Eudes da Silva Santos
Título das dissertação: “ERA UM VEÍ UM CIDADE”, O SINTAGMA NOMINAL NA ESCRITA DE JOVENS E ADULTOS: TENSÃO E CONFLITO NA COMPOSIÇÃO DA SINTAXE DE CONCORDÂNCIA NOMINAL
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA
MESTRADO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA
“ERA UM VEÍ UM CIDADE”, O SINTAGMA NOMINAL NA ESCRITA
DE JOVENS E ADULTOS: TENSÃO E CONFLITO NA COMPOSIÇÃO
DA SINTAXE DE CONCORDÂNCIA NOMINAL
Eudes da Silva Santos
Maceió – AL
2011
EUDES DA SILVA SANTOS
“ERA UM VEÍ UM CIDADE”, O SINTAGMA NOMINAL NA ESCRITA
DE JOVENS E ADULTOS: TENSÃO E CONFLITO NA COMPOSIÇÃO
DA SINTAXE DE CONCORDÂNCIA NOMINAL
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação
em
Educação,
da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito para obtenção do título de Mestre
em Educação Brasileira.
Linha de Pesquisa: Educação e Linguagem
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Calil de
Oliveira
Maceió – AL
2011
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária: Helena Cristina Pimentel do Vale
S237a
Santos, Eudes da Silva.
“Era um veí um cidade” , o sintagma nominal na escrita de jovens e adultos:
tensão e conflito na composição da sintaxe de concordância nominal / Eudes da
Silva Santos. – 2011.
101 f. : il.
Orientador: Eduardo Calil de Oliveira.
Dissertação (mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de
Alagoas. Centro de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação
Brasileira. Maceió, 2011.
Bibliografia: f. 84-85.
Apêndices: f. 86-101.
1. Educação de Jovens e Adultos. 2. Manuscrito escolar. 3. Língua portuguesa
– concordância nominal. 4. Língua portuguesa – Sintagma nominal. I. Título.
CDU: 371.13
A todos meus amigos, em especial aqueles
cuja amizade foi sendo tecida ao longo do
curso de mestrado, turma de 2008.
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, agradeço ao meu orientador, professor Dr. Eduardo Calil, por ter
me acompanhado durante esta fase da minha vida acadêmica, contribuindo
significativamente para o meu desenvolvimento enquanto estudante, o que nunca
deixamos de ser; pesquisador, caminho difícil, mas eu chego lá; e enquanto
profissional. Obrigado Calil!
Agradeço aos meus pais, Niuma e Edilson, pelo incentivo, discreto, mas verdadeiro.
A banca examinadora, professora Drª. Maria Hozanete Lima e professor Dr. Jair
Gomes de Farias, pelas significativas contribuições na qualificação e na defesa da
dissertação.
Agradeço a Professora e amiga Rita Souto Maior, pelas palavras sempre positivas,
me incentivando e apoiando sempre.
Aos professores Adna Lopes, Aldir de Paula, Inês Matoso, Maria do Socorro e Mª
Auxiliadora, pelo constante incentivo a seguir com meus estudos.
A todo o grupo de pesquisa ET&C: Aline, Lidiane, Janaina Paula, Joaceri, Frázio,
Cyntia, Adriana Buarque e Janaina Lygia, ano de 2008.
A Gláucia, a Naila, a Marta e a Renata, amo vocês.
Ao Antônio, a Andréia, ao Lucas e a Natália, a diversão era com vocês, nossas
saídas e discussões foram fundamentais, sem vocês, tudo seria mais difícil.
A Roseane e Eneida, amigas desde a especialização. Aos amigos Ana Lúcia,
Ronaldo, Rosa e Teixeira, pelo apoio incondicional. Aos meus alunos, este estudo
também foi feito por vocês.
A CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pelo
financiamento da pesquisa.
Escrever nem uma coisa
Nem outra
A fim de dizer todas Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim, Ao poeta faz bem Desexplicar Tanto quanto escurecer acende os
vagalumes.
Manoel de Barros
RESUMO
O ―Sintagma Nominal‖ – SN – é uma categoria linguística que há muito se tem
discutido por estudiosos de diversas vertentes. Analisamos, neste trabalho,
especificamente, os ―sintagmas nominais‖ com quebra na ―Concordância Nominal‖ –
CN – entre os constituintes que os formam. Ancorado nos trabalhos de Calil (2004;
2007 e 2008) e Felipeto (2007), entre outros, ao discutir sobre as manifestações,
―erros‖, singulares ou não, da escrita de escolares, descrevemos e analisamos o
―erro‖ que se dá, principalmente, na (falta de) concordância que ocorre no interior de
um SN, como por exemplo, ―uma vez‖, que compõe a célebre expressão ―era uma
vez‖, marco das aberturas dos contos de fada, como também, em ―sintagmas
nominais‖ que seguem tal expressão, os quais, possivelmente, sofreram
interferência dela para a sua composição, como por exemplo, em ―era um vez um
menina‖ e ―era um veí um cidade‖. O ―estranhamento‖ que estas composições nos
causaram, além da quebra de concordância entre os constituintes desse tipo de
―sintagma nominal‖, alternado com a escrita de SNs estabilizados na língua,
estende-se para o uso de ―era uma vez‖ em contos de assombração, cujas aberturas
não se assemelham a dos contos de fada. Sob o olhar da aquisição de linguagem
escrita, tomamos este elemento, o ―erro‖ de ―concordância nominal‖ em SNs, como
algo constitutivo do processo de ensino e aprendizagem de alunos Jovens e Adultos.
A coleta dos dados teve como objetivo trabalhar a produção textual, através de
―contos de assombração‖, que foi feita a partir da criação de histórias pelos alunos,
usando como estratégia didática, principalmente, a produção em dupla. Analisamos,
para este trabalho, vinte manifestações de ―sintagmas nominais‖ com quebra de
concordância, de um corpus composto por 198 manuscritos de alunos do EJA,
coletados durante o ano de 2005, em uma turma de 2ª fase, de uma escola
municipal de ensino fundamental de Maceió – AL. Para tanto, assumimos as
propostas de Lemos (1992; 1997; 2002 e 2006), entre outras, através do jogo que se
dá entre o que ela intitula de processos metafórico e metonímico, como também
aquilo que Calil & Felipeto (2008) dizem sobre o ―erro‖ na análise de manuscritos de
escolares em processo de aquisição de escrita, sejam no âmbito da fonologia,
sintaxe, morfologia, entre outros. Corroborando com os trabalhos acima citados, os
nossos resultados indicaram que o ―erro‖ de concordância é constitutivo do processo
de aquisição destes scriptores, já que nele identificamos, comandadas pelo
funcionamento linguístico-discursivo da língua, marcas individuais, subjetivas de
cada escrevente. As quais, provavelmente, contribuíram na/para a formação de
―sintagmas nominais‖ com quebra na sua concordância.
Palavras-chave: Manuscrito escolar. Sintagma nominal. Concordância nominal.
Educação de Jovens e Adultos.
ABSTRACT
The "Noun Phrase" - NP - is a linguistic category that has been much discussed by
scholars of various strands. We analysed, in this study, specifically, the ―noun
phrase‖ with violations in ―Nominal Concordance‖ -NC- between the constituents that
made them. Anchored in the work of Calil (2004; 2007 and 2008) and Felipeto
(2007), among others, to discuss about the manifestations, ―errors‖, singular or not,
from the writing in school. We described and analysed the ―error‖ which occurs,
mainly,in the (lack of) concordance that occurs within a NP, for example , ―uma vez‖,
composing the famous expression ―era uma vez‖, mark of the openings from fairy
tales, also, in the ―noun phrase‖ that fallows this expression, which possibly have
been interfered with it in their composition, for example , in ― era um vez um menina‖
and ―era um veí um cidade‖ . The strangeness that these compositions have caused
us, beyond the violations of concordance between the constituents of this kind of
―noun phrase‖, alternated with the writing of the NPs stabilized in the language,
extends to the use of ―era uma vez‖ in ghost tales, whose openings are not like fairy
tales. Under the gaze of the acquisition of written language, we take this element, the
―error‖ of ―nominal concordance‖ in NPs, as something that constitutes the process of
teaching and learning of young and adult‘s students. The collection of data aimed to
work at the textual production, through the ghost tales, which was made from the
creation of stories by students, using as a teaching strategy, especially the
production in doubles. We analyzed, for this study. Twenty manifestations of ―noun
phrase‖ with the violation of concordance, a corpus of 198 (one hundred and ninety
eight) manuscripts from students of EJA, during the year of 2005 in a class of 2nd
phase from a municipal school in an elementary school of Maceio – AL. For this, we
assume the proposals of Lemos (1992; 1997; 2002 and 2006), among others,
through play that occurs between the processes that is entitled as a metaphoric and
metonymic, but also that what Calil & Felipeto (2008) say about the ―error‖ in the
analysis of manuscripts of students in the acquisition process of writing, either within
the phonology, syntax, morphology, among others. Corroborating with the studies
mentioned above, our results indicated that the ―error‖ of concordance is constitutive
in the process of acquiring these scripters, we indentified, as commanded by the
operation of linguistic-discursive of the language, individual marks, each subjected by
its writer. This probably contributed in/for the formation of the ―noun phrase‖ that
violated the concordance.
Keywords: School manuscript. Noun phrase. Nominal concordance. Education of
Young and Adult‘s Students.
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Sintagma Verbal.....................................................................................16
Tabela 2 – Sintagma Adjetival................................................................................. 17
Tabela 3 – Sintagma Adverbial............................................................................... 17
Tabela 4 – Sintagma Preposicional......................................................................... 17
Tabela 5 – Determinantes quanto as suas funções................................................. 19
Tabela 6 – Funções de elementos que podem formar SN...................................... 23
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
SN – Sintagma Nominal.
SNs – Sintagmas Nominais.
CN – Concordância Nominal.
CV – Concordância Verbal.
PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais.
CLG – Curso de Linguística Geral.
SAdj – Sintagma Adjetival.
SAdv – Sintagma Adverbial.
SPrep – Sintagma Preposicional.
Det – Determinante.
Poss – Possessivo.
Ref – Reforço.
Qf – Quantificador.
PNE – Pré-Núcleo Externo.
PNI – Pré-Núcleo Interno.
SUMÁRIO
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS............................................................................ 11
1 O “SINTAGMA NOMINAL”: LUGAR DE INSCRIÇÃO DO SUJEITO NA
LÍNGUA............................................................................................................. 13
1.1 O “sintagma”: seu escopo e suas funções................................................ 14
1.1.1 Tipos de ―sintagmas‖.................................................................................... 15
1.1.2 O ―sintagma nominal‖..................................................................................
18
1.1.2.1 Na gramática............................................................................................. 18
1.1.2.1.1 ―Sintagmas nominais‖ e determinantes................................................... 18
1.1.2.1.2 ―sintagma nominal‖ e referenciação........................................................ 19
1.1.2.2 Na linguística.............................................................................................. 21
1.1.2.2.1 O ―sintagma nominal‖ em Perini.............................................................. 21
1.1.3 ―Sintagma nominal‖ e ―concordância nominal‖: relações e diferenças.......
22
2 A LÍNGUA EM FOCO........................................................................................ 27
2.1 A(s) im(possibilidade(s) da lingua: o lugar do “equívoco”......................... 27
2.2 Sobre os processos metafórico e metonímico............................................ 30
2.3 O Trabalho com manuscritos escolares...................................................... 34
3 CAMINHOS TRILHADOS: DOS “CONTOS DE ASSOMBRAÇÃO” AO
“SINTAGMA NOMINAL”.................................................................................. 43
3.1 Projeto didático “contos de assombração”............................................... 43
3.1.1 projeto didático ―contos de assombração‖: o desenvolvimento...................
43
3.1.2 As propostas de produção e os manuscritos escolares................................. 45
3.2 Sintagma nominal e concordância nominal: a escolha das categorias... 50
4 MANUSCRITO VS “SCRIPTOR”: O CONFRONTO ENTRE A CANETA E O
PAPEL................................................................................................................ 51
5 CONCLUSÃO..................................................................................................... 79
REFERÊNCIAS................................................................................................. 82
ANEXOS.....................................................................................................;...... 84
11
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
Neste trabalho, ancorar-nos-emos na categoria linguística ―Sintagma Nominal‖
– SN – para refletir sobre a escrita de alunos jovens e adultos em processo de
aquisição de escrita, ou melhor, descreveremos e analisaremos, especificamente,
―sintagmas nominais‖ com ―problemas‖ de ―Concordância Nominal‖ – CN – de
gênero em sua composição1, ou que sejam ―malformados‖, sem necessariamente
relacionar-se com a questão de gênero gramatical.
A ―Concordância Nominal‖ é uma categoria linguística estudada por
pesquisadores de diferentes perspectivas. É uma das categorias, juntamente com a
―concordância verbal‖ – CV –, cujas regras são difíceis de serem simbolizadas pelos
sujeitos. Não somente crianças e/ou adultos em processo de aquisição de
linguagem oral e/ou escrita tendem a ―derrapar‖ no uso de regras de concordância
da língua, mas também adultos escolarizados, às vezes, com formação superior,
cometem deslizes no uso do sistema linguístico (PERES & MÓIA, 1995).
Gramáticos como (Almeida (2005), Bechara (2009) e Cunha & Cintra (2001))
e linguistas que assumem diferentes perspectivas teóricas, por exemplo, (Perini
(2006, 2007 e 2008) e Sautchuck (2010)) contribuíram para o estudo destas
categorias, ―sintagma nominal‖ e ―concordância nominal‖. Contudo, os estudos sobre
suas formas de manifestação em ―manuscritos‖ escolares ainda são em pequeno
número, sobretudo se consideramos aqueles escritos por alunos de Educação de
Jovens e Adultos em processo de aquisição de escrita.
O levantamento destas estruturas foi feito a partir de um corpus composto por
198 ―manuscritos‖ (histórias inventadas) de alunos recém-alfabetizados do EJA.
Observando os ―manuscritos2‖, interrogados sobre fenômeno da quebra na sintaxe
da escrita de escolares, baseados na leitura de Calil (2004), atentamos para algo
curioso, a repetição de ―sintagmas nominais‖ cujo seus constituintes não
concordavam entre si. Particularmente, esta quebra de concordância ocorreu com
1
Este estudo faz parte do projeto de pesquisa ―Alteridade e singularidade em manuscritos escolares‖,
financiado pelo CNPq e coordenado pelo pesquisador Eduardo Calil, que tem como objetivo geral
refletir sobre a relação sujeito, língua e texto a partir de diferentes processos de escritura.
2
O termo ―manuscrito‖, como também ―scriptor”, este usado posteriormente, são aqui utilizados nos
moldes de Calil (2008), fazendo alusão aos estudos vinculados a Crítica Genética. Para ele, os textos
produzidos na escola têm estatuto parecido com aqueles analisados pela Critica Genética, por
exemplo, poemas ainda não publicados, ―manuscritos‖ que ainda não sofreram nenhuma
manipulação para serem publicados.
12
mais frequência na composição da clássica fórmula dos contos de fada ―era uma
vez‖.
Apesar de ser uma estrutura cristalizada nas histórias que permeiam o
universo ficcional dos ―contos de fada‖, ―era uma vez‖ apareceu nos manuscritos
analisados, ―contos de assombração‖. O ―sintagma nominal‖ ―uma vez‖, de ―era uma
vez‖, surgiu sobe diferentes formas significantes, como por exemplo: ―um vez‖; o que
nos permitiu fazer a seguinte interrogação: o que acontece com sujeitos
alfabetizados que faz com que eles desestabilizem a estrutura cristalizada ―era uma
vez‖, das tradicionais histórias infantis?
O material foi coletado no ano de 2005, a partir de um projeto didático
envolvendo o gênero textual ―conto de assombração‖, realizado junto aos alunos de
uma escola municipal da cidade de Maceió3. Ressaltamos que, como veremos em
detalhes no capítulo da metodologia, amparados pelos PCN, o uso de projeto
didático é prática frequente do nosso grupo de pesquisa, que parte de uma proposta
de imersão de um gênero textual em uma sala de aula, tendo como intuito contribuir
com o processo de criação dos alunos.
A escolha deste gênero textual deu-se pelo interesse que pode trazer para
os alunos, e por também acreditarmos na importância de criar um contexto de
imersão neste universo ficcional, através de leituras feitas pelo professor, ―causos‖
contados pelos alunos ou contadores de histórias, filmes previamente selecionados,
criando-se assim boas condições para as práticas de textualização. Os contos
escritos foram trabalhados a partir dos ―causos‖, das reescritas de histórias
tradicionais, descrição de personagens conhecidos e criação de histórias pelos
alunos, usando como estratégia didática, principalmente, a produção em dupla.
Detivemo-nos somente nas histórias inventadas.
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo projeto na escola, era
importante que os textos (re)escritos, antes de serem produzidos, tivessem sido
trabalhados pelo professor até que os alunos os dominassem de memória.
Sugeriram, assim, que atividades de reconto com apoio, ou reconto coletivo, fossem
realizadas, especialmente, com as histórias que seriam trabalhadas posteriormente
nas (re)escritas.
3
Esse material compõe o acervo ―Práticas de Textualização na Escola‖, pertencente ao projeto
―Manuscritos Escolares e Processo de Escritura‖, coordenado pelo professor Dr. Eduardo Calil
(UFAL) e financiado pelo CNPq (processo nº 304029).
13
Para discorremos sobre o processo de aquisição da escrita de jovens e
adultos, através da análise de ―sintagmas nominais‖ com ―problemas‖ de
―concordância nominal‖, estruturamos esta dissertação em quatro capítulos. No
primeiro capítulo, expomos o olhar da gramática e da linguística sobre as categorias
―sintagma
nominal‖ e
―concordância
nominal‖;
no
segundo,
apresentamos
pressupostos teóricos que inspiraram a análise, a saber: ―língua‖, ―alíngua‖,
―equívoco‖, ―processos metafórico e metonímico‖, entre outros. Porém, acreditamos
que o nosso olhar sobre o dado, ―erro de concordância nominal‖, conjumina com os
estudos desenvolvidos sobre análise de manuscritos escolares realizados por
pesquisadores em aquisição de escrita do grupo ET&C; Já no terceiro,
apresentamos o projeto didático que subsidiou a coleta dos dados, como também,
discutimos, de forma breve, a escolha dos dados para análise. E por fim, no quarto
capítulo, apresentamos os enunciados que trazem quebra de ―concordância
nominal‖ em ―sintagmas nominais‖, principalmente na composição da formula ―era
uma vez‖. Finalmente, na conclusão, retomamos a discussão, evidenciando a
relação do sujeito, adulto, com a sua escrita, atravessada pelo funcionamento
linguístico-discursivo da língua.
1 O “SINTAGMA NOMINAL”: LUGAR DE INSCRIÇÃO DO SUJEITO NA LÍNGUA.
Este capítulo foi reservado para que apresentemos a categoria linguística
―sintagma nominal‖, com o propósito de entender qual o tratamento dado pela
gramática e linguística a esta categoria. A relevância deste capítulo é pelo fato de
ser o ―sintagma nominal‖, com problemas de concordância, objeto de nosso estudo,
sendo assim, faz-se necessário (re)conhecer o que se prescreve/descreve sobre
esta classe . Para tanto, analisamos as obras de alguns estudiosos, a saber: (Cunha
& Cintra (2001), Almeida (2008), Azeredo (2008) e Bechara (2009), Perini (2006;
2007 e 2008) e Dubois (2006)), porém, vale ressaltar que, dos gramáticos, apenas
Azeredo (2008) foi quem nos propiciou uma discussão sobre o ―sintagma‖, sendo
assim, ao tratarmos de gramática, referir-nos-emos a sua obra.
14
1.1 O “sintagma”: seu escopo e suas funções
Tomaremos, inicialmente, as palavras de Saussure, no Curso de Linguística
Geral – CLG –, para discorrer sobre o conceito de ―sintagma‖ e as várias
possibilidades de manifestação. Segundo o linguista genebrino, o ―sintagma‖,
necessariamente, apresenta relações entre seus elementos, pois ―em um estado de
língua, tudo se baseia em relações,‖ quer sejam sintagmáticas, quer sejam
associativas4.
No discurso, os termos estabelecem entre si, em virtude de seu
encadeamento, relações baseadas no caráter linear da língua, que
exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo.
Estes se alinham um após outro na cadeia da fala. Tais combinações,
que se apoiam na extensão, podem ser chamadas de sintagmas. O
sintagma se compõe sempre de duas ou mais unidades consecutivas
(por exemplo: reler, contra todos; a vida humana; Deus é bom; se fizer
bom tempo, sairemos). Colocado num sintagma, um termo só adquire
seu valor porque se opõe ao que o precede ou ao que o segue, ou a
ambos. (SAUSSURE, 2006, p.142)
Nesta mesma direção, Saussure (2006, p.144) ainda afirma que ―a noção de
‗sintagma‘ se aplica não só às palavras, mas aos grupos de palavras, às unidades
complexas de toda dimensão e de toda espécie (palavras compostas, derivadas,
membros de frases, frases inteiras)‖.
Um ponto a destacar, entre tantos, nas reflexões saussurianas, é
quando ele expõe que:
No domínio do sintagma não há limite categórico entre o fato de
língua, testemunho de uso coletivo, e o fato de fala, que depende da
liberdade individual. Num grande número de casos, é difícil classificar
uma combinação de unidades, porque ambos os fatores concorreram
para produzi-la e em proporções impossíveis de determinar.
(SAUSSURE, 2006, p. 145)
Esta exposição saussuriana permitiu-nos pensar sobre a composição dos
―sintagmas‖, já que, como afirma o autor, nem sempre se consegue distinguir a ação
da língua, coletiva, de um ―fato de fala, individual‖, sendo difícil prever as
4
Discutiremos sobre o que Saussure expõe sobre essas relações no capitulo teórico.
15
possibilidades de combinações de constituintes para a formação de um ―sintagma‖,
tal como transparece em nossos dados.
É em conformidade com Saussure (2006) que Dubois (2006) também
descreverá a categoria linguística "sintagma‖. Para ele:
Em linguística estrutural, chama se sintagma um grupo de elementos
linguísticos que formam uma unidade numa organização
hierarquizada. O termo sintagma é seguido de um qualificativo que
define sua categoria gramatical (nominal, verbal, adjetival,
preposicional, etc.). O sintagma é sempre constituído de uma cadeia
de elementos e ele próprio é um constituinte de uma unidade de nível
superior; é uma unidade linguística de nível intermediário. (DUBOIS,
2006. p. 557-558)
Assim, entendemos que o ―sintagma‖ está intrinsecamente ligado a
organização estrutural da língua, é nele e por ele, que a língua se organiza.
Palavras, frases, orações, períodos, textos ganham sentidos pelas combinações de
―sintagmas‖. Se o ―sintagma‖ for ―malformado‖, além de haver uma quebra na
sintaxe, referindo-nos a falta de ―concordância nominal‖, por exemplo, haverá
também uma quebra no sentido pretendido. Tal como vimos acima, Saussure e
Dubois, ao falar de ―sintagma‖, dizem, respectivamente, ―o ‗sintagma‘ se compõe
sempre de duas ou mais unidades consecutivas‖ e que ―chama se ‗sintagma‘ um
grupo de elementos linguísticos que formam uma unidade numa organização
hierarquizada‖. Assim, para estes autores, para ser chamado de ―sintagma‖, um
elemento de língua não pode fugir a hierarquia pré-estabelecida pela língua.
1.1.1 Tipos de ―sintagmas‖
Nesta parte do capítulo, elencaremos, segundo a ―Gramática Houaiss da
Língua Portuguesa‖, de Azeredo, as várias funções e possibilidades dos
―sintagmas‖. Já que, conforme Dubois (2006), os ―sintagmas‖ são caracterizados
pelas palavras que os seguem, denominadas por ele de ―qualificativos‖. Assim, os
―sintagmas‖ se distribuem em classes, em função da posição que ocupam
diretamente na oração ou em outros ―sintagmas‖ mais amplos. Eles podem ser:
―sintagma nominal‖ (SN), ―sintagma verbal‖ (SV), ―sintagma adjetival‖ (Sadj),
16
―sintagma adverbial‖ (SAdv) e ―sintagma preposicional‖ (SPrep). (AZEREDO, 2008,
p.148)
Vejamos, antes de apresentarmos as várias possibilidades assumidas por
um ―sintagma‖, segundo Azeredo (2008), que esta gramática elimina, não trata
do/sobre ―sintagma‖ como podendo ser, além de uma palavra, conjunto de palavras,
frases etc; parte que compõe a palavra. Referimo-nos aqui a morfologia, por
exemplo, como no exemplo visto acima, dado por Saussure, sobre o uso do prefixo
―re‖, enquanto um ―sintagma‖, no processo de formação da palavra ―reler‖.
Apresentaremos agora, em tabela, as várias formas e funções que, segundo
Azeredo (2008), o ―sintagma‖ pode assumir.
Tabela 1 - “SINTAGMA VERBAL” - Base da estrutura oracional.
“SINTAGMA NOMINAL”
“SINTAGMA VERBAL”
João
viajou.
João
vendeu seu carro.
João
estava em casa.
João
estava tranquilo.
João
estava viajando.
João
deixou a cidade.
João
deixou os documentos no carro.
João
deixou o cachorro fugir.
João
deixou dinheiro para as compras.
Fonte: AZEREDO, 2008.
Tabela 2 - “SINTAGMA ADJETIVAL” - Tem por núcleo um adjetivo, podendo ser constituinte de um
SV ou de um SN.
“SINTAGMA NOMINAL”
“SINTAGMA VERBAL”
João
estava tranquilo.
___________
“SINTAGMA ADJETIVAL”
___________
tranquilo.
Fonte: AZEREDO, 2008.
17
Tabela 3 - “SINTAGMA ADVERBIAL” - tem por núcleo um adverbio, a sua construção se assemelha
à do ―sintagma adjetival‖.
“SINTAGMA NOMINAL”
“SINTAGMA VERBAL”
João
acordou cedo.
___________
“SINTAGMA ADVERBIAL”
___________
cedo.
Fonte: AZEREDO, 2008.
Tabela 4 - “SINTAGMA PREPOSICIONAL” - consiste na união de uma preposição mais um
―sintagma nominal‖.
“SINTAGMA NOMINAL”
“SINTAGMA VERBAL”
Este vinho
é do Chile.
__________
“SINTAGMA PREPOSICIONAL”
__________
do Chile.
Fonte: AZEREDO, 2008.
Outro exemplo para enfatizar as várias formas e posições que um ―sintagma‖
pode ocupar em uma oração.
Exemplo: O menino do vizinho tinha atirado a bola contra a vidraça da cozinha.
Oração
O menino do vizinho
tinha atirado a bola contra a vidraça da cozinha.
Sujeito
Predicado (SV)
O menino
do vizinho
a bola
contra a vidraça
da cozinha
SN
SPrep
SN
SPrep
SPrep
o vizinho
SN
a vidraça
SN
a cozinha
SN
18
Das várias possibilidades de formação de um ―sintagma‖, a que nos
interessa é a do ―sintagma nominal‖, pois é a partir dele que analisaremos como
ocorre a concordância entre os seus constituintes. Na subseção seguinte
descrevemos o que a prescrição/descrição, gramática e linguística, expõe sobre as
categorias linguísticas ―sintagma nominal‖ e ―concordância nominal‖.
1.1.2 O ―sintagma nominal‖
A categoria linguística ―sintagma nominal‖ está presente na maioria dos
estudos
descritivos
e/ou
prescritivos
da
língua
portuguesa.
Entre
eles,
consideraremos os trabalhos do linguista Mário Perini (2006; 2007 e 2008), e
especificamente do gramático Azeredo (2008), em razão da posição de destaque
que ocupam na literatura especializada. Estes autores, como todos aqueles que
assumem o funcionamento de uma língua estabilizada, analisam as construções
sintáticas regulares e sistemáticas.
1.1.2.1 Na gramática
1.1.2.1.1 ―Sintagmas nominais‖ e determinantes
O artigo definido, tal como o indefinido compreendem o que em linguística é
chamado de determinantes, ou seja, palavras que antecedem o substantivo na
formação dos ―sintagmas‖.
As noções expressas pelos determinantes formam conjuntos restritos
