por exemplo, em 1901, sob o Governo de Euclides
Vieira Malta, o quadro da educação que é apresentado na fala insuspeita do
Governador ao Congresso Estadual, bem como em documentos de servidores do
governo e ou matérias publicadas na imprensa do Estado. No Relatório do Diretor da
Instrução Pública no primeiro ano do século XX é possível constatar a seguinte
situação:
102
Causas antigas que remontam ao período colonial e se relacionam aos
costumes inveterados e hábitos viciosos da nossa população, hão
determinado o atraso relativo em que ainda está a Instrução Pública, o
afrouxamento lamentável do ensino, não só na razão geral dessas causas
históricas como também pelo mal preparo e falta de aptidão da grande
maioria do pessoal que se emprega em administra-la ( CRAVEIRO COSTA,
2011).
Se no discurso oficial é atribuída, em boa parte, a situação em que se
encontrava a educação ao desprezo da população pela instrução e a preferência por
viver na ignorância, havendo uma predisposição à ignorância somente superável
com a obrigatoriedade do ensino escolar primário, segundo o último relatório
referido, no interior do Estado, em 1901, o índice de analfabetismo era de 80%,
sendo o pequeno lavrador e o artífice na sua quase totalidade analfabetos. Esses
viviam, segundo documento do Diretor da Instrução Pública – que corresponderia
hoje ao Secretário da Educação - “unicamente para o trabalho brutal, de sol a sol,
sem a menor noção de civismo, sem a mais rudimentar instrução”.
Como as reformas eram vistas pelos poderes públicos como uma panaceia
para os graves problemas da instrução da população, a elas não eram poupadas as
críticas – sobretudo às anteriores a cada novo governo que assumia o poder. Assim,
frente à situação encontrada, diz a autoridade já no seu segundo ano de governo,
em 1902:
Desde o inicio do regime Republicano tem a Instrução Pública em nossa
terra passado por sucessivas reformas, a começar pela administração do
ilustre conterrâneo Coronel Pedro Paulino da Fonseca, passando pela do
Dr. Gabino Besouro, Governador que tomou muito interesse por esse ramo
do público serviço, até a atual, do dr. Euclides Vieira Malta, cujos bons
desejos deram logar a que s. exc. pedisse ao congresso do Estado a
Reforma do Regulamento da Instrução Pública.” (CRAVEIRO COSTA, p. 1)
No Governo de Euclides Malta, de fato, foram aprovados vários regulamentos
da Instrução Pública, criando escolas infantis, escolas primárias e escolas modelos,
que não saíram do papel, a não ser pontualmente, deixando, assim, de se constituir
numa política pública extensiva a todos os alagoanos. Nas escolas primárias, onde o
ensino deveria ser gratuito, obrigatório e leigo, as atividades escolares continuariam
sendo quase que inteiramente dadas nas salas das casas dos/as professores/as, em
classes multisseriadas e frequentemente pagas pelos próprios pais dos estudantes.
Nessas escolas, existentes no ano anterior ao da chegada de Delmiro ao sertão
alagoano, tem-se o registro de frequência num montante de 4.020 do sexo
103
masculino e 3.264 do sexo feminino, o que para o autor do relatório significava a não
eficácia da obrigatoriedade do ensino, e a quantidade de escolas públicas do Estado
insuficientes para atender à demanda de um contingente populacional de 662.663
habitantes. Esses indicadores representam 0,90 da população frequentando a
escola em Alagoas, já estando em curso o Século XX.
Importa aqui registrar que o termo escola utilizado nos relatórios referia-se,
como já assinalado, quase que integralmente à casa-escola, ou seja, a classes
multisseriadas que funcionavam na sala das casas dos/as professores/as, todas elas
em nível elementar que ia da 1ª à 4ª série. Havia, segundo consta do relatório de
1901, em todas as cidades e vilas de Alagoas, e mesmo em alguns povoados,
escolas primárias particulares para uma população que, na sua maioria mal
conseguia ter recursos para sobreviver.
Foi já no século XX que começaram a surgir com alguma regularidade os
grupos escolares no Estado para substituir, nos aglomerados urbanos de maior
população infantil, as escolas isoladas. Segundo Araújo Rêgo, que foi Diretor da
Instrução Pública por praticamente todo o governo dos Malta, a situação das “casas
escolas” era precária, não oferecendo o mínimo de condições para aprendizagem.
Craveiro Costa, com base em Araújo Rego, nos dá conta de que elas
eram ´infectos casebres`, privadas de todo o conforto, onde se imobilizavam
diante de um individuo arvorado em professor algumas dezenas de alunos a
se imbecilizarem nas rotineiras tarefas do silabário, da tabuada e do
catecismo. (CRAVEIRO COSTA, 2011, p. 49)
Avaliando a administração da Instrução Pública nos Governos que
antecederam a sua administração na pasta da instrução, Araújo Rego enfatiza, em
relatório apresentado em 1905, como se estivesse no início de uma gestão que já
tinha cinco anos, que, no Estado, até então “não havia uma só escola instalada em
prédio próprio; todas funcionavam em casas comuns, de aluguel”, sendo o
mobiliário, “em muitas caixas vazias de querosene e havia escolas em que os alunos
se sentavam no próprio solo, como se viu até o ano passado [1904] num dos grupos
escolares da capital”. (VERÇOSA, 2006, p. 107)
Joaquim Paulo Vieira Malta, quando à frente do Governo do Estado em
substituição a seu irmão Euclides Malta, destacou, em sua mensagem à Assembleia
104
Legislativa, datada de 17 de Abril de 1905, sua preocupação para com o pouco
número de escolas primárias, inclusive na capital, como se não estivesse ele
sucedendo seu irmão e correligionário no governo do Estado. Já no relatório
apresentado por Antonio Máximo da Cunha Rego, que assumiu temporariamente a
chefia do executivo estadual em razão da licença de quatro meses tirada por
Joaquim Paulo, informava haver no Estado 278 cadeiras de instrução primária
(ALAGOAS. GOVERNO ANTONIO MÁXIMO DA CUNHA REGO, 1906, p. 10).
Os recursos do Estado destinados neste período para a educação eram
significativos se levarmos em conta o percentual da receita estadual aplicado à
chamada “instrução pública”. Em relatório de 1907 – depois de sete anos no poder
com seu grupo político -, diz o Governador Euclides Malta:
Despendendo quase a terça parte de sua receita com o serviço de
instrução, o Estado, apesar dos contínuos esforços convergentes dos
governos para incentivar o ensino, não tem conseguido os fins que visaram
os constantes regulamentos baixados no intuito de se imprimir uma
orientação adequada ao preparo dos alunnos (ALAGOAS. GOVERNO
EUCLIDES VIEIRA MALTA, 1907, p. 14).
Vê-se, assim, que mesmo com mais de 30% dos recursos investidos na
educação e as constantes reformas da instrução pública, pouco ou quase nada se
conseguia mudar no quadro educacional, de modo que o próprio governador
confessa, nesse mesmo relatório ao legislativo, feito após 7 anos no poder, que
Tomando por base as leis orçamentárias dos tres ultimos annos, o governo
despende em cada exercicio financeiro mais de rs. 580:000$000 num
orçamento de rs.2.200:000$000, com o serviço de instrucção, sem, com
tudo, alcançar vantagens de maior tomo na educação do povo (ALAGOAS.
GOVERNO EUCLIDES VIEIRA MALTA, 1907, p. 16).
Como a conturbada I República alagoana já tratada aqui se caracterizou, num
primeiro momento, pelo clima de instabilidade política, também a Instrução pública
sofreu com as mudanças frequentes nos órgãos de sua direção, configurando-se
uma situação que, nem nos 12 primeiros anos do século, nos quais Alagoas esteve
sob o pulso forte de uma oligarquia que não sofreu qualquer solução de
continuidade, foi capaz de ser revertida. Afinal, sob uma oligarquia, os interesses
públicos somente se impõem se neles estiverem embutidos os interesses dos
grupos que estão representados no poder, o que não era o caso da instrução numa
105
sociedade pouco urbanizada, porque de forte perfil agrário assentado no latifúndio e
na monocultura.
Com a queda da Oligarquia Malta, em 1912, assume o comando político do
Estado outra corrente oligárquica, capitaneada por Clodoaldo da Fonseca. Logo, no
primeiro relatório de José Antonio Marques sobre a instrução escolar, apresentado
ao Governador, em 1913, tem-se a informação de que
As escolas públicas, em Maceió, não possuem instalações especiais
apropriadas aos fins a que se destinam, funcionando em casas particulares,
no próprio domicílio dos professores, onde a população escolar vive em
perfeita prisão, sem ar, sem luz. (MARQUES apud VERÇOSA, 2006, p.
107).
Se esta era a situação da Instrução Pública na capital do Estado, no interior,
segundo o mesmo relatório,
a situação era ainda pior já que os professores das vilas e povoados
seguiam recebendo dez cruzeiros para o aluguel de uma sala de aula e seis
para o querosene consumido no chamado curso supletivo noturno para
alfabetização de adultos (VILELA apud VERÇOSA, 2006, p. 108).
Enquanto o quadro apresentado demonstra um completo abandono da
Instrução Pública, no que pesem as boas intenções propaladas pelos Malta,
expressos nos discursos tornados públicos por todos os 12 anos em que estiveram
no poder, a busca pela educação passa a ser um objetivo cada vez mais almejado,
não somente pelos mais abonados economicamente, mas, também por aqueles que
acreditavam que para ascenderem na pirâmide social era a educação um meio
indispensável. Vimos que, no plano das intenções dos que estavam no topo da
pirâmide com as mudanças que a ampliação do acesso à educação poderia
provocar, massificar o ensino seria trabalhar para colocar a nação no rumo das
nações civilizadas. (TENÓRIO, 2009, p. 29) De fato, setores ligados ao conflito entre
a corrente agrário-comercial do século XIX e a urbano-industrial do século XX,
percebiam a importância dos “formadores de hábitos e disseminadores de novos
padrões culturais, para os quais a instrução é peça fundamental”. Em Alagoas,
porém, se a própria elite alagoana logo percebeu que, para manutenção de seus
interesses era necessário escolarizar seus herdeiros, mesmo tendo efetivamente
realizado pouco para o atendimento escolar dos alagoanos, precisava aparentar
empenho nesse campo. Daí
106
[...] o esforço do governo maltino, e de seus adversários que o afastaram
em 1912, em manter uma retórica pró-instrução e garantir o mínimo de
expansão da rede pública de ensino, exaltando-a nos documentos oficiais
como uma das suas prioridades. (TENÓRIO, 2009, p. 30).
Assim, os indicadores educacionais da época, a julgar, segundo Tenório
(2009) pelas informações de jornais, revistas e indicadores socioeconômicos do
período, demonstram que a situação do ensino não sofreu substancial alteração
para os mais pobres.
[...] não sofreu alterações. Com exceção dos lentes do Liceu e de outras
escolas oficiais, cargo que era verdadeiro prêmio a eminentes figuras da
sociedade, a situação do magistério era péssima. Entre as que sobressaíam
e recebiam atenção estavam as seis escolas modelos com classificação em
três graus diferentes, sendo duas para cada sexo. O ensino secundário era
ministrado nas escolas normais de Maceió e Penedo, nos liceus destas
duas cidades, nos cursos de agrimensura e comercial pelo Liceu de Artes e
Ofícios, criado a instâncias de Montepio dos Artistas Alagoanos na gestão
provisória do coronel Santo Pacheco, o qual atravessava altos e baixos em
seu funcionamento. (TENÓRIO, 2009, p. 30
Na segunda década dos anos de 1900, segundo estudos de Tenório (2009, p.
30-31), Farias (2007). Souza (2010) e Craveiro Costa (2011), as casas de educação
de maior prestigio, na capital e nas cidades maiores do interior eram as particulares
que funcionavam em regime de internado ou de semi-internato para atender
principalmente aos alunos no interior, destacando-se, por exemplo, entre estes, o
Instituto Alagoano, o Colégio Diocesano, o Santíssimo Sacramento, o 24 de
Fevereiro, o 15 de Março e o Coração de Jesus, em Maceió; o externato Pilarense,
em Pilar; o São João, em Penedo; o Hilário Ribeiro, em Pão de Açúcar; o Internato
Alagoano, em Viçosa; e o Externato de D. Cantidiana de Bulhões, em Santana do
Ipanema. Assim, mesmo com a dificuldade de transporte do interior para a capital,
que se resumia a poucas linhas de trem e ao transporte fluvial, além de algumas
poucas vias mais para carroças do que para automóveis, a capital alagoana passou
a ser mais visitada e procurada pelos que desejavam educar os seus herdeiros.
Para a maioria da população, mesmo em Maceió, eram precárias as
condições de higiene no período correspondente à I República, pois, praticamente
inexistiam esgotos, bem como o fornecimento de água potável. Assim, a população
contraía, com frequência, moléstias infectocontagiosas, de modo que os hábitos de
higiene passaram a ser uma preocupação dos que desejavam incluir Alagoas no
mundo da civilidade, já que:
107
No Litoral e no Sertão era grande a incidência de reumatismo, hepatite,
bouba, congestões, sífilis, pleurisia, pneumonia, e a popular opilação.
Muitas delas poderiam ser evitadas se fossem observados certos cuidados
com alimentação, habitação ou higiene. (TENÓRIO, 2009, p. 36)
Apresentando sua insatisfação pela forma como recebeu as finanças do
Estado e também pela péssima prestação dos serviços públicos, Clodoaldo da
Fonseca relata, já em 1913 que, ao assumir o Governo, a desorganização ”impozme a obrigação de não adiar as reformas, e, sim, executa-las, sem vacillação, no
mais breve prazo” (ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p.
6).
Diz ele que, mesmo com a situação precária das finanças do Estado, “dei
inicio a execução do plano de Governo, começando pelas immediatas reformas do
gabinete do Governador, Secretarias de Estado, Instrução Pública, Polícia, Hygiene
e Força Pública” (ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 6).
E referindo-se especificamente à instrução pública dizia o Governador “o
serviço da Instrução Pública, uma das maiores preocupações do meu Governo,
apresentou-se-me num completo estado de abandono e de anarchia”. (ALAGOAS.
GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 12).
Com tal posição sobre a instrução pública, o Governo que inaugura o período
das “Salvações” em Alagoas solicitou ao presidente do Estado de São Paulo o envio
de um professor que viesse ajudar no desenvolvimento do ensino, ao que foi
atendido com a vinda do Sr. Luiz de Toledo Piza Sobrinho, reformador da educação
paulista. Com a mesma crença nas reformas, Clodoaldo nomearia logo uma
comissão para organizar os novos regulamentos da instrução pública, composta por
este convidado, por Alfredo de Araújo Rego, que dirigira a Instrução Pública sob o
poder dos Malta, mais Manoel Balthazar Pereira Diégues Junior, intelectual e
educador alagoano que desfrutava de grande prestígio desde o Império e que era
filiado aos movimentos de cunho mais liberal.
No que pesem as diferenças entre o novo grupo no poder e a recémdesbancada oligarquia Malta, Clodoaldo, uma vez no poder, tal qual o grupo
anterior, instituiria, por meio do Decreto n°. 601, de 11 de Novembro de 1912, um
novo regulamento da instrução pública, arquitetado no governo Malta, ao qual se
108
opunha ferrenhamente no plano político. Este novo ordenamento do ensino traria, a
considerar o Relatório de Clodoaldo ao legislativo logo após a sua posse,
[...] escolas bem installadas, de accôrdo com os preceitos da moderna
hygiene, professorado completo e methodos e processos de ensino,
consoantes a moderna pedagogia.
O apparelho escolar compor-se-a por essa organização – da Escola
Normal, completamente remodelada e apta a preparar professores hábeis e
conscientes de sua alta missão de educadores ; das escolas – Modelo,
typo, que funccionarão annexas á Escola Normal, para que os alunnos
desta acompanhem os seus trabalhos e alli façam exercícios práticos de
ensino ; de Grupos Escolares, com classes graduadas em quatro annos de
curso preliminar ; e de escolas isoladas, ambulantes e subvencionadas.
Os grupos escolares, assim como o Jardim da Infancia, que dependem de
vastos predios, serão instalados á proporção que a situação do erário
publico o permita.
O Ensino Secundário, ministrado officialmente, no Estado pelo Lycêo
Alagoano, também foi reorganizado de accôrdo com as exigências do nosso
meio (ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 1415).
E para, segundo o Governador, dar celeridade às mudanças na educação, foi
baixado decreto abrindo crédito especial de 150 contos de réis para o qual autorizou
“desapropriações para a construcção de edifícios e compra de material escolar,
inclusive de livros, mappas e outros, alguns dos quais já foram recebidos”
(ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 14-15).
Findo o governo de Clodoaldo da Fonseca, assume o Governo, em 12 de
junho de 1915, João Baptista Accioly Junior, engenheiro civil ligado às oligarquias
canavieiras do norte do Estado, o qual toma como prioridade de sua atuação a
Ordem e as Finanças Públicas. Tendo enfrentado tumultuado processo eleitoral,
Batista Accioly assumiu, segundo suas próprias palavras,
deante do emminente perigo de um choque partidário de tal vehemencia,
que, aos dois partidos em luta, parecia não ser possível evitar-se o encontro
funesto de suas hostes, provocando o justo sobressalto das famílias
patrícias e o pezado ambiente de afrontas e desafrontas que se respirava
por todo o Estado (ALAGOAS. GOVERNO JOÃO BAPTISTA ACCIOLY
JÙNIOR, 1915, p. 6).
Apoiado pelo antecessor e reconhecendo os esforços deste na organização
da Instrução Pública no Estado, o Governo de Baptista Accioly no tocante à
educação modificaria o regulamento da instrução pública através de Decreto visando
dois fins “[...] a equiparação do Liceu Alagoano ao Colégio Pedro II – e a revogação
de dispositivos regulamentares existentes que iam, em breve, aggravar o Thesouro
109
publico de despezas que elle, de facto não supportaria” (ALAGOAS. GOVERNO
CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 18).
Sentindo necessidade de justificar a revogação de atos de um aliado seu, o
Governador diz que:
O regulamento revogado encerrava dois grandes defeitos: - APPARATOS
DESNECESSÁRIOS para um Estado bastante pequeno e- DESPEZAS
EXCESSIVAS para um thesouro por demais exhausto, em desacordo com o
proveito obtido que continuava a ser o mesmo. [...] (grifos do autor)
(ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913, p. 18)
Exercia a direção da Instrução Pública de Alagoas, então, o intelectual e
pedagogo Manoel Moreira e Silva, a quem tinha incumbido o Governador da
responsabilidade de organizar a educação alagoana. E neste Governo, conforme
relatório do próprio Governador, no ano de 1918, a Instrução Pública não teve “nada
digno de registro a accrescentar ao que, sobre este assumpto, escrevi em minhas
mensagens anteriores” (ALAGOAS. GOVERNO CLODOALDO DA FONSECA, 1913,
p. 18).
Em 1919, segundo dados do Governo do Estado, cujo executivo era já
dirigido por José Fernandes de Barros Lima, existiam em Alagoas 221 escolas
isoladas para o ensino primário no interior do Estado, configurando uma situação
desoladora que, em termos comparativos, assim se apresentava para todo o Século
XX:
Tabela 1 – Número de Escolas Públicas em Alagoas no Período 1900 - 1919
ANO
1900
NÚMERO DE ESCOLAS
241
Fonte: Relatórios dos Governadores – período 1900–1919.
1906
1919
278
221
Segundo o próprio governador, que tinha sido antecedido por dois
correligionários seus – Clodoaldo da Fonseca e Batista Accioly - as medidas
adotadas pelos sucessivos governos na I República pareciam ineficientes para
resolver o problema da Instrução Pública, já que
as estatisticas sobre o número de analphabetos em Alagôas são
deprimentes e si não nos envergonham nos devem entristecer, custando
acreditar-se que o analphabetismo tem augmentado neste Estado depois da
Proclamação da República (ALAGOAS. GOVERNO JOSÉ FERNANDES
DE BARROS LIMA, 1920, p. 26-27).
110
Os dados da tabela acima, retirados de fontes oficiais, mostram que, na
verdade, o número de escolas públicas foi reduzido no período analisado, o que
torna patente uma flagrante contradição entre o discurso calcado no “entusiasmo
pela educação”, em contraposição às medidas efetivamente empreendidas, mesmo
pelos governos do grupo que sucedera a oligarquia dos Malta.
Em 1924, a matrícula geral nas escolas públicas, nos dois grupos escolares
da Capital e na escola Modelo, atingiu a 13.854 alunos com uma frequência média
de 9.770, sendo a população do Estado, segundo o último recenseamento, de
978.748 habitantes, o que representava um desastre no atendimento à população
em idade escolar, ao longo de duas décadas e meia do século XX e 35 anos da
proclamação da República, e que visualmente pode ser assim representado:
Gráfico 1 – População de Alagoas e número de alagoanos frequentando as escolas
públicas – 1901 - 1926
Fonte – Relatórios Governamentais
Se, do ponto de vista proporcional, tomando-se em consideração a população
total, o índice de frequência, em 1926, é maior do que o observado em 1901, em
termos absolutos ambos são números desprezíveis.
Frente aos índices apresentados pela educação alagoana e na crença
inabalável de que somente as reformas do ensino o levariam à sua redenção, mais
uma reforma foi proposta pelo Governo em 1925, por meio do Decreto 1.140, de 19
111
de Setembro de 1925, autorizado pela Lei 1.018, de 14 de Junho de 1924,
compreendendo o ensino primário, o complementar, o profissional e o secundário.
Segundo Craveiro Costa, que faz uma análise da situação em 1931,
A reforma de 1925, ainda em vigor, chegou a dar ao público a ilusão de que
o problema ia ser atacado seriamente. Mas, no final das contas, tudo ficou
em bonitas festas escolares, com bailados e representações que ensinaram
ás mocinhas da Escola Normal e principalmente na dolorosa recordação
das compressões burocráticas de que foi vítima o magistério. O professor,
finda a encenação, continua o mesmo funcionário desprestigiado e
miseravelmente pago de outrora, cujo número não aumentou, e a escola
ainda não ensina aquelas coisas melhores e de maior proveito que o velho
Montaigne exigia como fundamento da sua atividade (CRAVEIRO COSTA,
2011, p. 53)
Para o Governo Costa Rego, que seria o último presenciado pelos
continuadores de Delmiro Gouveia à frente da gestão da fábrica da Pedra, o
problema da Instrução Pública era a Precária formação dos professores, resultado
do fraco desempenho da Escola Normal, juntamente com a falta de fiscalização das
escolas e a localização das escolas, sem deixar de reconhecer que, para enfrentar
as dificuldades experimentadas pelo ensino, era necessário mais investimento
financeiro.
Entre os principais eixos da nova reforma constava a possibilidade de o
Governo poder subvencionar estabelecimentos de ensino primário em qualquer
ponto do Estado onde não existia escola pública, conforme nos dá conta Craveiro
Costa (CRAVEIRO COSTA, 2011, p. 30-31)32 Segundo consta no próprio relatório
enviado ao Congresso Estadual sobre esse novo regulamento de 1925, ele
nada creou de extraordinario: apenas corrigiu as falhas dos regulamentos
anteriores e estabeleceu certa unidade no contexto; refundiu, ampliou,
melhorou o arcabouço; procurou tornar efficientes as medidas de
fiscalização, poz-se de accordo com a Constituição Estadual, que prescreve
o ensino obrigatorio; classificou as cadeiras isoladas em categorias,
garantindo ao mesmo tempo seu provimento nas localidades longinquas;
dividiu o professorado em entrancias, regulando o acesso dos mais
esforçados e dos mais assiduos, e instituiu o censo escolar, como medida
preliminar á creação das cadeiras de ensino primario no interior.
(CRAVEIRO COSTA, 2011, p. 35)
32
Importa considerar que essa obra de Craveiro Costa, aqui referida como de 2011 é, na verdade, o
grande inquérito por ele procedido em 1931, por encomenda do Governo Federal.
112
De fato, quanto à subvenção das escolas privadas, esta já vinha sendo feita,
por exemplo, nas escolas do núcleo fabril da Pedra, desde quando Delmiro estava à
frente da fábrica, como veremos no próximo capítulo.
Nesse instrumento regulador de 1925 foram também estabelecidos critérios
para a criação de novos grupos escolares, de modo que:
A installação dos grupos escolares no interior faz-se sempre nas sédes dos
municípios, subordinada á condição de que o recenseamento escolar
accuse a existencia de, pelo menos, 320 menores, de ambos os sexos, de
sete até doze annos, para os meninos e até quatorze para as meninas. A
preferência para a creação de grupos escolares onde elles ainda não
existam é dada aos municípios que concorrerem com a terça parte da
despeza orçada e com o terreno para as installações ou predio facilmente
adaptavel. (CRAVEIRO COSTA, 2011, p. 30)
Pelas sucessivas tentativas de reestruturação da Instrução Pública em
Alagoas, que não evitaram o seu fracasso, buscavam os vários governadores
espelharem-se nas experiências de outros Estados, tendo inclusive o Governador
Álvaro Correa Paes, que foi o chefe do executivo até o Movimento de 1930,
comissionado Adalberto Marroquim, prestigiado intelectual da época, para que ele
fosse pesquisar a estruturação e o funcionamento da Instrução Pública nos Estados
do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, para desta forma poder implementálos em Alagoas. A educação em Alagoas no período da I República, porém, foi toda
perpassada “pela política dos partidos, cujos interesses colocavam acima do
interesse coletivo”, pois os governos viam “na escola e no mestre simples elemento
de êxito faccioso com que fortalecia a dedicação dos chefes locais”. (CRAVEIRO
COSTA, 2011, p. 49) Afinal, ainda segundo Craveiro Costa (2009, p. 54-55),
No estado de semianalfabetos em que o deixa a escola, forma a turbamulta
de eleitores de cabresto que os mandachuvas regionais manejam
despoticamente e gera a multidão de inconscientes, e propicia a infiltração
das ideias corrosivas da ordem social que o comunismo está propagando
por toda parte.
Para Craveiro Costa, frente às ideias de uma Instrução Pública alinhada ao
desejo de progresso herdado dos iluministas e dos pensadores da Revolução
Industrial,
O grande problema que a escola tem que resolver é educar as massas
populares no sentido de sua fixação nos campos agrícolas e pastoris, do
seu aparelhamento para o trabalho consciente, do seu valor como elemento
de produção e riqueza. Esse problema, a escola atual não resolverá nunca.
113
E a prova da sua ineficácia só não a vê quem olha as coisas
superficialmente. (CRAVEIRO COSTA, 2009, p. 54-55)
As analises até aqui empreendidas dizem respeito aos aspectos educacionais
que predominaram no período que se situou entre 1902 e 1926, ainda que Delmiro
tenha falecido em 1917, por ter ido sua ação educativa, num certo sentido, até 1926,
quando seus descendentes definitivamente se afastaram da Pedra e ali se instalou
um grupo que alterou o projeto iniciado por Gouveia. É que, assassinado Delmiro,
seus sócios e seus descendentes agiriam na Pedra até o governo de Costa Rego,
num clima de estabilidade somente possível por conta do domínio quase supremo
dos chefes estaduais e seus prepostos no interior, os quais, no sertão, até por conta
da distância e da dificuldade de comunicação, eram mais necessários ao poder
regional e nacional do que qualquer outra coisa, valendo-se, Delmiro e os seus,
dessa situação política muito favorável aos negócios no sertão.
Será, pois, de posse do quadro de referência até aqui esboçado que tentarei,
no próximo e último capítulo, empreender uma leitura da ação pedagógica levada a
efeito na Pedra por Delmiro e seus continuadores.
114
3
“CIVILIZAÇÃO” E EDUCAÇÃO NA PEDRA.
As representações produzidas por observadores da época e na
literatura posterior costumam realçar contrastes em Pedra – vista
como um centro de trabalho, civilização e progresso – e o sertão –
representado como lugar desolado e inóspito, habitado por seres
rudes, místicos e indolentes.
Telma de Barros Correia
(Pedra: plano e cotidiano operário no sertão)
É sabido, por meio da literatura especializada, que, nas últimas décadas do
século XIX e nas três primeiras do século XX, medidas ditas “civilizadoras” passaram
a ser difundidas em todo o Brasil por empresários, em razão da emergência cada
vez mais intensa da indústria, com o propósito de reorganização de mão-de-obra
para o trabalho.
No início do século XX, sobretudo, conforme já assinalei no capítulo anterior,
esta verdadeira “cruzada civilizatória” que se expressava particularmente por meio
de processos educativos formais e não formais – escolares ou não escolares,
melhor dizendo – passou a ter o respaldo massivo de intelectuais liberais que foram
parar na história de nossa educação com o nome de “pioneiros” ou “profissionais da
educação”, por terem sido os primeiros a viverem exclusivamente desse mister,
dentre os que eram detentores de títulos de bacharel e, por isso, podiam viver de
outras ocupações. Foram eles aqueles que deram aos adeptos do progresso a
legitimidade para o discurso e as práticas voltadas para a crença de que, sem
educação, o país era inviável.
Entre as “medidas civilizadoras” estavam, antes de tudo, porém, a construção
de moradias para os operários, articulada a uma série de outras providências
voltadas para o controle dos trabalhadores. Segundo Correia (1998, p. 11), “a
criação desses equipamentos inseriu-se em um esforço amplo das elites na
organização da sociedade do trabalho e do preparo de trabalhadores para a
indústria”.
No núcleo fabril da Pedra, medidas criadas e mantidas como meio para a
“regeneração do pobre sertanejo”,33 iriam colocar a Pedra como modelo de ordem e
33
Esta concepção do sertanejo era predominante na classe dominante, o que não significa que
concordamos com ela.
115
bem estar aos olhos de alguns intelectuais que a visitaram em pleno funcionamento
sob o controle de seu criador. De fato, segundo Correia (1998, p. 17),
Entre as experiências nacionais, Pedra é uma das que têm despertado
maior interesse ao longo deste século [século XX]. O lugar e seu criador –
freqüentemente envolvidos em imagens míticas – foram tema de várias
obras biográficas, romances, poemas, discursos parlamentares, inúmeras
matérias de jornal e revistas, filmes, peça de teatro e, até, de desfile de
escola de samba no Rio de Janeiro.
Analisando o fenômeno industrial criado por Delmiro Gouveia, na região do
semiárido brasileiro localizada nos confins das Alagoas - no espaço hoje classificado
como Microrregião do Sertão do São Francisco -, Telma Correia prossegue sua
reflexão dizendo que:
A emergência de Pedra neste “mundo da barbárie” foi descrita por alguns
com imagens de um embate, no qual a técnica suplanta os poderosos
obstáculos colocados pelo meio sertanejo à penetração do progresso no
seu território. Pedra foi alçada à condição de comunidade perfeita,
conduzida pela utilidade e pelo bom senso; modelo de saída para a
superação do “atraso” do Nordeste e do país. Tais leituras costumam elevar
esta experiência a uma condição de excepcionalidade e caráter modelar,
que tanto oculta alguns de seus aspectos não condizentes com tal imagem
– como o uso de violência corporal contra seus operários -, como
menospreza o fato de tratar-se de uma forma de gestão operária que em
suas características gerais estava inserida em um padrão de relação social
do trabalho muito comum na época. (CORREIA, 1998, p. 17)
É de conhecimento comum, efetivamente, como afirma a autora, um conjunto
de iniciativas realizadas em vários lugares do Brasil similares às procedidas por
Delmiro na Pedra, as quais eram congruentes com os
Princípios liberais, noções positivistas, teorias médicas, idéias do
catolicismo social, técnicas de engenharia, noções de dever e lealdade,
padrões de moral e civilidade [que] foram mobilizados pelos industriais na
concepção da ordem urbana e social dos núcleos que criaram. (CORREIA,
1998, p. 11)
Se a realidade industrial dos fins do Século XIX e inícios do Século XX, no
Brasil, era essa que acabo de apresentar sucintamente, afinal o que faz do núcleo
fabril da Pedra uma experiência digna de observações entusiastas e os rasgados
elogios feitos sobre ele por contemporâneos?
Antes de mais nada, a resposta à pergunta formulada acima parece assentarse em razões por mim já levantadas no capítulo anterior, esboçada acima por
Correia (1998) e feitas com base, sobretudo, em Bartelt (2009), que pode ser assim
116
resumida: tratava-se de uma experiência de organização do trabalho desenvolvida
no que, depois de Canudos, dos beatos e do cangaço, passou a se conhecer como
sertão brasileiro, região do hinterland onde até então o “progresso e a modernidade”,
apregoados pela República, eram tomados como uma novidade impossível,
segundo muitos, de ali ser viabilizada.
É verdade que o novo também observado na Pedra representava um esforço
similar ao feito por todos os industriais da época, já que esse fenômeno coincidia
com
[...] um momento em que a indústria necessitava retirar mão-de-obra de
outras atividades, captar fluxos de pessoas já liberados e incorporá-los a
seu regime de trabalho, buscando transformá-los em operários adaptados a
seus métodos e submetidos à autoridade do industrial, e para isso
encontrava dificuldades. A questão era vencer a resistência ao emprego
industrial e superar a inadaptação dos trabalhadores aos ritmos e métodos
de trabalho que a fábrica procurava impor. A pouca fixação nos empregos, o
absenteísmo e o desrespeito a horários e regulamentos eram algumas das
formas como se traduzia essa oposição do pobre ao trabalho fabril. Tratavase, também, de manter um grupo operário isolado, imune às contaminações
sanitárias e, sobretudo, morais e políticas, atribuídas às grandes
aglomerações. Tratava-se, ainda, de gerir esse grupo operário com
autonomia, sem a interferência dos poderes – políticos e religiosos –
sediados nas cidades e longe da concorrência de outras empresas por mãode-obra. Nesse sentido, o isolamento espacial – das vilas operárias em
subúrbios e, mais ainda, dos núcleos fabris no campo – coloca-se como um
componente básico desse padrão de gestão do trabalho. A estratégia
consistia, num primeiro momento, em isolar a classe trabalhadora útil e
produtiva dos pobres julgados irremediavelmente corrompidos. Em seguida,
em submeter o grupo trabalhador a um programa disciplinar que acentuasse
suas aptidões para o trabalho e desenvolvesse novos hábitos regrados.
(CORREIA, 1998, p. 12)
Ora, se o que acaba de ser dito valia para as vilas operárias situadas nas
grandes cidades, imagine-se no que diz respeito ao projeto industrial instituído no
alto sertão de Alagoas. O que foi feito ali por Delmiro Gouveia provocou grande
surpresa em visitantes, principalmente políticos e intelectuais, que expressaram
admiração e entusiasmo por ver ali realizar-se uma verdadeira revolução de
costumes por meio de processos educacionais e de trabalho.
Diante do que acabo de dizer, vale buscar uma explicação para o espanto
provocado pelo fenômeno empreendido por Delmiro no núcleo fabril da Pedra.
117
3.1 O Núcleo Fabril da Pedra
O núcleo fabril da Pedra foi edificado nas proximidades da estrada de ferro
Piranhas-Jatobá, em pleno sertão alagoano. Tendo Delmiro chegado naquelas
paragens para ficar contra a sua vontade, uma vez diante do inevitável, seu primeiro
movimento como capitalista foi prosseguir com as atividades que dominava e das
quais havia tirado sua fortuna – refiro-me ao comércio e tratamento de peles.
Continuaria, pois, por um bom tempo como tal, para o que a proximidade das fontes
fornecedoras e a facilidade de mão de obra e de transporte muito contribuiriam.
Estabelecido na Pedra em definitivo, após aquisição das terras marginais da
cachoeira de Paulo Afonso dos lados alagoanos e baianos e, como sabemos,
mesmo com a recusa de Dantas Barreto, Governador de Pernambuco, de apoiar a
sua iniciativa de produção de energia elétrica para comercializar para todo o
Nordeste, prosseguiu Delmiro com seus planos de produzir e comercializar o que
sabia ser possível retirar da força hidroelétrica já cantada em verso por Castro Alves.
Afinal, ele fora até ali um capitalista que acumulara fortuna com sucesso,
exclusivamente como comerciante, tendo sido sua única experiência como industrial
até aquela altura – refiro-me à Usina Beltrão – um estrondoso fracasso que abalara,
inclusive, o que tinha conseguido fartamente acumular.
Assim, mesmo depois da desistência de empresários norte-americanos que
financiariam parte dos investimentos indispensáveis à montagem de uma grande
usina hidroelétrica que aproveitaria as quedas da Cachoeira de Paulo Afonso,
resolveu Delmiro construir a hidroelétrica que cabia no seu orçamento, projetando,
para o aproveitamento da força produzida, a construção de uma fábrica de linhas.
Segundo uma categorizada testemunha, porque, num certo sentido, foi co-partícipe
do desenvolvimento desse novo projeto, derrotada a pretensão de produzir energia
elétrica em abundância para ser vendida em profusão para toda a região, vez que
somente com a entrada em Pernambuco, segundo cálculos feitos, a empreitada
daria o retorno econômico esperado,
Foi, então, organizada a Companhia Agro-Fabril Mercantil, sociedade
anônima [...]. A nova empresa incorporou com os seus sócios a firma Iona &
Cia. e também auxiliares que nela se destacavam pelo esforço no
cumprimento dos deveres. (MENEZES, 1991, p. 67).
118
Constituída a firma, Delmiro viajaria para Londres a fim de adquirir as
máquinas e o material necessário para a usina hidrelétrica de Angiquinho e para a
fábrica de linhas que iria beneficiar o algodão abundante na região. Desse modo,
após seu regresso da Europa, logo “começam a chegar as máquinas componentes
do conjunto da turbina hidráulica que seria montada na cachoeira, material elétrico,
bomba e tubos condutores para o serviço de abastecimento de água”. (MENEZES,
1991, p. 67)
Para Menezes, acostumado a conviver com as dificuldades do semi-árido,
aquilo tudo “era o despertar de uma nova civilização para a zona sertaneja
alagoana, com reflexos notáveis em zonas idênticas dos Estados vizinhos”
(MENEZES, 1991, p. 67)
Junto com o maquinário também vieram técnicos de vários lugares (Itália,
Inglaterra, Alemanha), para escolha do local e acompanharem a montagem dos
equipamentos. Tendo as obras da usina de Angiquinho sido iniciadas em 1911, já
em 1912 começa Delmiro a construção do prédio da fábrica e as residências dos
operários: Assim,
[...] eram preparados na Pedra os terrenos em que se deviam erguer o
edifício da fábrica de linhas e a vila operária. O trecho escolhido, pontilhado
de cactos e coberto de catingueiras, pereiros e outras plantas baixas da
região, era crivado, no entanto, em pontos diversos, de vistosas baraúnas.
Foi atacado por algumas centenas de homens, para efeito de limpeza, de
abertura de alicerce e de fabricação de tijolos. (MENEZES, 1991, p. 70-71)
Tanto em Angiquinho como na Pedra, era grande o contingente de
trabalhadores envolvidos em todos os tipos de serviço. Seja no preparo do terreno,
confecção de tijolos, preparação de alicerces, etc. Delmiro, sempre muito senhor de
tudo o que empreendia,
Assistia a todos os serviços, orientava-os e, por fanfarronice e pretensão de
superioridade, repetia sempre que não queria mestres a orientarem a
execução das suas obras. Preferia homens que cumprissem bem as suas
ordens e executassem os seus planos. (MENEZES, 1991, p. 70-71)
De qualquer modo, de imediato, Delmiro sente a necessidade de qualificar a
mão-de-obra oriunda da região sertaneja para o núcleo fabril, numa região até então
agrária, de modo a transformar o sertanejo em operário eficiente e dócil.
119
Composta de 258 residências, escolas e espaços de lazer, a fábrica em torno
da qual se edificaram esses equipamentos destinava-se à produção de linhas de
coser “Estrela”, funcionando a partir da energia hidrelétrica produzida pela usina
Angiquinho. De acordo com Gonçalves (2010, p. 267):
A Pedra não era um aglomerado urbano político-administrativo
independente. Estava ligada ao município de Água Branca, de quem tudo
dependia. Porém, como distanciava 20 quilômetros, possibilitou que Delmiro
organizasse a comunidade segundo o seu interesse, para favorecer o
trabalho, controlar o tempo, o descanso, o lazer, os estudos, as compras e,
principalmente, a convivência entre moradores, sem contaminá-la com os
enormes vícios e defeitos tradicionais da região.
Figura 17 – Vista panorâmica do Núcleo Fabril da Pedra na década de 1920.
Fonte: Acervo particular de Edvaldo Nascimento.
Com a fábrica em atividade, em junho de 1914 o número de funcionários ia
crescendo e sertanejos oriundos dos municípios e Estados vizinhos vinham a Pedra
em busca de trabalho. Só a fábrica de linhas tinha, em 1916, cerca de “1.500
operários, dos quais aproximadamente 700 eram mulheres, 400 eram homens e 400
eram crianças”. (MELO apud COSTA, 1916, p. 2).
120
Figura 18 – Fábrica de Linhas da Pedra, da Cia. Agro Fabril Mercantil.
Fonte – Acervo Particular de Edvaldo Nascimento.
Para tocar seu empreendimento fabril, Delmiro Gouveia teve de absorver a
maior parte da mão de obra oriunda do próprio sertão. Assim, “o corpo de operários
chegou a atingir, na quadra do movimento máximo, dois mil indivíduos de ambos os
sexos que trabalhavam dia e noite, da segunda ao sábado.” (SANTOS, 1947, p. 34).
Diante de uma população rarefeita, com sedes de municípios e até circunscrições
municipais inteiras que contavam com população menor do que esta, tal contingente
de operários representava, naqueles tempos, uma multidão difícil de ser imaginada,
ainda mais sob o domínio de uma única pessoa.
De acordo com Santos (1947, p. 34),
Para a incessante faina da construção se misturavam operários vindos de
toda parte onde chegava a noticia da grande obra. Chegavam engenheiros
especializados de Londres, da Alemanha, da Itália, para as montagens dos
complicados aparelhos e variados maquinismos que despertavam a
curiosidade e o pasmo das gentes nativa, ignorantes e ingênuos, que
pensavam, talvez, estar assistindo a um sortilégio.
Para Correia, por sua vez,
Pedra foi estruturada como um meio onde todas as circunstâncias se
atrelavam à produção, onde tudo conspirava para converter o morador em
individuo previdente, ordeiro, metódico, trabalhador e obediente. Tal esforço
comportou ações voltadas para o controle do movimento das pessoas e dos
contatos entre elas, para a supervisão do consumo, para a introdução de
novas formas de perceber e gerir o tempo, para a promoção do lazer
regrado e da educação, para a alteração de hábitos e cuidado com o corpo
e com as casas. A fixação de normas determinando horários para as
121
diversas atividades, prescrições morais, regras de higiene, proibição do
consumo de bebidas e interdição de hábitos considerados impróprios e
maneiras julgadas indecentes ou insolentes foram algumas das medidas
adotadas. (CORREIA, 1998, p. 206-207).
Figura 19 – Fábrica de Linhas da Pedra, com seus operários à frente.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Conforme diz Dona Virginia Bezerra de Lima, que trabalhou como governanta
na residência de Delmiro Gouveia depois de construída a fábrica, em entrevista ao
Cineasta Geraldo Sarno, concedida na residência da entrevistada, na cidade de
Paulo Afonso, Bahia, em janeiro de 1967, referindo-se ao processo de formação do
primeiro pelotão de trabalhadores para uma nova ocupação até então desconhecida
na região,
não tinha operário. Não tinha quem soubesse trabalhar em negócio de
fábrica. Ele chamou gente de longe, Penedo, Propriá, esses lugares que
tinha fábrica”, “chamou os operários pra vir ensinar o pessoal daqui a
trabalhar [...]. (SARNO, 2006, p. 75)
Imbuído de uma forma bem própria de encarar o trabalho, mesmo aos que se
incorporavam nos trabalhos de Pedra já com alguma experiência no ramo, não
hesitava Delmiro em os substituir, desde que não demonstrassem capacidade ou
conduta compatível com o que ele entendia como adequada. Assim, “também os
operários que se mostravam indolentes, vagarosos, ou indisciplinados eram
prontamente afastados. Todos teriam que produzir o máximo e atender às suas
exigências” (MENEZES, 1991, p. 74).
122
Nesses empreendimentos de maior monta – usina hidrelétrica e fábrica de
linhas – Delmiro, ao contrário do que é propagado por alguns de seus biógrafos e
admiradores, contou com o apoio decisivo do Estado, sobretudo mediante
concessões e incentivos públicos, como mostrei, inclusive por meio de documentos,
no capítulo anterior. Assim, foi com apoio público que Delmiro conseguiu isenção de
impostos para compra dos equipamentos da fábrica, permissão para captar energia
da cachoeira de Paulo Afonso, incentivo fiscal para aquisição de matérias primas e
ressarcimento por parte dos governos de Alagoas e Pernambuco, de parte das
despesas realizadas para construção de 520 km de estradas e até a concessão do
rio e de suas margens, ao arrepio da lei. Não somente as autoridades alagoanas,
mas até o Governador de Pernambuco, Manoel Borba, esteve, na Pedra, em 1916
para inaugurar o trecho de estrada de Garanhuns a Pedra, construídas por Delmiro
Gouveia, que teve parte das despesas ressarcidas pelo erário pernambucano, tal
como aconteceu, também, com o governo de Alagoas.
Para Adolpho Santos (1947, p. 36), que foi, inclusive o primeiro gerente da
fábrica, o sertanejo que iria ser o grande motor humano do empreendimento
industrial da Pedra era “ignorante e ingênuo”. Segundo este auxiliar muito próximo
de Delmiro, postado na linha de frente da fábrica recém-implantada,
A maioria do operariado era brasileiro, recrutado na população bronca do
sertão bravio, o qual recebendo os ensinamentos do chefe e dos
profissionais contratados para amestrá-lo, tornara-se dentro de pouco
tempo hábil no manejo de todos os aparelhos e de toda maquinaria e, ainda
hoje, são esses nativos que Delmiro instruiu e mandou instruir, os mesmos
que executam as mais difíceis tarefas concernentes ao serviço elétrico e
fabril que se desenvolvem na Pedra nesta sua segunda fase. (SANTOS,
1947, p. 36)
Pela fala deste que foi um dos principais prepostos de Delmiro na linha de
frente do empreendimento fabril, dá para se aquilatar a importância que iria ter o
cuidado com a educação da quase totalidade dos trabalhadores que até então,
segundo seus novos patrões, eram simples sobreviventes do mundo rural áspero e
ingrato. Menezes identificava na maior parte dos que procuravam trabalho no núcleo
fabril da Pedra, seres que eram
Tangidos pela seca de seus pobres lares, chegavam à Pedra, às dezenas,
diariamente, infelizes vítimas do flagelo, procedentes do Ceará, da Paraíba,
de Pernambuco, de todos os Estados Nordestinos enfim, à procura de
123
alimento. Eram, sem exagero, frangalhos humanos, tão esgotados e
maltrapilhos chegavam. (SANTOS, 1947, p. 78)
Para Santos, na “vila da Pedra”, já nos começos da fábrica, “ali se constituía
[...] uma escola técnica de trabalho onde os operários, cada qual em suas secções,
se preparavam eletricistas, mecânicos, fiadeiros, tintureiros, chauffeurs e tantas
outras atividades”. (SANTOS, 1947, p. 36)
Figura 20 – Operários /as da Fábrica de Linhas da Pedra.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Conforme Menezes, a seleção para contratação do pessoal para trabalhar na
fábrica era feita pelo próprio Delmiro, que também acompanhava pessoalmente a
entrada e saída dos operários diariamente no começo e no final dos turnos de
trabalho, como se pode ver pelo testemunho a seguir:
Delmiro sentava-se à porta, aguardando a entrada do operariado. Feição
severa, olhar perscrutador, recebia o “bom dia” de todos quantos chegavam
e reclamava, às vezes até com dureza, daqueles que não o davam. Os
retardatários não eram admitidos. Não falava com nenhum, a não ser para
dar ordem; para nenhum tinha um sorriso ou uma palavra de estímulo. E
não admitia, sequer, que um operário entrasse na fábrica trajando roupa
suja. (MENEZES, 1991, p. 79)
No entanto, Delmiro Gouveia, conforme relato de visitantes da Pedra,
procurava colocar cada funcionário da fábrica para fazer o serviço que tivesse mais
gosto e mais capacidade de realizá-lo. (MENEZES, 1991) E em uma das paredes do
prédio da fábrica fez fixar a seguinte frase; “Por mais minuciosa e bem cuidada,
nunca a fiscalização é suficiente e completa”. (MENEZES, 1991, p. 80)
124
Podemos perceber como o sertanejo envolvido neste processo de
industrialização era visto por um dos principais líderes do projeto da Pedra. Em se
tratando de Adolpho Santos, podemos imaginar que esta concepção de sertanejo e
a necessidade de moldar valores e comportamentos nos trabalhadores oriundos
deste lugar, cujas características culturais e sociais devido a ter sido esta região
deixada em segundo plano pelo Estado brasileiro, tenha sido também a concepção
que predominou entre os demais chefes da Pedra.
A localização do núcleo fabril de Pedra, bastante afastado da sede do
município, proporcionou condições ideais para um forte controle social de Delmiro
sobre seus moradores.
Figura 21 – Vista da Rua 13 de Maio, no Núcleo Fabril da Pedra, na década de 20.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Muito afastado da sede da cidade, o referido núcleo estava nas proximidades
da estação da linha férrea, tendo passado, a partir de 1913, a receber energia
elétrica e água encanada produzida com a força da cachoeira de Paulo Afonso.
125
Figura 22 – Cachoeira de Paulo Afonso.
Fonte: Acervo Particular de Edvaldo Nascimento.
Foi das forças das águas do São Francisco, que se precipitavam em múltiplas
quedas, aproveitando o desnível do leito do rio, na margem alagoana, que Delmiro
montou a usina de Angiquinho, cujas instalações civis podem ser vistas no fundo, à
esquerda da foto a seguir, encravadas nas rochas:
Figura 23 – Delmiro com acompanhante em visita ao Angiquinho.
Fonte: Acervo Particular do Autor.
Segundo Menezes (1991), o núcleo fabril da Pedra transformou-se em
ambiente repleto de homens esclarecidos que se reuniam para debater assuntos os
mais variados. Para ele,
126
Pedra era alagoana apenas pela situação geográfica. Intelectualmente, era
pernambucana. Os jornais lidos eram os de Pernambuco, os
acontecimentos políticos ou sociais ocorridos no Recife faziam a população
vibrar com interesse maior do que os verificados em Maceió. (MENEZES,
1991, p. 89-90).
Figura 24 – Comitiva do Governador de Pernambuco Manoel Borba em visita à Pedra
em 1916.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
De fato, o chefe do núcleo fabril da Pedra passou a receber em sua
residência governadores, deputados, ministros, jornalistas, industriais e líderes
religiosos que vinham admirar a beleza da cachoeira e o funcionamento da fábrica
de linhas. Conforme depoimento de Adolpho Santos (1947, p. 25),
para receber numerosas comitivas mantinha uma despensa abastecida de
conservas, doces, vinhos Bordeaux e caixas de Chambertin, sal refinado
Morton e espumantes Veuve Cliquot e Cordon Rouge, vindos da França.
Suas compras eram sempre em grande quantidade, haja vista que Pedra
ficava distante dos mercados fornecedores.
Ao descrever a residência de Delmiro Gouveia na Pedra, Adolpho Santos diz
que a sua residência de dentro do arame era uma casa clara, arejada, alpendrada
por todos os lados, como aquela que o abrigou em Apipucos. Ao lado esquerdo,
formando um ângulo reto com o corpo da casa os espaçosos quartos de banhos
com uma grande banheira esmaltada, lavatório e serviço sanitário de acordo com os
preceitos higiênicos, - o que era coisa de espavento para os habitantes da localidade
que só conheciam para satisfazer suas necessidades fisiológicas o recatado refúgio
das moitas de mato. (SANTOS, 1947, p. 22). Assim, Delmiro mantinha na Pedra,
127
ainda segundo Santos, “seus antigos e refinados hábitos, de bem estar, de fartura,
de conforto”, adquiridos ainda nos tempos do Recife. (SANTOS, 1947, p. 25)
A partir da implantação da fábrica de linhas, o núcleo fabril da Pedra passa,
assim, a ser utilizado por muitos visitantes para propaganda deste espaço de sertão
como modelo de civilização e trabalho, graças, segundo eles, ao processo
“educacional e civilizatório” que Delmiro tinha implantado. Foram estes que
contribuíram para a construção da imagem da Pedra como paradigma de civilização
dos tempos modernos. Parece evidente que esse espanto em encontrar palacete,
vida de moldes urbanos e trabalho desenvolvidos nos moldes dos núcleos fabris dos
lugares mais progressistas do Brasil e do exterior somente se explica porque esta
experiência estava localizada no sertão, não sendo despropositado assinalar que
ficava, justamente, entre Canudos e Juazeiro.
Foi Assis Chateaubriand um dos principais responsáveis pela construção da
imagem do núcleo fabril da Pedra como exemplo de sociedade ordenada e civilizada
em um ambiente em que, segundo ele, prevaleciam a “indisciplina, o nomadismo e o
misticismo da vida sertaneja.” (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 62). A visita realizada
pelo jornalista à Pedra, ao lado do historiador e embaixador Oliveira Lima,
“proporcionou
a
ele
uma
admiração
incomum”
a
Delmiro
e
sua
obra.
(CHATEAUBRIAND, 1990, p. 26)
Por meio de artigo escrito em setembro de 191734, Chateaubriand diz que viu
na Pedra um processo de integração social verdadeiramente difícil de ser concebido
numa região como o Nordeste. Era surpreendente para ele o fato de que na Pedra,
vergados a uma disciplina tão rígida quanto a dos quartéis, tivesse o pioneiro
cearense de um passado já povoado de tantos desafios, logrado reunir os
emigrados fanáticos de Canudos. Segundo ele diz textualmente, ali estavam
34
Este artigo reportagem teve como título “Uma Resposta a Canudos” e foi escrito em setembro de
1917, sendo publicado no Diário de Pernambuco de 10 de setembro de 1917, trinta dias antes de
Delmiro Gouveia ser assassinado. Em 1990, foi editada uma coletânea de reportagens e ensaios que
recebeu o título de “Resposta a Canudos”, todos de autoria de Assis Chateaubriand e publicado pela
fundação homônima.
128
vagos operários urbanos com as tendências impulsivas dos habitantes das
grandes cidades, meia dúzia de alemães, ingleses, suíços, todos os tipos,
uma multiplicidade de elementos heterogêneos, assimilados, amalgamados,
unificados graças a processos que modificam consideravelmente as
condições de existência individual. (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 26)
O espanto de Chateaubriand devia-se à forma como Delmiro dirigia sua
indústria e o controle que exercia sobre seus operários. Pedra apareceu aos olhos
dele como uma “experiência absolutamente inédita no país”. (CHATEAUBRIAND,
1990, p. 26) A ele impressionava aquele contingente de indivíduos socialmente
heterogêneos, quer pela “limpeza, a ordem, a preocupação assistencial, quer quanto
às necessidades vitais dos seus habitantes, quer quanto à observância de medidas,
inclusive punitivas para aqueles desobedientes recalcitrantes, como modelos de
degradação pública.” (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 27)
Fascinou-se Chateaubriand, sobretudo, com uns tantos ensinamentos e
práticas de que se utilizou Delmiro para domar o homem naquelas paragens tão
distantes da civilização. Segundo ele, “as criaturas, por rudes que fossem, sob as
regras instituídas em Pedra se curvavam estranhamente dóceis – ao menos na sua
grande maioria”. (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 29) Assim, foi justamente
Chateaubriand, no texto “Uma Resposta a Canudos”, quem primeiro lançou análise
sobre os aspectos educacionais e civilizatórios da Pedra, aspecto que também foi
abordado por praticamente todos os pesquisadores que se detiveram a estudar a
experiência desenvolvida no sertão de Alagoas, ainda que não tenham dedicado
estudo específico a esse tema. De todo modo, essa abordagem de Chateaubriand
vem ao abono do que busco afirmar desde o início: a relevância dada à experiência
industrial da Pedra, a ponto de suscitar assombro aos visitantes vindos das
principais capitais do Brasil, deveu-se, não ao desconhecimento do universo fabril da
época, mas ao fato de que aquilo que era ali testemunhado ocorria justamente no
sertão brasileiro.
Se as ações de Delmiro Gouveia foram, por Chateaubriand e por viajantes,
enaltecidas como uma ação “civilizadora”, isso deveu-se principalmente, segundo
pude perceber, à forma como Delmiro desenvolveu seu processo educacional no
sertão. No entanto, a leitura sobre o sertanejo e o sertão trazida pelos delmirólogos
da primeira e mesmo da segunda hora, foi uma leitura eurocêntrica, que
desconsiderou os aspectos históricos, econômicos e culturais predominantes no
129
sertão. É necessário considerar que por trás desses processos houve uma
sequência de violências cometidas contra os sertanejos em nome de um conceito de
progresso e da civilidade.
Efetivamente, o processo de transformação social por meio de novos hábitos
de vida e de trabalho e pela frequência a escolas promovida por Delmiro no sertão
alagoano era de causar espanto aos visitantes da Pedra, haja vista que esta
experiência de desenvolvimento industrial ocorreu no mesmo ambiente dos fanáticos
do Padre Cícero e dos emigrados do arraial de Canudos. Pedra foi para
Chateaubriand não só uma resposta a Canudos, mas ao país, pois
Há menos de 20 anos, o Brasil assaltava Canudos, e passava-o pelas
armas, brutalmente, ensangüentando o sertão de fragmentos humanos. O
Sr. Delmiro Gouveia para combater a ignorância, o fanatismo religioso, o
fetichismo bárbaro, serve-se também de máquinas, engenho da indústria
humana, que em vez da morte e da destruição, ensinam ao sertanejo e ao
jagunço o trabalho fecundo que educa, civiliza e aperfeiçoa.
(CHATEAUBRIAND, 1990, p. 64)
Era a crença no progresso e na ciência que empolgava, principalmente,
setores republicanos e intelectuais, influenciados por ideias e modelos de
desenvolvimento americano e europeu, sendo essa a referência que informava as
notícias e as análises feitas pelos visitantes da Pedra e até por participantes do
empreendimento, como Adolfo Santos.
Para Arnoldo Jambo, jornalista alagoano que fez a apresentação da coletânea
“Uma Resposta a Canudos”, Chateaubriand ficou entusiasmado com Delmiro como
educador dos mais cuidadosos do seu tempo por ser este
[...] antes de tudo a figura de um severo moralista cujas lições haviam de
ser seguidas sem risco nenhum de obliqüidades. Em Pedra educava-se em
todas as direções, animando-se desde o gosto e apreço pela cidadania, até
à conduta moral e cívica que se ditava nas escolas, aplicando-se inclusive
fórmulas intuitivas e práticas até certo ponto exigidas e comuns nos grandes
estabelecimentos de ensino das grandes capitais, como a das frases a
serem repetidamente copiadas, destinadas a cavar no espírito das crianças
normas de conduta que se devia seguir por toda vida. Quarenta ou
cinqüenta vezes o aluno teria de escrever em casa, coisas como “não
deveis desobedecer vosso pai”, “não se cospe no chão”, “não se
desrespeitam as pessoas idosas”, “sede bons com os animais”, “a imundice
é um vício”, “não se conversa na igreja”, “não se deve andar armado”. E no
uso desse método tão ingenuamente admitido, a verdade é que aos olhos
do repórter Chateaubriand em Pedra se realizou a primeira experiência de
reformulação educacional numa sociedade dir-se-ia primitiva face a fatores
sociológicos ainda não de todo estudados e em virtude de um isolamento
130
social imposto pela distância dos grandes centros urbanos. (JAMBO, 1990,
p. 30)
Esse discurso de Chateaubriand, transcrito por meio do texto de Jambo e que
exalta as prática educativas desenvolvidas por Delmiro junto aos seus subordinados,
mostra a presença, na Pedra, de uma pedagogia corrente na época e defendida,
entre outros, por Olavo Bilac, como referi no capítulo 2, que se assentava na
formação moral e cívica como condição de garantir ao Brasil sua passagem para o
“mundo civilizado” que, segundo ele, era prática corrente nos países europeus e nos
Estados Unidos da América.
É possível perceber, pelo olhar de Chateaubriand, a percepção de que o
sertão era uma região abandonada pelo poder público, distante dos grandes centros
e habitada por pessoas incivilizadas, por uma sub-raça, mas possível de ser
regenerada para o mundo da civilidade tida pelos ideais republicanos como
desejável e indispensável, mesmo, ao progresso dos novos tempos de urbanidade e
industrialismo.
Foi também Chateaubriand quem fez o primeiro registro das escolas
existentes na Pedra. Por isso, é a partir dos seus registros que começo a rastrear o
denominado pelo observador do núcleo fabril da Pedra como “processo civilizatório”
por meio das escolas ali implantadas. Um registro em forma de artigo foi central para
o início desse rastreamento, não somente porque é um testemunho, ainda que
apaixonado, do processo educacional e civilizatório liderado por Gouveia, como
também porque influenciou e foi também determinante na construção da imagem de
Delmiro como educador e “civilizador de terras, águas e gente” no sertão alagoano e
nordestino.
A admiração de Chateaubriand pelo que viu na Pedra, principalmente na
instituição das escolas, ocorria pelo fato de que a maioria da população brasileira e
alagoana não tinha, nas primeiras décadas do Século XX, acesso à instrução
escolar. É de considerar o espanto deste viajante, vez que, mesmo com o discurso
da República sobre a necessidade de ampliar o acesso à instrução pública, a
esmagadora maioria da população brasileira e alagoana continuava sem acesso à
escola, sendo a educação das massas propagada pelo então novo regime apenas
um desejo dos republicanos históricos. Isso, aliás, já foi possível constatar quando,
131
no capítulo anterior, levantei a situação educacional de Alagoas. Ali foi possível
constatar, a par das lamentações de quem tinha a responsabilidade de implantar e
desenvolver o ensino, números que mostram até a diminuição do número de escolas
ao longo do período aqui estudado.
Outro visitante da Pedra que, assim como Chateaubriand, muito contribuiu
para a mitificação da obra “civilizadora” de Gouveia, tendo, igualmente, influenciado
um contingente considerável de biógrafos, jornalistas e pesquisadores sobre Delmiro
e sua obra, foi o embaixador Manuel de Oliveira Lima, que depois de visita ao núcleo
industrial, assim se pronunciou:
O exemplo de Pedra acode sempre aos que pretendem que não é possível
civilizar o sertão. A obra do Coronel Delmiro Gouveia constitue um exemplo
precioso. Pouco importa neste sentido que elle aja sucumbido na tarefa na
qual o officialismo o não ajudou. Morreu victima porventura da sua
superioridade em relação ao meio, mas sua iniciativa não poderá deixar de
ser fecunda, uma vez que seus resultados se manifestaram possíveis. E
não provasse ser fecunda, o interior do Brazil estaria condenado a cahir na
barbárie. (LIMA, apud CORREIA, 1998, p. 227).
Ainda que Lima (1971) provavelmente desconhecesse o fato de que as
escolas da Pedra foram, quase na sua integralidade, conduzidas por professoras
subvencionadas pelo erário estadual, quando diz que “o oficialismo o não ajudou”,
no caso da educação escolar alagoana não se pode deixar de reconhecer que onde
o governo tinha a obrigação de abrir e manter escolas havia uma matrícula bastante
limitada, enquanto na Pedra o atendimento escolar no nível elementar era
efetivamente universalizado.
Pelo conhecimento, porém, da universalização do atendimento escolar à
população infantil e adulta analfabetaúcleo fabril da pedra, também por meio de um
artigo, intitulado “Um passeio a Paulo Afonso”, Oliveira Lima, a quem era familiar a
realidade social e econômica europeia, o autor chegou a comparar a Fábrica da
Pedra e o núcleo operário com os principais centros operários da Inglaterra, que era
o berço da industrialização.
Plínio Cavalcanti, médico e jornalista, em visita a Pedra, deslumbrou–se com
“o que Delmiro Gouveia conseguiu fazer no sertão de Alagoas, sem a cruz, o hábito
do missionário e os dinheiros públicos”. Para Cavalcanti (1917, p. 8), “foi a obra mais
notável de que se tem notícia em nossa história [...]. Mariano Procópio, Mauá, Luiz
132
Tarquínio e Assis Brasil se fizeram aparentemente mais do que elle é porque agiram
num ambiente muito mais próprio”.
A respeito do que acabamos de ler, não é possível deixar de perceber, mais
uma vez, o desconhecimento da presença forte do Poder Público enquanto
financiador ou apoiador, por meio de incentivos fiscais, aos empreendimentos de
Delmiro na Pedra, como também é impossível deixar de notar o espanto pela
presença no sertão do que, segundo Cavalcanti, pode ser considerada “a obra mais
notável de que se tem notícia em nossa história”, a ponto de levar o autor a
comparar Delmiro aos maiores expoentes da indústria brasileira em seus primórdios.
No comentário, Mauá, por exemplo, somente foi maior de que ele porque estava
“num ambiente muito mais propício”.
No Regime Republicano, que ainda era relativamente recente no Brasil de
quando Delmiro montou a Fábrica de Linhas “Estrela”, e que, frente às grandes
resistências do mundo das oligarquias e da política dos Governadores, tinha
dificuldade de tornar efetivos seus ideais, a educação escolar era vista, como já
referi, por setores da sociedade brasileira, não só como democratização da leitura e
da escrita, mas, revestida de profundo significado político, social e cultural. A escola
era considerada como um instrumento indispensável para a criação de uma nova
mentalidade regeneradora do atraso e dos maus hábitos em que viviam as massas
nacionais, daí, a luta pela ampliação da educação durante o novo regime, já que a
escola comprometida com os ideais republicanos e com a perspectiva de
modernização da sociedade brasileira iria possibilitar a chegada ou ampliação dos
novos ventos necessários à implantação ou consolidação da indústria. Revestido,
quase sempre de uma forte cobertura conservadora, esse ideário republicano era
conhecido de Delmiro, ávido leitor dos jornais da época, para quem o ideário
“civilizador” vinha bem a calhar frente à necessidade que tinha de redefinir forma de
usos do tempo frente a novas configurações do trabalho, fazendo aquilo que E. P.
Thompson, no seu artigo “Tempo, Disciplina de Trabalho e Capitalismo Industrial”
analisa frente à compreensão e ao uso do tempo em uma "economia familiar do
pequeno agricultor [que] pode ser orientada pelas tarefas", em confronto com outra
maneira de organização do trabalho em que o tempo começa a se transformar em
dinheiro. Nesse caso que, segundo o historiador inglês, é aquele mesmo tempo em
133
que se encontrava Delmiro e a grande leva de sertanejos empregados em sua
fábrica, e no qual
aqueles que são contratados experienciam uma distinção entre o tempo do
empregador e o seu "próprio" tempo. E o empregador deve usar o tempo de
sua mão-de-obra e cuidar para que não seja desperdiçado: o que
predomina não é a tarefa, mas o valor do tempo quando reduzem a
dinheiro. O tempo agora é moeda: ninguém passa o tempo, e sim o gasta.
(THOMPSON, 2005, p. 272).
Se Delmiro não foi, no seu discurso, um cruzado da República nos moldes em
que ela se implantou no Brasil, tendo-o sido por inteiro nos modos de lidar com o dia
a dia de sua indústria, a Pedra, sobretudo com seus sucessores, transformou-se em
símbolo do ideário da república brasileira e seus dirigentes não mediam esforços
para que a população cultuasse os símbolos que identificavam o novo regime e a
nação brasileira, nos moldes por mim assinalados no capítulo anterior. Se Delmiro
Gouveia não propagava aos quatro ventos a instrução ou a escolarização,
juntamente com os novos modos de se postar diante da vida e do trabalho como
instrumentos regeneradores, de contribuição para a reconstrução nacional, a qual
somente seria possível com a eliminação do analfabetismo e da falta de cultura e de
modos “civilizados” do povo, sendo a ignorância, a indolência e os maus modos a
verdadeira vergonha nacional, o mesmo não se pode dizer de seus principais
auxiliares e descendentes. Para estes, o discurso de que o Brasil somente
alcançaria o grau de nação civilizada mediante a chegada da educação escolar à
grande massa de analfabetos existentes, sendo isso a garantia da ordem e do
progresso nacional, tornar-se-ia uma constante que iria se expressar, sobretudo por
meio do jornal “Correio da Pedra”, que circularia regularmente por anos no núcleo
fabril homônimo. Neste jornal, como mostrarei mais adiante em pormenores, sem o
povo alfabetizado as consequências para o país seriam, a ausência de cultura cívica
e política, a ignorância dos preceitos higiênicos, a incapacidade para grande número
de profissões, atraso nos processos agrícolas e nos da indústria. Na verdade, a
própria existência e circulação do semanário referido, que se manteve ativo por doze
anos, é a prova do valor da leitura já que, em meio a uma população iletrada, o
jornal teria perecido nos seus primeiros números.
Assim, a instituição escolar no núcleo fabril da Pedra foi, desde os tempos de
Delmiro, um importante instrumento de “civilização”, seja para realização de
134
processo de moldagem e controle social, seja para propagação de ideias
republicanas. No Jornal “Correio da Pedra”, semanário que circulou de 1918 a 1930,
sob a responsabilidade da Cia. Agro Fabril Mercantil eram divulgados, por exemplo,
os festejos realizados no núcleo fabril para comemorar o dia 15 de novembro. O
próprio Delmiro, que gozava de amizade do republicano Pinheiro Machado,
denominou uma rua do seu núcleo fabril de 15 de novembro, enquanto deu a outra o
nome de Floriano Peixoto. Essas são, certamente, evidências de sua crença na
República e nos valores desta, os quais eram, inclusive, constantemente reiterados
pelo jornal, não havendo um único número em que os valores da moral, da higiene,
do patriotismo e do valor da escolarização, por exemplo, não estivessem presentes.
O “Correio da Pedra” trazia, com frequência, matérias apologéticas à
República e seus líderes Benjamim Constant, Aristides Lobo, Silva Jardim e o
Marechal Deodoro. Nas escolas da Pedra a proclamação da República era festejada
com desfile dos alunos. Até a decretação de feriado nacional no 15 de novembro era
festejado pelo Correio da Pedra, em publicação da qual extraí o seguinte fragmento:
Data memorável da Proclamação da República para suceder o governo
monarchico, que vinha sendo exercido, com saber e patriotismo, pelo
saudoso d. Pedro II, o 15 de novembro é uma gloriosa página da nossa
história política e por isso mereceu figurar entre os dias feriados do Brasil.
(CORREIO DA PEDRA, 1924)
Importa assinalar aqui que o “Correio da Pedra”, como uma publicação oficial
da firma mantenedora da Fábrica de Linhas “Estrela”, tinha a linha editorial emanada
e as matérias aprovadas pela sua direção. Assim, crentes na função da instrução
pública como um instrumento de regeneração do país, os editores davam
publicidade, nas notícias e nos artigos do “Correio da Pedra”, aos altos índices de
analfabetismo no Estado de Alagoas e do Brasil, enquanto matéria tratando da
instrução pública no Brasil e em Alagoas era semanalmente veiculada, o que
também contribuiu para divulgar os feitos de um Delmiro “educador” no sertão de
analfabetos.
Conforme a linha editorial acima assinalada, reproduziu o “Correio da Pedra”
a seguinte matéria sobre a instrução pública e o analfabetismo:
135
Estatística impressionante <<A Manhã>>, o bem feito matutino carioca
publicou interessante estatística da população de cada Estado brasileiro e
do numero de analphabetos em cada um existente. Por Ella se verifica que
a porcentagem de analphabetos neste decantado Brasil – terra miraculosa,
productora de super-homens, quer nos domínios das artes e da litteratura,
quer principalmente nos dominios da política, onde os estadistas de visão
clara, de grandes realisações, de intelligencia brilhante, de honestidade
inatacavel e de quantos predicados extraordinarios a lingua portugueza,
rica em synonymia possua, surgem a cada momento, para Gaudio de nosso
orgulho e inveja de outros paizes, - é de noventa por cento. Escrevamos em
typos graudos: De noventa por cento de analphabetos, compõe-se a
população brasileira., para que os algarismos nos autorisam a fazer, grite
por toda parte a benemerência patriotica dos governos que hemos tido e o
cuidado que lhes mereceu a alphabetisação popular, como peanha
indesctructivel de nossa grandeza vindoura. (CORREIO DA PEDRA,1926,
p. 1 ).
O espanto causado aos editores do “Correio da Pedra” sobre o grande
número de analfabetos no Brasil é ainda maior quando tratam dos dados referentes
à educação em Alagoas, pois, segundo a mesma matéria,
Para Alagôas, a estatística a que estamos nos referindo dá para uma
população de.... 978.784 habitantes, 831.000 analphabetos. E’ espantoso
isso; apenas 147.784 pessôas sabem ler neste Estado, dê-se a população
de Maceió o numero de 50.000 habitantes, como o faz o <<Almanach de
Laemmert>>, 1921-1922, que dá tambem para o Estado a população de
1.500.000, ou de 34.000 como fazem outros perquiridores de
resenciamentos, sendo a mais culta, considerando-se que a metade sabia
ler, resta para os outros 34 municipios o numero de 130.748 pessôas que
conhecem o A. B. C. ou seja, dividido por todos em números iguaes, 3.745
para cada um. Este o motivo sem duvida do nosso lastimavel atraso; esta a
razão unica dos jornaes não terem ingresso no sertão; poucos lêem, porque
poucos sabem ler. Sabemos que o problema da instrucção popular entre
nós, em virtude da disseminação da população por um territorio vasto como
o nosso, vivendo, no sertão principalmente, a maior parte, em fazendas
pouco povoadas e distantes das sédes dos municipios, não é de facil
solução; basta porem, que esta seja possível, para não haver desculpas
para a displicencia com quem o têm encarado os nossos governos. Ha
presentemente em Alagôas o desejo de trabalhar por dar a instrucção maior
desenvolvimento e um carater de maior efficiencia: principiou tarde o
esforço official, mas, emfim, o ter começado, já é motivo para satisfação. A
obrigatoriedade do ensino no sertão. conforme ja o temos dito, não é bem a
medida capaz de propagar a instrucção entre os seus habitantes; ella é
apenas um vehiculo de propaganda do possível interesse que o governo,
que a põe em pratica, está tomando pelo ensino popular. A medida
essencial é a fundação de escolas, ambulantes algumas para funccionarem
durante o anno em determinadas fazendas, sem preoccupação de
apresentar alumnos a exames e sim de lhes transmitirem rudimentares
conhecimentos do nosso alphabeto. Não ha hoje no sertão quem seja
infenso ao ensino; ha apenas os que vivendo de trabalhos ruraes, residem,
distantes dos logares onde ha escolas e devido ás suas condições de
pobreza, não podem fazer os filhos freqüental-as. Para os dessa categoria,
a obrigatoriedade do ensino, como é de facil comprehensão, não tem o
minimo valor. A difficuldade mesmo para os que legislam em nosso Paiz
sobre a materia, é o teor de fazel-o para uma população, que vivendo
embora dentro do mesmo territorio, muito se diferencia em condições
sociaes, em costumes e no modo como organisa o proprio habitat. Fundar
pois, escolas em todos os pontos habitados do Estado onde ellas não
136
existam, collocando embora, para Regel-as, em alguns, professores não
diplomados mas que tenham gosto de ensinar o pouco que souberem, é o
melhor a fazer para diminuir o numero de analphabetos maior renome e
prosperidade, dando a esta Alagôas, que todos nós desejamos cada dia
mais engrandecida e mais apta ao aproveitamento dos recursos immensos,
com que a natureza prodigamente a presenteou. (CORREIO DA PEDRA,
1926, p. 1).
O problema da instrução pública aqui apresentado, demonstra o desprezo
com que o Governo Republicano tratava a instrução popular, chegando o Brasil,
segundo esta matéria, ao índice de 90% da população analfabeta. Esses números
eram ainda maiores no Estado de Alagoas. Há um antagonismo entre esta matéria e
os relatórios governamentais aqui já apresentados, pois, no jogo de empurraempurra dos governadores que sempre responsabilizavam os antecessores pelo
fracasso da educação e atribuíam aos seus governos “grande esforço” e “prioridade”
para a instrução pública, o número de escolas existentes era insuficiente para
atender à demanda. Chegava a matéria a propor a contratação de professores
leigos; a instalação de escolas itinerantes em fazendas onde não houvesse escola
nas proximidades; e acusava o governo de utilizar a obrigatoriedade de matrícula
das crianças na escola como propaganda.
O grande número de analfabetos no sertão foi veiculado em matéria do
“Correio da Pedra” já em fins da década de 1920, para mostrar a dificuldade em
localizar pessoas alfabetizadas numa povoação próxima da Pedra, demonstrando
que a prioridade dada pela Cia. Agro Fabril à instrução escolar ainda não era a
mesma dada pelo poder público municipal. Na matéria, informava o jornalista que
Na distribuição que estamos fazendo de um questionario entre os nossos
agricultores para sabermos qual foi a nossa producção agricola nos annos
de 1927 e 1928, estamos observando algo de interessante: em primeiro
logar, a desconfiança do sertanejo na acção de nossos governos, que elle
considera como causa unica
de suas infelicidades, pelo constante
augmento de tributos com que sobre-carregam o producto de sue labor,
sem que á sua terra sejam prestados os beneficios de que ella tanto
necessita, [...] a falta da alphabetisação de nossa população rural, que
floresce em meio a ignorância mais completa. [...] Chegámos também a
evidencia de quanto o ensino popular é descurado em nosso município,
pelo facto de em alguns logares onde temos distribuído os questionarios em
apreço, logares de algumas centenas de habitantes, encontrarmos apenas
uma ou duas pessoas que sabem assignar o nome com acerto e ler
gaguejando as palavras mais comuns de nossa lingua e em outros
ninguem que ao menos isso saiba. Campinhos de Cima é um tristissimo
exemplo. Nesse povoado, um dos mais prosperos do município de Agua
Branca, pela agricultura relativamente vultoso e população bastante densa,
entre esta existindo varios homens arremediados não se encontra uma
única pessoa que saiba ler. E tanto assim é que lá não encontràmos a
137
quem distribuir o nosso questionario, tendo as respostas que serem
escriptas por pessoa de fora (grifos meus). (CORREIO DA PEDRA,1929,
p. 1).
Para ilustrar o grande índice de analfabetismo no município de Água Branca,
o Correio da Pedra chega a fazer referência a outro caso curioso ocorrido na
comunidade rural de Campinhos35:
Em 1924 realizou-se em Campinhos um leilão em beneficio da capella local,
que nos informaram ser uma das maiores e mais e bem construidas do
municipio. Procurou-se depois em Campinhos uma pessoa capaz de
sommar o resultado do leilão, que rendeu cerca de duzentos mil reis e
não foi encontrada uma unica capaz de fazer essa dificilima operação.
Isso que se dá em Campinhos e em diversos outros logares deste
municipio, é a causa primordial de nosso atrazo economico. E’ esse facto
quem faz com que nossa producção agricola esteja sempre aquem de
nossas necessidades proprias e com que na lavoura da terra, jamais
saiamos do regime retrogado da enxada, manejado pelos braços cansados
de nossos trabalhadores do campo. E’ esse atrazo quem concorre para os
nossos criadores appellarem exclusivamente para Deus nos momentos
tristes em que as epizootias devastam os seus rebanhos e com que estes
desappareçam quasi totalmente nas ephocas de secca por que os seus
proprietarios preferem perdel-os, criando-os sem nenhum trabalho soltos
em nossos campos, a criarem-nos em menor quantidade, tendo cercados
com recursos sufficientes para alimental-os, quando toda a pastagem de
nossos campos desapparece crestada pelo sól.
E é realmente essa mentalidade incolôr, producto da falta de escolas, a
causa genetrix de tantos desastres á normalidade da vida do sertanejo.
[...] Informaram-nos que a população em idade escolar, de Campinhos, é
avultadissima e toda ella está se criando como paes, sem o conhecimento
do A. B. C.
Não será este um caso digno da attenção de nosso municipio e Estado?
Não seria este de excellentes resultados, que ambos conjugassem os
seus esforços no sentido de solucionar o momentoso problema da
instrucção popular em nosso meio?
Não sabemos que maior titulo de benemerência poderia caberão nosso
prefeito e governo, do que o conquistado pelo seu esforço, instruindo
o nosso povo, fornecendo-lhe assim o elemento principal para fazer a
grandeza da terra comum.(grifos meus) (CORREIO DA PEDRA, 1929, p.
1)
Enquanto os índices educacionais apresentados demonstram que a escola
era uma realidade ainda distante para o povo sertanejo no próprio município em que
ficava a Fábrica da Pedra, no povoado em que estava localizado o Núcleo Fabril,
mais de uma década antes das notícias transcritas acima, Chateaubriand tinha
observado que, sob os olhos de Delmiro,
35
Povoamento na zona rural de Água Branca e atualmente pertencente ao município de Pariconha,
mas, que demonstra que, enquanto na Pedra, também pertencente a Água Branca, existia uma
orientação para a instrução escolar da população e praticamente todas as crianças do núcleo
frequentavam as escolas da Pedra, não existia a mesma preocupação, “pelo menos na mesma
dimensão,” com a instrução pública da população deste município para quem morava fora do núcleo
fabril.
138
As crianças de cinco e seis anos para cima, todas freqüentavam as escolas
que são oito e sabem cantar o hino brasileiro (grifo meu). Á noite, fomos ás
aulas. Diariamente, ao terminarem a lição, os meninos cantam-no. É um
espetáculo cívico enternecedor ouvir-se, em pleno sertão, o Hino Nacional,
entoado por sertanejos que há três anos foram incorporados á
comunidade brasileira. 9grifo meu) Terminada esta cerimônia, as crianças
começam a levantar-se para sair. Levantam-se por filas, uma atrás da outra
e assim vão se retirando numa ordem incomparável. Se saem das aulas
noturnas, muitos seguem para o “rink” patinar. Ás nove horas a corneta toca
o recolher dos meninos. O que for encontrado na vila operária, depois do
toque, é preso pelos vigias. Assim, disse-me o sr. Delmiro: “Vou pondo
cobro á vagabundagem infantil. Meninos devem dormir cedo”. Mas os
meninos ali são criaturas sagradas. O que bater numa criança será punido.
Só quem pode castigar são os pais, ou se a criança não os tem, o senhor
Delmiro. Há um carrossel. Os alunos que tiraram boas notas durante a
semana têm cinco entradas grátis. Aos vadios o divertimento é
inacessível. .(grifo meu) Aqui no Recife, o sr. Delmiro mostrou-me, e na
Pedra vi, vivamente visto: a primeira nota que o chefe do escritório
coloca na sua secretaria, pela manhã, é a lista dos meninos que não
foram á escola na véspera, e as razões alegadas.(grifo meu) Ele manda
abrir sindicância. Se a falta não é justificada com um motivo sério, o pai ou
mãe sofrem uma multa, que reverte, como todas as multas, para o fundo de
reserva dos operários (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 67)
Pelo que se pode concluir, a condição de brasilidade era restrita aos que
detinham o conhecimento da leitura, da escrita e que eram capazes de entoar o hino
nacional, o que era conseguido por meio de uma pedagogia de recompensas, sendo
louvável sob todos os aspectos o cuidado com a escolarização por parte dos
empresários aos quais elas, de alguma maneira, estavam ligadas, a ponto de
imprimir limites aos “vadios” cujo rendimento escolar se mostrasse aquém do
esperado.
No caso da Pedra, como já assinalei, documentos dão conta de que o apoio
governamental foi de grande monta, não só para a efetivação do seu projeto
comercial e industrial, mas, também, na manutenção das escolas, haja vista que o
pagamento da maioria das professoras, depois de criadas as escolas, foi de
responsabilidade do Estado. Mesmo quando os governos eram sucedidos por
opositores e diante de todo o clima de violência que assolou o Estado em disputas
que, por vezes, vitimaram partidários dos grupos políticos rivais, no período de 1902
a 1926 o núcleo fabril da Pedra sempre recebeu apoio governamental, seja quando
Delmiro estava à frente dos negócios ou mesmo depois, quando seus sócios e
herdeiros deram continuidade ao empreendimento.
139
3.2 A Educação e Escolarização na Pedra
Delmiro agia para controlar seus operários e os moradores do núcleo fabril,
como já referido, em duas frentes: por um lado, abria escolas - chegando na Pedra a
funcionar oito, sendo seis em casas-escolas, uma no externato São João e uma no
salão do cassino/cinema -, enquanto, por outro lado, no propósito de manter forte
controle social sobre os operários da Pedra, punha em ação um conjunto de normas
estabelecidas para regrar as condutas e os hábitos. Na verdade, estas funcionam,
num primeiro momento, como processos educativos dominantes, enquanto, segundo
dizia Delmiro para justificar a violência com que muitas vezes impunha as regras de
conduta, a educação escolar não fazia efeito na definição de modos condizentes
com a disciplina que ele esperava dos que trabalhavam na sua fábrica ou viviam
dentro do perímetro cercado que constituía o núcleo fabril.
Ao analisar a instituição, o funcionamento e o papel das escolas no projeto
industrial de Delmiro, sua relação com os ideários republicanos e em seguida a
instituição de novos valores ditos “civilizados” impostos por Gouveia ao povo do
sertão, como o modo de portar-se em suas casas e na vila, a proibição ao uso de
chapéu dentro das residências, o controle rígido do horário de funcionamento do
comércio, a imposição de hábitos de higiene, a regulamentação da venda e do
consumo de bebidas alcoólicas na vila e nas suas proximidades, a proibição dos
namoros não autorizados, dos jogos de azar, de fumar cachimbo em público, do uso
de xale pelas mulheres, percebe-se um verdadeiro programa pedagógico para cuja
desobediência existiam severas punições, existindo, por outro lado, premiações para
o cumprimento. Sendo bastante controvertidas as leituras que são feitas sobre o
programa e as práticas educativas desenvolvidas por Delmiro na Pedra, sobretudo
nos dois últimos anos de sua vida, que coincidiram com o funcionamento da fábrica,
a obra realizada por Delmiro Gouveia no sertão alagoano demonstrava, segundo
Menezes, que ele “[...] confiava na capacidade do sertanejo nordestino e, portanto,
nos seus empreendimentos” (MENEZES, 1963, p. 153). Assis Chateaubriand,
Oliveira Lima e Plínio Cavalcanti construíram um argumento sobre o sertanejo da
Pedra, segundo o qual o morador da Pedra “não era o fanático de Canudos ou de
Juazeiro. Nem o do Padre Cícero, nem o de Antonio Conselheiro.” (MENEZES,
1963, p. 153). É que, na visão pragmática de Delmiro, este sertanejo até então
140
relegado à “ignorância” e à “própria sorte” pode ser “capaz de ser transformado,
envolvido pela civilização e tornado elemento útil.” (MENEZES, 1963, P. 153)
Na verdade, a imagem construída pelo próprio Delmiro e por seus
admiradores acima referidos influenciou, como já disse, uma gama de outros
pesquisadores e visitantes da obra sertaneja, dentre os quais, Olympio de Menezes.
No último capítulo do seu livro “Itinerário de Delmiro Gouveia (1963), denominado de
“o industrial e o educador”, Delmiro teria demonstrado para Menezes (1963, P. 154)
que “o sertanejo que ele conhecia como ninguém e que hoje nos chega meio
deturpado quase lendário, não é mais o de Euclides, nem este outro deformado pela
literatura de ficção, pelos cantadores sofisticados”. Por isso, Delmiro “acreditava na
viabilidade de transformar a vida daqueles elementos aproveitabilíssimos, úteis em
quaisquer misteres para que sejam criteriosamente aproveitados” (Menezes, 1963,
p. 154). Destaca Menezes o processo educacional e civilizatório desenvolvido por
Gouveia, dizendo que
A obra civilizadora começou por exigências mínimas, para atingir a um grau
de civilização compatível com as necessidades humanas. A brutalidade
daqueles sertanejos broncos não resistiria ao uso da calçado, da decência,
do arranjo pessoal e domestico, dos quatro elementos básicos atribuídos
por ele: água, sabão, escova de dentes e pente.” (MENEZES, 1963, p. 155).
Para Correia, aqueles modos de definir e impor regras de conduta,
as restrições da liberdade e as violências extremas a que eram submetidos
os trabalhadores em Pedra [...], longe de ser uma contingência do meio
sertanejo, como querem alguns autores, ou de meros resquícios de um
passado escravagista, eram amplamente solidários com a ordem burguesa
e com o ideário liberal. (CORREIA, 1998, p. 261)
Concordando com essa leitura de Telma Correia, ao tempo em que busco
rastrear os modos de “civilizar” de Delmiro, em tudo condizentes com o autoritarismo
que caracterizava uma busca de liberdade nos moldes já apregoados por Locke nos
primórdios da modernidade – que significava liberdade para a propriedade, a
produção e o comércio -, chama-me, porém, a atenção a preocupação de Delmiro
com a manutenção de escolas, cujos resultados deveriam ser esperados, ao menos,
para o médio prazo. Segundo Menezes (1991, p. 82),
Ao tempo em que Delmiro tomava essas providências [de submeter os
operários às regras de conduta estabelecidas], escolas eram fundadas em
diversos pontos da vila, não só para os filhos dos operários, mas também
141
para os filhos dos estranhos ali residentes. Escolas mantidas pela empresa,
se bem que regidas por professoras leigas, sem preparo suficiente para o
desempenho da alta missão de que eram incumbidas, mas capazes de
ensinar aos meninos os primeiros rudimentos do alfabeto, ou de habilitá-los
a escrever o próprio nome, a soletrar as palavras mais conhecidas, a
resolver as quatro operações fundamentais da aritmética. Era pouco, mas
representava muito para meninos analfabetos e sem possibilidades de
aprender, por falta absoluta de escolas.
Sendo a frequência às aulas diurnas obrigatórias aos filhos dos operários, e
as noturnas aos adultos, havia escolas para o ensino de disciplinas superiores ao
curso primário, bem como o ensino de habilidades domésticas e trabalhos manuais
para as moças (SANTOS, 1947, p. 37). Para Olympio de Menezes, Delmiro
Acreditava no poder da educação, na influência da escola. Por isso tornou
obrigatória a freqüência escolar diurna para os menores e noturna para os
adultos. Tinha se antecipado assim ao ensino supletivo, que tantos anos
depois o governo veio a criar. Instalou a escola domestica para as moças e
contratou professores paulistas para melhorar o nível de aprendizagem de
suas classes. Contava que a educação acabaria com o cangaço.
(MENEZES, 1963, p. 153)
A atenção dada por Delmiro, (de 1911 a 1917) depois pelos seus sócios e
auxiliares (de 1917 a 1925)36 bem como pelos seus herdeiros (de 1925 a 1926)37,
indicam que a ampliação do acesso à instrução escolar no núcleo fabril da Pedra
fazia parte da estratégia dos proprietários em dar ênfase à educação como forma de
reformar o povo pobre do sertão, enquanto essa ação de escolarizar assumia uma
“função profilática” do ponto de vista social. Até porque no final do século XIX e
primeiras décadas do século XX propagou-se, principalmente “entre patrões,
homens letrados, a idéia de que o vício, a depravação, e a falta de religião estavam
se expandindo entre os pobres.” (CORREIA, 1998, p. 13)
Em levantamento realizado no “Correio da Pedra”, percebe-se o destaque
dado, por meio de artigos, matérias e notas, à instrução pública no núcleo fabril da
Pedra. Neste semanário, foi possível comprovar até em seus anúncios e editoriais
que, desde a presença de Delmiro à frente da Cia. Agro Fabril Mercantil, tornou-se
obrigatória a matrícula das crianças nas escolas, sendo condicionado o emprego
36
Com a morte de Delmiro Gouveia, assumiu o comando da Cia. Agro Fabril Mercantil, por força do
testamento de Delmiro, o seu sócio Lionelo Iona.
37
Após ação judicial dos herdeiros de Delmiro Gouveia, Lionelo Iona é afastado do comando dos
negócios, indo então ficar à frente dos empreendimentos econômicos e da gestão do núcleo, o jovem
Noé Gouveia, que assume a gestão da Cia. Agro Fabril Mercantil. Não tendo êxito no comando das
empresas, estas passam para as mãos de um grupo pernambucano, em 1926.
142
dos pais, tanto à matrícula, quanto à frequência dos filhos e das filhas, como se
pode ver na matéria transcrita a seguir:
ESCOLAS PÚBLICAS – Amanhã, segunda-feira, 5 de janeiro corrente,
conforme determinação do sr. Adolpho Santos, Fiscal do Ensino, serão
abertas as seis escolas desta Villa. A gerencia da Fabrica de linhas, tendo
em muita conta o desenvolvimento da instrucção, renova, como nos annos
anteriores, as suas recomendações sobre a obrigatoriedade da matricula de
todas as crianças, fazendo ver aos srs. paes de família que tomará
enérgicas providencias a respeito daquelles que não levarem os seus filhos
ás aulas. (CORREIO DA PEDRA,1925, p. 2)
Para Mário Melo, que também excursionou pela Pedra de Delmiro, quando
ainda no início de funcionamento da Fábrica de linhas,
O senhor Delmiro Gouveia tem particular desvelo pelas crianças. Há na vila
quatro escolas, diurnas e noturnas, duas para o sexo masculino e duas para
o feminino. Todo material é fornecido gratuitamente pelo grande industrial.
Há semanalmente um espetáculo cinematográfico, aos domingos, para
distração dos operários. Como incentivo aos pequenos, só é permitida a
entrada de crianças no cinema com o atestado de freqüência às aulas. O
menor que não vai à escola durante a semana ou não esta matriculado, não
assiste as funções cinematográficas. (MÁRIO MELO apud MELLO, 1998, p.
97)
No intuito de acompanhar de perto esse atendimento escolar às crianças,
Delmiro delegou ao então gerente da Fábrica, Adolpho Santos, a tarefa de
acompanhar o cumprimento da sua determinação, sendo Santos uma espécie de
inspetor do ensino escolar no núcleo fabril. A este cabia acompanhar a frequência
dos estudantes, de repreender os pais dos faltosos, de punir os que descumprissem
as determinações de Delmiro, de contratar professores e professoras, de comprar o
material escolar (cadernos, lápis, borracha, cartilhas, etc.), e de acompanhar os
exames finais realizados pelas professoras, ao final de cada ano letivo. Muitas
vezes, a Companhia fornecia roupas e calçados para as crianças cujos pais não
tinham condições de comprá-las.
143
Figura 25 – Adolpho Santos, gerente da Fábrica da Pedra e inspetor de ensino no
núcleo fabril.
Fonte: Acervo particular do Autor.
Na vila operária da Pedra funcionavam, até o afastamento dos herdeiros de
Delmiro da condução dos negócios da Cia. Agro Fabril Mercantil, as seguintes
escolas: o Externato Mixto S. João, a Escola Ruy Barbosa, a Escola 13 de Maio, a
Escola 15 de Novembro, a Escola 7 de Setembro, a Escola Rio Branco e a Escola
José de Alencar; além do cine Pedra38, onde eram realizadas as sessões
cinematográficas aos domingos, servindo durante a semana também de escola. “As
aulas diurnas eram obrigatoriamente freqüentadas pelos filhos dos operários, e as
noturnas pelos adultos de cuja alfabetização se cuidava” (SANTOS, 1947, p. 37).
38
Nome dado ao cinema do núcleo e que também era chamado de Cassino.
144
Figura 26 – Cine Pedra inaugurado em 1915 e que também funcionava como escola.
Fonte: Acervo particular do Autor.
Se observarmos os nomes da maioria das escolas, tal qual fizemos com os
das ruas do núcleo fabril, veremos que a simpatia de Delmiro e seus sucessores
para com a República, ali, também não era mera coincidência.
Uma moradora do núcleo fabril e que trabalhava na “Casa Grande” de
Delmiro, em depoimento a Geraldo Sarno, disse que, ao iniciar a construção do
núcleo fabril, “ele chegou [...] e botou escola pro pessoal aprender a ler, botou
professor pro pessoal aprender a ler. [...]. (SARNO, 2006, p. 77).
A obrigatoriedade da frequência e a quantidade de escolas existentes na
Pedra demonstram que a escola, além de instrumento para prevenir a ociosidade,
moldar as condutas para rotinas escandidas pelo relógio e pelo currículo e ressaltar
o amor á Pátria e ao trabalho como instrumento de regeneração, teve função no
preparo também das crianças para a indústria têxtil, pois, os estudantes “nela,
recebiam os conhecimentos e as instruções básicas para se converterem nos
futuros operários eficientes, sóbrios, obedientes e disciplinados desejados pela
fábrica.” (CORREIA, 1998, p. 247) Se esses saberes não eram especificamente
técnicos, os modos de serem conduzidos, somados ao desenvolvimento intelectual,
pelo domínio da leitura, da escrita e do cálculo, já eram de grande valia para uma
mão de obra oriunda do mundo agrário que se engajava muito cedo na força de
trabalho.
145
À fiscalização que era exercida sobre o ensino, Delmiro procurou oferecer
incentivos às crianças para estimular a sua frequência e aprendizado, como
“ingressos para o carrossel e o rinque” (CHATEAUBRIAND, 1990, p. 67), prática que
foi seguida por seus sucessores. Outro incentivo era o ingresso para as sessões de
cinema que só eram dados a quem comprovava frequência à escola e desempenho
considerado satisfatório. O controle da frequência e do rendimento exercido
mediante boletins individuais chegou a ser feito pelo próprio Delmiro, pois, segundo
João Santos, industrial que quando garoto serviu de menino de recado de Delmiro e
que se transformou em grande empresário pernambucano, de vez em quando era
ele quem levava os cadernos dos alunos e os colocava sobre o birô de Delmiro no
escritório da Fábrica, para que se desse o controle.(CHATEAUBRIAND apud
MELLO, 1998, p. 50)
Conforme depoimento de Pedro Mendes Cardoso a Geraldo Sarno (2006, p.
60), “tinha escola todo dia, um professor do governo, pelo Estado, e tinha
professoras também á noite, tinha escola noturna. O menino que trabalhava pelo dia
ia pra escola á noite, pago pela Companhia do Delmiro [...]”.
O núcleo fabril da Pedra estava dentro de um perímetro que foi cercado pelo
proprietário para que, no raio da cerca, suas ordens e seu comando fossem
absolutamente cumpridos. Fora do cercado estavam as ruas do Progresso, ABC e
algumas ruas do lugar denominado de Pedra Velha. Dentro do arame, Delmiro
construiu a sua “Casa Grande” e adquiriu um “Chalé” fora do cercado, tendo sido ali
o atentado que o levou à morte. Os moradores do núcleo, nesta época, distinguiam
os dois lugares com as expressões “dentro do arame” – alusão à cerca que
contornava o núcleo fabril – e “fora do arame”.
146
Figura: 27 – Residência de Delmiro Gouveia “dentro do arame”.
Fonte: Acervo particular do Autor.
O processo de incorporação do sertanejo aos processos educacionais e
civilizatórios praticados na Pedra, como não podia deixar de ser e, como, aliás, já
assinalamos, envolvia atividades cívicas e comemorativas. Assim, datas como a
Independência do Brasil e a Proclamação da República eram comemoradas pela
Cia. Agro Fabril, tendo uma efetiva participação dos professores e alunos das
escolas do núcleo fabril. Tematizavam os professores a exaltação à República, à
independência do Brasil, cantavam-se os hinos da bandeira e nacional, e desfilavase pelas ruas do núcleo nos dias cívicos, conforme se pode comprovar pelo “Correio
da Pedra”, de 7 de Setembro de 1922.
No dia 09 de dezembro de 1923, trouxe o “Correio da Pedra” a seguinte nota:
Escolas Publicas – O Sr. Adolpho Santos, fiscal do ensino nesta Villa,
determinou que as aulas em todas as cadeiras daqui serão abertas à
freqüência dos alunnos no dia 7, do próximo mês de janeiro, cumprindo aos
paes e interessados cuidarem logo da matricula de seus filhos, tudo em
obediência ao que a administração da Fábrica de Linhas tem a respeito
determinado.
O Correio da Pedra divulgava os exames finais realizados nas escolas da
Pedra, ao tempo que se utilizava dos editores que eram remunerados pela Cia. Agro
Fabril para propagarem os resultados. Segue, para mostrar o valor que ali se dava à
escola, o quadro publicado no jornal com lista nominal e resultado de avaliação:
147
Tabela 2 – Dados referentes às escolas, professores e alunos, classes, conceitos nas
escolas no Núcleo Fabril da Pedra em 1924
Escola
Professora
Classe
Externato
mixto S. João
Regido pela
professora
titulada d.
Arminda Braga
2 ·Classe de
adiantamento
Distincção
José Aloysio Campos;
Distincção
José Corrêa Filho;
Distincção
Hamilton Coelho;
Helena vieira , Isabel Santos;
Louvor
Plenamente
Maria José Correia,Maria de
Lourdes Coelho Maria
Rachel Missano Maria
Anunciada Marques, Virgina
Santos, Luiza Soares de
Oliveira, distincção; Maria
Emilia Telles, Alayde Malta,
Etelvina Gomes;
Plenamente
Lydia Borella, Dalva Malta,
Afra Telles,
Distincção
2· Classe de
adeantamento,
Eulalia Silva, Maria José
Ribeiro, Laura B. Nunes,
Maria Corrêa, Coralia Telles,
Beatriz Carvalho e Maria
José Gomes;
Plenamente,
1· Classe de
Adeantamento
Maria José Lima Santos e
Narciza Marques;
Distincção
2· Gráo
Celina Fortes, Maria Araujo
Santos, Marcionilla Silva;
Distincção
Alice Alves e Maria das
Dores Costa;
Plenamente
Maria Soares
Distincção
Maria Souza
Plenamente
Maria dos Prazeres
Distincção
Elisa
Gonçalves,
Elisa
Firmino, Jocelina Feitosa,
Benones Costa e Ritta
Gomes,
Distincção;
3 Gráo
Ruy Barbosa
Escola 13 de
Maio
Regida
pela
professora
senhorita Maria
da
Conceição
Lima:
Regida
pela
professora
Leopoldina Luz
2· Gráo.
1· Gráo,
1· Gráo
Escola 15 de
Novembro
Regida
pela
professora
Francisca Costa
Jack Boardman;
José Alves de Oliveira;
3 Classe de
adeantamento
Escola
Alunos (as)
(Continua)
Nota /
Conceito
Distincção
Classe
de
adeantamento
3· Gráo,
148
Tabela 2 – Dados referentes às escolas, professores e alunos, classes, conceitos nas
escolas no Núcleo Fabril da Pedra em 1924
Escola
Professora
Escola 15 de
Novembro
Regida
pela
professora
Francisca Costa
Escola 7 de
Setembro
Escola
Branco
Rio
Regida pela
professora M.
Adelia Brandão
de Carvalho
Regida
professor
Theodoro
Coelho
pelo
Classe
Alunos (as)
(Continuação)
Nota /
Conceito
Plenamente.
2· Gráo
Isaura Thereza da Silva,
Maria Sant’ Anna, Maria do
patrocinio, raymunda Rosa e
Maria José Nascimento,
distincção;
1· Gráo
Maria das Dores, Josepha
Freire, Constança Oliveira,
Noemia Gonçalves, Maria S.
Pedro e Maria Gomes,
distincção; Erundina Souza
Distincção;
Aracy da graça,
Distincção;
Classe
de
adeantamento,
Erothildes Conceição, Maria
de Lourdes Torres, Amelia
Torres, Isabel Conceição e
Geraldina Lima,
Plenamente
3· Gráo,
Maria Aurelina Brandão de
Carvalho. Maria José
Brandão de Carvalho, Maria
Emilia Pereira, Maria
Cavalcante de Souza, Maria
de Lourdes Bandeira;
Distincção
2 Gráo
Luiza Miranda, Maria das
Dores Oliveira, Maria Leonor
da Silva;
Distincção
1 Gráo,
Maria Rosa Correia;
Distincção
Eulalia Correia Lima;
Plenamente
Classe
de
adeantamento,
Anathalicia Marques de
Oliveira;
Plenamente.
3 Gráo
Elisio Souza e Aureliano
Vieira
Plenamente
2 Gráo,
José Antonio e Casemiro
Pereira Souza,
Distincção
Mario Pereira e José Ferreira
Lima,
Plenamente
149
Tabela 2 – Dados referentes às escolas, professores e alunos, classes, conceitos nas
escolas no Núcleo Fabril da Pedra em 1924
Escola
Escola
Branco
Professora
Rio
Escola José
de Alencar
Regida
professor
Theodoro
Coelho
pelo
Regida
pela
professora Julia
Bandeira
Classe
1 Gráo,
Alunos (as)
Ambrosio Francisco e
Antonio Barbosa Gomes,
(Conclusão)
Nota /
Conceito
Distincção
João Dantas, Lino Correia
Lima, Diogenes Silva
Plenamente
Enoch Vieira,
Distincção
Classe
de
adeantamento,
José Cyriaco, Odon
Gonçalves, José Araujo,
Cicero Vieira e Acacio Silva,
Plenamente
3 Gráo
Alice Almeida e Silva
Distincção
Maria Ricalina da
Encarnação,
Plenamente
2 Gráo
Viloeta Lisboa, Victalina
Souza e Lenir Sá Pereira,
Distincção
1 Gráo
Maria Malta Lima, Olivia
Ferreira Pontes, Edith
Bandeira, Laura
Vasconcellos e Maria
Magdalena Pereira,
Distincção
Rita Gomes Barbosa,
Plenamente
Maria José lima e Laurinda
Alves da Silva, Maria
Annunciada da Silva, Maria
Annunciada Lisboa, Alzira
Gomes da Silva, Guilhermina
Gomes Barbosa,
Plenamente.
Classe
de
adeantamento,
Fonte: CORREIO DA PEDRA, 1924.
Outros quadros do mesmo tipo deste podem ser vistos nos anexos 5 e 6 a
esse texto, correspondentes, respectivamente, aos anos de 1925 e 1928.
Diziam os editores, referindo-se a tais exames que
por isso a Pedra será sempre o exemplo de pertinência, de devotamentos e
de fecunda coragem. [...] a Pedra ha de merecer, pelo seu efficiente
desdobramento, o carinho dos governos honestos, o apreço e a admiração
dos homens de bem. (CORREIO DA PEDRA, 1924, p.1)
150
A matéria alusiva aos exames, ao se referir ao analfabetismo, assim era
concluída: “este o motivo sem dúvida do nosso lastimável atraso; esta a razão única
dos jornaes não terem ingresso no sertão; poucos os lêem, porque poucos sabem
ler.” (CORREIO DA PEDRA, 1924, p. 1)
É que, na maioria dos municípios sertanejos as altas taxas de analfabetismo
predominavam. Enquanto isso, na Pedra, que era apenas um distrito de Água
Branca, além de estarem todas as crianças na escola, a Cia., para incentivar a
prática e o gosto pela leitura e pelas artes literárias, patrocinou até a criação de um
“Grêmio Literário”, cujo patrono foi o gerente da fábrica e fiscal do ensino no núcleo,
Adolpho Santos. A solenidade de posse da diretoria do “Grêmio Literário Adolpho
Santos”, segundo o “Correio da Pedra”, ocorreu no auditório do Cassino, sob clima
de entusiasmo das famílias presentes. Na oportunidade, foram recitados versos
pelos senhores Frederico Codeceira, Carmo Coelho, Antonio Missano, José
Marques, Pedro Fortes, José Vieira e José Roberto. Referindo-se ao discurso do
patrono, o “Correio da Pedra” diz que ele se pronunciou
[...] com os torneios da palavra, rodeando a phrase com o gesto preciso,
enunciando-a com a dicção perfeita dos que a sabem burilar com artístico
carinho. Entre ovações ruidosas o sr. Adolpho Santos, perorou com
vibrantes palavras. (CORREIO DA PEDRA,1924, p. 1)
Prosseguindo, registra o semanário que “assim vae a Pedra tomando o logar
que, entre as mais localidades do Estado, lhe asseguram os seguidores dos idéaes
do saudoso Delmiro Gouveia.” (CORREIO DA PEDRA, 1924, p. 1)
Quanto ao discurso de Adolpho Santos, assim se dirige ele às crianças e aos
jovens da Pedra na abertura da primeira sessão do referido grêmio:
Que as bençams protectoras de Minerva, - a deusa mythologica da
Sabedoria e das Artes, - adejem como um talismam de Victoria sobre as
vossas intelligencias, estimulando-as, atentando-as, encorajando-as, no
tentamen espiritual contra o obscurantismo. Estou convencido, Mocidade da
Pedra, que, de alma aberta aos grandes idéaes, nesse torneio attico em que
acabastes de alistar-vos, sabereis empregar o melhor de vossas energias
moças pela realização do vosso bello sonho de cultivo intellectual, e, como
que vejo esbater-se na tela azul do Futuro visinho, o quadro maravilhoso e
sublime, onde se dileneiam os lances do vosso triumpho nas pugnas das
lettras. [...] “Nem só de pão vive o homem,” o que implica dizer que para fins
mais nobres foi o homem criado. Com outros intuitos mais dignos foi
amassada na argilla a sua organisação physica e entretecida de fluidos
divinos a tela cambiante do seu espirito.
151
Assim, pois, de par com a lucta diuturna, - e bem vezes exhaustiva! – em
que andamos todos nós e por toda parte empenhados no mundo, pela
manutenção da existencia e do amparo do lar – esse trabalho ingente e
moralisador de que a nossa colmeia da Pedra, ó Mocidade, é um exemplo
moldado ao jeito nosso evangelisador – Delmiro Gouveia, aquelle que a
mais cobarde e rude fatalidade nos arrebatou do cyclo da nossa admiração,
deixando-nos amal-o com saudade; de par aindacom os devaneios do Amor
que os encantos tentadores das graças femeninas acordam e embalam nas
nossas almas e nos encandeiam para a perpetuação da especie e para os
desvelos da familia ; - de par com esses desígnios, ha a necessidade
estreme de vivermos pelo espirito, cultivando-o como seára fertil – para a
exaltação dos nossos feitos heroicos nas paginas da Historia da nossa
Nacionalidade, - para o descante dos nossos arroubas e das nossas
alegrias nas sonoras estrophes dos poetas, - para a demonstração dos
nossos progredimentos nas sciencias, - como um magnifico legado de
glorias para os nossos porvindouros.
Andais, portanto. Moços, muito bem avisados cuidando de instruir as vossas
inteligencias, e eu bato palmas aos vossos intuitos como penhor da minha
coadjuvação e do meu apoio. (CORREIO DA PEDRA,1924, p. 1).
Essa fala era a exaltação à ciência e ao progresso, conclamando todos à
continuidade do projeto pensado e executado, inicialmente, por Delmiro Gouveia.
Como se pode constatar, a obra “educacional” difundida por Gouveia no
sertão teve continuidade na gestão dos sócios e dos herdeiros e continuou contando
com o apoio dos governos do Estado de Alagoas.
Com o aumento significativo de habitantes e alunos no núcleo fabril, a Cia.
Agro Fabril passou a exigir a instalação de um grupo escolar, cujo nome deveria ser
o de Delmiro Gouveia, em sua homenagem e, segundo eles, em reconhecimento ao
dedicado trabalho de educador por ele desenvolvido. Era o trabalho dos dirigentes
para dotar o núcleo fabril de uma forma superior de escolarização, em que as
classes eram seriadas, sendo, assim, as professoras responsáveis por ministrar
aulas únicas para uma classe inteira. Em editorial do “Correio da Pedra”, esse
projeto era assim sintetizado:
Depara-se-me opportuna a hora de ser dado á Pedra o <<Grupo Escolar
Delmiro Gouveia,>> homenagem merecida pela actuação do inesquecido
morto, collaborador audacioso da solucção do problema maximo da
alphabetisação do incola.
E, para tanto, mais não precisará do que as mãos dadas entre o governo e
a administração da Fabrica da Pedra: esta adaptando um edificio para a
localisação do grupo, aquelle dando as providencias regulamentares
exigidas pelo instituto.
Com esse preito á memoria do brasileiro que tanto exaltou o renome de
Alagôas, o governo, objectivando uma das faces da sua administração, terá
concorrido para o destaque de um ponto sertanejo, dando á Pedra o realce
a que tem direito pela sua indiscutivel accentuação no progresso do Estado.
(CORREIO DA PEDRA, 1926, p. I)
152
Para concretizar esse desejo, a Fábrica, na gestão dos herdeiros de Delmiro,
realizou entendimento com o Governador Costa Rego e com o Diretor da Instrução
Pública para criação de um “grupo escolar”39 no núcleo. Para tanto, a Fábrica
reformou um galpão utilizado para guarda de grandes estoques de feijão, farinha,
etc., tendo esta reforma sido iniciada em 1926 e concluída na gestão dos Menezes,
Irmãos e Cia. O Grupo Escolar passou a funcionar em 1929, como o nome de
Delmiro Gouveia, sendo, segundo Craveiro Costa (2011, p. 208)40, o primeiro a
funcionar no sertão de Alagoas.
Figura 28 – Alunos do Grupo Escolar Delmiro Gouveia.
Fonte: Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
39
Pelo que foi possível levantar, mas, ainda não suficiente para afirmar, tudo indica que o “Grupo
Escolar Delmiro Gouveia”, começou a funcionar em 1929, sendo o primeiro grupo escolar do sertão
alagoano. Para a instalação de um grupo escolar era, segundo regulamento da Instrução Pública,
necessária a existência de, pelo menos 320 crianças de ambos os sexos em idade escolar, devendo
esses serem sediados na sede dos municípios. Ver lista dos grupos escolares em funcionamento em
1930.
40
Esse trabalho foi publicado, pela primeira vez, em 1931, dando conta de que os grupos escolares
estavam majoritariamente concentrados na capital do Estado.
153
3.3 Prêmios, Castigos e Multas para “Educar e Civilizar”
Como foi possível perceber, no que diz respeito à Pedra de Delmiro, ao “meio
formador presidia um conjunto de temas mobilizados nesta obra de regeneração
social dos pobres que as classes dominantes se dispuseram a empreender”
(CORREIA, 1998, p. 10), tendo Delmiro adotado ali medidas “educacionais”, o que
fez com que o núcleo gerido por ele logo passasse a ser mostrado como símbolo de
civilidade, em contraposição a Canudos e Juazeiro, que eram para a elite brasileira a
expressão do atraso, vendo-se aí um contraponto entre ignorância, barbárie,
arcaísmo e modernidade.
No final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, “as vilas eram tidas
como um ambiente ideal para uma pobreza honesta, sadia, pacífica e obreira”
(CORREIA, 1998, p. 10), de modo que, no nosso caso, dá para perceber que
Pedra foi concebida como um lugar de trabalho; como um espaço pensado
para favorecer a produção de mercadorias e a produção de uma força de
trabalho capacitada para o trabalho industrial e conduzida para respeitar o
patrão e suas propriedades. (CORREIA, 1998, p. 206):
No núcleo fabril da Pedra, segundo Telma Correia, o esforço do Coronel
Delmiro era para as ações de controle do movimento de pessoas,
[...] onde tudo conspirava para converter o morador em indivíduo previdente,
ordeiro, metódico, trabalhador e obediente. Tal esforço comportou ações
voltadas para o controle do movimento das pessoas e dos contatos entre
elas, para a supervisão do consumo, para a introdução de novas formas de
perceber e gerir o tempo, para a promoção do lazer regrado e da educação,
para a alteração dos hábitos e dos cuidados com o corpo e com as casas. A
fixação de normas determinando horários para as atividades, prescrições
morais, regras de higiene, proibição do consumo de bebidas e interdição de
hábitos considerados impróprios e maneiras julgadas indecentes ou
insolentes foram algumas medidas adotadas. Neste projeto de construção
de um novo trabalhador, estratégias de convencimento foram
acompanhadas por medidas puramente repressivas. (CORREIA, 1998, p.
206-207)
Pedra, um núcleo fabril no alto sertão alagoano em razão da presença de
técnicos brasileiros e estrangeiros e facilidades de locomoção para a época,
mantinha contato com as grandes cidades e as notícias dos acontecimentos
chegavam, tanto pelos visitantes, como pelos escritos, haja vista que o grande
interesse pelas notícias dos grandes centros fazia com que existisse no núcleo um
profissional especificamente encarregado de encomendas de livros, jornais e
154
qualquer outra publicação, conforme propaganda no “Correio da Pedra”, a seguir
transcrita:
Livros, Jornaes, figurinos, etc.
Antonio Lopes encarrega-se de aviar nas mais conceituadas livrarias do
paiz encommendas de qualquer obra scientífica, literária, didactica, etc., e
de tomar assinaturas de jornaes, figurinos modernos, revistas, etc. Pedra.
(CORREIO DA PEDRA, 1924)
Na verdade, já desde as constantes viagens aos Estados Unidos e à Europa,
realizadas por Delmiro e seus sócios, e os técnicos estrangeiros que trabalhavam na
Pedra, mantinham os dirigentes e moradores informados sobre as notícias e
acontecimentos no resto do mundo.
Da Pedra também saíram alguns filhos de auxiliares de Delmiro para
realizarem estudos na Europa e nos Estados Unidos. Desejava Delmiro formar um
corpo técnico e administrativo para dar continuidade a seu projeto industrial.
Um dos filhos do gerente Adolpho Santos foi presenteado por Delmiro
Gouveia com uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Adolpho Santos Filho foi
realizar seus estudos preparatórios na Anglo Brazilian School, no Rio de Janeiro,
seguindo depois para o Techinology Institute, de Massachussets, nos Estados
Unidos, para fazer o curso de engenharia civil. (CORREIO DA PEDRA, 1923).
Para controlar os moradores da Pedra com resultados imediatos, já que a
necessidade de tocar a usina elétrica e a fábrica se fizeram com relativa urgência,
Delmiro estabeleceu medidas “educativas” e “disciplinares” que podiam ser de
multas, castigos físicos e repreensões severas até punições mais rigorosas como a
expulsão do núcleo, obrigando, assim, os operários a realizarem suas funções com
zelo e atenção. Para estimular os moradores no cumprimento das suas ordens,
também oferecia incentivos, utilizando, num certo sentido, a mesma pedagogia
empregada com as crianças. Tais medidas eram fiscalizadas por um corpo de vigias
instituídos por Delmiro para acompanhar o cumprimento de suas ordens. Em muitos
casos, exerciam os vigias, com a anuência do Governo do Estado, papel de polícia.
Para que suas ordens fossem cumpridas, Delmiro pessoalmente fiscalizava
os moradores:
155
Todos os dias, pela manhã, invariavelmente, Delmiro fazia demorado
passeio de fiscalização pela vila operária, aconselhando uns, repreendendo
os faltosos, impondo costumes de educação doméstica, verdadeira romaria
de evangelizador exercendo a catequese de civilização naquele centro
semi-bárbaro. (SANTOS, 1947, p. 37)
O corpo de vigilantes o informavam sobre tudo o que ocorria dentro e fora do
núcleo. Conforme Pedro Mendes Cardoso, na entrevista a Sarno, “ele [Delmiro] tinha
muita gente, fiscais, ele tinha muitos vigias, que ele pedia que tudo o que visse mal
feito comunicasse a ele.” (SARNO, 2006, p. 63).
Visitante da Pedra e hóspede de Delmiro, o Coronel José Abílio também
afirmou que
[...] os empregados dele tudo era armado, tudo vigia. Vigia com relógio no
pescoço, pendurado, vigia da fábrica, de tudo, cinco ou seis. Ali havia
ordem. Mais do que hoje. Só se dormia com vigia na porta. Só se ouvia
vigia apitando, era a noite toda. Agora ele era grosseiro no chamar a
atenção [...] (SARNO, 2006, p. 55)
Nesse ritual de controle, “o relógio transformou-se em uma cultuada
instituição” (GONÇALVES, 2010, p. 267), confirmando aquilo que Thompson pontua
quando se refere à necessidade de se imprimir aos camponeses, no mundo fabril,
outra noção de tempo.
Lauro Góes, funcionário da fábrica de 1914 a 1917, confirmando o que disse
o Coronel Abílio, conta que “Delmiro mantinha um número regular de “vigias”, para
garantia das suas propriedades e manter a ordem “dentro do arame”, e mesmo “fora
do arame”, nunca houve qualquer alteração que viesse ou pudesse alterar a vida
normal da Pedra.” (GÓES, 1962, p. 7). Mas, segundo o próprio Góes (1962, p. 24)
Uma noite, eram mais ou menos 11 horas, estávamos de serviço, quando
passava ele pela seção das “penteadeiras”, dois operários divertiam-se
jogando “petecas de algodão” um no outro. Por má sorte deles não viram
Delmiro que passava no corredor das máquinas e uma das petecas bateu
no seu rosto. Delmiro vira-se, mas apenas viu um deles. Imediatamente
agarrou-o violentamente e o levou aos empurrões de escada abaixo da
entrada da fábrica, e coisa incrível, quando operário chegou embaixo foi
logo levado para o “tronco”, já conduzido por dois vigias.
Delmiro, segundo Pedro Mendes Cardoso:
156
Não gostava de homem cachaceiro, que bebesse, que fosse conquistador,
não gostava. Procurou educar o povo desta terra. Numa vila desta, o senhor
entrava: “Bom dia”, O dono da casa “Bom dia”. E tinha que ir receber o
Senhor, e pedia o chapéu ao senhor pra botar no cabide. Se assim o
Senhor, como dono da casa, não procedesse, e ele soubesse, ele multava o
dono da casa naquela época em 500 réis (SARNO, 2006, p. 63)
Além dos vigias e dele próprio, instituiu Delmiro multas para quem
desobedecesse as suas ordens. Sendo estas aplicadas a qualquer um e na
presença de visitantes quando necessário. Em certa ocasião Góes (1962, p. 20)
ficou responsável pelo toque da sirene, tendo-a atrasado em dois minutos: “Delmiro
não admitia que o toque da sirene para entrada do operário, fosse dado com atraso
de um minuto. E no primeiro encontro, Delmiro sentenciou ‘Sr. Góes, porque não
ligou a sirene na hora certa?’ O senhor está multado!”. (GÓES, 1962, p. 20)
Delmiro não admitia que ninguém chegasse atrasado ao trabalho, sendo os
retardatários, em muitas ocasiões, multados, como na ocasião em que o Coronel
José Abílio estava na Pedra e desejava conhecer a cachoeira de Paulo Afonso.
Delmiro chamou João de Deus, que era o chofer de confiança, e disse: “Amanhã, às
sete horas, esteja aqui para levar o Coronel José Abílio”. [...]
No dia seguinte ele toma o carro – veja o que era o Delmiro Gouveia – toma
o carro comigo e mais dois companheiros; mas João de Deus, antes de
chegar faltou 10 minutos. Quando João chegou, disse: “Ô João de Deus,
você está multado em 10 mil réis”. “Eu multado, coronel?” “O senhor
chegou...” sem olhar para o relógio. “Mas eu cheguei na hora!” “Não senhor.
O Senhor passou 10 minutos sem chegar”, Eu aqui puxei o relógio pra ver
se de fato... Ele não olhou o relógio, como sabia que tinha passado 10
minutos? Olhei, ele estava de frente só fez dizer: “O relógio que dá hora
aqui é o meu!” (SARNO, 2006, p. 52)
As multas, as repreensões, e até as punições como exposição à humilhação e
violência física praticadas por Delmiro faziam os funcionários trabalharem com o
máximo de zelo para não cometerem falta, procurando realizar suas funções com
agilidade e perfeição.
Até mesmo as casas foram concebidas de forma a favorecer o controle e
acompanhamento da ordem, pois:
As casas localizadas nas esquinas dos quarteirões eram maiores e
melhores. Tinham por volta de 230 m de área construída, cinco quartos, três
salas, despensa, cozinha e sanitário com água encanada, além de um
amplo quintal, com saída independente. Destinavam-se aos encarregados,
os professores, o médico, o farmacêutico, o engenheiro e outros
funcionários gabaritados, os quais se responsabilizavam, pessoalmente,
157
pela ordem e o asseio das demais moradias do quarteirão. Esses habitantes
privilegiados foram transformados em uma espécie de “fiscais de
quarteirão”, eram os olhos de Delmiro e respondiam por tudo o que ocorria
na vizinhança. E, mesmo nessas casas melhores, os moradores eram
obrigados a manter as portas e janelas abertas, não escapando da inspeção
diária do intransigente e austero chefe. (GONÇALVES, 2010, p. 271)
Nessa busca da construção da ordem, nem mesmo o filho e o sobrinho foram
poupados das punições por Delmiro. Seu filho Noé, apesar de criado e educado sob
rigorosa disciplina, era travesso e endiabrado. Quase sempre que ia ao escritório
“pintava o sete”. Desarrumava papéis, derramava tinteiros e depois mandava que os
funcionários arrumassem tudo “para papai não ver”. (GÓES, 1962, p. 21-22) Em
uma dessas ocasiões, Lauro Góes mostrou a sujeira provocada por Noé a Delmiro.
E, no dia seguinte, ouviu a seguinte queixa de Noé: “Você foi dizer ao papai e ele
deu em mim! (GÓES, 1962, p. 23)
Em outra ocasião e tendo como testemunha o Coronel Aureliano Gomes de
Menezes, Delmiro agrediu seu sobrinho Oswaldo por ter ele descumprido uma
ordem sua, chegando o Coronel Aureliano ao tentar conter Delmiro e, questionado
sua atitude, desentendeu-se com o amigo, dele tendo se afastado por um tempo.
A higiene era uma preocupação que se unia à obstinação de Delmiro pela
ordem:
O banho era obrigatório para todos como era obrigatório o traje limpo.
Muitas vezes vimos como ele – Delmiro –, fazia voltar da porta de entrada
para o trabalho todo aquele que se apresentava sujo, dizendo: “volte e vá
tomar banho seu imundo”. Ninguém andava descalço ou cabeludo. Dizia
sempre: “mando pelar sua cabeça se de outra vez aparecer assim.” Estas
medidas serviam para apresentar um operariado limpo, calçado,
disciplinado e mais ou menos alegre. (GÓES, 1962, p. 34)
Filho de um amigo e comprador de peles de Delmiro, Góes, conhecia bem o
comportamento do patrão, pois conforme ele próprio afirmou, “antes de entrarmos
como funcionário da Cia. Agro Fabril Mercantil fomos seus hóspedes algumas vezes
e vimos como Delmiro aplicava seu espírito disciplinador e organizador até na sua
mesa de refeições. (GÓES, 1962, p. 18). Góes, já na iminência de ser contratado
por Delmiro, foi por este advertido: “Aqui o empregado tem que fazer tudo que eu
mandar, seja qual for o serviço, serve?” (GÓES, 1962, p. 3)
158
A jornada de trabalho era de oito horas de trabalho diárias e para a troca de
turno, tocava uma sirene e ia pessoalmente receber os operários na porta da
empresa. Assim fiscalizava o vestuário, os cabelos, os calçados dos funcionários. A
fábrica funcionava de segunda a sábado, sendo o domingo a folga e o dia em que a
Cia. realizava o pagamento e em que acontecia a feira da Pedra.
Figura 29 – Quadro de Horário da Fábrica de Linhas da Pedra.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Delmiro exigia que todos os operários fossem trabalhar bem vestidos, porém,
“os salários eram insuficientes para manutenção desse estilo de vida. Mas, Delmiro
mandava fornecer tecidos e calçados ao operariado mediante descontos módicos
nas folhas de pagamento.” (MENEZES, 1991, p. 83) Mesmo os que admiravam a
obra de Delmiro, como Hidelbrando Menezes, reconheciam que “havia exagero [...]
em suas exigências”, (MENEZES, 1991, p. 84.
O regime disciplinar imposto a todos os moradores do núcleo fabril, com
fiscalização rigorosa, não deixava isentos nem mesmo os casais encontrados em
paquera e namoro. Conforme Menezes,
159
Os casais encontrados isolados, em namôro, quer em qualquer ponto da
vila, quer nas calçadas das residências, mesmo dos pais das môças, eram
obrigados a casar. Foram muitos os casamentos na Pedra, feitos por esses
motivos, estribando-se Delmiro em fundamentos morais. Alegava êle que
muitos operários eram membros de famílias de sua amizade, e sabia que
estas negariam permissão aos filhos para casarem com operárias.
Chamava, pois, a atenção de todos, com a veemência que lhe era própria,
quando se dirigia aos empregados, recomendando-lhes não se meterem em
namoros com nenhuma das suas operárias, porque ficariam no dilema de
deixar os seus serviços e retirar-se da vila, ou casar-se. Sob hipótese
nenhuma, afirmava, recuaria do seu propósito de zelar pela moralidade em
seus domínios. (MENEZES, 1991, p. 84)
Tendo presenciado um namoro que chegou ao conhecimento de Delmiro,
Lauro Góes assistiu à sentença de Delmiro que, após marcar a data do casamento,
disse ao operário: “As despesas mandarei lançar na sua conta. E o casamento foi
realizado na “Casa Grande”, tendo os funcionários da Cia. como convidados.”
(GÓES, 1962, p. 12). Segundo Góes, Delmiro tomava tais atitudes,
Como medida de “contenção”..., Delmiro não consentia que os seus
funcionários, do escritório, da fiscalização, interna e externa da fábrica,
como também da pagadoria e apontadores, freqüentassem as residências
das famílias operárias por ocasião de danças em suas festas íntimas ou em
dias outros. Eles podiam ou tinham que freqüentar apenas os festejos e
danças nas residências de particulares “fora do arame”. Residências essas
de pessoas amigas ou conhecidas de funcionários. (GÓES, 1963, p. 17)
Na Pedra não era permitido o uso de chapéu, enquanto o homem estivesse
no interior da casa, nem tão pouco Delmiro tolerava que ficassem sem camisa
dentro de casa. Mesmo os visitantes que se hospedavam na Casa Grande e não
sabiam comportar-se ao modo de Delmiro, infringindo as normas por ele
estabelecidas, eram imediatamente advertidos, como um cidadão que foi seu
hóspede e na hora do jantar Delmiro lhe ofereceu um aperitivo, e tendo o hóspede
solicitado uma dose de aguardente, este foi prontamente retrucado com um áspero:
“Cachaça?!... É bebida que em nossa casa não se oferece a ninguém”. (MENEZES,
1991, p. 89)
Para a modificação de certos hábitos, que davam a falsa impressão de ser a
localidade habitada exclusivamente por pessoas de nível intelectual inferior,
sem noção de princípios de civilização, Delmiro proibiu na feira o uso do
xale e do cachimbo. É que nos municípios sertanejos nenhuma mulher,
principalmente as menos jovens, entrava em qualquer núcleo populacional
sem um xale a cobrir-lhe parte da cabeça e do colo. (MENEZES, 1991, p.
95)
Todas as punições eram aplicadas por Delmiro e sua guarda, pois que tinham
poderes dados pelo governo do Estado para atuarem como polícia. Segundo Góes,
160
“somente após seu assassinato, foi que passou a existir um destacamento policial,
na vila – coisa que em vida [Delmiro] nunca admitiu”. (GÓES, 1962, p. 7)
Quanto às multas aplicadas por infração às regras estabelecidas,
eram aplicadas, seja por Delmiro, qualquer chefe encarregado ou fiscal,
para quem infligisse alguma das regras, tais como: cuspir ou atirar detritos
ou cascas de frutas no chão (detalhe importantíssimo, a penalidade era
para o “dono” da casa”; manter a casa escura ou trancada; usar chapéu
dentro das residências; usar camisa fora da calça, se apresentar sujo, sem
estar barbeado ou mal vestido; andar descalço; responder ou desobedecer
aos ficais, chefes e encarregados; fazer barulho fora do horário ou brigar.
Também tinha multa para o pai, mãe ou responsável que deixasse de
justificar a falta da criança na escola ou não cobrasse a realização das
tarefas diárias; para quem desrespeitasse os velhos, pais ou mães;
maltratasse os animais; andasse armado; praticasse jogos de azar; fizesse
uso de bebidas alcoólicas; usasse o tradicional xale das sertanejas (ofensa
considerada gravíssima) que escondia a cabeça e parte do colo,
normalmente desleixados e sujos; enfim, para qualquer prática considerada
inadequada ou imprópria à comunidade. A tolerância era zero e os valores
simbólicos variavam de um mínimo humilhante de 200 reis, podendo chegar
a 2$000 réis – [...]. O dinheiro arrecadado ia para uma espécie de caixa
beneficente, administrada por funcionários de confiança dos operários e
posteriormente revertido em proveito da comunidade. (GONÇALVES, 2010,
p. 275)
3.4 O Lazer Regrado como Expressão de uma Vida Honesta
No início do funcionamento da fábrica não havia espaços ou equipamentos de
serviços e de lazer para a grande quantidade de operários e moradores do núcleo
fabril. Ainda em 1915, Delmiro Gouveia entraria em entendimento com a prefeitura
de Água Branca, celebrando um contrato pelo prazo de dez anos para implantação
de uma feira livre na vila, pagando antecipadamente os impostos. Ficava também
autorizada a instalação de outros estabelecimentos comerciais na Pedra, tendo sido
instaladas lojas de fazendas, armarinhos, padaria, açougue e duas casas comerciais
que vendiam produtos variados. Tinha também uma farmácia, um dentista e um
posto médico. A feira funcionava aos domingos, às 10 horas, após ser hasteada
uma bandeira autorizando o comércio dos produtos. Neste ano, começaram a surgir,
também, os equipamentos de lazer, com a inauguração de um cinema, utilizado
como instrumento educativo, pois, além de separar os espaços ocupados por
homens e mulheres que não ficavam juntos, só as crianças que tiravam boas notas
e que frequentavam as aulas tinham direito a ingresso.
161
Conforme programação de exibição cinematográfica divulgada pelo “Correio
da Pedra, em 02 de maio de 1920, percebe-se ainda que, junto com a promoção do
lazer, a dimensão educativa estava presente, pois, um dos filmes exibidos era
intitulado “O Papel da Educadora”. Entre as sessões também promovia a Cia. bailes
musicais.
Ainda mudo, como todos os existentes na época, o cinema era a máxima
expressão da modernidade. Era gratuito e com espaço separado para as crianças,
para que se sentissem “à vontade para gritar, bater palmas, rir” (MENEZES, 1991, p.
85), mas, que só eram admitidas se tivessem tirado boas notas na escola. Delmiro
recebia os cadernos dos alunos em seu escritório para acompanhar e repreender os
que não assistiam às aulas e não faziam as tarefas.
O cinema era a diversão da população e os filmes davam lugar a
comentários do operariado, que passava a tomar conhecimento de mundos
diferentes e de hábitos de outros povos que não conheciam; além disso, era
um derivativo do trabalho constante e das conversas de rotina.” (MENEZES,
1991, p. 85)
Quando estava na Pedra, Delmiro frequentava o cinema para fiscalizar a
ordem.
Na ocasião da visita do Governador de Pernambuco, Manoel Borba, foi
organizada, pelo chefe da Pedra, uma exibição cinematográfica para a comitiva
governamental com a presença da população.
Outro equipamento de lazer existente em Pedra foi um rinque para danças,
principalmente para os festejos de final de ano que ocorriam na Pedra sob o
comando de Delmiro. Neste espaço, moças e rapazes podiam dançar sob os olhares
fiscalizadores do “Senhor da Pedra”. O núcleo fabril passou a ser visitado cada vez
mais por gente procedente de todos os lugares e “a admiração pela obra que ele
vinha realizando crescia e se estendia por todo o país. (MENEZES, 1991, p. 86)
Na Pedra, Delmiro cuidou de providenciar os instrumentos musicais como
saxofone, flautim e clarinete e organizou uma banda de música, cuja participação
dos operários adicionava uma gratificação de 10% sobre os salários, bem como
eram dispensadas duas horas antes do trabalho para participarem, todos os dias
úteis, às 19 horas, dos ensaios que eram acompanhados por Delmiro: “às 19 horas,
162
mandava verificar se alguém havia deixado de comparecer; em caso afirmativo, o
faltoso sem justificativa era repreendido e multado.” (MENEZES, 1991, p. 96)
Em pouco tempo,
A filarmônica estava sempre a postos, preparada para tocar retretas e
animar as tardes e noites de domingos, feriados, ocasiões especiais,
recepção de autoridades, carnavais, festas de casamento e animados e
concorridos bailes comunitários. (GONÇALVES, 2010, p. 277)
Figura 30 – Banda de música da fábrica de linhas da Pedra.
Fonte: Acervo Museu Regional Delmiro Gouveia.
Delmiro, como estímulo aos operários e seus familiares, oferecia diversão,
elogios, distribuição de rosas, premiações e até participação nos lucros, no entanto,
“[...] sob um regime de plena obediência [...] todos trabalhavam nos serviços de
Delmiro. Extremamente absorvente, somente ele mandava.” (MENEZES, 1991, p.
97)
A interferência de Delmiro e da Cia. no lazer dos operários dava-se até nos
festejos do carnaval, que tinham seus dias alterados para não parar a produção na
fábrica de linhas, conforme noticiou o Correio da Pedra, em 1923:
163
Carnaval na Pedra – Conforme é praxe os festejos de momo nesta Villa,
em logar de preencher os três dias regulares, de domingo à terça–feira, se
realizam em trez domingos seguidos, isto para não estorvar os serviços da
fábrica, nem os cursos das aulas, nem a tranqüilidade do operariado. É um
dos acertos previdentes implantados pelo genio ordeiro do saudoso
Delmiro. (CORREIO DA PEDRA, 1923).
3.5 Pedra no Cenário Educacional do Sertão Alagoano
Água Branca, que tinha em 1920 a segunda menor população entre os
municípios sertanejos - apenas Piranhas possuía uma população significativamente
menor do que aquele município - mantinha o maior número de escolas do sertão. A
explicação para isso é que, de um total de 12 escolas existentes no município,
metade delas estava localizada no núcleo fabril da Pedra, ficando apenas seis para
todo o restante do município.
Conforme tabela abaixo, podemos considerar que em cada rua da vila
operária existia uma escola, enquanto outros municípios sertanejos não tinham,
sequer, o mesmo número de escolas que o núcleo fabril:
Tabela 3 – Escolas existentes no sertão de Alagoas em 1921
MUNICÍPIO
Água
Branca
TOTAL DE
ESCOLAS
12 Escolas públicas
de instrução
primária
Pão de
Açúcar
09 escolas públicas
de instrução
primária
Paulo
Afonso41
09 escolas públicas
de instrução
primária
41
DISTRIBUIÇÃO DAS ESCOLAS
04 na sede – 03 isoladas
01 subvencionada
06 na Pedra – subvencionadas (grifo
meu)
01 na Várzea do Pico - subvencionada
01 em Pariconha - subvencionada
04 na sede
01 em Limoeiro
01 em Campo Grande
01 em Jacarandá
03 na sede
01 em Almeida - subvencionada
01 em Bangüê - subvencionada
01 em Inhapi - subvencionada
01 em Sabonete - subvencionada
01 em Caraíbas - subvencionada
01 em Morada – subvencionada
Este município tem hoje o nome de Mata Grande.
(Continua)
POPULAÇÃO
EM 1920
20.361
21.812
21.516
164
Tabela 3 – Escolas existentes no sertão de Alagoas em 1921
MUNICÍPIO
TOTAL DE
ESCOLAS
Piranhas42
04 escolas públicas
de instrução
primária
05 escolas públicas
de instrução
primária
DISTRIBUIÇÃO DAS ESCOLAS
(Conclusão)
POPULAÇÃO
EM 1920
02 na vila
01 em Entremontes
01 em Olho D’Agua
Santana do
02 na sede
Ipanema
01 em Poço das Trincheira
01 em Sertãozinho
01 em Olho d’Água do Cajueiro subvencionada
Fonte: MARROQUIM, 1922, p. 69-163
3.476
40.324
Se as constantes reformas educacionais republicanas nacionais e estaduais
não conseguiam alcançar os seus objetivos de alfabetizar o povo brasileiro com
vistas a alçar o Brasil ao nível de nação “civilizada”, esta situação era ainda mais
precária nos sertões do Nordeste, pois conforme o “Correio da Pedra”:
[...] os municípios do alto sertão nordestino, têm quase todos de quinze a
trinta léguas de extensão territorial e em nenhum dos Estados concede mais
do que três escolas, duas na séde e uma no povoado mais importante. Leis
existentes em todos os Estados, estabelecem a obrigação dos municípios
manterem as demais escolas que precizem, mas raros são os que cumprem
a mínima parte ao menos, esse bello despositivo. (CORREIO DA PEDRA,
1925, p. 1)
Ainda, segundo matéria, para se promover o desenvolvimento científico e
tecnológico do Brasil era necessário criar escolas, sendo afirmado que:
Os nossos sertões precisam de escolas primárias; é nellas que se elaboram
pelo despertar de faculdades embryonarias, os nossos futuros industriaes,
os nossos engenheiros, os nossos chimicos, todos os que têm de
compellirmos á brilhante destino. (CORREIO DA PEDRA, 1925, p. 1)
Em matéria intitulada “Pelo Ensino no Sertão”, o editor43 do “Correio da
Pedra” faz referência a artigo escrito por Monteiro Lobato sobre instrução pública no
Brasil, intitulado: “O Grande Problema”. Diz Monteiro Lobato no seu artigo:
42
Das quatro escolas de Piranhas, três eram de entrância e uma subvencionada, entendendo-se que
o professor de entrância era do quadro permanente do Estado, enquanto os subvencionados
recebiam dos cofres estaduais sem que tivessem estabilidade no cargo, podendo estes serem
comparados com os professores monitores.
43
Neste período era diretor e redator-chefe do Jornal Correio da Pedra Hidelbrando Menezes, que
chegou ao Núcleo Fabril, quando os herdeiros de Delmiro Gouveia administravam a Cia. Agro Fabril
Mercantil, ali permanecendo até o fechamento deste semanário em 1930, quando a mesma Cia. já
estava sob a gestão dos Menezes Irmãos & Cia.
165
O nosso problema capital magno por excellencia, é crear a cultura. Escolas
profissionaes para o povo, não cinco, ou dez, mas cem, uma em cada
cidade. A escola primaria ensina a ler. A escola profissional ensina a tirar
partido. Uma sem outra é cartucho sem espingarda. (CORREIO DA PEDRA,
1925, p.1)
Fazia
Lobato
referência
à
realidade
da
educação
brasileira,
mais
especificamente ao Estado de São Paulo. E para o editor do “Correio da Pedra”, se
a queixa de Lobato pelo estado de abandono da educação se referia àquele Estado,
imagine o que ele diria da situação educacional do Nordeste.
[...] Monteiro Lobato refere-se ao Estado de São Paulo que elle considera
inculto e nós nos acostumamos a considerar o Estado Leader da
Federação, em todas as manifestações da actividade humana. Que diria o
notável escriptor se vivesse nos sertões nortistas e visse o nenhum esforço
que os seus governantes fazem por educal-os? (CORREIO DA PEDRA,
1925, p.1.)
Se, em seus aspectos gerais, não conseguiu a República proporcionar a
instrução pública mesmo nas grandes cidades para a grande maioria do povo, e se
nem mesmo cidades e Estados “desenvolvidos” como São Paulo não tinham um
sistema de ensino público que atendesse a toda a população é de se imaginar o
estado em que se encontrava a educação no interland nacional e alagoano que
estava submetido aos interesses dos coronéis e chefes políticos municipais e
estaduais. Segundo o “Correio da Pedra”,
Nossos patrícios sertanejos vivem como parias, completamente
analphabetos em maioria absoluta, ignorantes de tudo, não por
incapacidade intellectual, mas porque nossos governos não lhes dão
escolas em que aprenderem.
Em nossos sertões, as escolas existentes em número insignificante, apezar
de serem frequentadas apenas pela população das sedes dos municípios,
que são quasi os únicos logares em que ellas existem, contêm em seu bôjo,
sem o menor deslumbre de conforto e de hygiene, cicoenta, sessenta e
mais creanças, dirigidas por um só professor, quase sempre sem gosto pela
profissão, devido ao pingues ordenado que recebem. (CORREIO DA
PEDRA, 1925, p. 1.)
O quadro apresentado nos relatórios governamentais e ainda nos dados
sobre população e frequência às escolas no sertão é consequência da estrutura
política e econômica ainda hoje predominante em muitos municípios sertanejos. No
entanto, no núcleo fabril da Pedra, a falta de escolas não prevaleceu e a instrução
escolar foi uma ferramenta fundamental a sua existência, no período de sua
fundação até meados da década de vinte. Ao estabelecer a obrigatoriedade da
instrução pública e assegurá-la, estava Delmiro Gouveia preparando a mão de obra
166
que necessitava para o sucesso do seu projeto industrial, ao tempo que nem mesmo
o Estado Nacional Republicano dava cabo desta necessidade brasileira de instruir
para civilizar com vistas ao progresso do país. Por isso, o “Correio da Pedra” não
amenizava os apelos aos governos para a missão educacional tão desejada por
setores da sociedade brasileira. Clamava, assim, dizendo:
Deem portanto, os nossos governantes escolas aos sertanejos, seguindo o
bello exemplo da Agro Fabril, facilitem-lhes conhecer o valor dessas vinte e
cinco constelações com que o homem exteriorisa o seu pensamento>> e
terão cumprido o seu mais alto dever de patriotismo e de estadistas
conscientes, fazendo o sertão sahir da situação de bonzo em que se
encontra, quasi nada cooperando para a riqueza nacional e com muitos dos
seus filhos gastando suas energias na criminosa e indigna profissão de
bandidos, para uma vida de trabalho productor e digno. (CORREIO DA
PEDRA,1925, p. 1)
O processo educacional posto no sertão, especificamente no núcleo fabril da
Pedra, ao menos enquanto durou a ação de Delmiro e seus seguidores, trouxe ao
sertão e ao sertanejo o acesso à educação escolar ainda distante da maioria dos
demais viventes do sertão alagoano, pelas mãos de um empresário que,
prevalecendo-se da ausência do Estado, tomou a iniciativa de criar e desenvolver, a
seu modo, um projeto educacional e “civilizatório”, ainda que tenha sido para atender
a seus interesses empresariais.
167
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não é por acaso que a ação de Delmiro Gouveia como “civilizador de gentes”,
somente surge quando ele, já na Pedra, resolve implantar uma indústria de feições
modernas, como a de beneficiamento de algodão, que, na época, demandava um
grande e disciplinado contingente de mão de obra. Para o comércio ou mesmo para
curtir as peles que beneficiava na Pedra, desde que ali se assentou, não havia
necessidade de letramento da mão de obra, nem mesmo de modos “civilizados”,
segundo os ditames da convivência urbana e regrada pelo funcionamento da
indústria já regida por um certo grau de automação. Nem mesmo para tocar a usina
hidrelétrica isso se fazia tão necessário, já que esta era pouco intensiva em mão de
obra.
Busquei mostrar, ao longo deste estudo, que a história do desenvolvimento
econômico e social do sertão alagoano na I República – ao menos na região em que
estava situada a Pedra - tomou novos contornos com a chegada de Delmiro Augusto
da Cruz Gouveia na região, em 1902, fugindo de Recife.
Em Alagoas, nos sertões do São Francisco, retoma primeiro o comércio de
peles, refaz sua fortuna que ficara em frangalhos nos seus últimos tempos em
Recife e constrói a primeira Usina hidrelétrica do Nordeste, à qual segue uma
Fábrica de Linhas que iria constituir um núcleo fabril transformado, muito
rapidamente, num lugar que atrairia sempre mais gente de todos os lugares do
sertão, desde a primeira década do Século XX.
O núcleo fabril da Pedra transformou-se em centro industrial e de urbanização
descrito como modelo de capitalismo progressista e civilizado por visitantes que para
lá acorreram, sendo esta experiência tomada por intelectuais, jornalistas, políticos e
escritores de várias vertentes ideológicas da Velha República e mesmo dos anos
progressistas de 1950 e inícios da década de 1960, como exemplo de experiência a
ser admirada e seguida em todo o Brasil.
Interessados pela história do Nordeste, buscando compreender o pioneirismo
de Delmiro Gouveia, ao construir no alto sertão alagoano uma usina hidrelétrica e
168
uma fábrica de linhas, com habitações operárias dotadas dos mais atualizados
equipamentos urbanos de saneamento básico e outros serviços, inclusive, para a
escolarização, para o entretenimento e o lazer ainda nos primeiros anos de 1900,
terminaram por fazer do industrial cearense um mito, cantado em verso e prosa,
sobretudo por adeptos dos mais variados espectros ideológicos, conforme nos
mostra Dilton Candido Santos Maynard, em tese doutoral defendida em 2008. O
balanço dessa questão, pela academia, revelou-me um conjunto de produções que
abordam várias dimensões da vida social verificada na Pedra, tais como: a
urbanística, a arquitetônica, a econômica e a histórica no seu sentido mais amplo,
destacando-se, nessa perspectiva, o trabalho de marcado enfoque antropológico de
Telma de Barros Correia, também em tese doutoral, depois publicada pela Papirus,
em 1998.
Esses escritos, como todos os demais que tiveram a ação de Delmiro
Gouveia na Pedra, sem exceção, mencionam sob diversas perspectivas - às vezes
até antagônicas, mas sempre tidas como importantes -, o processo de socialização
de trabalhadores rurais para a vida urbana e fabril liderado por Delmiro e seus
continuadores
–
denominado
frequentemente
por
muitos
como
“processo
civilizatório”, ao qual eu passei a chamar como “educacional” – que fez funcionar na
Pedra uma indústria avançada para o seu tempo.
Como, desde as primeiras notícias sobre a atuação do industrial Delmiro
Gouveia no sertão alagoano, mereceu menção especial a educação dos modos da
gente sertaneja que vivia e trabalhava “dentro do arame”, e considerou-se, como
especial, a ação voltada para a escolarização de crianças, jovens e adultos do
núcleo fabril, procurei analisar esta experiência com um olhar especificamente
focado, já que esse tema, embora tendo ocupado até capítulo inteiro de trabalho
sobre Delmiro, jamais foi matéria específica de um único trabalho ou pesquisa.
Assim, centrei-me no processo educacional, por entender que uma pesquisa
desta natureza poderia contribuir, não somente para uma certa sistematização, mas,
sobretudo, como uma releitura mais pormenorizada de um importante aspecto da
atuação de Delmiro Gouveia na Pedra e de seus possíveis efeitos sobre o próprio
sertão e seus habitantes, no contexto da República Velha e mesmo depois. Além do
que, em assim procedendo, acreditei que poderia atrair para a atuação de Delmiro
169
na Pedra o olhar dos educadores, já que o trabalho, desde seu título, tem uma
marca fortemente educacional.
Segundo pude entender nesse estudo que, longe de ser conclusivo, aponta
pistas para novas investigações, os admiradores e construtores do mito Delmiro
Gouveia, consideram os trabalhadores do núcleo fabril da Pedra como se fossem
operários europeus, em vista de serem asseados, ordeiros e, ainda por cima,
letrados.
E foi a partir dessa preocupação que desenvolvi a pesquisa que resultou
nessa dissertação, tomando como elemento-guia do estudo essa estreita relação
entre o que se convencionou chamar de “moldes civilizados” e “processo
educacional”, introduzidos no sertão alagoano, frente ao lugar do sertão no contexto
da vida política regional e nacional da I República.
Neste estudo, a minha contribuição, segundo penso, encontra-se na
abordagem mais focada nos aspectos da educação na Pedra, que foi utilizada por
Delmiro Gouveia como condição de possibilidade das suas ações industriais no
sertão alagoano e enfatizada por seus observadores e visitantes como algo novo a
ser exibido para todo um Brasil que ainda se debatia no dilema de se manter
atrasado ou tornar-se moderno, como requeriam os ideais da República recémimplantada no país. Desta forma, a educação desenvolvida na Pedra em processo
de industrialização, em confronto com o que se tinha como educação naqueles
tempos, representou algo novo até para os centros urbanos mais adiantados do
litoral. Neste sentido, o núcleo fabril da Pedra vivenciou uma experiência que, para o
sertão ainda fortemente marcado pelo genocídio cometido pela República contra os
sertanejos de Canudos, e/ou pelo olhar voltado para o Juazeiro do Padre Cícero,
como lugar de fanáticos e incivilizados, ou mesmo como facínoras engajados no
cangaço, o núcleo fabril da Pedra, por meio de processos educacionais, causava
espanto, enquanto apontava para o ideal de civilização que viria a ser pregado e
perseguido até pelos intelectuais que passaram para a nossa história como “os
Pioneiros da Escola Nova” e para os quais a educação – o letramento, em especial –
representava o instrumento de redenção do Brasil.
170
De fato, frente ao analfabetismo e à sub-escolarização que grassavam no
país, era de chamar a atenção de todos a universalização da instrução na Pedra,
que chegou a ter cerca de 5.000 habitantes, ainda que o fato de ser essa educação
realizada às expensas do erário estadual costume ser esquecido ou apenas
fortuitamente registrado na quase totalidade dos discursos sobre a saga educativa
de Delmiro, na sua permanência na Pedra.
Delmiro objetivava, com suas ações educacionais, evidentemente, preparar
mão de obra rural sertaneja para a indústria, o que resultou em a Pedra ser
transformada em referencia de “ordem e progresso” que se traduziria em
“civilização”, ainda que para isso grande violência moral e física tivesse que ser
empregada, mediante o uso de uma pedagogia behaviorista que premiava o
desejável e punia exemplarmente o que era preciso, segundo Delmiro, se evitar para
o bem da obra em curso.
Importa ressaltar que, se nos tratados e escritos sobre a pedagogia – aqui e
em outras sociedades – a educação tende a ser considerada sob a perspectiva de
acesso à escolarização, nesse estudo ela foi ressignificada, assim como o próprio
conceito de sertão e de sertanejo, e até de República, de modo a se perceber a
chamada “ação civilizatória” empreendida por Delmiro Gouveia nos seus devidos
termos, o que, segundo penso, representa outra contribuição frente à maioria dos
escritos divulgados até hoje sobre a temática educacional.
Conduzindo meu estudo pelos caminhos acima assinalados, consegui
perceber, com maior clareza, como os sertanejos e as sertanejas se converteram de
trabalhadores rurais e artesãos, em operários fabris e o que Delmiro almejava com
suas ações “civilizatórias e educacionais”, para o que foi necessário, rastrear, dentro
da moldura construída para enquadrar o homem, o industrial e seu projeto, a
presença de outras referências. Assim, do olhar mitificado que insistia em informar
minha leitura sobre a presença do “Senhor da Pedra” no sertão alagoano, pude
enxergar que ele, para tocar sua indústria, necessitou transformar trabalhadores
rurais em operários adaptados a seus métodos e submetidos à autoridade do
industrial muitas vezes discricionária. Foi-me impossível, por outro lado, não ver que,
sobretudo as autoridades oficiais, que assumiam os negócios públicos – a res
publica - como coisas suas, fatos muito comuns no Brasil das oligarquias de então,
171
poderiam aprender alguma coisa de Delmiro, sobretudo na universalização do
ensino e no cuidado com o desempenho escolar das crianças.
Para a educação sem erro dos que estava a ele submetidos, valeu em muito
a construção da “cerca” por Delmiro, pois esta, enquanto afastava as perturbações
que eram deixadas “fora da cerca”, permitia a recriação da convivência “dentro da
cerca” como “fato social total” que, inclusive, segundo o que nos ensina Marcel
Mauss (2009), facilitava a ele, como facilita a nós pesquisadores, um olhar
globalizante sobre a vida e a cultura desenvolvida dentro do núcleo fabril da Pedra.
Com efeito, Delmiro, como os demais industriais da época, buscou gerir esse
grupo operário sem a interferência direta dos poderes – políticos e religiosos –
contando, paradoxalmente, com o beneplácito dos poderosos - que embora se
encarniçassem nas lutas pelo poder em facções antagônicas -, no entanto lhe
proporcionaram facilidades que iam desde a gestão autárquica do núcleo fabril, até à
renúncia fiscal e mesmo o ressarcimento de despesas feitas com a criação de meios
comuns como estradas, ainda que os destinos e os trajetos fossem ditados pelos
seus próprios interesses. Se desses saiu aquele que deu fim a Delmiro, sem eles o
projeto teria sido impossível.
Se Delmiro submeteu os sertanejos a um programa disciplinar que acentuava
as aptidões para o trabalho e desenvolvia hábitos regrados, tinha, na instituição
escolar um importante instrumento de “civilização”, seja para submissão ao controle
social, seja para propagação de ideias liberais republicanas, indispensáveis ao
desenvolvimento da indústria nascente. Sua ação educativa, sobretudo na
implantação e consolidação da Fábrica da Pedra, serviu como modelo de
desenvolvimento social e econômico até depois de sua morte, ao menos enquanto
estiveram à frente da fábrica aqueles ligados a ele pelo trabalho ou pelo sangue,
tendo a dinâmica social em torno da Fábrica de Linhas “Estrela” sido motivo de
espanto a tantos “viajantes” que tiveram oportunidade de conhecer a experiência,
avaliá-la e fazer sua divulgação.
Deste modo, a localização do núcleo fabril da Pedra, afastado da sede do
município, posto no meio das caatingas do São Francisco, mais a instituição do
arame, proporcionaram condições ideais para um forte e absoluto controle social de
172
Delmiro sobre seus moradores, para o que muito contribuiu a cultura coronelista do
meio, que lhe valeu, inclusive, o cognome de “coronel”. Assim, como se disse com
propriedade, na Pedra, inclusive “fora do arame”, Delmiro era a igreja, o Estado, a
polícia e o patrão, ao que acrescento, também, a consciência, a cultura, a escola e a
civilização.
Aos que tiveram a coragem de questionar os modos ásperos com que tratava
seus operários, Delmiro justificava dizendo que aquilo era indispensável enquanto as
novas gerações que estavam nas escolas não chegavam aos teares. Subterfúgio ou
não de um senhor todo-poderoso, o certo é que ele sabia do potencial da escola
como modelador de mentes e comportamentos, conforme nos ensina Émile
Durkheim (1983, p. 34 a 48), ao que se juntavam as outras formas extraescolares
como eram tratadas as crianças e os adolescentes, segundo também desse mesmo
pensador, estando, muitos daqueles jovens, já engajados no trabalho fabril.
Conforme concluí, a ação de Delmiro representava um conjunto de atos
ditados, em boa parte, pelo seu modo de perceber o sertão, o sertanejo, a República
e mesmo a Nação brasileira frente a seus projetos de industrial, ali naquele lugar e
no tempo em que se deu. Afinal, foi sob a aurora do Regime Republicano no Brasil,
que Delmiro montou a Fábrica de Linhas “Estrela”, frente às grandes resistências do
mundo das oligarquias e da política dos Governadores, que traziam dificuldades de
tornar efetivos seus ideais. Mas, a educação escolar era vista, como já referi, por
setores da sociedade brasileira, não só como democratização da leitura e da escrita,
mas revestida de profundo significado político-eleitoral, frente à universalização do
voto do letrado, tendo sido a escolaridade, pois, um trunfo utilizado por Delmiro para
navegar em meio a uma cartografia política faccionária, sobretudo no plano local,
que era ainda mais agravada por conta da situação geopolítica da Pedra.
Se Delmiro não foi, no seu discurso, um cruzado da República nos moldes
nacionais, ele o foi por inteiro nos modos de lidar com o dia a dia de sua indústria na
Pedra, até porque República e Indústria formavam um binômio desde os primórdios
da modernidade. Sobretudo os sucessores de Delmiro, como se pode ver nos
muitos exemplares do “Correio da Pedra”, transformaram-se em arautos do ideário
da república brasileira e seus dirigentes não mediam esforços para que a população
cultuasse os símbolos que identificavam o novo regime.
173
Se Delmiro Gouveia não propagava aos quatro ventos a instrução ou a
escolarização, juntamente com os novos modos de se postar diante da vida e do
trabalho como instrumentos regeneradores, de contribuição para a reconstrução
nacional, ele praticou aplicadamente aqueles ideais, colocando em prática o
liberalismo autoritário que costuma caracterizar os regimes modernizadores. O fato é
que o “self-made” Delmiro Gouveia, ainda que não fosse bacharel – na verdade era,
do ponto de vista da trajetória escolar, sub-escolarizado -, sabia o valor da instrução
primária que recebera do Doutor Meira, seu padrasto, e que a vida acrescentara
generosamente no mundo do trabalho de que participara, e nas inúmeras viagens à
Europa e aos Estados Unidos da América.
O desenvolvimento de uma mentalidade calcada em “moldes civilizados” na
materialização e no êxito do seu projeto pessoal, por conta da primazia do perfil de
homem pragmático que teria orientado sua ação enquanto industrial e, bem antes,
como negociante experiente e obstinado pelo sucesso, foi um desafio que Delmiro
primeiro impôs a si mesmo, para depois impor aos que se envolveram em sua
empreitada industrial. Desse modo, ele contribuiu decisivamente no plano do
imaginário para que o sertão brasileiro deixasse de representar apenas o hinterland
da Nação Brasileira, visto como espaço de barbárie, resistente ao moderno,
afastado do poder público, em contraponto ao litoral, lugar do moderno e da
civilização, para avançar no processo de integração na paisagem nacional como
espaço viável ao novo.
Se, por meio dessa leitura, é possível afirmar que a decisão de Delmiro em
empreender um negócio moderno e de natureza urbana nos confins das Alagoas
não teria representado um ato heroico de um visionário, como muitos dos que tratam
do tema parecem entender, até porque ele foi parar ali contra sua vontade, dá,
contudo, para dizer que, mesmo tendo representado a ação calculada de quem,
sendo, simultaneamente, sertanejo e “civilizado”, sabia exatamente o que estava
fazendo, nem por isso deixou de representar uma lição a ser inscrita na mentalidade
nacional de que o sertão e o sertanejo não são produto da degeneração étnica ou
mesológica, mas, espaço e povo aptos a todos os misteres da vida, podendo,
inclusive, os sertanejos serem letrados e capazes de atuar numa indústria de
beneficiamento de algodão de caráter moderno.
174
Por fim, no que diz respeito à educação escolar, é indispensável ressaltar
que, se Água Branca, onde se localizava o núcleo da Pedra, em 1920, com a
segunda menor população entre os municípios sertanejos, contava com o maior
número de escolas do sertão de Alagoas; isso so toma sentido de considerarmos
que, de um total das 12 escolas existentes no município, metade estava localizada
na Pedra, com uma em cada rua do núcleo fabril, enquanto outros municípios
sertanejos não tinham, sequer, o mesmo número de escolas desse núcleo.
No trajeto da atuação de Delmiro em Alagoas – nos anos que vão da
construção de Angiquinho até o assassinato do “Senhor da Pedra” -, foi possível
perceber que, no cenário alagoano e mesmo nacional, a Pedra transformou-se,
numa “ilha em pleno sertão”. Por meio de um processo educacional escolar e não
escolar, chegou a efetivar a alfabetização de uma população que, em quase cem por
cento, encontrava-se nas escolas, realidade que não se viu ou se vê ainda hoje em
nenhum outro município sertanejo.
Aqui, tomando tudo isso e buscando, mais do que uma conclusão, abrir a
possibilidade de novas questões focadas na educação escolar e não escolar para a
compreensão desse fenômeno tão estudado e ainda com tanto a descobrir e,
esperando haver contribuído para avançar em um aspecto da trajetória de Delmiro
Gouveia na vila da Pedra - o educacional -, ponho um ponto provisoriamente final
neste trabalho, enquanto aguardo novos estudos que venham a se somar aos tantos
e tão alentados trabalhos já escritos sobre esse empreendedor nordestino que fez,
ainda que sem escolher, do sertão sanfranciscano de Alagoas um lugar que
continua objeto de interesse intelectual, político e social.
175
REFERÊNCIAS
AGUIAR, José Marcio de. Coletânea da legislação federal do ensino: da reforma
Benjamin Constant á reforma Darcy Ribeiro, 1891-1996. Belo Horizonte: Lâncer,
1997. v. 1.
ALAGOAS. Decreto n0. 499 de 20 de setembro de 1910. Isenta de impostos a Cia.
Agro Fabril Mercantil. 1901/1910. Coleção de Leis e Decretos do Estado de
Alagoas, Maceió, v. 1, p. 1901-1910. (Coletânea Diária Oficial do Estado de
Alagoas).
______. Decreto n0. 503 de 30 de novembro de 1910. Concede o direito de usar por
90 anos a força hidráulica do rio São Francisco, 1901/1910. Coleção de Leis e
Decretos do Estado de Alagoas, Maceió, v. 1, p. 1901-1910. (Coletânea Diária
Oficial do Estado de Alagoas).
______. Governo Pedro Paulino da Fonseca (1889-1890). Relatório. Maceió, 1890.
______. Governo Euclides Vieira Malta (1990-1903). Relatório. Maceió, 1901.
______. Governo Antonio Máximo da Silva Rego (1905-1906). Relatório. Maceió,
1906.
______. Governo Euclides Vieira Malta (1906-1909). Relatório. Maceió, 1907.
______. Governo Clodoaldo da Fonseca (1912-1915). Relatório. Maceió, 1913.
______. Governo João Baptista Accioly Júnior ( 1915-1918). Relatório. Maceió,
1915.
______. Governo José Fernando de Barros Lima (1918-1920). Relatório. Maceió,
1920.
ALBUQUERQUE, Ulisses Lins de. Um sertanejo e o sertão. 2. ed. Rio de Janeiro:
J. Olympio; Brasília, INL, 1976.
ALTAVILA, Jayme de. História da civilização das Alagoas. 8. ed. rev. e atual.
Anotações de Moacir Medeiros de Sant’Ana. Maceió: EDUFAL, 1988.
ALMEIDA, Luis Sávio de; SILVA, Amaro Hélio Leite da. (Org.). Índios no nordeste:
etnia, política e história. Maceió: EDUFAL. 2008. (Índios no Nordeste: temas e
problema, v. 10)
ALVES, Luiz Nunes. A vida de Delmiro Gouveia em verso. Campina Grande:
Universidade Federal da Paraíba, 1979.
ANDRADE, Fernando Antonio Gomes de. (Org.) Memórias das Alagoas. Maceió:
Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, 2009.
176
ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o homem no nordeste. 3. ed. rev. e atual.
São Paulo: Brasiliense, 1973.
ANDRADE, Mário de. Os filhos da Candinha. Rio de Janeiro.: Agir: 2008.
ANTUNES, Ricardo. Da pragmática da especialização fragmentada à pragmática da
liofilização flexibilizada: as formas da educação no modo de produção capitalista.
Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Londrina, v. 1, n.1, p. 25-33, jun.
2009.
ARARIPE, J. C. Alencar. A glória de um pioneiro: a vida de Delmiro Gouveia. Rio
de Janeiro: O Cruzeiro, 1965.
ASSIS Chateaubriand. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/assis_chateaubriand>. Acesso em: 11 fev. 2012.
BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de. ABC das Alagoas: dicionário
biobibliográfico, histórico e geográfico das Alagoas. Brasília, DF: Editora do Senado
Federal, 2005. 2. v. (Edições do Senado Federal, v. 62-A; v. 62B).
BARTELT, Dawid Danilo. Sertão, república e nação. Tradução de Johnannes
Krestschmer; Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: EDUSP, 2009.
BARREIRA, Cesar. Trilhos e atalhos do poder: conflitos sociais no sertão. Rio de
Janeiro: Rio Fundo, 1992.
BARTOLOMEU, Floro. Juazeiro e o padre Cícero: depoimento para a história.
Fortaleza: Editora da UFC, 2010.
BLOC, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, o oficio do historiador.
Tradução de André Telles; prefácio de Jacques Le Goff; apresentação a edição
brasileira de Lilia Moritz Schwarcz, Rio de Janeiro: J. Zahar, 2001.
BONFIM, Luiz Ruben Ferreira de Alcântara. Estrada de ferro Paulo Afonso: 18821964. Paulo Afonso: Graf Tech, 2001.
BRANDÃO, Francisco Henrique Moreno (Org.). O centenário da emancipação de
Alagoas. Maceió: Catavento, 2004.
BRANDÃO, Octávio. Delmiro Gouveia na indústria nacional: leitura. Revistas de
Arte e Literatura, n. 52, p. 25, mar. 1962.
BURKE, Peter. A escola dos annales: 1929-1989? A revoluçao francesa da
historiografia. São Paulo: UNESP, 1992.
______. O que é história cultural? Tradução de Sérgio Góes de Paula. Rio de
Janeiro: J. Zahar, 2005.
177
CAMPELLO DE SOUZA, Maria do Carmo. O processo político-partidário na primeira
república. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Brasil em Perspectiva. 7. ed. São
Paulo: DIFEL, 1976.
CARDOSO, Fernando Henrique et al. O Brasil republicano: estrutura de poder e
economia (1889-1930). 8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. t. 3, v. 1.
(História geral da civilização brasileira).
_______. et al. O Brasil republicano: sociedade e instituições (1889-1930). 4. ed.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. t. 3, v. 2. (História Geral da civilização
brasileira).
CORREIO DA PEDRA: Jornal. Vila da Pedra, coleção completa, 1918-1930.
CASCUDO, Luís da Câmara. Viajando o sertão. 4. ed. São Paulo: Global, 2009.
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que
não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
CAVALCANTE, Maria Juraci Maia (Org.). História da educação comparada:
discursos, ritos, e símbolos da educação popular, cívica e religiosa. Fortaleza:
Editora da UFC, 2001.
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. Polícia Militar de Pernambuco: origem, evolução e
história. Recife: Ed. do Autor, 2008.
CAVALCANTI, Plínio. A chanan sertaneja da pedra: scriptos sobre a obra realizada
por Delmíro Gouveia no nordeste do Brasil: Rio de Janeiro, 1917.
CHATEUAUBRIAND, Assis. Resposta a Canudos: reportagens e ensaios. Recife:
COMUNICARTE; Brasília, DF: Fundação Assis Chateaubriand, 1990.
CIRANO, Marcos; ALMEIDA, Ricardo; MAURICIO, Ivan. Cadernos do Nordeste,
Recife, ano 1, n. 1. abr. 1977.
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no sertão. Campinas:
Papirus, 1998. (Oficio de arte e forma).
COSTA, Ana Rita Firmino. Orientações metodológicas para produção de
trabalhos acadêmicos. 8. ed. rev. e ampl. Maceió: EDUFAL. 2010.
COSTA. Bartolomeu. Juazeiro e o Padre Cícero: depoimento para a história.
Fortaleza: Editora da UFC, 2010.
CRAVEIRO COSTA, João. Instrução pública e instituições culturais de Alagoas
& outros ensaios. Coordenação editorial, apresentação, notas biobibliográficas de
Elcio Gusmão Verçosa; Maria Loiola das Graças Madeira. Maceió : EDUFAL, 2011.
______. História das Alagoas: resumo didático. Maceió: SERGASA, 1983.
178
COSTA, Maria Cledilma. A educação no médio sertão alagoano: a escolarização
em Santana do Ipanema e as implicações da formação docente na educação
escolar local. 2011. 136 f. Dissertação (Mestrado em Educação Brasileira) –
Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2011.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos. 39. ed. Rio de Janeiro:
F. Alves, 1997.
DANTAS, Paulo. Delmiro Gouveia e outros sertões. São Paulo: Populares, 1978.
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo de. Indústria, trabalho e cotidiano: Brasil, 1880
a 1930. São Paulo: Atual, 1991. (História em documentos).
DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE ALAGOAS, Maceió, n. 43, 1 mar. 1984.
DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. Tradrução de Lourenço Filho. São
Paulo: Melhoramentos, 1955.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Tradução da versão inglesa: Ruy
Jungmann; revisão, apresentação e notas de Renato Jeanine Ribeiro. Rio de
Janeiro: J. Zahar, 1993. 2. v.
FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1988.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro.
2. ed. rev. e auma. Porto Alegre: Globo; São Paulo: Editora da USP, 1975.
FARIAS, Maria Aparecida. O romper do silêncio: a trajetória da educação escolar
em Arapiraca (AL), de seu povoamento até a década de 1950. 2007. 122 f.
Dissertação (Mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de Alagoas,
Maceió, 2007.
FAUSTO, Boris. Pequenos de história ensaios da república. Cadernos CEBRAP,
São Paulo, n. 10, 1973.
FÁVARO, Osmar (Org.). A educação nas constituintes brasileiras (1823-1988).
3. ed. Campinas: Autores Associados, 2005.
FERREIRA, Vera. Antonio Amaury. De Virgolino a Lampião. 2. ed. Revisão de
Cristine Arndt de Santana; Adilson Oliveira Almeida. Aracaju: Sociedade Gangaço,
2009.
FORTUNATO, Maria Lucinete. O conceito de coronelismo e a imagem do
coronel: de símbolo a simulacro do poder local. Campina Grande : EDUFCG, 2008.
FREYRE, Gylberto. O velho Félix e suas memórias de um Cavalcanti. Rio de
Janeiro: J. Olympio, 1959.
______. Oliveira Lima. Don Quixote gordo: imprensa universitária. Recife:
Universidade Federal de Pernambuco, 1968.
179
FUNDAÇÃO ABRAS. Cinqüenta anos de supermercados no Brasil. São Paulo:
Informe Comunicação, 2002.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Tradução de Raul Fiker.
São Paulo : Editora da UNESP, 1991. (Biblioteca básica).
GÓES, Lauro. Recomendações de um passado relativamente bem vivido, mas
que jamais desejaríamos fazê-lo reviver: 1914-1917. Recife, 1962. manuscritos
GONÇALVES, Alberto Cosme. Delmiro Gouveia: era uma vez no sertão... Ribeirão
Preto: Fábrica dos Sonhos, 2010.
GONDRA, Jose Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação
escolar na corte imperial. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004.
______; SCHELER, Alessandra. Educação, poder e sociedade no império
brasileiro. São Paulo: Cortez, 2008. (Biblioteca básica da história da educação
brasileira).
GONDRA, Jose Gonçalves; SCHNEIDER, Omar. (Org.). Educação e Instrução nas
províncias e na corte imperial: Brasil, 1822-1889. Vitória: Universidade Federal do
Espírito Santo, 2010. (Horizontes da pesquisa em história da educação).
Gouveia, Delmiro. Livro: Atas da Cia. Agro Fabril Mercantil. [S.l, 19--.]. manuscritos.
______. Livro de registros de despesas de Noé, Noêmia e Maria Augusta:
(1918-1923). [S.l, 19--.]. manuscritos.
GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel: as concepções de Estado em
Marx, Engels, Lênin e Gramsci. 8. ed. Porto Alegre: L&PM, 1987.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1993.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE ALAGOAS: dados históricos. Maceió,
2008.
______: de 1872 a 1931. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas,
Maceió, IHGAL, v. 47, 2005-2009. CD-ROOM.
______. Viagens do Exmo. Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior. 2. ed.
Maceió: Grafmarques, 2010.
JAMBO, Arnoldo. Apresentação. In: CHATEUAUBRIAND, Assis. Resposta a
Canudos: reportagens e ensaios. Recife: COMUNICARTE; Brasília: Fundação Assis
Chateaubriand, 1990.
180
LAGE, Nilson. Delmiro Gouveia: seu crime foi plantar a fartura no sertão. Rio de
Janeiro: O. Pierre, 1981.
LE GOFF, Jacques, Uma vida para a história: conversações com Marc Heurgon.
Tradução de Jose Aluysio Reis de Andrade. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Editora
da UNESP, 2007.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime
representativo no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
LIMA JÚNIOR, Felix Delmiro Gouveia: o mauá do sertão alagoano. 2. ed. Maceió:
Departamento Estadual de Cultura; Federação do Comércio do Estado de Alagoas,
1983. (Vidas e Memórias).
______. Maceió de outrora: obra póstuma. Organização de Rachel Rocha. Maceió:
EDUFAL, 2001.
LIMA, Laudirege Fernandes. Merenda Escolar: direito á alimentação e fruição dos
direitos á educação. Maceió : EDUFAL, 2009.
LIMA, Manuel de Oliveira. Um passeio a Paulo Afonso: obra seleta. Organização de
Barbosa Lima Sobrinho. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971.
(Xomentário, 3)
LIMA, Pedro Motta. Fábrica da pedra. Rio de Janeiro: Itambé Sociedade Anônima
1962.
LINS, Adalberto Cavalcanti. O ninho da águia: saga de Delmiro Gouveia. Maceió:
SERGASA, 1988.
MANUEL de Oliveira Lima. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/manuel_de_oliveira_lima>. Acesso em 11 fev. 2012.
MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e empreendedores: a saga do
desenvolvimento do Brasil. São Paulo. Editora da USP; Saraiva, 2009.
MARROQUIM, Adalberto. Terra das Alagoas. Roma: Maglione & Strini, 1922.
(edição fac-similar Brasil, 2000).
MARTINS, F. Magalhães. Delmiro Gouveia: pioneiro e nacionalista. 2. ed. rev. e
atual. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília, DF: INL, 1979. (Retratos do
Brasil, v. 17).
MAUSS, Marcel. Ensaios de sociologia. Tradução de Luis João Gaio; J. Guinsburg.
São Paulo: Perspectiva, 2009. (Estudos, 47)
______. Antropologia. Organização da coletânea: Roberto Cardoso de Oliveira.
São Paulo: Ática, 19
______. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU; EDUSP, 1974.
181
MAYNARD, Dilton Candido Santos. O senhor da pedra: os usos da memória de
Delmiro Gouveia (1940-1980). Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Departamento de História, 2008.
MEIHY, Jose Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. São Paulo: Loyola, 2005.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no
nordeste do Brasil. Prefacio de Gilberto Freyre. São Paulo: A Girafa, 2004.
______. Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação
ambiental. Prefacio de Fernando de Mello Freyre. 2. ed. ampl. Recife: CHESF;
FUNDAJ; Massangana, 1998.
______.Quem foi Lampião. Recife: Zürich Stähli, 1993.
______. Que foi a guerra total de Canudos. Recife: Zürich Stähli,1997.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Delmiro Gouveia: pioneiro da energia
elétrica. Recife: CEPE, 2003.
MELO, Josemir Camilo de. Ferrovias inglesas e mobilidade social no Brasil.
Campina Grande: EDUFCG, 2007.
MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2008.
MENEZES, Hidelbrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Apresentação de Paulo
Cavalcanti. Recife: CEPE, 1991.
MENEZES, Olympío de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto Joaquim
Nabuco de Pesquisas Sociais, 1963.
MOTA, Mauro. Quem foi Delmiro Gouveia? São Paulo: Arquimedes, 1967. (Para
todos, 2)
______. A “estrela” de pedra: Delmiro Gouveia, civilizador de terras, águas e gentes.
Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Recife, n. 9, 1961.
NABUCO, Joaquim. A abolição e a república. Apresentação de Manuel Correia de
Andrade. Recife: Editora da UFPE, 1999.
NAGLE, Jorge. Educação e sociedade na primeira república. São Paulo: EPU;
Rio de Janeiro, Fundação Nacional de Material Escolar, 1974, 1976
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco. Delmiro Gouveia: o empreendedor. Recife:
Gráfica Nordeste, 2001.
______. Delmiro Gouveia: vida e obra. Recife: Gráfica Nordeste, 1998.
182
NINA Rodrigues. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/nina_rodrigues>.
Acesso em: 19 fev. 2012.
NOGUEIRA, Luiz (Org.) Coletânea de falas, relatórios e mensagens provinciais
de Alagoas: 1855-1930. Maceió, [19--]. 2. v.
NUNES, Luis Alves. A vida de Delmiro Gouveia em verso. Campina Grande:
Universidade Federal da Paraíba, 1979.
OLIVEIRA, Jorge. Eu não matei Delmiro Gouveia: o maior erro judiciário do Brasil.
Maceió : Sergasa, 1984.
PEDRO II, Imperador do Brasil, 1825-1891. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe,
Alagoas, 1859-1860. Prefácio e notas de Lourenço Luis Lacombe. 2. ed. Rio de
Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2003.
PEIXOTO, Adão José (Org.). Filosofia, educação e cidadania. Campinas: Alínea,
2001.
PEREIRA, Luis; FORACCHI, Marialice M. (Org.). Educação e sociedade: leituras
de sociologia da educação. 11. ed. São Paulo: Nacional, 1983.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. 2. ed. Belo Horizonte:
Autentica, 2005. (História &...Reflexões, 5).
PILETTI, Nelson. História da educação no Brasil. 6. ed. São Paulo: Ática, 2003.
(Educação).
PINTO, Estevão. A Associação Comercial de Pernambuco. Recife: Editora e
Grafica Jornal do Comércio, 1987. Edição fac-similar do livro comemorativo do seu
primeirpo centenário (1839-1939).
PORTO, José da Costa. Os tempos de Rosa e Silva. Recife: UFPE. 1970.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O coronelismo numa interpretação sociológica.
In: CARDOSO, Fernando Henrique. et al. O Brasil republicano: estrutura de poder
e economia (1889-1930). 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
RAMOS, Graciliano. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios. Maceió:
Imprensa Oficial, 19--.
______. São Bernardo. Posfácio de Goldofredo de Oliveira Neto. 88. ed. rev. Rio de
Janeiro: Record, 2009.
______. Vidas Secas. 79. ed. Rio de Janeiro ; São Paulo: Record, 2000.
______.Viventes das Alagoas: quadros e costumes do Nordeste. Pósfacio de
Tristão de Athayde, ilustrações de Emanuel Araújo, 15. ed. Rio, São Paulo: Record,
1992.
183
RIBEIRO, Maria Luisa Santos. História da educação brasileira: a organização
escolar. 17. ed. rev. e ampl. Campinas: Autores Associados, 2001. (Memória da
educação).
ROCHA, Geraldo. O rio São Francisco: fator precípuo da existência do Brasil. 4. ed.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004.
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: o pioneiro de paulo afonso. Maceió. 2. ed. 1963.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1986.
ROSADO, Vingt-Un. Delmiro Gouveia e Mossoró. Mossoró: Fundação Guimarães
Duque; Fundação Vingt-un Rosado, 2001. (Coleção Mossoroense, Série C, 1179).
SÁ, Antonio Fernando de Araújo. Combates entre história e memória. São
Cristóvão: Editora da UFS; Aracaju: Fundação Oviedo Teixeira, 2005.
SÁ, Antonio Fernando de Araújo; BRASIL, Maria Vanessa (Org.). Rio sem
História?: leituras sobre o Rio São Francisco. Aracaju: FAPESE, 2005.
SALDANHA, Alberto et al. (Org.). A indústria têxtil, a classe operária e o PCB em
Alagoas – Maceió: EDUFAL, 2011.
SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Bibliografia anotada de Delmiro Gouveia, 19171994. Precedido do Ensaio biográfico “Delmiro Gouveia, o precursor da CHESF”.
Recife: Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, 1996.
SANTOS, Adolpho. Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.
Recife, 1947. mimeo.
SAPUCAIA, Antonio. O legendário Costa Rego. Maceió: EDUFAL, 2000.
SARNO, Geraldo. Cadernos do sertão. Salvador: Núcleo de Cinema e Audiovisual,
2006.
SAVIANI, Dermeval. História das idéias pedagógicas no Brasil. 2. ed. Campinas:
Autores Associados, 2008. (Memória da educação).
______. et al. O legado educacional do século XIX. 2. ed. rev. e ampl. Campinas:
Autores Associados, 2006. (Educação Contemporânea).
______. et al. O legado educacional do século XX no Brasil. 2. ed. Campinas :
Autores Associados, 2006. (Educação Contemporânea).
SENNA, Orlando. Coronel Delmiro Gouveia. Roteiro do filme: ______; Geraldo
Sarno. Rio de Janeiro: Codecri, 1979. (Pasquim, v. 53).
184
SETTON, Maria da Graça Jacintho. A socialização como fato social total: notas
introdutórias sobre a teoria do habitus. Revista Brasileira de Educação, v. 14 n. 41
maio/ago. 2009. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v14n41/v14n41a08.pdf>. Acesso em: 4 jan. 2012.
SILVA, Amaro Hélio da. Serra dos perigosos: guerrilha e índio no sertão alagoano.
Maceio : EDUFAL, 2007.
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. Ousadia no nordeste: a saga empreendedora de
Delmiro Gouveia. Maceió: FIEA; GIJS. 2007.
SILVEIRA, Wagner Meirelles. Gonzaga e o violão: do cangaço a universidade.
2009. 115 f. Dissertação ( Mestrado em Música ) - Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro, 2009.
SOUZA, Josefa Adriana C. Ferro. A trajetória da educação escolar em Palmeira
dos Índios (AL), ontem e hoje: o caso do colégio Humberto Mendes. 2010. 145 f.
Dissertação. (Mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de Alagoas,
Maceió, 2010.
STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena Camara. (Org.). Histórias e
memórias da educação no Brasil. 3. ed. Petropólis: Vozes, 2009. v. 3.
TENÓRIO, Douglas Apratto, Capitalismo e ferrovias no Brasil. 2. ed. Curitiba: HD
Livros, 1996.
______. Metamorfose das oligarquias. Maceió: EDUFAL., 2009.
______. A tragédia do populismo: o impeachment de Muniz Falcão. 2. ed. Maceió:
2007.
TEIXEIRA, Gilmar. Quem matou Delmiro Gouveia? Paulo Afonso: Graf Tech,
2011.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS. Centro de Educação. Decretos
estaduais sobre educação: 1925-1930. Maceió, [19--]
THOMPSON, Edward Palmer. Tempo de trabalho e capitalismo industrial:
costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.
VASCONCELOS, Caio Mário Meira de. O habeas corpus de Delmiro Gouveia. Rio
de Janeiro, 1974.
VASCONCELLOS, Hélio Rocha Cabral de. Coronéis do sertão e sertão do São
Francisco alagoano. Maceió, 2005.
VERÇOSA, Elcio de Gusmão. Cultura e educação nas Alagoas: história, histórias.
Prefácio de Cícero Péricles de Carvalho; apresentação de Maria Lucia Montes. 4.
ed. Maceió: EDUFAL, 2006.
185
VERÇOSA, Elcio de Gusmão. Existe uma cultura alagoana? Maceió: Catavento,
2002.
______; CORREIA, Mailza da Silva (Org.). Escritos sobre a educação alagoana:
compêndios, periódicos, manuscritos e práticas educativas (século XIX, XX e XXI). –
Maceió: EDUFAL, 2011.
186
ANEXOS
187
ANEXO A – Decreto nº 520 (12 agosto de 1911, p. 81).
(Continua)
188
ANEXO A – Decreto nº 520 (12 agosto de 1911, p. 82).
(Continuação)
189
ANEXO A – Decreto nº 520 (12 agosto de 1911, p. 83).
(Conclusão)
190
ANEXO B – Decreto nº 499 (29 de setembro de 1910, p. 97).
(Continua)
191
ANEXO B – Decreto nº 499 (29 de setembro de 1910, p. 98).
(Conclusão)
192
ANEXO C- Decreto nº 503 (30 de novembro de 1910, p. 503).
193
ANEXO D – INDICE EMENTARIO DA LEGISLAÇÃO ESTADUAL SOBRE O
ENSINO PUBLICO – 1890 A 1930
(Continua)
Natureza dos
atos
Numeração
Data
Sumula dos assuntos
Decreto
Decreto
5
26
Dia
28
21
Mês
Fevereiro
Junho
Ano
1890
1890
Decreto
Lei
89
26
12
25
Março
Maio
1891
1892
Decreto
12
9
Dezembro
1892
Lei
Decreto
40
37
6
20
Junho
Novembro
1893
1893
Decreto
69
4
Outubro
1894
Decreto
Lei
Decreto
Decreto
Lei
Lei
86
98
103
110
138
187
21
31
20
25
15
8
Março
Julho
Dezembro
Janeiro
Julho
Junho
1895
1895
1895
1896
1896
1897
Lei
Lei
Decreto
Decreto
Lei
191
192
144
151
202
14
14
3
24
2
Junho
Junho
Agosto
Novembro
Junho
1897
1897
1897
1898
1898
Lei
211
3
Junho
1898
Decreto
Lei
Lei
157
239
240
12
20
22
Julho
Maio
Maio
1898
1899
1899
Lei
Lei
241
257
22
31
Maio
Maio
1899
1899
Lei
Decreto
283
1741º
18
6
Junho
Fevereiro
1900
1900
Decreto
Decreto
Resolução
Decreto
Decreto
Lei
Decreto
Resolução
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Resolução
1777º
186
315
240
254
382
312
476
401
404
411
413
528
9
8
12
29
15
24
1
20
23
28
19
29
13
Fevereiro
Junho
Junho
Outubro
Setembro
Maio
Setembro
Junho
Novembro
Fevereiro
Março
Abril
Junho
1900
1900
1901
1901
1902
1904
1904
1906
1906
1907
1907
1907
1908
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
444
517
522
532
533
545
12
4
21
4
14
19
Novembro
Junho
Agosto
Dezembro
Dezembro
Fevereiro
1908
1911
1911
1911
1911
1912
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
557
601
744
749
787
815
8.188
884
895
997
2
11
5
13
8
28
20
7
31
28
Abril
Novembro
Janeiro
Janeiro
Setembro
Junho
Agosto
Fevereiro
Maio
Junho
1912
1912
1915
1915
1915
1917
1917
1919
1921
1923
Decreto
1.009
12
Julho
1923
Decreto
1.015
10
Junho
1924
Lei
Lei
1.020
1.023
23
23
Junho
Junho
1924
1924
Decreto
1.028
15
Janeiro
1924
Lei
1.043
22
Maio
1925
Reforma da instrução primaria e secundaria do Estado, provisoriamente.
Reforma da instrução publica, por não corresponder ás exigências do serviço a
reforma de 26 de Fevereiro.
Institue o Pedagogico e dispõe sobre o ensino primário.
Autoriza o Governador e reorganizar a instrução publica e dá outras providencias
relativas ao assunto.
Reorganiza a Instrução Publica, conforme autorização contida na Lei n. 26, de 25 de
Maio.
Dispõe a cerca do diretor, professores e empregados do Liceu Alagoano.
Harmoniza o Regulamento do Liceu Alagoano com o do Ginasio Nacional, na parte
relativa á organização das comissões julgadoras dos exames finais.
Dá nova organização á Instrução Publica. Este decreto, porem, foi anulado pelo do n.
83, de 31 de Dezembro do mesmo ano, que declarou como insubsistente todos os
atos originados dos mesmos.
Aprova o Regimento Interno das Escolas Modelos.
Dá nova organização á Instrução Primaria.
Dá novo regulamento á Instrução Publica, nos termos da Lei n. 98, de 31 de Julho.
Providencia sobre o custeio de cadeiras do ensino primário creadas pelos Municipios.
Autoriza a organização do curso secundário de Penedo.
Institue o ensino livre das matérias do Curso Normal, torna dependente do concurso o
provimento das cadeiras de instrução primaria e dá outras providencias.
Crêa uma escola de agrimensura anexa ao Liceu Alagoano.
Crêa os lugares de Diretor e Amenuense no Liceu Alagoano.
Dá novo regulamento do Curso de Ciências e Letras do Liceu Alagoano.
Dá regulamento ao Curso de Agrimensura anexo ao Liceu Alagoano.
Autoriza o Governador a reorganizar a Instrução Primaria, dividindo o ensino em
oficial e subvencionado.
Autoriza o Governador a adaptar o Curso de Ciências e Letras do Liceu Alagoano á
ultima reforma do Ginásio Nacional.
Dá nova reorganização ao Curso de Ciências e Letras do Liceu Alagoano.
Restaura o Liceu de Artes e Ofícios.
Suprime o ensino de Ginastica, esgrima, natação e exercícios calistenicos do Curso
Normal do Liceu Alagoano.
Institue um Curso Normal no Liceu de Penedo.
Autoriza o Governador a harmonizar os estudos do Curso de Agrimensura do Liceu
Alagoano, com o curso de Agrimensura da Escola Politecnica e promove a
equiparação daquele a este Curso.
Autoriza a reforma da Instrução Publica primaria e secundaria.
Suprime o ensino de Historia da Filosofia e crêa a cadeira de Lógica no Liceu
Alagoano.
Reorganiza o Liceu de Artes e Ofícios.
Aprova o Regimento Interno do Liceu de Artes e Ofícios.
Autoriza o Governador a dar nova organização á Instrução Publica.
Dá novo regulamento á Instrução Publica.
Faz aditamentos ao Decreto n. 240, de 29 de Outubro do mesmo ano.
Autoriza a reforma do Regulamento da Instrução Publica.
Dá novo regulamento a Instrução Publica.
Autoriza a reforma da Instrução Publica.
Dá novo regulamento á Instrução Publica.
Fixas as entrâncias dos professores de instrução primaria.
Aprova o regulamento do Caixa Escolar.
Aprova o regulamento interno das Escolas Publicas Primarias.
Suprime as cadeiras de Latim e Historia Natural do Liceu de Penedo e dispõe sobre o
aproveitamento dos respectivos lentes.
Suprime o Liceu de Penedo.
Dá novo regulamento ao ensino secundário do Liceu Alagoano.
Altera o novo regulamento do ensino secundário.
Desanexa a cadeira de Pedagogia e de Educação Civica, da Escola Normal.
Crêa as cadeiras de Francês e Geografia na cidade de Penedo.
Determina o numero de cadeiras de instrução primaria para os municípios dos
Estado.
Restabelece no Liceu Alagoano o curso de Ciências e Letras.
Aprova o novo regulamento da Instrução Publica Primaria, Secundaria e Normal.
Crêa institutos e escolas profissionais para ambos os sexos.
Extingue o lugar de Inspetor Escolar.
Dá novo regulamento á Instrução Publica.
Dá novo regulamento á Instrução Publica.
Restaura o lugar do Inspetor Escolar.
Crêa no Grupo Escolar “Diegues Junior” uma cadeira de trabalhos manuais.
Autoriza ao Governador a crear uma Escola de Agronomia.
Manda observar o regulamento interno e o programa de ensino dos Grupos
Escolares.
Considera efetivos nos grupos escolares todos os professores de entrância que neles
servem em comissão.
Autoriza o Governador a despender até a quantia de 150 contos com a construção de
um edifício para um grupo escolar que se denominará Barão de Penedo, na cidade
de Penedo.
Autoriza a construção de um edifício para um grupo escolar na cidade de Leopoldina.
Autoriza a construção de um edifício para um grupo escolar na cidade de S. José da
Lage.
Crea um grupo escolar em cada uma das cidades – Passo de Camaragibe, S. Luís e
Paraio.
Crea no Liceu Alagoano as cadeiras de Instrução de Moral e Cívica, Literatura
Brasileira e das Línguas Latinas, Semologia e uma 2ª de Português.
194
ANEXO D – INDICE EMENTARIO DA LEGISLAÇÃO ESTADUAL SOBRE O
ENSINO PUBLICO – 1890 A 1930
(Conclusão)
Decreto
1.099
6
Fevereiro
1925
Decreto
1.138
18
Setembro
1925
Decreto
Decreto
Decreto
Decreto
1.140
1.164
1.165
1.259
19
10
10
3
Setembro
Fevereiro
Fevereiro
Novembro
1925
1926
1926
1928
Decreto
Decreto
1.279
1.293
9
21
Janeiro
Fevereiro
1929
1929
Decreto
1.403
25
Outubro
1930
Decreto
Decreto
Decreto
1.409
1.411
1.412
5
5
5
Novembro
Novembro
Novembro
1930
1930
1930
Dá providencias sobre o provimento da cadeira de Musica e do cargo de inspetor de
Alunos da Escola Normal.
Suprime as cadeiras vagas de Italiano e Francês Pratico do Curso Comercial do
Liceu Alagoano e extingue o referido curso.
Dá novo regulamento á Instrução Publica.
Crea o Grupo Escolar “Cincinato Pinto”, na capital.
Crea a cadeira de italiano no curso ginasial do Liceu Alagoano.
Altera o Regulamento da Instrução Publica que baixou um Decreto n. 1.140, de 19 de
Setembro de 1925.
Crea o Departamento Geral de Instrução Publica e de outras providencias.
Desanexa as cadeiras de Geografia e Historia do Brasil do Liceu Alagoano, as de
Cosmografia e Corografia do Brasil anexa a ultima á primeira a crea a cadeira de
Cosmografia do mesmo Liceu.
Suprime a cadeira de Português Historia e Literatura Portuguesa e Brasileira da
Escola Normal.
Crea a Inspetoria Tecnica do Ensino.
Suprime as Juntas Escolares.
Crea em município do Estado o cargo de Fisica e Ensino.
195
ANEXO E
Dados referentes às escolas, professores, alunos (as), classes, conceitos nas escolas do
núcleo fabril da Pedra em 1925. Essas foram as duas primeiras escolas a realizarem os
exames finais no núcleo fabril de Pedra, sendo que as escolas que os realizaram
posteriormente não tiveram seus resultados divulgados no “Correio da Pedra”..
Professora
Escola
Professora
Escolas 13 de
subvencionada Maio
D. Leopoldina
Auta da Luz
Classe
Alunos (as)
2º. Grau
Maria do Socorro
Maria das Dores
Maria dos Prazeres
Nota
Conceito
Distincção
Distincção
Distincção
1º Grau
Maria Soares
Rosa Maria
Felisdora Araujo
Plenamente
Plenamente
Plenamente
Classe
de Francisca Conceição
Adiantamento Analia Celestino Maria
Alves
Maria das Mercês
Professora
Escola José de 2º. Grausubvencionada Alencar
D.
Julia
Bandeira
Rodrigues
1º. Grau
Distincção
Distincção
Distincção
Nair de Assis
Antonia Barauna
Plenamente
Plenamente
Virginia Santos
Olivia Ferreira Pontes
Laura Maria
Vasconcelos
Distincção
Distincção
Distincção
Maria José Ribeiro
Laura Bandeira Nunes
Ritta Gomes Barbosa
Distincção
Distincção
Distincção
2ª. Classe de Maria da Conceição
Adiantamento: Barros
Plenamente
Flora Lisbôa Ferraz
1ª Classe de Alexandrina Bandeira
Adiantamento Maria José Ferreira
Alexandrina Gomes
Barbosa
Distincção
Distincção
Distincção
Distincção
Alzira Gomes da Silva Plenamente
Lydia Maria Carlos
Emilia Ribeiro
Maria José de Souza
196
ANEXO F – Dados referentes às escolas, professores, alunos (as), classes,
conceitos nas escolas do núcleo fabril da Pedra em 1928.
(Continua)
Escola
Escola Delmiro Gouveia
Escola 15 de Novembro
Escola Deodoro da
Fonseca
Professora
Classe
Alunos (as)
Nota / Conceito
2ª classe
Alice Corrêa
Iracy Luna Dias
Lydia Sandes
Maria Lourdes Coelho
Maria Loureiro Figueirêdo
Antonia Pereira
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
1ª Classe
Iracema Braga
Rosalva Vieira
Antonia Dias
Ivonny de Sá
Enedina Malta
Maria José de Lima
Maria do Carmo Lima
Doralice Malta
Renê Figueirêdo
Helena Lima
Maria José de Souza
Maria Daniel
Alzira Bandeira
Aracy Corrêa
Maria José Braga
Iracema Lima
Maria J. de Souza Britto
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
Dist.
2ª Classe
Alice Gomes
Olga Feitosa
Virgilia Pereira
Antonia Silveira
Joanna Pereira
Maria do Soccorro
Maria Oliveira
Audenisia Moreira
Dist. 11
Dist. 11
Dist. 11
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
1ª Classe
Luiza Pereira
Maria Lisboa
Maria Lourdes Costa
Maria José Conceição
Maria José Vieira
Dist. 10
Dist. 11
Dist. 11
Dist. 10
Dist. 10
Aproveitamento para a 1ª
Classe
Nahylde Costa
Aldenora Figueiredo
Optimo
Optimo
2º Anno
Affonsina Menezes
Emilia Ribeiro
Abilio Coutinho
Joaquim Bandeira
José Lessa
Abelardo de Carvalho
Maria Bandeira
Maria Cavalcante
Albino Coutinho
Virginia dos Santos
Dist. 12
Dist. 11
Dist. 12
Dist. 11
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 11
Dist. 10
Plen. 9
Dist. 10
1º Anno
Izabel Souza
Alzira Gomes
Cecilia Nunes
Alexandrina Nunes
Laura Nunes
Alexandrina Barbosa
Nestor Gomes
Miguel Missano
Francisco Missana
Analia Celestina
Joel Coelho
Maria Vieira
Maria Delphina
José V. Figueiredo
Simpl. 5
Dist. 10
Dest. 12
Dist. 11
Dist. 11
Dist. 11
Dist. 10
Plen. 9
Dist. 10
Plen. 8
Faltou
Dest. 10
Plen. 8
Plen. 9
197
ANEXO F – Dados referentes às escolas, professores, alunos (as), classes,
conceitos nas escolas do núcleo fabril da Pedra em 1928.
(Conclusão)
Escola
Escola 7 de Setembro
Professora
Classe
Alunos (as)
Nota / Conceito
3ª Classe
Alayde Lisbôa
Maria Carmo Lisbôa
Maria José Santos
Alice Cavalcante
Josepha Belo
Dist. 11
Dist. 10
Plenam. 10
Plenam. 10
Dist. 10
2ª Classe
Elsa Brandão Lisbôa
Maria Emilia Dias Menezes,
Maria Francisca Santos
Jandyra Brandão Lisbôa
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 10
Dist. 12
Maria Isabel, plenam
Francisca Conceição,
Eunice Cavalcante
Julia Gomes
Jovelina Silva
Maria Lima
Plenam. 9
Plenam. 9
Dist. 10
Dist. 10
Plenam. 9
Dist. 10
Quiteria Feitosa
Maria Ferreira Lima
Odilia Silva
Josepha Vieira Barbosa
Dist. 10
Plen. 8
Plen.
Simp.
1ª Classe
Escola 13 de Maio
Fonte: CORREIO DA PEDRA, 1928. p. 2)
