Jivaneide Araújo Silva Costa

Título da dissertação: AS POTENCIALIDADES EDUCATIVAS DO RÁDIO COMO INTERFACE PEDAGÓGICAS NA PRÁTICA DOCENTE

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Programa de Pós-Graduação em Educação

CARTAS DE UM ALUNO DE EJA: o movimento de autoria na escritura psicótica

Joaceri Bernadete Merlin da Costa

Maceió
2011

2

JOACERI BERNADETE MERLIN DA COSTA

CARTAS DE UM ALUNO DE EJA: o movimento de autoria na escritura psicótica

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação Brasileira da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do título de
Mestre em Educação.
Orientador: Eduardo Calil de Oliveira
Co-orientadora: Sônia Cristina Simões Felipeto

Maceió
2011

3

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Dilma Maria dos Santos Cunha
C837c

Costa, Joaceri Bernadete Merlin da
Cartas de um aluno de EJA : o movimento de autoria na escritura psicótica /
Joaceri Bernadete Merlin da Costa. - 2011.
95 f.
Orientador: Eduardo Calil de Oliveira.
Coorientadora: Sônia Cristina Simões Felipeto.
Dissertação (mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de
Alagoas. Centro de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação
Brasileira. Maceió, 2011.
Bibliografia: f. 81-85.
Anexos: f. 86-95.
1. Manuscritos escolares. 2. Autoria. 3. Psicoses. I. Título.
CDU: 801

4

5

A minha família, meus maiores incentivadores.

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AGRADECIMENTOS

Aos colegas de mestrado que tornaram este percurso leve e fecundo;
Ao Eduardo e Cristina pela presença amiga numa posição onde tantos falham;
A Adna e Luís Paulo pelo apoio e incentivo;
A Eliene que, sem o saber, indicou-me a orientação;
A CAPES pela bolsa.
Bernardo e Bianca, filhos de Joaceri, agradecemos aos membros da banca examinadora do
PPGE por terem se deslocado até a Santa Casa de Misericórdia de Maceió para que minha
mãe se tornasse mestra e concluísse este trabalho tão importante para ela.
Deixamos registrado igualmente, um agradecimento muito especial para Janayna Santos por
todo o suporte e ajuda na conclusão do trabalho, entre tantas outras coisas mais.
Bernardo Borges

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“Quando eu escrevo sou forçado a dominar esse magma de sensações, de
lembranças, de pensamentos que habita em mim simultaneamente [...], é mesmo necessário
que eu os alinhe segundo uma determinada ordem, uma vez que a escritura é linear.
Claude Simon, Le Monde

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RESUMO

Este trabalho tem como objetivo analisar as cartas de um aluno de Educação de Jovens e
Adultos que aos 24 anos passou por um surto psicótico, procurando em seus escritos as
marcas dialógicas que nos permitam identificar “movimentos de autoria” conforme descritos
por Calil (2008). A estrutura psicótica explicita a dificuldade de um sujeito alijado do
simbólico em sua busca de sentido nas palavras que profere/escreve ou escuta/lê. Segundo
Calil (2008), o “movimento de autoria” se instala a partir de uma escuta significante que
possibilita ao sujeito retornar sobre o seu dizer e produzir nova significação reformulando,
explicitando, esclarecendo ou diferenciando o já-dito. O procedimento metodológico utilizado
consistiu em coletar as cartas, numerá-las, digitalizá-las e fazer a transcrição para facilitar a
análise dos dados. Pela particularidade do caso – aluno que sofreu um surto psicótico e
escreveu 129 cartas para sua professora lançando-as no jardim da casa dela – se fez necessário
trazer para dialogar teorias das áreas da linguística e da psicanálise que nos permitissem
balizar nossa análise dos dados. O desenvolvimento operado por Calil (2004, 2008) nos
estudos de manuscritos escolares inicia-se na concepção de escuta formulada por Lemos
(1992; 1998; 2000; 2002) e atinge as modalizações autonímicas instauradas no campo da
enunciação por Authier-Revuz (1998; 2004; 1990) passando pelas formulações psicanalíticas
de sujeito estruturado na/pela linguagem. Portanto, este trabalho não poderia deixar de situar
cada campo desses saberes ainda que a rápida abordagem feita a cada um deles possa causar
no leitor o incômodo de parecer incompleta. Investigar o estatuto de autoria nos escritos de
um aluno psicótico amplia o raio de alcance das pesquisas com manuscritos escolares ao
incluir uma estrutura sobre a qual estudiosos da literatura especializada costumam considerar
como impossível de produzir re-significações. Efeito desta pesquisa encontra-se na máxima
de Saussure (2003) que afirma: “a língua é um sistema que conhece somente sua ordem
própria”. Diversos exemplos confirmam que nosso sujeito apreende reflexivamente as glosas
que se impõem como conflito, hesitação ou apoio tentando restaurar o UM em que ele aparece
ameaçado.
Palavras-chave: Manuscritos Escolares. Autoria. Psicose.

9

ABSTRACT

This study aims to examine the letters of a student of Youth and Adults Education who, in the
age of 24, experienced a psychotic break. It searches the dialogical tags in his writings that
allow for identifying “movement of authorship” as described by Calil (2008). The psychotic
structure exposes the difficulty of a subject alienated from symbolic in search of meaning in
the words that speaks/writes or listen/read. According to Calil (2008), the "movement of
authorship" is installed from a meaningful listening that allows the subject to return over your
own saying and to produce new meaning by rewording, explaining, clarifying and
differentiating the already-said. The methodological approach consisted in collecting,
numbering, digitizing and making the transcription of the letters to facilitate data analysis. For
the particularity of the case – a student who suffered psychotic episodes and wrote 129 letters
to his teacher, throwing them into the garden of her home – it was necessary to dialogue with
theories of areas such as linguistic and psychoanalysis so to enable to delimit the data
analysis. The development operated by Calil (2004, 2008) in his studies of school manuscripts
is based on the conception of listening as formulated by Lemos (1992, 1998, 2000, 2002) and
reaches the modalizations brought into the field of enunciation by Authier-Revuz (1998,
2004, 1990) passing through the formulations psychoanalytic of structured subject in /
through language. Thus, this work could not let locating each of the fields of knowledge
although a rapid approach to each of them may cause discomfort in the reader for seeming
incomplete. It is considered that investigating the status of authorship in the writings of a
psychotic student broadens the range of the researches on school manuscripts by including a
framework upon which scholars of literature generally relate it as impossible of remaking
meanings. A result of this research lays in the maximum of Saussure (2003) who states:
"language is a system that only knows its own order." Several examples confirm that our
subject perceives reflexively the glosses imposed as conflict, hesitation or support trying to
restore the unit where it appears threatened.
Keywords: School Manuscripts. Authorship. Psychosis.

10

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Carta 11 Face B...............................................................................................

24

Figura 2: Transcrição diplomática da Carta 11 Face B................................................... 24
Figura 3: Carta 29 Face A (fragmento 1)........................................................................

26

Figura 4: Transcrição diplomática da Carta 29 Face A (fragmento 1)............................ 26
Figura 5: Carta 08 Face A (fragmento 1)........................................................................

27

Figura 6: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A (fragmento 1)............................ 27
Figura 7: Carta 60 Face A...............................................................................................

29

Figura 8: Transcrição diplomática da Carta 60 Face A................................................... 30
Figura 9: Carta 02 Face A...............................................................................................

31

Figura 10: Transcrição diplomática da Carta 02 Face A.................................................

31

Figura 11: Carta 01 Face A.............................................................................................

37

Figura 12: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A................................................. 37
Figura 13: Carta 29 Face A.............................................................................................

38

Figura 14: Transcrição diplomática da Carta 29 Face A................................................. 39
Figura 15: Carta 02 Face B.............................................................................................

41

Figura 16: Transcrição diplomática da Carta 02 Face B................................................. 41
Figura 17: Carta 08 Face A.............................................................................................

42

Figura 18: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A................................................. 42
Figura 19: Transcrição diplomática da Carta 60 Face A................................................. 46
Figura 20: Carta 01 Face A.............................................................................................

50

Figura 21: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A................................................. 50
Figura 22: Fragmento inicial do texto “O Rei Cagado”.................................................

64

Figura 23: Carta 41 Face B.............................................................................................

65

11

Figura 24: Transcrição diplomática da Carta 41 Face B.................................................
Figura 25: Carta 06 Face A.............................................................................................

65
70

Figura 26: Transcrição diplomática da Carta 06 Face A................................................. 71
Figura 27: Carta 06 Face B.............................................................................................

72

Figura 28: Transcrição diplomática da Carta 06 Face B................................................. 72
Figura 29: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A................................................. 74
Figura 30: Transcrição diplomática da Carta 02 Face B................................................. 74
Figura 31: Transcrição diplomática da Carta 02 Face A................................................. 75
Figura 32: Carta 08 Face A.............................................................................................

76

Figura 33: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A................................................. 76
Figura 34: Carta 08 Face B.............................................................................................

77

Figura 35: Transcrição diplomática da Carta 08 Face B................................................. 77
Figura 36: Carta 09 Face A.............................................................................................

78

Figura 37: Transcrição diplomática da Carta 09 Face A................................................. 78
Figura 38: Carta 10 Face B.............................................................................................

79

Figura 39: Transcrição diplomática da Carta 10 Face B................................................. 79

12

LISTA DE SIGLAS

APA – American Psychiatric Association
CEDU – Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas
CLG – Curso de Linguística Geral
CID – Código Internacional de Doenças
DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais
EJA – Educação de Jovens e Adultos
ET&C – Escritura, Texto & Criação
INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social
OMS – Organização Mundial de Saúde
PMD – Psicose Maníaco-Depressiva.
RSI – Real, Simbólico e Imaginário
UFAL – Universidade Federal de Alagoas

13

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 13
1. A RELAÇÃO SUJEITO-LÍNGUA..........................................................................
1.1 Sobre o que faz texto................................................................................................
1.2 Significante e Significado........................................................................................
1.3 Uma Língua ameaçada............................................................................................

17
19
24
25

2 LINGUAGEM E DOENÇAS MENTAIS.................................................................
2.1 Os dizeres nas Psicoses............................................................................................
2.2 As diferenças das Psicoses para a Psiquiatria e para a Psicanálise....................
2.3 Os dizeres na Paranoia e na Esquizofrenia...........................................................
2.4 Psicose, Psicanálise e Linguística............................................................................
2.5 O sujeito do inconsciente na Psicanálise................................................................
2.6 O que disse Freud sobre as psicoses.......................................................................
2.7 Breves observações sobre a Paranoia para Lacan................................................
2.8 O percurso de Freud................................................................................................
2.9 O sujeito freudiano..................................................................................................

33
33
35
36
43
44
46
50
52
53

3 MODALIZAÇÕES E MOVIMENTOS DE AUTORIA.........................................
3.1 Authier-Revuz e as modalizações autonímicas......................................................
3.2 Texto e Autoria.........................................................................................................
3.3 Movimentos de autoria em manuscritos escolares................................................
3.4 Escuta, autoria e psicose..........................................................................................

55
55
60
61
68

4 MODALIZAÇÕES AUTONÍMICAS NA ESCRITURA PSICÓTICA DE
RK.................................................................................................................................... 72
CONCLUSÃO................................................................................................................

78

REFERÊNCIAS.............................................................................................................

79

ANEXOS.........................................................................................................................

84

14

1. INTRODUÇÃO

Assumir o desafio de investigar os manuscritos de um aluno de Educação de Jovens e
Adultos (doravante, EJA), diagnosticado como psicótico, é consequência do estranhamento
que nos causa e das indagações que nos atravessam quando nos deparamos com os escritos de
um sujeito sob efeito da psicose. Marilene Carone1, tradutora e organizadora das “Memórias
de um doente dos nervos”2, escrito por Schreber (1903), pergunta-se na introdução do livro:
“o que faz com que uma autobiografia bem escrita, mas sem prestígio literário, resista ao
desgaste do tempo, conservando interesse e atualidade?” A resposta encontra-se no interesse
que estes escritos despertaram em Freud na medida em que, mesmo sem nunca ter conhecido
o autor, foi possível traçar o perfil e o diagnóstico de um psicótico servindo-se apenas de seus
relatos escritos.
O aluno cujas cartas são o objeto de nosso estudo sofreu um surto aos 24 anos quando
ainda cursava o EJA numa cidade do interior de Pernambuco. Foi internado em um Hospital
Psiquiátrico e diagnosticado como sofrendo de “Psicose não-orgânica não especificada –
F29”3. Quando teve alta, não retornou à escola, mas procurou a professora para quem
escreveu as 129 cartas de que dispomos para nossas análises.
O que nos dizem os escritos de um psicótico? A que nos remetem as enunciações deste
sujeito? Que marcas linguísticas singularizam essa escrita? O confronto com a materialidade
própria desses escritos interroga: há aí a possibilidade de reconhecermos algum “movimento
de autoria”? (CALIL, 1997, 2003, 2004, 2008).
Se o “movimento de autoria”, conforme enunciado por Calil (2004, 2008) supõe uma
“escuta”4 daquele que escreve sobre o próprio escrito, rasurando, reformulando ou
restringindo o sentido através de glosas e modalizações, e se, por outro lado, a literatura
especializada sobre a escrita psicótica aponta para dizeres que se caracterizam pela falta de
1

Psicanalista e tradutora.
“Memórias de um doente dos nervos” publicado em 1903, foi escrito por Daniel Paul Schreber, um juiz da alta
corte na Alemanha, que sofreu o primeiro surto psicótico ao ser nomeado para Juiz Presidente da Corte de
Apelação na cidade de Dresden. Passou mais de 13 anos internado e terminou seus dias demenciado sofrendo de
paranoia.
3
Segundo relato da professora, o médico que prestou atendimento no hospital, diagnosticou o caso de RK
enquadrando-o na categoria “F29. Psicose não-orgânica não especificada” baseado na classificação do DSM IV Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais.
4
Escutar é diferente de ouvir. Escuta é o termo psicanalítico para aquilo que o sujeito fala e que remete a um
significante, diferente da função orgânica de ouvir.
2

15

escuta, “não há re-significação possível no movimento de volta” (NOVAES, 1996, p. 97), o
objetivo deste trabalho será analisar se há possibilidade de escuta nos escritos deste aluno que
nos autorize a falar em “movimento de autoria”, uma vez que este se instaura a partir de uma
articulação significante imprevisível e do reconhecimento, pelo sujeito, de uma diferença e
alteridade em sua escrita.
Nosso olhar, nas análises, incidirá sobre as marcas linguísticas que podem estar
presentes através de modalizações autonímicas (Authier-Revuz, 2004) encontradas nestes
enunciados, na medida em que este fenômeno linguístico-discursivo evidencia marcas de
representação do sujeito enunciadas no fluxo de seu dizer e que podem apontar indícios de um
“movimento de autoria” conforme proposto por Calil (2008).
A metodologia utilizada neste trabalho é decorrência dos “Estudos de manuscritos
escolares em qualquer instância de ensino” que fazem parte dos temas que norteiam o grupo
de pesquisa Ensino, Texto & Criação (ET&C) coordenado pelo professor Dr. Eduardo Calil
desde 2002. O objetivo do grupo é delinear processos de análise que reconheçam processos de
criação, documentando e elaborando materiais para ampliar sua produção. No presente
trabalho o objetivo específico é procurar dar conta de produções textuais que envolvam
contextos escolares. Entre as linhas de pesquisa do ET&C encontra-se “Manuscritos Escolares
e Processos de Escritura”, instância na qual pudemos situar este trabalho. Apesar de não
atender inteiramente ao requisito de manuscritos escolares por não ter sido produzido em sala
de aula, optamos por assumir a responsabilidade de considerar sua especificidade entendendo
que o aluno produziu os textos para a professora.
O recorte sobre este objeto se deu pelo reconhecimento de que as marcas linguísticas
deixadas pelo scriptor através de suas rasuras e modalizações podem nos oferecer subsídios
para pensar o estatuto de autoria nas cartas analisadas.
As informações iniciais acerca deste caso provêm do trabalho da professora M.S. e
estão relatadas no trabalho que ela elaborou como exigência final da disciplina Manuscritos
Escolares e Processos de Escrituras, do curso de Mestrado em Educação desta universidade.
Este acervo ao qual se denominou Cartas de RK é composto de 129 manuscritos na forma de
bilhetes dirigidos a MS e foram redigidos durante o surto pelo qual passou o aluno. Este
corpus contém cartas escritas em diferentes tipos de papeis já impressos tais como envelopes
bancários, panfletos informativos, folders bancários, anúncios, cartazes, folhetos de oração,
todos na forma de “bilhetes” dirigidos à sua professora que os coletava, lia, enumerava e

16

guardava. Por esta razão, e também pela profusão de erros ortográficos, a leitura fica bastante
dificultada.
Após sair da internação, RK não retornou à escola, mas dirigia-se diariamente à casa
da professora não aceitando convite para entrar. Postado no lado oposto da rua, escrevia as
cartas em pé rapidamente e depois as lançava na varanda da casa, saindo imediatamente do
local. Pela peculiaridade do caso, MS resolveu doar o material para o acervo “Práticas de
Textualização na Escola” (PTE) nomeando-o como “Cartas de RK”, nominação que
acatamos, apesar das características estruturais, discursivas e textuais apresentadas pelos
manuscritos questionarem essa classificação. MS também as enumerou a lápis por solicitação
do professor Calil. A numeração encontra-se no canto direito das folhas e supõe uma
orientação inicial anterior que adotamos como Face A, sendo a subsequente ou posterior, Face
B.
Importante esclarecer que a organização e numeração do material não correspondem
fielmente à ordem cronológica em que foram escritas e atiradas para a professora, pois raras
trazem alguma indicação de data. Da mesma forma, não há como saber que lado o aluno
elegeu para iniciar o texto, portanto, não há garantia na classificação de Face A ou B. Assim
sendo, respeitaremos a classificação inicial dada pela professora não apenas pelas limitações
descritas acima, mas também por entendermos que a ordem cronológica não tem efeito
substancial sobre as análises linguísticas que vamos empreender.
De posse deste material, iniciamos uma análise linguístico-discursiva que, pelas
características enunciativas – traços persecutórios, megalomania, certezas - aponta para um
caso de paranoia, o que coincide em parte, com o diagnóstico de psicose dado pelo médico do
hospital psiquiátrico onde RK foi internado. O conteúdo das cartas é intrigante e mostra um
delírio de perseguição em que RK atribui à professora a responsabilidade por inúmeros
acontecimentos negativos em sua vida. Professora que, antes da morte da mãe do aluno,
estava empenhando esforços para ajudá-los a obter uma aposentadoria junto ao Instituto
Nacional de Seguridade Social (INSS).
RK frequentava o curso de EJA juntamente com a mãe e uma irmã e, segundo a
professora, era considerado esquisito pelos familiares e colegas de escola, com óbvias
dificuldades em relacionar-se. A situação era agravada pela baixa capacidade visual, que foi
minimizada quando os colegas de EJA se cotizaram para comprar-lhe um par de óculos.

17

No decorrer do curso, apaixonou-se por uma companheira de classe e para acercar-se
da moça, que não correspondia aos seus sentimentos, pediu a ajuda da professora. Como não
logrou êxito, passou a agredir a escola quebrando vidraças com as próprias mãos, fato que
preocupou a direção e que levou os familiares, os médicos e a própria instituição escolar ao
consenso de interná-lo num hospital para doentes mentais onde foi diagnosticado como
sofrendo de “transtorno psicótico não-orgânico e não especificado” (CID-10, F29). Ficou 15
dias internado e quando saiu do hospital não retornou mais à escola procurando a professora
na casa dela. Nestas visitas, não falava nem aceitava convites para entrar, apenas escrevia as
cartas em pé, encostado no muro do jardim. Assim que acabava de escrever, jogava o bilhete
na área e saía apressado ou correndo. As cartas versam sobre dois assuntos predominantes: ele
fala da paixão pela colega de classe, pedindo ajuda da professora para promover o encontro
amoroso – confessando inclusive não ter vida sexual ativa e queixa-se de perseguição
acusando a professora, os colegas e até a mulher amada de se voltarem contra ele.
Outro tema que chama a atenção é a redação de duas cartas em que RK “inventa” uma
língua que ele afirma só poder ser compreendida por aqueles que “sabem”. Esta “criação de
uma língua própria” pode ser observada em casos de psicose – o caso Schreber - e evidencia
que algo falha na constituição do sujeito na sua relação com a lei porque a língua é um dos
campos em que a lei precisa operar, uma vez que cada sujeito não pode falar aquilo que quer.
Pela linguagem, estamos submetidos a um código que organiza o discurso e estabelece, ainda
que imaginariamente, um receptor e um emissor que encontram alguma significação nas
palavras que trocam.
As cartas foram digitalizadas, submetidas a transcrição acadêmica e encontram-se no
acervo “Práticas de Textualização na Escola”. Todo o material, composto pelas 129 cartas,
frente e verso foi estudado e analisado no contexto linguístico-discursivo das modalizações
autonímicas conforme a proposta de Authier-Revuz (1998, 2004). O foco das análises não
está na estrutura de personalidade do aluno, diagnosticado como psicótico, mas, por outro
lado, não podemos deixar passar despercebido que a singularidade do caso coloca questões de
subjetividade a serem consideradas e não é possível proceder às análises linguísticas de um
texto excluindo o sujeito que o produziu.

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1. A RELAÇÃO SUJEITO-LÍNGUA

Nas análises empreendidas em manuscritos escolares e processos de escritura em ato
(CALIL, 2004, 2008) foi possível relacionar a autoria a um movimento que traz tanto o
retorno do sujeito-escrevente sobre o que escreve quanto os modos de relação de alteridade
que garantem, imaginariamente, os efeitos de sentido e unidade do texto que produz. Os
comentários e glosas metaenunciativas grafados nas cartas de RK, revelam um caráter
dialógico e fazem ver, em inúmeros trechos que iremos exibir adiante, um retorno do sujeito
sobre o escrito.
A diferença entre os escritos de nosso sujeito e os manuscritos escolares estudados por
Calil (2004, 2008), redigidos por alunos que não apresentam nenhuma patologia, é que a
escritura psicótica coloca em suspenso o jogo da interação, a circulação social do texto e a
inserção do sujeito na dimensão da alteridade. Esta suspensão na dimensão da alteridade é
peculiar da psicose paranóica, e foi apontada por Freud no estudo do caso de Daniel Paul
Schreber, nas acusações que este dirige ao doutor Flechsig5. Freud observa que todo o
respeito e confiança que Schreber devotava ao médico antes da eclosão do surto, são
transformados em ódio, manifesto através de acusações e queixas de perseguição. Na psicose
paranóide a pessoa amada passa a ser a odiada e o doente atribui ao outro os sentimentos
negativos que desenvolve após a doença.
A partir do material que analisamos, é inevitável a comparação com os escritos de
Schreber, pois é na linha do discurso que encontramos as marcas da subjetividade do sujeito e
os escritos do sujeito de nossas análises revelam o caráter dialógico próprio da paranoia.
Vejamos um trecho extraído do livro de “Memórias de Schreber”, em que o Juiz faz a
introdução de seus escritos:
Antes de passar a expor como, em conseqüência de minha doença, entrei em
relações bastante peculiares com Deus e – apresso-me a acrescentar – em si
contraditórias com a Ordem do Mundo, devo primeiramente adiantar algumas
observações sobre a natureza de Deus e da alma humana, as quais podem
provisoriamente ser colocadas como axioma, isto é, proposições que não necessitam

5

Paul Emil Flechsig dirigia a clínica para doenças nervosas da Universidade de Leipzig onde Schreber foi
internado. Era uma autoridade da Psiquiatria e Neurologia da época e cuidou de Schreber diagnosticando-o como
portador de dementia paranoides. A família afeiçoou-se a ele e demonstrou total confiança nos procedimentos
clínicos adotados, até o momento em que os delírios persecutórios de Schreber o colocaram como seu maior
inimigo.

19

de demonstração e cuja fundamentação, na medida do possível, poderá ser testada
posteriormente (SCHREBER, 1995, p. 31).

Como se pode observar, o texto apresenta-se bem redigido, coeso, coerente em sua
função sintática, argumentativo e claramente exposto. Comparecem retornos na forma de
modalizações autonímicas como no trecho em que fala de suas “relações bastante particulares
com Deus” momento em que acha necessário explicitar “apresso-me a acrescentar – em si
contraditórias com a Ordem do Mundo”. Ou seja, ao argumentar com o leitor acerca de suas
possíveis relações com Deus, Schreber adverte – e para isso realiza um movimento de volta
sobre o que foi dito - que tais relações não são ordinárias, elas estão em contradição com a
Ordem do Mundo. O enunciado “relações com Deus” provoca o comentário “contraditórias
com a Ordem do Mundo”, uma glosa na forma descrita por Authier-Revuz (1995) como “X,
no sentido dado por fulano”, um modo de obter o reconhecimento social dessa forma de dizer
situando-o numa fronteira interior/exterior, em que o discurso, embora atravesse o sujeito, não
é da ordem do individual.
Apesar do conteúdo extravagante, a linha argumentativa do discurso está encadeada e
provoca uma aparência de sentido no leitor. A gramática, o léxico e a morfologia estão
preservados, enquanto os argumentos se assemelham a um texto de ficção científica de cunho
religioso. O discurso organizado é uma característica da psicose paranoide, ao contrário da
esquizofrenia, em que o sujeito apresenta muitas rupturas e deslizamentos, dificultando ao
interlocutor acompanhar a linha do discurso. Na paranoia o que causa estranhamento são as
ideias delirantes que o sujeito apresenta, conforme veremos mais detalhadamente no
desenvolvimento deste trabalho.
Essas questões, formuladas de um ponto de vista linguístico encontram eco na máxima
de Jakobson: “Linguista sou: nada do que é linguístico me é estranho” (JAKOBSON, 2003,
p.17) e do ponto de vista psicanalítico na recomendação de Lacan de “não retroceder frente à
psicose”, questão enfatizada numa comunicação de Lacan de 1977, na abertura da sessão
clínica em Vincennes6, uma colocação que terminou por se tornar palavra de ordem para os
analistas lacanianos. Assim, a fala sintomática e, do mesmo modo a aquisição da linguagem, o
ato falho, a poesia, nos convocam a refletir sobre a relação do sujeito com a língua que o

6

Departamento de Psicanálise de Vincennes - Universidade em Paris VIII onde Lacan foi convidado a dirigir as
famosas sessões clínicas em que eram abordados casos de psicose. A publicação das sessões encontra-se em
ORNICAR n. 9.

20

constitui. Partindo de Freud, assumimos que o homem, ao estar capturado pela linguagem,
sofre dela seus efeitos.

1.1 Sobre o que faz texto

No trabalho que Cláudia Lemos (1992, 1995, 1996, 2000, 2002) desenvolve sobre
aquisição de linguagem, encontramos subsídios para pensar esta complexa relação do sujeito
com a língua que o constitui e que, portanto, está posta desde as primeiras falas. Como ela
testemunha em seus trabalhos, insatisfeita com as teorias cognitivistas que não davam conta
de explicar as mudanças observadas na fala da criança, e na busca de uma postura teórica
alternativa à noção de desenvolvimento na interpretação do processo de aquisição da
linguagem, ela encontra nos conceitos lacanianos de “escuta” e de “sujeito do inconsciente”,
os fundamentos para conceituar a passagem que todos percorremos de infans a sujeito falante
de nossa própria língua. Em Lemos (1996) ela afirma que a teoria psicanalítica lhe permitiu
abordar tanto a relação da criança com a língua e com o outro que a significa como falante,
quanto compreender as mudanças na fala da criança como consequência de sua captura pela
ordem simbólica que comanda o funcionamento da língua. Lemos (1996) propõe que as
mudanças que possibilitam a passagem do infans a falante são reposicionamentos em relação
à fala do outro, à língua e à sua própria fala. Trata-se de uma estrutura cuja sustentação requer
um “outro” (em geral a mãe ou a pessoa que cuida) como representante da língua, a própria
língua em seu funcionamento e a criança enquanto sujeito falante. Por ser estrutural, implica a
criança, o adulto e a língua em seu funcionamento. A autora identificou três posições
subjetivas relativas à interação mãe-criança.
Na primeira posição o polo dominante é o outro, evidenciando-se na fala da criança, os
enunciados da mãe, em que a primeira incorpora palavras, argumentos e até a sintaxe da
segunda. Aqui há uma predominância dos processos metonímicos, ficando a contenção da
deriva por conta do outro, que tenta dar um significado aos enunciados da criança inserindoos numa estrutura lexical, sintática, morfológica e semântica.

21

A segunda posição, em que o polo dominante é a língua, é marcada pela alienação da
criança ao funcionamento da língua. Aqui ela vai deslizando no compasso das possibilidades
metonímicas da língua. A criança ao errar, não se escuta nem escuta as correções feitas pelo
outro, apesar de responder ao outro, ainda que repetindo o próprio erro. Não estranha o que
diz por que está tomada pelo funcionamento metafórico-metonímico em que os significantes
vão se substituindo por um efeito de linguagem.
Na terceira posição, polo dominante do sujeito, a criança começa a identificar que
enunciado provocou estranhamento no outro ou nela mesma e refaz seu percurso corrigindo,
re-significando e/ou substituindo-o por outro.
A mudança de posição afeta tanto o adulto como a criança e relaciona-se ao processo
de subjetivação determinado pelo modo de inscrição na língua enquanto funcionamento
simbólico. Todo sujeito falante, para falar ou construir um texto escrito, estará sempre
vinculado a um “outro” que o significa, à língua que o representa e à escuta que significa seu
discurso.
Ampliando esta noção de escuta utilizada por Lemos (1996) na observação da
aquisição da fala em crianças, Calil (2008) toma o movimento de retorno - que singulariza a
terceira posição - como fundamento para pensar as questões de autoria em manuscritos
escolares. Partindo de Lemos (1992, 1995) ele se volta para as proposições de Authier-Revuz
(1990, 1998) cujo trabalho foi desenvolvido para demonstrar que todo dizer comporta uma
heterogeneidade que lhe é constitutiva, ou seja, algo sempre escapa ao sujeito da linguagem.
Esta falta de controle sobre a linguagem evidencia-se como formas de não-coincidência do
dizer obrigando o sujeito a buscar uma solução para a emergência do conflito. Quando o
significante se apresenta em toda sua opacidade é necessário um retorno sobre o enunciado
para esclarecer, fixar, comentar ou reformular. Esta reflexão sobre o dito denota uma escuta
do sujeito sobre aquilo que pulou na cadeia sintagmática, que ele identifica como um
estranhamento e para o qual é necessário um esclarecimento. É o fenômeno por excelência
que Calil (2008) referencia ao “movimento de autoria”. Este movimento retroativo engendra
as modalizações autonímicas, um desdobramento do dizer que muito se assemelha a uma
forma de diálogo interior em que o sujeito encontra-se cindido entre um que fala e outro que
escuta.
No caminho que vem percorrendo em suas pesquisas, Calil (2008) demonstra que o
processo de escritura de manuscritos escolares assemelha-se ao de escritores renomados
naquilo que toca o real da língua (alíngua), pois todo sujeito falante está submetido ao mesmo

22

funcionamento, sendo-lhe vetado qualquer domínio ou controle sobre as leis que organizam a
linguagem. Assim, tais processos apontam para uma relação entre sujeito, língua e sentido na
qual tanto o escritor como o scriptor7 estão sob efeito do mesmo funcionamento linguísticodiscursivo.
Em seu livro “Escutar o invisível” Calil (2008) reúne Hilda Hilst, renomada poetisa e
dois alunos de 2ª série do Ensino Fundamental, Valdemir e Maria das Graças para cotejar seus
poemas analisando os embates que se travam do autor consigo mesmo. No caso dos alunos,
além da reflexão íntima que cada scriptor realiza e justamente por ser íntima não é possível
registrar, está documentado o diálogo8 em que as altercações acontecem. Estes embates, sejam
íntimos ou a dois, vão revelando as heterogeneidades constitutivas da linguagem descritas por
Authier-Revuz (1998), e só encontram solução num certo modo de modalização autonímica.
Numa simulação de diálogo interno imaginado por Calil (2008), em um manuscrito no
qual Hilst rasura o verbo tomasses para substituí-lo por pensasses, ela “pensaria com seus
botões” dando asas às seguintes reflexões: “-- Se me tomasses Vida... Não! “Tomar” pode dar
a entender “tirar a vida”. Uma palavra mais justa seria “pensar”. É melhor escrever “se me
pensasses Vida, que matéria e que cores!”(CALIL, 2008, p. 58)9
As muitas rasuras observadas nestes versos indiciam as idas e vindas, as hesitações e
devaneios percorridos pela autora, marcando a não-coincidência do dizer do escritor em seu
processo de criação artística. Assim também os alunos, na tentativa de escrever um poema
proposto pela professora em sala de aula, sofrem os efeitos da dinâmica metalinguística, uma
função predominantemente inconsciente inerente aos processos criativos. Esta capacidade
reflexiva, além de possibilitar a emergência do novo, do inusitado, do inventivo, traz também
marcas das relações intertextuais com outros poemas já lidos e/ou escritos.

7

Scriptor é o termo que o autor utiliza para denominar aquele que escreve diferenciando do uso corrente para
escritor, utilizado popularmente para nominar alguém que tenha textos ou livro publicados.
8
Todas as conversas entre os dois alunos foram filmadas e gravadas em vídeo depois submetidas a transcrição.
9
Fragmento do verso em transcrição diplomática em que os termos substituídos estão entre parênteses:
“Se (ela) tivesse madeira e ilusões
Faria um barco e pensaria (pensava ser) o (um) arco-íris.
Se me pensasses (tomasses) Vida, que matéria e que cores.
Para a minha possível sobrevida?”
Em sua forma final este trecho do verso ficou assim:
“Se tivesse madeira e ilusões
Faria um barco e pensaria o arco-íris.
Se me pensasses Vida, que matéria e que cores.
Para a minha possível sobrevida?”

23

Na análise do poema escrito pelos alunos, a ênfase encontra-se nas rasuras orais que
testemunham as dúvidas e altercações que permeiam a escritura dos versos10. Para obter maior
fidelidade ao que os estudantes falam e escrevem, Calil (2008) criou uma metodologia de
filmar as cenas no momento em que ocorrem na sala de aula para depois proceder às análises
dos dados. Vejamos um trecho em que os dois alunos conversam sobre o poema que vão
escrever11:
1. MARIA (PERGUNTANDO COM VOZ BAIXA): Pode ser uma cor?
2. VALDEMIR (CHAMANDO A PROFESSORA): Ô tia...
3.MARIA (OLHANDO PARA VALDEMIR E FALANDO EM TOM
AFIRMATIVO): Pode ser uma cor.
4. ALUNO (ESCUTANDO MARIA E DIZENDO PARA A DUPLA): cor
...laranja... vermelho...azul...
5. VALDEMIR (AO ESCUTAR O QUE DISSE O COLEGA, FICA TENTANDO
LEMBRAR-SE DO INÍCIO DE UM POEMA ESCRITO COM MARIA HÁ DUAS
SEMANAS): sobre aquele poema...no ar...no ar...
6. MARIA: Se eu ti...
7. VALDEMIR (INTERROMPENDO-A): ...se eu tivesse no ar... quem vem me
salvar...o céu e o mar...
8. MARIA: Fala de novo...
9. VALDEMIR: Se eu tivesse no ar quem vem me salvar... o céu...ou a terra
ou...ou... o mar...
10. MARIA (MANDANDO VALDEMIR ESCREVER): Vai...depois a gente pensa
num título (CALIL, 2008, p. 71-72).

Neste diálogo, os garotos encontram-se sob a influência de um poema lido pela
professora em sala de aula “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles12. Calil (2008) comenta
que é notável como as reticências e silêncios propiciam a emergência dos conteúdos latentes –
10

Poema “Quem vem me salvar”
Se eu estivesse no ar
Quem vem me salvar?
O céu ou a terra ou o mar?
Um dos três terá que me salvar!
Se a terra vem me salvar
Eu tenho aonde morar.
Se o céu vem me salvar
Eu tenho aonde voar.
Se o mar vem me salvar
Eu posso até me afogar.
11
Transcrição dos diálogos referentes à composição do poema “Quem vem me salvar” cedidos gentilmente pelo
pesquisador.
12
Fragmento do poema de Cecília Meireles “Ou Isto Ou Aquilo”:
Ou se tem chuva e não se tem sol!
Ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel!
Ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão.
Quem fica no chão não sobe nos ares.

24

os versos estudados anteriormente e um poema escrito há 15 dias pela mesma dupla de
alunos. Vemos que os embates entre Maria e Valdemir não apenas sofrem influência do
fenômeno de intertextualidade (Cecília Meireles e o poema anterior escrito pelos alunos)
como também dizem respeito a uma escuta sobre aquilo que vão falando e/ou escrevendo,
escuta que permite a transformação e a adequação (imaginária) ao que eles concebem como
“o que é um poema”: pode ser sobre uma cor, é escrito em estrofes, tem rimas, tem título! É
pela escuta do scriptor que o texto vai tomando forma, produzindo sentido, mergulhando no
poético.
Apesar de algumas diferenças apontadas por Calil (2008) entre as modalizações
autonímicas encontradas no discurso oral e no escrito13, observamos que a rasura também
configura um retorno sobre o que foi escrito, como as pausas do tipo “X devo dizer Y” ou “Y,
não, fica melhor X”. O sujeito está tentando se adequar a um discurso, orientado por
concepções estéticas advindas do imaginário linguístico e cultural em que vive.
Todo sujeito busca um sentido naquilo que lê e escreve, é próprio da constituição da
língua que os significantes estejam encadeados de maneira a produzir significação, uma vez
que toda escuta se estabelece a partir de uma promessa de significação. Entretanto, pela falta
que toda língua comporta, os furos de sentido emergem e são justamente estes vazios que
permitem mobilizar os processos de criação na oralidade ou na escrita. Os efeitos do real da
língua (alíngua)14 no falante, podem tanto paralisar quanto produzir um empuxo à criação
uma vez que traz o inusitado, o novo, cuja apreensão e apropriação vão depender da posição
subjetiva ocupada por cada sujeito. Nas psicoses, entretanto, a promessa de significação nem
sempre se cumpre, e neste contexto, o interlocutor não pode acompanhar o conteúdo do dizer
do outro e se depara com um esvaziamento do sentido. Como exemplo, pode ser apresentado
quando RK declara sua dificuldade em constituir Um “significado” para Uma palavra. Na
Carta 11 ele afirma:

13

A rasura escrita, apesar de marcar a reflexividade e opacidade do dizer, não traz a explicitação de um
comentário em “um ato único de enunciação”, característica que pode se manifestar diferentemente em uma
rasura oral.
14
Termo criado por Lacan para designar a falta (Real) que comporta toda língua e que provoca as rupturas,
tropeços, hesitações, atos falhos, chistes. Por não exercer domínio sobre a língua, todo falante está sujeito aos
efeitos do Real.

25

Figura 1: Carta 11 Face B

1. agora a sua pessoa talvez não
2. saiba mas ninguém pensa igual
3. uma palavra para a sua pessoa tem
4. significados mas para mim pode ter
5. milhões.

poucos

Figura 2: Transcrição diplomática da Carta 11 Face B

Esta proliferação de sentidos a que as palavras estão submetidas pela ordem própria da
língua, impede que o texto configure uma unidade, aparecem as rupturas, os deslizamentos e a
deriva que o psicótico nem sempre consegue conter.

1.2 Significante e Significado

As obras principais de Freud: “A interpretação dos sonhos”, Freud (1900);
“Psicopatologia da vida cotidiana”, Freud (1901); e “Os chistes e sua relações com o
Inconsciente”, Freud (1905), denotam que, à medida que mergulha no deciframento do
inconsciente, ele se depara cada vez mais com as leis da linguagem. Na trilha de Freud, Lacan
vai afirmar que o que define a constituição psíquica é a relação do sujeito com a cadeia

26

significante e a questão da psicose torna-se fundamental para a teoria lacaniana, na
demonstração da relação do sujeito com o significante. A paranóia representou para Lacan o
mesmo que a histeria para Freud na descoberta dos mecanismos inconscientes relacionados ao
campo da fala e da linguagem. O outro da linguagem é, portanto, constitutivo da
subjetividade, sendo a linguagem o que nos diferencia dos animais, ou seja, o homem se
caracteriza essencialmente por ser falante.
Assumindo com Freud que a existência do inconsciente situava-se no campo da
investigação lingüística, Lacan vai encontrar num linguista, Ferdinand de Saussure, o material
de que necessitava para sustentar a psicanálise como um campo da palavra. Para isso utilizou
as noções de significante e significado, sem menção ao signo, uma vez que para ele
interessava demonstrar que o significante é autônomo em relação ao significado. Lacan
elimina a célula que delimita o signo e retira as flechas que Saussure, ao que parece pela
publicação recente dos Escritos, nunca utilizou. Também inverte a disposição dos dois
elementos atribuindo ao significante uma função primordial sendo este, verdadeiramente, o
produtor do significado. Lacan conclui que, se o significante é autônomo em relação ao
significado sua principal função na linguagem será a de representar o sujeito e de determinálo.
Lacan (1998), em “A instância da letra”, recorre a Jakobson (1999) em seus estudos
sobre as afasias e os polos metafóricos e metonímicos para redimensionar a condensação e o
deslocamento de que Freud (1900) falara na Interpretação dos sonhos como leis que regem os
processos inconscientes e que se apresentam como as mesmas leis que encontramos na
constituição da linguagem. A partir desta interlocução foi possível para psicanalistas e
linguistas, beneficiarem-se das interfaces entre as duas áreas do conhecimento para teorizar
sobre questões da constituição do sujeito, da linguagem, da fala e da escrita em suas
modalidades normais e patológicas. Nosso trabalho não seria possível sem estas vias de
abordagem que, ao tempo que nos fornecem subsídios para pensar a função da fala e o
estatuto da escrita no sujeito psicótico, também abrem a possibilidade de investigar, nestes
escritos, movimentos de um sujeito- autor.

1.3 Uma Língua ameaçada

27

Com Saussure (2003, p. 31) aprendemos que a “língua é um sistema que conhece
somente sua ordem própria” (SAUSSURE, 2003, p. 31). Pela anterioridade da linguagem em
relação ao sujeito, reconhecer a ordem própria da língua significaria excluir dela o individual
e o social? Deparamo-nos aqui com duas linguísticas que não necessariamente se opõem, mas
se complementam: uma externa, sistematizada por teóricos e submetida a regras e normas
mais ou menos rígidas e uma interna referida a parole em que o individual e o subjetivo
fazem contraponto e ameaçam “desestruturar” as línguas estabelecidas.
Jean-Claude Milner (1987), um linguista que tomou a leitura de Lacan para teorizar
sobre a língua, aponta este caráter desestruturante da língua ressaltando como ela é “nãotoda”, significando com isso que é constituída por falhas, equívocos e tropeços, ou seja, há
algo que escapa às leis da linguagem e que é próprio da subjetivação do sujeito que fala. A
esta face indomável e imprevisível da língua Lacan denominou lalangue (alíngua). Nas
palavras de Milner (1987) em “O amor da língua”, a língua como aquilo que toca o real é
imprópria a se totalizar e própria a produzir equívocos. Ao que podemos acrescentar também,
própria a produzir a fala sintomática observada nas psicoses. Como a linguagem para o
psicótico toca o real, ou melhor, pelo processo de foraclusão ela vem do real e invade o
sujeito, este não encontra ancoragem no simbólico, o que obriga o psicótico a dar conta desta
nova organização criando uma nova língua, seja com neologismos, seja acoplando letras e
montando

as

palavras

“AVIVOS(N)ENSE;

AVVATIBECRA;

HUSPLOMENTLIC;

GONLONC; SOBIUR; NAVASAL; ACRACOSNAPA” ou atribuindo sentidos particulares
aos termos existentes. Observe:

Figura 3: Carta 29 Face A (fragmento 1)

1. avivos(n)ense avvatibecra husplomentlic
2. gonlonc sobiur navasal acracosnapa
Figura 4: Transcrição diplomática da Carta 29 Face A (fragmento 1)

Esta “língua-outra” em que ele circula, comporta um código próprio em que ele fala de
sua posição na estrutura, através das formas lógicas que implicam operações do inconsciente.
Segundo Bromberg (1995, p. 67) decifrar este código implicaria poder conduzir o sujeito a
outra posição subjetiva, onde encontre um ponto de afirmação diferente do que lhe
proporciona a construção delirante.

28

A linguagem na paranóia apresenta um modo de articulação significante, mas também
há que considerar uma significação perdida e um encadeamento particular das palavras, que
vem representar, vem dar um sentido a essa significação perdida. Sentido que nem sempre
pode ser compartilhado porque o sujeito psicótico se organiza em torno do delírio, a
emergência de significantes nas cadeias sintagmáticas e associativas é afetada pela falha no
processo de simbolização imprimindo no discurso destes sujeitos uma forma particular que
ameaça desintegrar a linguagem. As relações e as diferenças entre termos linguísticos, que se
apresentam em virtude do encadeamento linear da língua, o desfile metonímico, próprio da
linguagem, onde o neurótico vacila, mas encontra ancoragem, para o paranóico é causa de
desestabilização e angústia. Este caráter instável e imprevisível é constitutivo de um sistema
de imanência simbólica a nada igualável que é a língua.
Milner (1987) propõe o termo “dentelé” para falar desta propriedade de mobilidade da
língua em que, apesar de existirem os dentes interligados, há os espaços existentes entre os
termos que constituem lacunas entra cada um deles e que possibilitam que surjam outros
significantes para atuar na cadeia. A metáfora do dentelé expõe ao mesmo tempo tanto a
linearidade da linguagem, sua relação sintagmática ou metonímica como a relação
paradigmática, metafórica em que os termos que permanecem in absentia podem interferir na
estabilidade da cadeia. Ele afirma categoricamente:
não apenas a linguagem é um objeto suscetível de metáfora e metonímia, mas ela é
suscetível apenas disso. Por quê? Porque de fato, a metáfora e a metonímia são as
únicas leis de composição interna que são possíveis aí onde apenas as relações
sintagmáticas e paradigmáticas são possíveis. (MILNER, 1989, p. 390).

Na Carta 08 Face A, linha 09, ao enunciar o termo “Calado!” RK em seguida profere
“é como se diz, quem tem boca vai a Roma”.

Figura 5: Carta 08 Face A (fragmento 1)

9. e pelos outros. Aceitava tudo!!! Calado. Agora não.
10. É como se diz, quem tem boca vai a Roma.
Figura 6: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A (fragmento 1)

Ao emergir, o significante “calado” parece abrir um espaço para metonimicamente
convocar o provérbio popular. Calado, por associação remete a boca, operação que abre uma

29

lacuna para o encadeamento do ditado. Vemos assim como o significado vai se impondo na
cadeia conforme as relações que se estabelecem entre os signos.
Uma questão se impõe neste momento e diz respeito ao caminho que Saussure (2003)
percorreu na tentativa de sistematização e transmissão da lingüística enquanto ciência. As
reflexões acerca do signo linguístico que a princípio ficaram limitadas à relação interna do
signo, o significante em relação ao significado, colocaram o problema da delimitação das
entidades concretas na cadeia fônica. Esta evolução no pensamento de Saussure vai levá-lo a
formular a teoria do valor em que ele utiliza a metáfora do jogo de xadrez para anunciar:
Mas assim como o jogo de xadrez está todo inteiro na combinação das diferentes
peças, assim também a língua tem o caráter de um sistema baseado completamente
na oposição de suas unidades concretas. Não podemos dispensar-nos de conhecê-las,
nem dar um passo sem recorrer a elas; e, no entanto, sua delimitação é um problema
tão delicado que nos perguntamos se elas existem de fato (SAUSSURE, 2003, p.
124).

A partir desta afirmação ficam as unidades destituídas de seu caráter positivo, ao ponto
dele questionar até mesmo a integridade do signo quando inserido na cadeia sintagmática:
“uma sequência de sons só é linguística quando é suporte de uma ideia”. Ele conjectura o que
ocorreria no caso de se dividir a cadeia falada em sílabas, pois a sílaba só interessa à
Fonologia. Apenas o falante, ao servir-se do registro do Simbólico pode dar a significação e
fazer o corte na cadeia fônica, sem isso a língua seria apenas uma massa amorfa. Uma língua
estrangeira e desconhecida é apenas uma linha contínua na qual o ouvido não percebe recortes
nem significação. As palavras precisam estar investidas de significação para que produzam
efeito, se na psicose a significação está comprometida pelas falhas na simbolização, o
discurso do sujeito psicótico não é da mesma ordem da fala ordinária.
A fala e a escrita psicótica não fogem às leis da linguagem, sua especificidade está em
que os significantes não encontram um ponto de amarração que sustente o sentido do
enunciado, provocando rupturas. Este processo de ruptura não é privativo das patologias, ele é
próprio da linguagem e assemelha-se ao que acontece ao artista que se vale da instabilidade
inerente às palavras para imprimir novas significações e novos rumos aos seus escritos. Como
nos assegura Willemart (2005), introdutor da Crítica Genética no Brasil, o poeta não pode
controlar o processo do qual ele participa como apenas uma das partes. A diferença é que, na
poesia, o escritor, a cada ruptura ou perturbação do sentido debruça-se sobre o texto para
imprimir nova significação à obra e o psicótico, não encontrando este ponto de ancoragem
pela dificuldade em metaforizar, deixa os sentidos à deriva.

30

Uma vez mergulhadas no poético, as palavras adquirem uma instabilidade e uma
imprevisibilidade exemplar. O processo escritural ou artístico tem a capacidade de
eliminar a estabilidade das letras e das palavras ou de estender as condições iniciais
a um grau infinito, o que permite um retorno à própria história e a recuperação de
uma instabilidade criadora (WILLEMART apud FELIPETO, 2008, p. 157).

Apesar de ambos estarem submetidos aos processos metafóricos e metonímicos
constituintes da linguagem, o poeta está sempre trabalhando, e às vezes arduamente, na
captura de um sentido para seus dizeres, diferente do sujeito com comprometimento psíquico.
Nas psicoses esta instabilidade não necessariamente leva à criação porque há falhas na
simbolização dificultando a significação, o sujeito fica à deriva sem condições de dar um
sentido ao que diz. É necessário frisar que esta “falta de sentido” está do lado de quem escuta,
pois para o enunciador seu dizer faz sentido. As mudanças de rumo que caracterizam a deriva
ficam evidenciadas em inúmeras cartas de nosso sujeito. Por exemplo, nesse fragmento da
Carta 60 Face A.

Figura 7: Carta 60 Face A

10. tudo o que faz é mais
11. claro que uma lâmpada de
12. cem velas
13. é sempre muito obvia sempre
14. parece até coisa de amador
15. dona Cristina
16. seu Zé Roberto também brinca
17. tia Lucia
18. aquele traidor “família”

31

19. estão a sua mercê
20. sinceramente eu esperava uma
21. atitude digna da sua pessoa
22. pois quem é e o que faz
23. uma profissional que tem vinte
24. e tantos anos de carreira
25. não sabe dialogar o diálogo remove

montanhas

Figura 8: Transcrição diplomática da Carta 60 Face A

É possível constatar no trecho acima, a dificuldade do aluno em manter o fluxo de seu
enunciado. RK parece não estranhar a deriva de seu escrito quando passa de um assunto a
outro sem pausas, pontuação ou conectivos que indiciem a introdução de novo assunto. Ele
parte de uma observação, possivelmente sobre a professora: “tudo o que faz é mais claro que
uma lâmpada de cem velas é sempre muito obvia sempre parece até coisa de amador” para em
seguida listar alguns nomes seguidos de um possível adjetivo “traidor família” que “estão à
sua mercê”. Imediatamente passa a se dirigir à professora de quem cobra a “atitude digna” de
uma profissional que tem vinte e tantos anos de carreira. Não há encadeamento na tessitura
argumentativa da carta, o discurso é fragmentado, disperso e finaliza sem oferecer qualquer
possibilidade de sentido ao leitor.
É interessante frisar que estas acusações sobre a dignidade e competência da
professora se repetem em algumas cartas – conforme já apontamos, esta é uma característica
dos dizeres sob efeito da paranóia em que as posições dialógicas eu-tu encontram-se
mescladas, confundidas.
Segundo Dufour (2000), o processo enunciativo assenta-se no suporte trinitário
“natural” através da relação “eu-tu/ele” explicitada como “quando um sujeito fala, ele diz ‘eu’
a um ‘tu’, a propósito d’‘ele’”. Estas posições encontram-se extremamente afetadas na
paranóia por uma falha na afirmação inicial que determina o sujeito como tal. A partir daí,
todas as operações que implicam na constituição subjetiva também estão afetadas. A operação
que funda a diferença entre eu e não-eu é interrompida, e a passagem que conduz ao
simbólico é obstaculizada e obrigada a alguns desvios. Na paranóia o sujeito permanece em
união com o Outro sem poder efetuar a operação simbólica da separação, uma vez que esta o
coloca em risco de desorganizar-se. Podemos compreender então como as posições eu-tu/ele
encontram-se embaralhadas a partir desta parca constituição de um sujeito que não pode se
constituir como “eu”.

32

Se nas psicoses, aquilo que não foi simbolizado retorna do Real, os significantes se
apresentam de forma abrupta, irrompendo como verdade absoluta, vindos desde o Outro como
um sem sentido que se lhe impõe. Assim, o psicótico encontra-se nesta urgência de interpretar
constantemente, este sentido que é um sem-sentido para ele, fazendo grandes interpretações.
Lacan diz, a propósito de Schreber, que a trama contínua de alucinações verbais constitui uma
forma de dar sentido ao seu mundo de realidade. Desta forma, a falta de sentido que o
psicótico atribui ao dizer do outro está na mesma relação da falta de sentido para o outrointerlocutor. Para o psicótico seu dizer faz sentido, mas falta para aquele que escuta.
Em nossos dados, observamos algumas reflexões na forma de modalizações
autonímicas como na Carta 02 Face A, em que RK argumenta com a professora:

Figura 9: Carta 02 Face A

1. eu quase não durmo só penso na
2. minha vida Val das doze as doze
3. eu estou morrendo por dentro pois já
4. morri por fora é e Val que é bom
5. nada ela sempre foi medrosa e agora mais
6. ainda porque xxx sabe que é verdadei
7. ro ela é a minha fofinha e cheirosa
8. resumindo para mim ela é Cleópatra a rainha do
9. Nilo Val é minha só minha de mais
10. ninguém.
Figura 10: Transcrição diplomática da Carta 02 Face A

33

Neste trecho da carta quando se refere à sua colega Val, para demonstrar a intensidade
de seu entusiasmo, ele a adjetiva com os termos “fofinha e cheirosa”, e em seguida, num
movimento de retorno sobre o que escreveu, dá um fechamento à frase concluindo com
“resumindo, para mim ela é Cleópatra a rainha do Nilo”. Aqui podemos inferir que os termos
“fofinha” e “cheirosa” remetem a uma pessoa desejável, um ideal de mulher que pode ser
comparável a uma rainha. Para não precisar seguir colocando mais adjetivos em Val, opta por
sintetizar sua admiração numa comparação com Cleópatra, uma das mais célebres
personagens femininas da história. RK busca uma palavra melhor para definir a pessoa amada
e encontra em Cleópatra, uma adequação (imaginária) ao ideal de mulher. Este
reconhecimento do que está sendo dito - fofinha e cheirosa - é uma forma de modalização
autonímica do tipo “X, na falta de palavra melhor” que Authier-Revuz (1995) classifica como
“não-coincidência entre as palavras e as coisas” que vem demonstrar, de acordo com Lacan,
um sujeito produzido pela linguagem como estruturalmente clivado pelo inconsciente.

34

2 LINGUAGEM E DOENÇAS MENTAIS

2.1 Os dizeres nas psicoses

A relação sujeito-língua também vai ser motivo de reflexão para Novaes (1996) pensar
os dizeres na esquizofrenia. Esta pesquisadora, uma linguista que se interessou pelos
fenômenos linguísticos presentes na fala esquizofrênica, faz uma análise dos efeitos de
estranhamento provocados pela fala de pacientes esquizofrênicos internados em hospital
psiquiátrico no Rio de Janeiro. Em seu livro “Os dizeres nas esquizofrenias” ela vai explicitar
como a loucura se evidencia na linguagem e de que forma a psiquiatria e também a
linguística têm ignorado o fato de que o diagnóstico médico está calcado nas manifestações de
fala (e escrita) dos pacientes.
A autora aponta que, apesar de a loucura ter se mantido em oposição à razão, no senso
imaginário comum, na relação médico-louco está situada além deste antagonismo “É mesmo
da ordem da fala e da escuta que se dá a relação médico-paciente. É no universo do dizer que
a loucura mostra sua cara. Um dizer que traz consigo uma série de valores e sentidos já
aderidos à personagem do louco” (NOVAES, 1996, p. 24).
No discurso da psiquiatria, o “louco” é aquele que perdeu a razão, que não diz coisa
com coisa, que não se responsabiliza por seus atos e palavras. Novaes (1996) mostra como o
diagnóstico médico está preso a uma circularidade que inviabiliza as explicações e a
compreensão do fenômeno: não havendo lesão que demonstre a doença, os diagnósticos
baseiam-se nos sintomas; as perguntas são dirigidas aos sintomas e não ao paciente; a
antecipação das confirmações já está nas perguntas, o que leva a autora a denunciar este
procedimento como um jogo de cartas marcadas.
Apesar do enorme investimento em pesquisas realizadas com as chamadas “doenças
mentais”, até hoje não foram encontrados fundamentos suficientes para atribuir a estes
transtornos uma causa orgânica /hereditária. Os aspectos que denunciam a doença mental em
um indivíduo são tomados como sintomas de cunho predominantemente psicológico,
caracterizados como “distúrbios de personalidade”. Assim sendo, a psiquiatria procurou ater-

35

se a elencar as descrições dos sintomas para melhor orientar o psiquiatra. Laplanche e Pontalis
(1997) advertem que a esquizofrenia, por exemplo, diversifica-se em formas aparentemente
muito dessemelhantes caracterizadas por:
Incoerência do pensamento, da ação e da afetividade (designada pelos termos
clássicos discordância, dissociação, desagregação), o afastamento da realidade como
um desdobrar-se sobre si mesmo e predominância de uma vida interior entregue às
produções fantasísticas (autismo), uma atividade delirante mais ou menos acentuada
e sempre mal sistematizada. Finalmente, o caráter crônico da doença, que evolui
segundo os mais diversos ritmos no sentido de uma “deterioração mental”
intelectual e afetiva, e resulta muitas vezes em estados de feição demencial
(LAPLANCHE; PONTALIS, 1997, p. 157).

Ao distanciar-se do padrão da normalidade instituída, o louco é o doente, ocupa uma
posição marginal aos indivíduos dotados de razão. Mas esta “doença” não se apresenta
organicamente como uma infecção ou um câncer; não há sequer uma lesão cerebral que possa
ser atribuída à causa do sintoma. O louco, então, sofre das palavras, do fora-de-sentido, do
não-sentido que um outro não pode assimilar em seus dizeres, o que condiciona o diagnóstico
da loucura à avaliação do “outro-médico” que vai apontar o comprometimento na linguagem
enquanto instrumento de expressão das alterações no pensamento e na cognição. Para a
medicina psiquiátrica e também para a psicologia, a linguagem é um instrumento transparente
sobre o qual o indivíduo exerce pleno controle e quem faz uso adequado desta linguagem é
considerado como dotado de controle sobre si.
A tendência da psiquiatria atual é propor unicamente uma causa neurobiológica para
os transtornos mentais, negando a causalidade psíquica e substituindo os critérios anteriores
por números estatísticos. Assim, exclui completamente os acontecimentos particulares da vida
do sujeito na causação de seus transtornos e institui uma relação entre indivíduos-padrões: de
um lado os normais, de outro, os loucos. Esta ruptura na linearidade dos dizeres que a loucura
mostra, serve apenas para imprimir o rótulo de loucura sobre aquele que não sabe o que diz,
ou seja, a causa da doença, tão cara à medicina, não está em questão. Como os exames
clínicos fornecem poucos subsídios, permanece sem solução a origem-causa das doenças
mentais, tratando-se apenas de medicar para minimizar os sintomas individuais e sociais.
Se o tratamento com neurolépticos e psicotrópicos vem se aperfeiçoando a cada dia, a
cura das psicoses ainda não está no horizonte da medicina, uma vez que, para que isto seja
possível, é necessário chegar às causas. Até agora só se conseguiu diminuir os efeitos
colaterais e dar mais conforto e qualidade de vida aos doentes, mas conforme observa Costa e
Silva (2001) ninguém quer simplesmente conviver de forma confortável com a esquizofrenia.

36

Este psiquiatra denuncia a exacerbação dos diagnósticos em saúde mental citando os quase
500 tipos de transtorno mental e do comportamento incluídos nos manuais de diagnóstico
(DSM). De acordo com Costa e Silva (2001) tantas descrições, quase ninguém escapa de um
diagnóstico de problemas mentais, e esta variedade acaba atendendo mais “aos interesses e à
saúde financeira da indústria que à saúde mental dos pacientes”.
O sujeito autor das cartas que analisaremos, quando de sua internação no Hospital
Psiquiátrico, recebeu o diagnóstico pela nomenclatura utilizada no DSM-IV ou CID-1015.

2.2 As diferenças das Psicoses para a Psiquiatria e para a Psicanálise

A partir de Freud estabeleceu-se uma cisão na interpretação, diagnóstico e tratamento
das doenças mentais. A medicina psiquiátrica seguiu a orientação organicista e psicologizante
que fundamenta o diagnóstico na descrição dos sintomas e o tratamento nos psicofármacos, e
para isso procura estabelecer um diagnóstico para preconizar o tratamento, que pode ser
apenas com medicação ou vir acompanhada de psicoterapia; A psicanálise evita rotular e
prescrever medicamentos, dispensando conceitos como “normal” e “patológico” procurando
na história do sujeito as causas da “doença”, tomando-o em sua singularidade.
A mais importante especificação da Psicanálise em relação à Psiquiatria é a questão do
sintoma; o sintoma não é o mesmo no campo psiquiátrico e no campo psicanalítico. Na
psiquiatria, o campo é constituído pelo psiquiatra. Ele é quem observa, descreve e classifica.
A clínica psiquiátrica é uma clínica da observação. Laplanche e Pontalis (1992, p. 390)
manifestam que em clínica psiquiátrica, o conceito de psicose é tomado na maioria de vezes
numa extensão extremamente ampla, de maneira a abranger toda uma gama de doenças
mentais. Não se faz distinção entre as de cunho orgânico ou genético (paralisias, síndromes
genéticas) das que não apresentam etiologia determinada. Já na clínica psicanalítica, o

15

É preciso ressaltar que estes manuais trazem descrições de transtornos para diagnóstico de todas as
enfermidades conhecidas e não apenas de psiquiatria. Atualmente, está em uso o DSM-IV ou CID-10 em que os
tipos clínicos clássicos – psicose maníaco-depressiva e paranoia - são citados como transtornos. A versão de
2007 do CID está disponível em: http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm.

37

sintoma só existe se falado pelo paciente. A clínica psicanalítica é, por excelência, a clínica da
palavra.
O sintoma que mais representa as psicoses, tanto para a psicanálise quanto para a
psiquiatria é a produção sistemática de delírios e alucinações. Na paranoia, as interpretações
delirantes estão ligadas às temáticas de perseguição, ciúme, grandeza e erotomania e
demarcadas pela ausência de deterioração intelectual, o que explica o uso relativamente
ordenado do discurso. Na esquizofrenia o que se observa, é uma falta de sistematização do
delírio e uma desorganização mais acentuada do discurso. Esta diferenciação é essencial para
entendermos porque os escritos de nosso aluno RK, - diagnosticado como paranoico - apesar
de conterem inúmeros erros ortográficos, apresentam razoável estrutura sintática que permite
tornar seu texto inteligível.

2.3 Os dizeres na Paranoia e na Esquizofrenia

É preciso salientar que Novaes (1996) analisa os dizeres da fala psicótica
esquizofrênica, que apresenta algumas diferenças em relação à psicose paranoica. Freud e
Lacan diferenciaram dois tipos clínicos das psicoses que se aproximam e, em muitos casos se
combinam, que são a esquizofrenia e a paranoia. A psiquiatria clássica também faz distinções
afirmando que na esquizofrenia observam-se distúrbios da associação de ideias e na
paranoia predominam as interpretações delirantes.
Freud (1987) introduz a paranoia através dos conceitos de projeção e também de
narcisismo e de auto-erotismo. Quando ele faz equivaler à paranoia o narcisismo e à
esquizofrenia o auto-erotismo, o que fica entendido é que há anterioridade de uma em relação
à outra. Numa carta a Fliess de nove de dezembro de 1899, Freud emprega o termo autoerotismo para designar o estado mais primitivo, original da sexualidade infantil, anterior ao
narcisismo. No auto-erotismo a criança nem se dirige a um objeto, as satisfações se dão em
seu próprio corpo, sugando o próprio dedo, por exemplo. No narcisismo ela já procura objetos
externos para satisfazer as pulsões, ainda que permaneça fixada na sua auto-imagem como
referencial principal.

38

Pensando a psicose nos três registros Real, Simbólico e Imaginário (RSI) - propostos
por Lacan para dar conta dos processos psíquicos - podemos encontrar as diferenças
estruturais entre as duas formas de psicoses.
No registro do Real, que é o campo do gozo, o esquizofrênico sofre a fragmentação do
corpo, o gozo invade o pensamento e a fala. Encontramos no trabalho de Masagão (2007), um
poema escrito por Stela - uma paciente diagnosticada como esquizofrênica que teve seus
escritos transformados em livro – em que se evidencia esta relação sintomática do psicótico
com o corpo:
Não sou eu que gosto de nascer.
Eles é que me botam para nascer todo dia.
E sempre que eu morro me ressuscitam.
Me encarnam me desencarnam me reencarnam.
Me formam em menos de um segundo
(MASAGÃO, 2004, p. 267).

Na paranoia o que se observa é a concentração do gozo no Outro, nas vestes de
perseguidor, traidor, amado e odiado como atestam os dados de RK:

Figura 11: Carta 01 Face A
1. Vocês armaram uma farsa para
2. pegar o papel da minha aposentadoria.
3. e agora estão fazendo minha irmã
4. de palhaça porem isso não vai ficar
5. assim.
Figura 12: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A

Nesta carta, como se observa em muitas outras, ele reclama da perseguição que sofre,
acusando os colegas, a moça por quem se declara apaixonado e até a professora, de armarem
um complô, uma farsa para ficar com a aposentadoria de sua mãe e também os acusa de
estarem fazendo sua irmã de palhaça. É notável a diferença entre o poema de Stela que faz
referência a um corpo que encarna e desencarna, numa alusão ao despedaçamento relatado
pelos esquizofrênicos e a argumentação de RK que remete ao delírio persecutório engendrado

39

pela inversão dos papeis (a professora vinha ajudando a conseguir o benefício do INSS, mas é
apontada como uma das que “armaram uma farsa para pegar o papel da aposentadoria”).
No registro do Imaginário, reino da imagem, do narcisismo e do sentido, Freud
(1987) apontou uma regressão ao auto-erotismo nos esquizofrênicos e ao narcisismo na
paranoia. Esta fase de auto-erotismo, em que o esquizofrênico manteve-se fixado, por
configurar-se pari passu ao estádio do espelho, é povoada por imagens fragmentadas do
corpo, parca constituição do eu e na linguagem, provoca uma dispersão dos sentidos. Na
paranoia, pela fixação no narcisismo, o que se evidencia é a captura pela imagem do outro, a
megalomania pelo falso engrandecimento do eu e o congelamento do sentido. Resumindo, a
paranoia que para Freud (1987) corresponde ao narcisismo, corresponde em Lacan, ao estágio
do espelho, a esquizofrenia, que Freud associa ao auto-erotismo, em Lacan corresponde à fase
anterior ao estágio do espelho marcada pelo despedaçamento do corpo. Para Lacan, é no
estágio do espelho que a criança vai fazer a gestalt de seu corpo, sair do despedaçamento para
a unificação.
Mais abaixo transcrevemos um trecho de conversa entre Novaes (1996) e um paciente
esquizofrênico comparando-o com os escritos de RK. Fica evidenciada a dispersão dos
sentidos apontada na esquizofrenia. Na carta número 29 de RK encontramos (em negrito) os
dados para ilustrar os traços megalomaníacos e a criação de uma língua própria,
característicos da paranoia.

Figura 13: Carta 29 Face A

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1. avivos(n)ense avvatibecra husplomentlic
2. gonlonc sobiur navasal acracosnapa
3. fleplecombimentatunata sosoinonrosabtin
4. destronaciprionaltra sessenesseny
5. oltlonalposcrologicliprofentomenyc
6. relenconpolocnifaclissap, cienhecoleniriaminter
7. inxaguimentameytiplologonasle oslotros.
8. professora incapaz, não consegue nada
9. sozinha deve se orgulhar muito
10. eu transmito faço tudo sozinho sou capaz
Figura 14: Transcrição diplomática da Carta 29 Face A

O Simbólico, registro humano por excelência, em que o psicótico depara-se com uma
falha, representa para o esquizofrênico uma ausência do grande Outro16. Para o paranoico o
grande Outro não está ausente, ao contrário, ele se manifesta acossando-o, perseguindo-o, ele
é o detentor do gozo do qual o paranoico se sente excluído. Na esquizofrenia o sujeito não se
deixa representar pelo significante, na paranoia o sujeito encontra-se fixado, retido por um
significante.
Freud (1987) situa o auto-erotismo como anterior ao narcisismo na constituição do
aparelho psíquico e Soler (2006) defende que, se na paranoia o Nome-do-Pai não foi
metaforizado, na esquizofrenia não operou sequer o Desejo-da-Mãe, o que nos faz supor que
não apenas há uma diferença significativa entre as duas, mas um agravamento nos casos de
esquizofrenia.
Vamos fazer a comparação de um segmento dos registros gravados por Novaes (1996)
na conversa entre ela e um paciente esquizofrênico com um trecho da Carta 08 Face A escrita
por RK.
Novaes (1996) empreende uma conversa com o paciente G:
G: Você já analisou o que eu falei pra ele? Você sabe o que eu acho quanto a isso?
INV: Não, eu queria que você me contasse...
G: Sobre isso?
INV: Pra eu poder te entender.
G: É que nosso mundo é o seguinte: em relação perfeita que quebrou há muito
tempo, compreendeu? Um outro mundo no qual se viveu no qual se está fazendo

16

Termo utilizado por Lacan para designar um lugar simbólico – o significante, a lei, a linguagem, o
inconsciente, ou, ainda, Deus – que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira
intrasubjetiva em sua relação com o desejo. Pode ser simplesmente escrito com maiúscula, opondo-se então a um
outro com letra minúscula, definido como outro imaginário ou lugar da alteridade especular. Mas pode também
receber a grafia grande Outro, ou grande A, opondo-se então quer ao pequeno outro, quer ao pequeno a, definido
como objeto (pequeno) a (ROUDINESCO, 1998, p. 558).

41

dieta, falando? Então acontece o seguinte: esse mundo é algo que se perdeu sobre
mim, sobre a alma, não há salvação, compreendeu?
INV: Hum, hum ...
G: Que parece que o mundo condenado estava tentando me tirar hoje da observação,
muito hoje, então não deu certo sabe?
INV: Hum, hum ...
G: ... o qual foi enviado, sabe?
INV: Uhm
G: ...(ininteligível)
INV: Então você acha que têm dois mundos?
G: Existe dois ciclos, dois ciclos. Porque o que está acontecendo hoje me parece
estar com o significado da paranormalidade, eu talvez sou da parapsicalidade,
compreendeu?
INV: Hum, hum
G: É então quanto a isso aí.
INV: Você acha então que têm dois mundos?
G: Se têm dois mundos?
INV: Ou é um só?
G: É um só, vários mundos. São cinco mundos, cinco mundos de onde eu saí para o
hospital. É um mundo de direção, o material da matéria da mortalidade, sabe? É um
mundo civilizado que pegou meu espírito e está atuando dentro desse mundo, desse
mundo aí.
INV: Nesse que a gente vive?
G: Nesse mundo, é passo o tempo nesse que a gente vive (NOVAES, 1996, p. 99).

A autora denomina “contorcionismo enunciativo” as tentativas que fez procurando, em
vão, provocar retornos no dizer que abrissem brechas para o reconhecimento da demanda de
sentidos.
Os escritos de RK, apesar de não estarem constituídos sob a forma de diálogo, não
apresentam dispersão tão intensa e, de certa forma, as cartas não deixam de representar uma
conversa com a professora na medida em que ele se dirige a ela, inclusive retomando assuntos
possivelmente tratados em momentos anteriores à redação das mesmas. Na Carta 02 Face B
encontramos o seguinte enunciado:

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Figura 15: Carta 02 Face B

1. é e agora mais essa professora qual é a sua
2. isso é uma ameaça ou uma crítica se for eu
3. só não trabalho porque não tem emprego
Figura 16: Transcrição diplomática da Carta 02 Face B

A alusão que faz a esta crítica acerca de sua condição de desempregado, ainda que
imaginária, releva uma situação dialógica. Sua resposta está atrelada à suposição de que a
professora o acusa de não se esforçar para arrumar emprego. Vamos transcrever uma carta
longa em que fica mais visível a linha argumentativa tomada por RK para explicitar suas
queixas:

43

Figura 17: Carta 08 Face A

1. É como dizem, os humilhados serão exaltados. E eu fui
2. tão humilhado nesse mundo. Eu levei tanta porrada que as
3. vezes penso que se eu não morri até agora descon
4. fio que sou imortal “um passo para a eternidade”.
5. quem sabe de certa forma, a culpa era minha
6. que permitia, tinha medo de tudo e vergonha também
7. mas hoje eu penso diferente. Ter medo de que?
8.Ter vergonha de que? Antes eu vivia para os outros
9. e pelos outros. Aceitava tudo!!! Calado. Agora não.
10. É como se diz, quem tem boca vai a Roma.
11. (Valderígia!!!)
12. E também eu vivo em um país livre,
13. em uma democracia, mas não preciso lhe dizer isso
14. já sabe, pô!!! Sociedade hipócrita. Quer saber? Eu
15. quero, aliás, um mundo que acabe. Eu não estou nem
Figura 18: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A

Como é possível observar, as análises das cartas de RK revelam os traços linguísticos
de um delírio paranoico por apresentarem não só queixas de perseguição, sinais de
megalomania, certezas imaginárias e congelamento do sentido, mas também porque a
desarticulação na linguagem não é tão profunda como na esquizofrenia.
A clínica psicanalítica é estrutural, não é nem descritiva nem fenomenológica como a
clínica psiquiátrica clássica. Se um paciente procura um médico porque tem um delírio

44

crônico, não alucinatório e de conteúdo persecutório, um psiquiatra pode dar o diagnóstico de
paranoia. A psicanálise propõe outro conceito de sintoma porque outorga um sentido
absolutamente diferente às manifestações clínicas: nela, o sintoma adquire função de
significante cuja causa pode ser buscada na história de vida do sujeito. Na evolução teórica
percorrida por Lacan - de sua tese de doutorado na psiquiatria ao Seminário III - ele elevou os
“fenômenos elementares” - fato clínico fundamental no diagnóstico da psicose - a “fatos de
linguagem” específicos das psicoses, o que marca a posição da psicanálise como uma clínica
do sujeito, da escuta e da linguagem.

2.4 Psicose, Psicanálise e Linguística

Freud (1987) ao identificar os processos inconscientes aos mecanismos da linguagem
vai fornecer a Lacan o material suficiente para aprofundar o diálogo entre a psicanálise e a
lingüística. Nas psicoses, Freud (1987) encontra alterações gramaticais importantes para
pensar a contradição encontrada nos delírios paranoicos de ciúme. Sem poder contar com o
recurso do Simbólico para proceder à inserção na partilha dos sexos e sem contar com a
metáfora do Nome-do-Pai, o sujeito psicótico é invadido pelos conteúdos que retornam do
Real. O delírio traz em si um regime de significação que se contrapõe em relação ao
ordenamento comum do discurso e a alucinação verbal apresenta-se como alguma coisa que
toma forma de palavra falada e que, para o sujeito, comparece como o que lhe fala.
Esta contraposição em relação ao discurso, na paranoia apresenta-se contradizendo
uma proposição central que para Freud (1987) resume-se na questão: eu (homem) amo ele
(outro homem, o pai). Conforme a contradição incida sobre o verbo, o objeto, ou o sujeito,
tem-se, segundo Freud (1987), que os delírios de ciúme contradizem o sujeito, os delírios de
perseguição contradizem o predicado, e a erotomania contradiz o objeto. Resumindo teremos:
a) Eu não o amo, eu o odeio, passando a ele me odeia, na paranoia.
b) Não é ele, mas ela que amo, passando a ela me ama, na erotomania.
c) Não sou eu que o amo, é ela que o ama, passando a ele a ama, nos ciúmes.

45

A leitura de Lacan sobre a obra de Freud vai aproximar ainda mais as áreas da
Linguística e da Psicanálise quando ele recorre a Saussure (2003) e Jakobson (1999) para
ampliar as teorizações do mestre vienense. Na obra de Lacan encontramos uma profusão de
termos retirados da linguística tais como: significante, significado, símbolo, metáfora,
metonímia, metalinguagem. É preciso salientar que ele não os toma diretamente, mas opera
alterações nas concepções linguísticas que servem para teorizar sobre os conceitos
psicanalíticos. Apesar de essas adaptações acabarem por constituir campos diferentes para
cada discurso, não há como deixar de contemplar as duas áreas, pois em nossos estudos não
haveria outra forma de análise dos dados em que não interviessem as duas ciências.
É necessário dizer ainda que a escolha sobre as teorizações de Authier-Revuz (1995)
neste trabalho deve-se à reflexão que a autora elabora contemplando a linguagem e o sujeito
em sua análise enunciativa. Para trabalhar a enunciação ela faz intervir três campos de
conhecimento: a linguística, a psicanálise e a análise do discurso.

2.5 O sujeito do inconsciente na Psicanálise

Para a psicanálise uma psicose para ser compreendida implica a noção de “estrutura” e
de “sujeito do inconsciente”. A noção de estrutura é fundamental na psicanálise, tendo sido
instituída por Freud e formalizada posteriormente por Lacan. Apesar de Freud nunca ter se
declarado um estruturalista, a elaboração da travessia do Complexo de Édipo com seus
avatares da castração como determinantes da vida futura do sujeito, sua dinâmica, sua
constituição e subjetividade, possibilitaram estabelecer três grandes estruturas em que se
inserem os sujeitos falantes: neurose, psicose e perversão. Esta referência nunca foi
abandonada, nem por Lacan que a adotou e ainda fez algumas contribuições com a introdução
do Nó Borromeano17 que é composto por três aros que simbolizam os três registros
estruturantes do psiquismo humano: Real, Simbólico e Imaginário.

17

Nó Borromeano ou Borromeu – figura topológica utilizada por Lacan em seu ensino, para dar conta da
estrutura triádica do psiquismo humano. Nele, estão entrelaçados três aros que se encadeiam e se sustentam,
sendo que é impossível desatar qualquer um deles sem que toda a estrutura seja prejudicada. A metáfora do Nó
permitiu a Lacan demonstrar o modo de articulação dos registros do Real, Simbólico e Imaginário. Simbólico é o

46

O sujeito freudiano é o sujeito do inconsciente que não é assimilável aos neurônios da
biologia nem aos conceitos de cognição da psicologia. Para Roudinesco (2000) “o sujeito
freudiano é um sujeito livre, dotado de razão, mas cuja razão vacila no interior de si mesma”
(ROUDINESCO, 2000, p. 69). Ao demonstrar o quanto nossos atos e pensamentos são
influenciados pelos conteúdos inconscientes, Freud instituiu uma nova forma de pensar o
homem no mundo e até mesmo um novo conceito de mundo.
Na busca das causas e de tratamento para os transtornos psiquiátricos, Freud descobriu
as manifestações do inconsciente e a partir daí fundou a psicanálise, que se desenvolveu como
uma prática clínica e também como uma teoria sobre o sujeito (do inconsciente).
A descoberta que causou mais impacto e que revolucionou os conceitos acerca das
neuropatias - como eram conhecidas as doenças sem origem orgânica determinada – foi a
constatação de que os sintomas constituem-se como símbolos mnêmicos de idéias,
incompatíveis com o conjunto de crenças do sujeito e que tais sintomas colocam-se à
observação através da linguagem.
A partir de Freud, quando um paciente inicia uma análise, o que um analista vai
escutar são as representações recalcadas que deram origem aos sintomas. Na neurose, pelo
efeito de retorno do recalcado, o sintoma revela-se nos atos falhos, nos sonhos, nos chistes
todos referidos na cadeia sintagmática do discurso. Nas psicoses, não havendo
recalcamento, os significantes abolidos do simbólico retornam no Real na produção
discursiva do sujeito. Portanto, é sempre na linha do discurso que a verdade do inconsciente
se revela.
As cartas analisadas neste trabalho exibem as manifestações deste retorno do Real no
discurso. A circularidade da argumentação em torno dos mesmos temas, em geral a
perseguição imaginária, as derivas que o enunciado sofre, deslizando de um assunto a outro
sem intermediação aponta a posição subjetiva que o sujeito ocupa no funcionamento
linguístico-discursivo. Observe a transcrição da Carta 60 Face A:
10. tudo o que faz é mais
11. claro que uma lâmpada de
12. cem velas
13. é sempre muito óbvia sempre
14. parece até coisa de amador
15. dona Cristina
registro humano por excelência, aquilo que faz “um”, cernido pelo Imaginário, que faz elo, ambos marcados pela
anterioridade do Real enquanto inominável, irredutível e irrepresentável.

47

16. seu Zé Roberto também brinca
17. tia Lucia
18. aquele traidor “família”
19. estão a sua mercê
20. sinceramente eu esperava uma
21. atitude digna da sua pessoa
22. pois quem é e o que faz
23. uma profissional que tem vinte
24. e tantos anos de carreira
25. não sabe dialogar o diálogo remove

montanhas

Figura 19: Transcrição diplomática da Carta 60 Face A

A questão que nos provoca nesta pesquisa diz respeito à singularidade das cartas deste
aluno cujos escritos apresentam marcas linguísticas características do discurso de um sujeito
psicótico, mas que não deixam de evidenciar uma reflexão sobre seus enunciados.

2.6 O que disse Freud sobre as psicoses

O pensamento inicial de Freud (1987) sobre as psicoses é baseado no conceito de
defesa, que no início de seus estudos, ele denominou de “psiconeuroses de defesa”. Uma
forma que o sujeito encontra de fazer face às representações intoleráveis que chegam à
consciência e para as quais o aparelho psíquico - que na infância, em sua fase de estruturação
-ainda não está suficientemente formado para suportar. A psicanálise freudiana fundamenta as
três grandes estruturas psíquicas – neurose, psicose e perversão – todas em relação à defesa
que o sujeito empreende para minimizar a angústia advinda da ameaça de castração. A
castração é um processo simbólico que diz respeito a todo sujeito falante e que determina que
para todos haja um ponto de falta, uma lei que impõe limite, um furo na estrutura psíquica,
que nos torna faltosos – ou castrados. Este processo opera mais efetivamente do nascimento
aos cinco anos, idade em que a criança deverá efetuar um posicionamento em relação ao
Édipo.
O complexo de Édipo é um conjunto de desejos ambivalentes, amorosos e hostis que a
criança sente em relação aos pais e que instaura as condições de entrada do sujeito no registro
do simbólico. No primeiro tempo do Édipo tanto a menina como o menino sente o pai como
um rival na competição pelo amor da mãe, desenvolvendo um ódio mortal contra ele, o que

48

coloca o pai, imaginariamente, como retaliador e como investido do poder de castrar. O
segundo tempo do Édipo é marcado pelo que Freud descreveu como o jogo do carretel ou
fort-da18, uma metáfora que a criança utiliza para marcar a presença-ausência da mãe. Nos
momentos de ausência, fica possibilitado que haja a intervenção de um terceiro, o pai, que ao
tempo que interdita, também inaugura a entrada da criança na ordem simbólica. Este jogo de
presença-ausência permite o estabelecimento da memória da saída da mãe, e esta memória vai
possibilitar que, na ausência da mãe, uma presença se constitua enquanto representação,
operação eminentemente simbólica.
Esta interdição, ou castração simbólica, produz o que Lacan denominou metáfora
paterna, ou seja, uma operação em que o desejo da mãe passa a ser ocupado pelo Nome-doPai. Há três maneiras do sujeito se posicionar frente à castração que vão constituir as três
grandes estruturas acima citadas: neurose, perversão e psicose.
a) na neurose os conteúdos que dizem respeito à castração são recalcados, vindo a
manifestar-se posteriormente. Freud (1924) denominou este processo de verdrängung. Em
Freud (1924) “A Dissolução do Complexo de Édipo”, diz: Quando o ego não conseguiu
provocar mais do que um recalcamento do complexo, este permanece no id no estado
inconsciente; mais tarde irá manifestar sua ação patogênica (FREUD, 1924, p. 222). O sujeito
procura repelir ou manter no inconsciente as representações (pensamentos, imagens,
recordações) ligadas a esta pulsão incompatível com as exigências sociais (a proibição do
incesto).
b) na perversão ocorre uma negação desses conteúdos que não podem ser
assimilados, processo que foi denominado de verneinung em que os enigmas da castração que
na neurose sofrem recalcamento, são destituídos de seu valor, mas permanecem de forma
simbólica. Na neurose ocorre um “esquecimento” dos conteúdos insuportáveis, mas estes
podem retornar com alguma facilidade através dos sintomas, sonhos e atos falhos. Na
perversão podemos dizer que há um agravamento, ou que esta condição é mais energicamente
evitada, pois a negação produz uma recusa das leis que estruturam o sujeito no período do
Édipo e o resultado é um sujeito que não se submete à lei nem à partilha entre os sexos, o que
traz sérios problemas para a vida social. O perverso não sofre como o neurótico, os efeitos do

18

Fort-da ou jogo do carretel. Freud (1987) observa seu netinho brincando com um carretel seguro na ponta de
um fio, que o menino joga para debaixo da cama depois puxa, acompanhando o movimento com as expressões
“fort” e “da” que significam “aparece” e “desaparece”. Este compasso temporal, próprio da brincadeira, Freud
(1987) interpreta como uma forma de simbolizar a presença-ausência da mãe.

49

retorno do recalcado, mas estes não deixam de produzir efeitos sobre ele. Pode-se dizer que o
neurótico sofre e o perverso faz sofrer.
c) na psicose, Freud (1987) concluiu que o sujeito utiliza um mecanismo diferente dos
anteriores, a verwerfung, (FREUD, ES vol. XVII) nem negando nem recalcando os conteúdos
intoleráveis, mas rejeitando-os. Lacan (1988, 1997), ao aprofundar o estudo das psicoses, vai
denominar este processo de foraclusão. Dos três, é o processo mais radical, porque o sujeito,
ao ignorar a castração e as leis que nela se implicam, deixa de fora conteúdos fundamentais a
serem simbolizados, produzindo uma falha na constituição deste registro que traz como
conseqüência o desencadeamento de sérios transtornos mentais. Por se tratar de uma falha, é
sempre parcial porque de alguma forma, mais ou menos precária, o sujeito consegue
simbolizar. Nenhum ser falante é suposto estar fora dos três registros (RSI), entretanto, a
submersão no simbólico não acontece da mesma forma para todos, ela se dá em função das
vivências do sujeito. A estrutura psicótica aponta para a falha na simbolização, mas não
significa que esta não aconteça; a partir da entrada do sujeito na linguagem, o que ocorre antes
mesmo de seu nascimento, todos estamos submetidos ao mesmo funcionamento tríplice, um
enlace no Real, outro no Simbólico e outro no Imaginário. Por isso um sujeito psicótico pode,
mesmo que precariamente, “funcionar”, levar uma vida “normal” quando não está delirando
sob efeito de um surto. Também significa dizer que uma pessoa tem uma estrutura psicótica e
pode desenvolver uma psicose ou não; só vai ser psicótico quem tiver uma estrutura psicótica.
Das três formas classificadas de psicose, esquizofrenia, melancolia19 e paranoia, Freud
vai se interessar mais pela paranoia. Seu primeiro texto sobre a doença não foi publicado em
vida, pois estava numa correspondência enviada a Wilhelm Fliess, um amigo com quem ele se
confidenciava trocando cartas. Intitulado “Rascunho H”, foi anexado a uma carta em janeiro
de 1895. Ali ele relata as observações sobre uma jovem que desenvolvera um “estado
paranoico”. A moça afirmava estar sendo observada por pessoas que a acusavam de abrigar
“pensamentos sexuais”. Ela acreditava que as pessoas a reprovavam por ser má, uma maldade
que tinha conotação sexual. Antes da eclosão de sua doença, um homem tentara seduzi-la e
Freud infere que o intolerável para ela é ter-se excitado com a sedução, o que provocou um
sentimento de culpa intenso. Esta culpa, por perceber-se afetada por desejos sexuais
19

Melancolia (do grego µελαγχολία - melagcholía; de µέλας - mélas, "negro" e χολή - cholé, "bílis") é um estado
psíquico de depressão sem causa específica, caracterizada pela falta de entusiasmo e predisposição para todas as
atividades. Para Freud trata-se de uma perda pulsional relativa ao afeto do luto. Em “Luto e melancolia”
(FREUD, ES, vol. XIV) ele se surpreende com o delírio de pequenez que acomete o melancólico, um avesso do
delírio de grandeza o que vem situá-la como um tipo de psicose. Lacan retira a melancolia do quadro das
estruturas deixando-a apenas como sintoma.

50

proibidos, é transformada, por um mecanismo que Freud chamou de “projeção” e que ele trata
mais detalhadamente no Caso Schreber (FREUD, ES vol. XII). Na projeção, o sujeito expele
o intolerável: não era mais ela que percebia os desejos em si, mas os outros que pensavam
isso dela. A autocensura transforma-se numa imputação vinda de fora. “O propósito da
paranóia é assim, rechaçar a ideia que é incompatível com o ego, projetando sua substância no
mundo externo” (FREUD, ES vol. I).
Compreendemos assim, que a estruturação psíquica do sujeito se constitui em função
da defesa que ele estabelece frente à angústia de castração, ou, segundo Lacan, à demanda
imaginária do Outro –aqui representado pelo pai- diante da qual o sujeito constrói uma
metáfora, dando a ela uma significação subjetiva. Podemos depreender que a constituição do
sujeito está suspensa nesta referência ao pai, uma filiação que tem por função amarrar a rede
significante e ocupar o lugar da lei. O psicótico não consegue desenvolver um mecanismo de
defesa suficiente para estabelecer uma diferenciação em relação ao grande Outro e por isso
vive à mercê dele, sem poder barrá-lo. A filiação é uma operação simbólica que centraliza o
saber e organiza todas as significações, e como ela não está para o psicótico, o discurso não se
autoriza a partir de uma transmissão, mas fica à deriva, à procura de uma identificação. Como
o psicótico não supõe o saber a um Outro, ele sustenta por si este saber de forma total,
imaginariamente completa, ideal. Se o neurótico descansa na suposição do saber de um Outro,
o psicótico se atormenta na busca de uma certeza. Por não supor um saber ao outro, ele tem
uma certeza, o psicótico é um sujeito de certeza, não se abriu à significação fálica, não duvida
de nada. Nas análises dos dados neste trabalho encontramos afirmativas do sujeito que
confirmam esta suposição.
Na Carta 01 Face A, o sujeito de nosso estudo, RK, evidencia esta “certeza” acerca da
cumplicidade de seus colegas na intenção de enganá-lo para pegar a aposentadoria de sua mãe
quando, na realidade, segundo os relatos de sua professora, os amigos tentavam ajudá-lo para
conseguir um benefício no INSS e ainda cotizaram-se para comprar um óculos pois o rapaz
apresentava acentuada deficiência visual.

51

Figura 20: Carta 01 Face A

1. Val sua bandida você não mede
2. esforços para se vingar vai até o fim.
3. você e seus cúmplices não perdem
4. tempo.
5. só que eu já sei de tudo
Figura 21: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A

Neste trecho da carta, assim como em muitas outras, RK demonstra uma certeza
“inabalável” acerca dos fatos que ocorrem em sua vida. Diante da impossibilidade de duvidar,
- própria da estrutura neurótica - de dar uma interpretação mais próxima da realidade ao que
está ocorrendo com ele naquele momento, argumenta estar ciente da “vingança” elaborada
pelos colegas contra ele, dando a conhecer o caráter persecutório, paranoico, de seu delírio.

2.7 Breves observações sobre a Paranoia para Lacan

A entrada de Lacan (1932) na psicanálise se deu pelo estudo da paranoia, mais
precisamente por sua tese de doutorado sobre o Caso Aimée “Da psicose paranóica em suas
relações com a personalidade”. Fiel à descoberta freudiana de que o sintoma tem um sentido a
ser desvelado, ele empreende uma cruzada na comunidade psiquiátrica da época que encarava
a psicose em termos de déficit, de dissociação, de mau funcionamento de algumas funções
mentais, para introduzir a questão do sujeito. A partir dessa concepção, desvelar o sentido de
um sintoma na psicose, implica a história de vida de um sujeito. Conforme bem resume Leite
(1997): “é justamente na relação do sujeito ao significante, ou melhor, numa carência do
significante, em que se situa o drama da loucura. Esta é a tese de Lacan” (LEITE, 1997, p. 4).

52

Lacan (1932) vai partir da noção freudiana das três estruturas (neurose, psicose e
perversão) para tentar dar conta, na sua teoria, de que é na condição decorrente da estrutura do
sujeito que - devido às vicissitudes do Complexo de Édipo - determinará uma condição tal,
que pode decorrer na aparição de um psicótico.
Como já vimos acima, para a psicanálise, a gênese das psicoses encontra-se numa
falha estruturante, falha no acesso do sujeito à ordem simbólica que em sua “releitura
freudiana”, Lacan denominou foraclusão20 do Nome-do-Pai. Foraclusão é um termo cunhado
por Lacan, que o tomou do Direito e que quer dizer que algo não foi incluído. O que não está
incluído na psicose é o Nome-do-Pai, registro do Simbólico.
O Nome-do-Pai é uma função metafórica em que a instância paterna vem ocupar o
lugar do desejo da mãe, ou seja, a função significante Nome-do-Pai inscreve-se no lugar do
Outro, que até então era ocupado pela mãe. No primeiro tempo do Édipo, o Outro é a mãe,
onipotente e absoluta, a quem o sujeito encontra-se colado. É devido à intervenção do Nomedo-Pai, que vem barrar, fazer um corte nesta simbiose, que o simbólico se instaura como lei,
como o Outro do pacto da fala.
Esta operação metafórica de substituição do desejo da mãe pela lei do pai salva a
criança de ser o objeto da mãe. Ela possibilita que o sujeito atribua algum significado ao
desejo do Outro; sem ela, a questão do desejo da mãe permanece uma incógnita que retorna
sobre o sujeito como gozo enigmático do Outro, situando-o como objeto. Como refere Freire
(2001) “se não há questão sobre o desejo do Outro, há somente assujeitamento e luta contra o
destino de resto do Outro e uma das formas que o sujeito encontra de suprir esta falha é o
delírio” (FREIRE, 2001, p. 34).
Para Freud (1987), o delírio na psicose é uma forma que o sujeito encontra de buscar a
cura; em Lacan (1997), o delírio é a metáfora que o psicótico produz na tentativa de dar um
sentido ao que está fora do sentido. Quinet (2006), um psicanalista com formação em
psiquiatria e que vem trabalhando há muitos anos com pacientes psicóticos nos adverte que o
delírio também tem a função de tentar inserir o sujeito nas relações sociais.
Nas psicoses observa-se uma falta de significação que caracteriza a produção
discursiva dos psicóticos e que Lacan denominou (1997) “holófrase da cadeia significante”
20

Um conceito forjado por Jacques Lacan para designar um mecanismo específico da psicose, através do qual se
produz a rejeição de um significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito. Quando essa
rejeição se produz, o significante é foracluido. Não é integrado no inconsciente, como no recalque, e retorna sob
forma alucinatória no real do sujeito (ROUDINESCO, 1998 p. 245).

53

querendo com isso aludir ao fato de que para estes sujeitos, os significantes não formam
cadeia. Um delírio ou uma alucinação são fenômenos que escapam ao sentido constituído,
dificultando o estabelecimento do vínculo da linguagem que promove o laço social. Para a
psicanálise a produção do psicótico pode estar fora do discurso, mas não fora da linguagem.
Lacan (1988) propõe “que se adote provisoriamente como convenção que, para que estejamos
na psicose, é preciso haver distúrbios de linguagem”, que “devemos exigir antes de dar o
diagnóstico de psicose a presença desses distúrbios, dessas perturbações na ordem da
linguagem (...)” (LACAN, 1988, p. 109-110).
Uma das formas mais bem sucedidas que o sujeito psicótico encontra de estabelecer
uma relação social é a escrita. No seminário XXIII Lacan (2007) vai pensar a estrutura
subjetiva de James Joyce, o escritor que apresentava uma estrutura psicótica e que através da
arte de escrever evitou chegar ao surto. Em seu famoso estudo sobre o livro “Memórias de um
doente dos nervos”, Freud (1987) comenta que o Presidente Schreber encontra na escrita, um
modo de organizar seu delírio. Freud não conheceu pessoalmente Schreber, mas o estudo que
fez do caso através do livro de memórias deste paciente psicótico continua sendo obra de
referência para o estudo das psicoses. O estudo de casos de psicose através dos escritos
justifica-se pela ênfase dada às funções linguageiras desde a descoberta do inconsciente por
Freud (1987) e fundamenta o fato de nos utilizarmos da escrita de um sujeito sob efeito de um
surto psicótico em nossas pesquisas sobre movimentos de autoria em manuscritos escolares.

2.8 O percurso de Freud

As primeiras pacientes de Freud foram histéricas, que ele passou a tratar com hipnose
pelo método catártico, uma forma de tratamento em que o médico escuta o que o paciente tem
a dizer acerca da causa de sua doença, incluindo fatos recentes e passados, história de vida,
relações afetivas, enfim, tudo que possa ter influência sobre o estado emocional do sujeito.
Ainda ligado a uma concepção físico-fisiológica (quantidades de energia, excitabilidade,
inibição e descarga de estímulos) ele acredita que o alívio dos sintomas advém da “catarse
energética” que o doente realiza enquanto fala. Esse método começou a ser utilizado por um
colega seu de profissão, Dr. Breuer, que havia iniciado esta prática terapêutica com Anna O.

54

uma paciente que mais tarde viria para se tratar com Freud. Ele constatava que, à medida que
a moça falava, os conflitos esquecidos ressurgiam, transformando a “fala do corpo” com suas
dores e sofrimentos em relatos e associações, o que permitia que os sintomas regredissem e
alguns, inclusive, até mesmo desaparecessem. Em 1895, Breuer e Freud publicaram “Estudos
sobre a Histeria”, em que descrevem esta experiência clínica propondo uma teoria dos
fenômenos histéricos.
Joseph Breuer era um proeminente médico em Viena com quem Freud estabeleceu
forte amizade e Anna O. (Bertha Pappenheim) era uma moça de 21 anos, culta e inteligente
que desenvolvera uma série de sintomas histéricos a partir da doença de seu pai, a quem era
muito afeiçoada. Entre os sintomas apresentados estavam: paralisia dos membros, contrações
musculares, anestesias, perturbações da fala, anorexia e tosse nervosa (FREUD, ES vol.II). À
medida que falava e relatava as emoções que experimentara durante o tratamento do pai,
revivendo as condições e circunstâncias em que tais afetos haviam aflorado, os sintomas
recrudesciam ou cessavam. Esta relação confessional íntima entre médico e paciente causou
um envolvimento emocional que Breuer não pode evitar e fez com que abandonasse o caso,
pedindo a Freud que prosseguisse com o tratamento.
Este caso possibilitou a Freud a descoberta de que o inconsciente se põe à mostra no
discurso do paciente, revelando os traumas, entraves e vicissitudes, denunciando assim, a
divisão constitutiva do sujeito. Foi Anna O. quem deu o nome de “talking cure” ou “cura pela
palavra” à forma de abordagem médica baseada na escuta, que seus dois médicos praticavam.

2.9 O sujeito freudiano

Algum tempo depois, Freud avança em suas descobertas, abandonando a hipnose e o
método catártico e passa a se dedicar à interpretação dos sonhos, realizando uma passagem
fundamental: encontra nos sonhos a mesma estrutura do sintoma. Em 1900 ele publica sua
mais famosa obra Die Traumdeutung “A Interpretação dos Sonhos”, em que vai afirmar que o
sonho, tomado como formação do inconsciente, tem a mesma estrutura que o sintoma, ou
seja, a formação do sonho é equivalente à formação do sintoma, seja histérico ou obsessivo.

55

Ele propõe que pensemos o sonho como uma escritura psíquica, um texto psíquico que não é
feito com palavras, mas com imagens, porém, nem por isso deixa de ser estruturado como
uma linguagem. Garcia-Roza (1991) assim comenta: “o sonho é uma encenação, mas não de
um texto prévio que ele traduz em imagens; ele é o próprio texto, escritura feita de elementos
pictográficos originais que não obedece a nenhum código anterior a ela própria” (GARCIAROZA, 1991, p. 63).
Uma dificuldade na leitura do texto que o sonho apresenta é que ele chega até o
sonhador como mensagem cifrada: ele deforma, mistura palavras e pessoas, inverte a
temporalidade. Para Freud (1900), trata-se de uma imposição da censura, que identifica nos
pensamentos oníricos um desejo proibido, o que o leva a afirmar que todo sonho é a
realização de um desejo. O desejo do sonho põe em jogo o desejo inconsciente, que não é da
mesma ordem do desejo optativo, por isso precisa ser decifrado; o desejo optativo é da ordem
do consciente e não necessita interpretação. Se o desejo inconsciente é um desejo proibido
pela censura, o sonho, para poder se realiza, vai se utilizar de dois mecanismos básicos que
ajudam a camuflar seu conteúdo latente21: a condensação e o deslocamento22.
Freud (1900), quando lê o relato do sonho, identifica a condensação como aquilo que
funde, faz amálgama, mistura, omite elementos. No capítulo “A distorção nos sonhos” ele cita
exemplos de sonhos em que uma pessoa pode aparecer mesclando traços de outras ou uma
pessoa X apresentar-se com a profissão de Y. Mas este mecanismo, Freud (1900) não vai
atribuir apenas aos sonhos, ele vai encontrar também nos atos falhos, nos chistes e no
esquecimento de palavras (FREUD, 1987, vol. IV, p. 151).
O deslocamento vai operar uma substituição de elementos que mantêm relação entre
si: no sonho isto aparece como algo que faz apenas uma referência vaga ou indireta de um
conteúdo importante ou também retira o acento de algo importante para outro sem
importância. Na releitura que Lacan faz da obra freudiana, influenciado pela leitura dos polos

21

Conteúdo latente refere-se ao desejo que dá origem ao sonho constituído pelas recordações da infância, restos
diurnos, impressões corporais. Em oposição ao “conteúdo latente” Freud denominou “conteúdo manifesto” à
versão mutilada, deturpada do conteúdo latente, que a censura não permite revelar integralmente. Em poucas
palavras, o conteúdo manifesto é o relato descritivo que o sujeito tenta fazer do sonho; o sonho estritamente
falando é encenado baseado nos conteúdos latentes do inconsciente.
22
Para Laplanche & Pontalis (1992) define-se condensação como “Um dos modos essenciais do funcionamento
dos processos inconscientes. Uma representação única representa, por si só, várias cadeias associativas, em cuja
interseção ela se encontra” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1992, p. 87). Deslocamento seria o “fato de a
importância, o interesse, a intensidade de uma representação ser suscetível de se destacar dela para passar a
outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa.
(LAPLANCHE & PONTALIS, 1992, p. 116).

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metafóricos e metonímicos de Jakobson (1999), vai identificar a condensação e o
deslocamento aos processos metafóricos e metonímicos que organizam o discurso.
Estava lançada a pedra fundamental da construção teórica que marcaria para sempre a
relação entre a psicanálise e a lingüística, pois o que se evidencia com a descoberta freudiana
é a noção de que a linguagem é constitutiva do aparelho psíquico, ou, dito de outra forma, o
psiquismo se organiza a partir das representações de palavras.
A subversão freudiana, que tem como consequência a destituição da racionalidade da
consciência, evidencia a alienação do sujeito ao Outro da linguagem sendo o inconsciente a
verdadeira realidade estrutural.

57

3 MODALIZAÇÕES E MOVIMENTOS DE AUTORIA

3.1 Authier-Revuz e as modalizações autonímicas

Authier-Revuz (1998) denomina modalização autonímica ao fato de linguagem em
que a enunciação se desdobra para tentar dar conta da falta constituinte das línguas. Ela
diferencia modalizações autonímicas de autonímia: na autonímia, o signo apresenta-se como
representando a si mesmo, signo autônimo que corresponde a um substantivo singular e que
está pronto para ocupar uma função-sujeito. Segundo esta autora, a autonímia é constitutiva
das línguas naturais, é um elemento crucial da metalinguagem sobre a língua.
Em todo fato de reflexão autonímica, há um signo que se impõe como objeto,
propulsionado à frente da cena (enunciativa) como “personagem” ao qual o dizer faz
referência, saindo aí de seu papel de engranagem ordinária da maquinaria do dizer,
condenado ao apagamento da realização de sua função ordinária de mediação
(Authier-Revuz, 2003, p.71)23.

Na modalização autonímica há um retorno ao signo para buscar dar sentido à
enunciação, o signo é empregado e comentado na mesma linha do enunciado. Há um
acréscimo na enunciação, uma explicitação do termo utilizado, na forma de um comentário
reflexivo sobre este uso. A estruturação do campo da autonímia e da modalização autonímica
estende-se aos planos semiótico, semântico, sintático e enunciativo. Ou seja, “o dizer
representa-se como não falando por si, o signo, em vez de preenchê-lo, transparente, no
apagamento de si, de sua função mediadora, interpõe-se como real, presença, corpo-objeto”
(AUTHIER-REVUZ, 1998, p.14).
As modalizações autonímicas configuram-se como glosas metalinguísticas e
evidenciam-se sob duas formas de auto-representação do dizer: metalinguagem e enunciação.
1. Metalinguagem

23

Dans tout fait de réflexivité autonymique, il y a un signe qui s'impose comme objet, propulsé sur le devant de
la scène comme “personnage” auquel le dire fait référence, sortant par là de son rôle de rouage ordinaire de la
machinerie du dire, voué à l'effacement dans l'accomplissement de sa fonction ordinaire de médiation
(AUTHIER-REVUZ, 2003, p. 71).

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No terreno da metalinguagem podemos elencar as relações com:
a) Metalinguagem natural observável no discurso – poder de reflexividade das
línguas;
b) Metalinguística comum – acesso às representações de sujeitos ao sujeito da
linguagem (língua, sentido, comunicação);
c) Metaenunciativo – a auto-representação do dizer se fazendo nos dois planos, o da
prática e o da representação;
d) Opacificação – não há transparência, opõe-se a um modo de dizer simples, aqui se
apresenta um elemento X que remete a um referente x;
e) Modalidade reflexiva particular – manifestada por um conjunto de formas
observáveis na cadeia.
2. Enunciação

No terreno da enunciação o que importa salientar são as implicações teóricas desta
linha de trabalho que está perfilado à concepção saussureana de ordem própria da língua e da
questão do sujeito-efeito-de-linguagem, diametralmente opostos aos conceitos de sujeitoorigem, senhor das palavras, com suas variantes neuronais e sociais. Ainda que possa parecer,
por um efeito do Imaginário, o dizer não pode ser transparente ao enunciador: este lhe escapa,
irrepresentável, pela função do Real da língua, função que produz a reflexidade opacificante
das modalizações autonímicas, dizendo em outras palavras, é nestes tropeços, nesta busca dos
sentidos que se pode sentir a força material da língua em uso.
Na escrita, este fenômeno (modalizações autonímicas) mostra-se menos observável,
por estar marcado pelo tempo que o sujeito dispõe para buscar “deliberadamente” o termo
mais apropriado. No entanto, ele não deixa de mostrar-se intensamente pressionado pela nãocoincidência das palavras consigo mesmas, da não-coincidência do discurso consigo mesmo,
da assimetria dos discursos de dois sujeitos e pela não-coincidência entre as palavras e as
coisas.
A língua, naquilo que toca o Real, não cessa de nos surpreender com os tropeços que
evidenciam as não-coincidências do dizer ou “palavras incertas” no dizer de Authier-Revuz
(1998). Para falar é preciso caminhar na beira deste abismo em que o chão, ou nos falta, ou se
apresenta às vezes escorregadio, outras tantas movediço. É na tentativa de superar esta

59

incerteza que o sujeito se deixa seduzir pelo brilho da completude, do objeto ideal, total, que
poderia dar o suporte imaginário para tamponar esta falha. Baseados nesta ilusão, alguns
pesquisadores preferem atribuir as manifestações linguísticas a um sujeito pleno, capaz de
exercer domínio sobre o que diz, varrendo para debaixo do tapete as rasuras, equívocos e as
manifestações patológicas da linguagem.

A opacidade das palavras

A homofonia é um campo privilegiado de observação desta opacidade e da busca pelo
sentido que Allouch (1985, 1997) identificou como a “não–identidade a si do significante”,
dupla problematização sobre a identidade do signo linguístico tanto na relação de um
significante a outro quanto na frágil identidade que se estabelece a partir da relação entre o
som e o sentido. Por esta frágil identidade é que pode se introduzir um elemento capaz de
romper com a sistematicidade imaginária da língua, o que atesta um sujeito afetado pelo
inconsciente, pela divisão inalienável produzida pela linguagem. Quanto à teoria do valor,
Saussure (2003) afirma:
(...) uma palavra pode ser trocada por algo dessemelhante: uma ideia; além disso,
pode ser comparada com algo da mesma natureza: outra palavra. Seu valor não
estará então, fixado, enquanto nos limitarmos a comprovar que pode ser trocada por
este ou aquele conceito, isto é, que tem esta ou aquela significação; falta ainda
compará-la com os valores semelhantes, com as palavras que podem se lhe opor.
Seu conteúdo só é verdadeiramente determinado pelo concurso do que existe fora
dela. Fazendo parte de um sistema, está revestida não só de uma significação como
também e, sobretudo, de um valor, e isso é coisa muito diferente. (SAUSSURE,
2003, p. 134).

Podemos referir à opacidade das palavras o que Freud (1987) escreveu sobre os
chistes. Quando ele analisa a técnica do chiste examina-a como técnica de linguagem, ou seja,
a possibilidade de substituições presentes dentro da linguagem, em uma relação com as
palavras. Se num chiste se diz o que com as palavras não se pode dizer, a técnica do chiste,
embora nela se usem palavras, é independente das palavras. Por que as palavras não dizem
tudo, há que considerar também os efeitos da condensação, do duplo sentido das palavras, das
citações, da adição por substituição, da similicadência, do deslocamento, dos erros

60

intelectuais. Por isso é que o chiste permite mostrar o que são as possibilidades que a língua
oculta, não em alguma parte específica, mas dentro mesmo de suas possibilidades.
É próprio da palavra, de sua estrutura e de sua função poder mentir, enganar. Lacan
diz que é justamente por isso que a verdade tem estrutura de ficção. O código não é somente o
código e sim esse lugar, o lugar do tesouro do significante, porque a verdade não é algo que se
verifique na realidade e sim ao nível das palavras. A verdade se verifica na palavra porque a
palavra pode mentir. A verdade, então, entra em jogo, referida à verdade do inconsciente.
Como a palavra pode mentir, fica claro que não há nenhuma garantia de verdade na palavra
em si mesma.
Há um ditado que diz que há quatro coisas que não se recupera: a pedra lançada, a
ocasião perdida, o tempo passado e a palavra falada. Entretanto, se não se recupera a palavra,
pode-se ao menos retomá-la e explicitá-la. Para isso a reflexividade apresenta-se como
propriedade fundamental da linguagem humana, a saber, a capacidade de tomar-se a si
mesma, como objeto. Ela explicita toda a dimensão de modo auto-dialógico, de
questionamento reflexivo do dizer sobre suas próprias palavras. As heterogeneidades
mostradas no discurso são constitutivas da língua e apresentam-se como um componente
universal das línguas naturais. As modalizações autonímicas mostram, além de um
questionamento reflexivo, um modo enunciativo desdobrado em que o enunciador retorna
sobre o que disse comentando seu próprio dito. Desta forma o sujeito busca uma contensão do
sentido e uma representação de algo que lhe escapa.
Este fenômeno linguístico-discursivo revela formas de representação do sujeito
enunciadas no fluxo de seu dizer. Authier-Revuz (1990) descreve os quatro campos de nãocoincidência ou de heterogeneidade em que o dizer se representa como desdobrado:
1. Não-coincidência interlocutiva entre os dois co-enunciadores;
a) “X, como você costuma dizer”
b) “X, para usar as palavras de Y”
c) “X, se me permite a expressão”.

Nesta modalidade o sujeito atesta a não-simetrização entre dois sujeitos falantes, suas
diferenças constitutivas, desacordos, negativas, obrigando os enunciadores a fazer um esforço
para suprimir, nega ou acolher, conforme a situação, estes outros sentidos. Nas palavras que

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proferimos endereçadas a um Outro, constatamos que estas separam mais do que unem o elo
da comunicação.
2. Não-coincidência do discurso consigo mesmo, afetado pela presença em si de outros
discursos;
a) “X, no sentido dado por fulano”
b) “X, como se costuma dizer”
c) “X, como dizia minha mãe”.

Aqui o enunciador procura fixar o sentido debatendo-se entre a vontade de um eu e as
palavras carregadas de história de outros discursos.
3. Não-coincidência entre as palavras e as coisas;
a) “X, na falta de palavra melhor”
b) “X, não há outra palavra”
c) “Eu busco uma palavra”

O sujeito procura a palavra exata, a melhor adequação entre a palavra e a coisa.
4. Não-coincidência das palavras consigo mesmas, afetadas por outros sentidos, por outras
palavras, pelo jogo da polissemia, da homonímia etc.
a) “X, não! Y!”
b) “X, no sentido de Y”
c) “X, em ambos os sentidos”

Nesta figura o enunciador força uma fixação do sentido de uma unidade em relação
aos outros sentidos, em que se percebe a potencialidade da língua em disseminar, espalhar,
deslocar, romper com os sentidos já dados. Atesta a porosidade das palavras carregadas de
discursos incorporados e a não-coincidência do signo que permite os chistes, as
ambigüidades, trocadilhos, etc.
Todas as formas de contenção e de fixação do sentido apontam para uma tentativa de
oposição ao caráter univocizante a que nos encontramos imaginariamente colados pela ilusão
que cultivamos de ter algum domínio sobre a linguagem.

62

A falta constitutiva, que comporta toda língua, produz efeitos desestabilizadores que
por sua vez possibilitam as operações metafóricas e metonímicas, causando no dizer uma
fissura em que emergem novos sentidos. O sujeito falante se vê instado a negociar os
sentidos, esclarecer, diferenciar, opor, estancar. As não-coincidências relatadas acima
indiciam um retorno do sujeito sobre o que foi dito por ele, sinal do reconhecimento de uma
diferença que afeta tanto seu próprio enunciado como o discurso de outro.
O recurso às teorizações de Authier-Revuz (1990, 2004) sobre modalizações
autonímicas abriu para Calil (2008) um campo privilegiado para pensar as modalizações
encontradas em manuscritos escolares como índices de “movimento de autoria”.

3.2 Texto e Autoria

Encontramo-nos agora no cerne de uma questão polêmica e não totalmente delineada,
que é o conceito de autoria. A concepção mais radical é a de Foucault (1992), que se tornou
um clássico na área ao afirmar que só se considera autor aquele que funda um discurso. Para
estar à altura deste conceito, a obra deve ser composta por um conjunto de textos, agrupados
discursivamente pela unidade e coerência, o que reduz drasticamente a lista de autores,
somente podendo-se incluir nesta condição os fundadores de discursividades como Freud,
Marx e Saussure.
Na esteira deste conceito, mas divergindo dele na tentativa de ampliá-lo, Possenti
(2002) se pergunta se pode haver autoria nos textos escolares. Procurando dar alguma
objetividade à noção de autoria ele delimita alguns pontos que nos parecem essencialmente
subjetivos como: densidade, motivação, relação com elementos de cultura, com outros
discursos, com crenças correntes. Ele também cogita de alguém se tornar autor quando “pode
dar voz a outros enunciadores, manter distância em relação ao próprio texto, evitar a
mesmice”. Vale salientar que neste trabalho não cabe uma crítica à noção de autoria deste
pesquisador, mas, é importante registrar em que as considerações de Possenti (2002) nos
interessam.

63

Em seu trabalho “Indícios de autoria”, Possenti (2002), no sub-tópico “mantendo
distância”, ao analisar um texto de Luis Fernando Veríssimo ele argumenta que é bastante
frequente que enunciadores explicitem em que sentido estão empregando certas palavras, ou
que se voltem sobre o que disseram para resumir, retomar, etc. Esta ocorrência é caracterizada
por Authier-Revuz (1998) como atividade metaenunciativa da linguagem. Nesta referência ao
trabalho de Authier-Revuz (1998), fica manifesto que Possenti (2002) considera a presença
deste caráter reflexivo nos enunciados, como um sinal de autoria. Ao que ele acrescenta:
“trata-se, a rigor, de uma exigência do próprio discurso, decorrente do fato de que o sujeito
sempre enuncia de uma posição, mas a língua não é um código que sirva a cada posição de
forma transparente” (POSSENTI, 2002, p. 10). Em nossas análises encontramos enunciados
do aluno que emergem como reflexão sobre o dito constituindo-se como atividade
metaenunciativa e que, portanto, nos incentivam a tomá-los como indícios de autoria.

3.3 Movimentos de autoria em manuscritos escolares

O trabalho que Calil (2004, 2008) vem desenvolvendo com os manuscritos escolares
está fundamentado nas concepções da Crítica Genética, uma disciplina que teve origem na
década de setenta, na França e na Alemanha e que foi introduzida no Brasil por Phillipe
Willemart (1993, 1997, 2005). Os geneticistas dedicam-se ao estudo e análise do conjunto de
documentos relacionados à obra de um escritor em sua versão original para ali captar as
marcas, as rasuras, os caminhos percorridos por ele até atingir a versão final que culmina com
a publicação. Atualmente, a Crítica Genética não se restringe à análise de manuscritos de
escritores, ampliando seu território às artes plásticas, artes cênicas, à arquitetura, à música, à
matemática e outras áreas do conhecimento humano em que a criatividade esteja em questão.
Interpretando as rasuras deixadas nos manuscritos como importantes índices dos processos de
criação literária, Calil (2008) procurou estender suas análises para os manuscritos escolares,
deslocando o olhar para o percurso e os rastros da escrita que os estudantes perfazem e, com
isso, os trabalhos produzidos por alunos ganharam nova dimensão, expandindo a teorização
sobre os processos de escritura.

64

Acredito que a delimitação dos manuscritos escolares poderia ajudar a resgatar tanto
o aspecto processual de produção... quanto o caráter fragmentário e temporário dos
textos que compõem as diferentes práticas de textualização propostas pelo professor.
O termo “manuscrito” permite resgatar a dinâmica própria do processo escritural e
abre espaço legítimo para a heterogeneidade e singularidade de todo esse processo.
(CALIL, 2008, p. 36).

Comprometidos eticamente com a pesquisa dos manuscritos escolares, não
poderíamos ignorar as marcas lingüísticas deixadas nas cartas escritas por um aluno que
sofreu um surto psicótico, suas condições de produção, seu percurso de scriptor e, o mais
importante, o funcionamento do processo de escritura que estes manuscritos revelam. A
heterogeneidade e singularidade mostradas nos enunciados destas cartas são reveladoras do
modo de funcionamento psíquico de uma estrutura psicótica e nosso objetivo com as análises
é encontrar fundamento para formular a hipótese de que mesmo sob efeito desta estrutura há
indícios de autoria nos escritos de RK.
Possenti (2002) defende a valorização dos manuscritos escolares para que os textos
produzidos por alunos ultrapassem o mero objetivo de uma avaliação normativa. Nesta
proposta, os escritos atenderiam a uma função social, sendo postos em circulação pelo
professor que não mais seria o único leitor, mas a leitura seria compartilhada entre os pais e os
colegas. O texto circularia assim, sendo submetido à apreciação da comunidade escolar numa
tentativa de dar voz ao aluno, elevando-o ao estatuto de autor. Esta concepção de autoria está
marcada pela condição de que para haver autor é necessário um (in)determinado número de
leitores, é uma relação de autor para leitor que supõe que o sujeito que escreve está
escrevendo para alguém.
Na posição teórica adotada por Calil (2008) o que está em questão não são a
circulação dos manuscritos nem sua valorização social24, o estatuto de autoria que ele propõe
diz respeito ao próprio sujeito scriptor em sua relação com aquilo que produz. Mais do que
afetar o outro-leitor, é o scriptor mesmo quem está afetado por diferentes posições, ora
demonstrando autonomia, ora submetido aos processos metaforonímicos que desestabilizam e
ameaçam o texto. Leitor de seu próprio texto, sob efeito da escuta daquilo que leu, Calil
(2008) mostra com suas análises como o sujeito opera retornos, seja modificando, alterando,
reformulando, ou, às vezes, dando outro sentido ao que estava escrito.
24

Não quer dizer que a circulação e a valorização daquilo que o aluno escreve não sejam desejáveis, ao
contrário, a própria condição de produção do discurso é de que, para um sujeito que fala haja um que escute, para
cada sujeito que escreve haja outro que leia. É o que postula Dufour (2000): “Quando um sujeito fala, ele diz
“eu” a um “tu”, a propósito d”ele”.

65

Basear-se apenas na qualidade do texto final reduz a importância do processo, das
experimentações e das marcas singulares que indiciam a relação entre sujeito, língua e
sentido. Pela divisão fundante constitutiva do sujeito o escritor sofre os efeitos da condição do
discurso que tanto opera pela memória discursiva, segundo Pêcheux (1997), quanto pela
equivocidade do dizer, de acordo com Milner (1987). A importância dada ao manuscrito
possibilita dar relevo à dinâmica própria do processo escritural e abrir um espaço legítimo
para a heterogeneidade e singularidade dos textos escritos por escolares.
Para contrapor este efeito de unidade e fechamento de um “texto final” que está
implícito na noção de autoria a que Possenti (2002) se filia, Calil (2008) propõe um
movimento retroativo que re-significa e produz sentidos sobre o que foi dito/escrito. O
scriptor é afetado ao mesmo tempo em que produz as possibilidades de desfecho do texto, ou
seja, é uma via de mão dupla em que sentidos e sujeito se alternam no compasso das múltiplas
possibilidades que a língua oferece. Trata-se de um movimento de ampliação/restrição
ininterrupto em que, para cada palavra posta em circulação há outras dezenas na cadeia latente
prontas para emergir e re-significar o dito/escrito podendo mudar completamente o curso do
enunciado ou reafirmá-lo. Neste processo heterogêneo e singular, é a escuta que vai fazer
ponto à deriva à qual está submetida a linguagem – a partir dela, o texto resiste à dispersão e o
sentido pode se constituir.
Vejamos como uma história inventada por um aluno da 4ª série de uma escola
particular de Maceió demonstra esta possibilidade da língua em que a emergência de um
significante vai traçando a linha discursiva jocosa do texto25.
O aluno escolhe escrever uma espécie de paródia a uma novela veiculada na época,
denominada “O Rei do Gado” e para tanto, já inicia com o título “O Rei Cagado”.
O Rei Cagado
Era uma vez a história de Cagado que tinha como esposa Mijada e como filhos Melado
e Molhada e que também todos descendiam da família Merdinasi.
Figura 22: Fragmento inicial do texto “O Rei Cagado”

Ao assumir a posição de nome próprio, Cagado traz para a mesma categoria os outros
termos que deveriam aparecer como adjetivos Mijada, Molhada, abrindo possibilidades
incomuns para a tessitura do texto, que a partir daí adquire um sentido galhofeiro repleto de
25

Este texto é analisado por Calil; Lima (2007, p. 116) no livro Trilhas da escrita: autoria, leitura e ensino no
capítulo “Nomes próprios em histórias inventadas: odores de um encadeamento”.

66

duplos sentidos. O menino joga com os termos de tal forma que os deslocamentos vão se
sucedendo para criar uma redação rica e engraçada em que a pressão dos significantes
imprime a coloração de toda a história.
O processo de subjetivação que o ato escritural revela, ajuda a entender melhor como
cada sujeito se diferencia na relação com o texto que escreve. Pela análise das cartas que
escreveu para sua professora, nosso sujeito, RK, nos fornece as pistas que apontam para a
estrutura paranóica, com seus traços persecutórios, a circularidade discursiva, as certezas
delirantes, como se observa na Carta 41 Face B:

Figura 23: Carta 41 Face B

1. mas só que agora eu tenho um(xx)
2. tão cobiçado conhecimento para mim
3. eu sei de coisas que ninguém mais
4. sabe, de coisas que a sua pessoa
5. se surpreenderia por exemplo olho para
6. uma pessoa posso
ver (o)um que ela pen
7. sa Val em especial olhava para ela
8. e via tudo que ela pensava.
Figura 24: Transcrição diplomática da Carta 41 Face B

O que estes manuscritos atestam é que, independente de sua natureza – exercício
escolar, criação literária, cartas ou bilhetes – todo manuscrito mostra marcas do modo de
relação entre sujeito, língua e sentido. Nas questões de autoria a que este trabalho se consagra,

67

não é o valor estético nem a qualidade do texto que nos move a uma análise linguísticodiscursiva, mas o processo de subjetivação implicado no ato de escrever.
A posição inicial de Calil (2008) sobre o controverso tema da autoria está exposta em
seu livro “Autoria, a criança e escrita de histórias inventadas” tema de sua tese de
doutoramento. Nesta obra ele analisa a construção das histórias inventadas por duas meninas
de seis e sete anos em suas “aventuras pela imersão na linguagem”. O conceito de autoria vai
sendo construído ao longo do livro na discussão que o autor empreende com outros teóricos
como Bakhtin (1970, 1992), Pechêux (1988, 1990), Lemos (1992, 1995, 1998, 2000, 2002),
Willemart (1993, 1997, 2005), Orlandi (1996) e outros. Ele compara as práticas de
textualização das meninas aos manuscritos de autores, ancorado na hipótese de sujeito do
inconsciente submetido à linguagem, demonstrando que ambos (criança e autor) encontram-se
sujeitos às mesmas leis de funcionamento, apesar das singularidades próprias de cada escritor.
Ainda que tomadas pelo funcionamento linguístico-discursivo a que estão submetidas,
as meninas Nara e Isabel demonstram, em inúmeras situações, uma intervenção firme nas
decisões que tomam no momento de escolha dos títulos, dos nomes de personagens e também
na direção que vão dar ao texto levando Calil (2004) a questionar-se se aí, nestes instantes, se
buscariam sinais de autoria.
Calil (2004, p. 30) traz à tona as discussões engendradas pelas meninas acerca do
título de uma história que começa com a proposta: “Os três todinhos e uma mãe” (grifo
nosso). Este significante indeterminado “uma mãe”, desagrada às autoras, que se põem a
contestar que uma mãe pode ser qualquer uma, não necessariamente a mãe dos todinhos,
abrindo, a partir da reflexão deste dito, um leque de possibilidades: Os três todinhos e ... Dona
Sabor, Saborosa, Dona Mãe Saborosa, Dona Todinha e outras. Calil (2004) afirma que aqui,
pode-se observar uma tentativa de contenção da deriva, pela necessidade (imaginária) de
imprimir um sentido ao texto, uma urgência de relacionar texto e título, formando um todo
significativo. Mas a tensão existente entre a exigência de unidade que garantiria a coerência,
compondo a redação como um todo, corpo e título do texto, e a dispersão inerente ao
funcionamento metaforonímico da língua, dificulta a decisão das meninas.
Pela falta de autonomia do sujeito sobre a linguagem, o que se evidencia são seu
submetimento e sua dispersão, ficando apenas a aparência de controle e unidade. Esse
assujeitamento não impede as escolhas, ao contrário, por ser não-todo é ele mesmo que
possibilita a busca pelo espaço em que emerge o imprevisto, pois a cada golpe do inesperado
é preciso que o sujeito se volte sobre o enunciado/texto para ressignificar o dito. Este

68

movimento de retorno, em que há uma escuta do sujeito sobre o que escapou ao “seu
controle”, é o que sustenta a teoria de Authier-Revuz (1995) acerca das modalizações
autonímicas e permite a Calil (2004) postular os movimentos de um sujeito-autor.
Tomando a concepção de escuta e das três posições na aquisição da linguagem
fundamentadas por Lemos (1992, 1998, 1999), Calil (2004) desenvolveu um conceito de
autor que denominou “movimentos de autoria”. Lemos (1992, 1998, 1999) afirma que a
principal marca das três posições é a inseparabilidade de sua relação triádica que comporta a)
um sujeito efeito de linguagem; b) um outro, enquanto representante da língua, que com ele
interage e; c) a língua em seu funcionamento. Estas três posições não implicam em
desenvolvimento26 ou numa suposta linearidade porque elas se entrelaçam e se superpõem,
não havendo superação de uma sobre a outra, mas sim, dominância, ora de uma, ora de outra.
Na terceira posição em que o polo dominante é o sujeito, é possível uma escuta para o
próprio dizer que permite ressignificá-lo e substituí-lo por outro: “comparecem pausas,
reformulações, correções eliciadas pela reação direta ou indireta do interlocutor”. (LEMOS,
1999, p. 20). Esta operação de escuta e reformulação em que o sujeito estranha seu próprio
dizer possibilita a emergência do sujeito autor, ou dizendo de outra forma, é nesta posição
que, segundo Calil (2004), podemos identificar “movimentos de autoria”.
É necessário fazer um apontamento aqui para registrar a diferença entre a imersão da
criança “normal” conforme desenvolvida por Lemos (1992, 1998, 1999), e a inserção do
psicótico na linguagem. Justamente pela exclusão do Outro simbólico, pela falha estrutural na
relação com o outro da lei que é o mesmo da linguagem, na psicose esta operação que supõe
as três posições fica comprometida em vários níveis indo desde a quase total ausência de
escuta para o enunciado do Outro como ocorre na esquizofrenia, segundo Novaes (1996), à
criação de neologismos e até de uma “língua própria” como atesta o caso Schreber. Para
Freire (2001, p. 29), a exclusão do Outro nas psicoses faz com que o enunciado deste sujeito
apresente o caráter de alusão, de cerceamento de um ponto que não é possível acessar.
Interessante ressaltar que em nossos dados encontramos esta manifestação da psicose
paranóica (uma língua própria) em duas cartas inteiras em que o aluno escreve palavras
26

Felipeto (2008, p. 107) adverte que, no caso da aquisição de linguagem, a precedência cronológica da primeira
posição deve ser considerada, pois é através dos significantes do outro/mãe e da escuta pela mãe dos
significantes que a criança produz que se inaugura a entrada do sujeito nesta estrutura (RSI). Uma vez capturado
pela primeira posição, o sujeito não teria mais como escapar dela, passando então a não mais ser falado pela
mãe, mas movimentando-se pelas segunda e terceira posições (respectivamente polos dominantes da língua e do
sujeito) e estaria sob os efeitos daquilo que diz. Ela afirma que isto é facilmente defendido na medida em que o
outro é tratado na teoria como o representante do funcionamento linguístico-discursivo.

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ininteligíveis para a professora numa evidente desconsideração às leis que regem a linguagem.
Nestes episódios pode-se observar que RK utiliza letras aglomeradas, de forma a “simular”
palavras e frases completas, um movimento que Milner (1987) denomina “possível material”.
Ao definir a língua como aquilo que toca o Real ele afirma que é preciso um julgamento
diferencial que consiste na oposição “isto se diz/isto não se diz”. Todo sujeito falante é
suposto realizar este julgamento sobre sua língua e o julgamento diferencial repousa sobre o
“possível de língua”. O possível material nem sempre coincide com o que é possível de
língua, mas esta relação entre ambos é elástica permitindo que alguns “impossíveis de língua”
sejam absorvidos e incorporados como neologismos numa determinada língua, o que acontece
com as gírias, os termos transpostos de línguas estrangeiras, as criações poéticas, etc. Já a
utilização de um aglomerado de letras para simular palavras não pode ser tomada como
possível de língua. Ainda que o escrevente utilize-se apenas de letras conhecidas do alfabeto e
faça cortes, parágrafos e pontuações, estas cartas configuram-se como um não-texto, sem
sentido, sem rasuras, sem retornos, sem reflexividade. Este não-texto, por não estar inscrito no
conjunto de prescrições e regras que determinam o uso considerado correto da língua escrita e
falada, aponta para os limites da língua, barreira imposta pelo uso coletivo da língua e que
impede a completa liberdade do falante, conforme nos lembra Lemos (1995): “até mesmo a
criança pequena, em seus diálogos iniciais com o adulto, parece sensível a essas restrições”
(LEMOS, 1995, p. 11).
Em “Escutar o invisível”, Calil (2008, p. 50) avança em suas teorizações sobre a
questão discursiva fazendo recortes cada vez mais incisivos sobre os processos de escritura na
escola, situando-os no campo da linguística, sem deixar de fora o sujeito do inconsciente. Ao
se referir aos processos de criação em manuscritos escolares, conjectura a possibilidade de
tomar a rasura escrita como um “diálogo silencioso” com algo que já está escrito e/ou com o
que falta estar lá. A rasura, entendida como um momento do processo de escritura em que o
scriptor interrompeu o que escrevia voltando-se sobre o escrito para marcar, anotar, substituir,
deslocar, acrescentar, apresenta-se não apenas como um índice da relação entre
sujeito/língua/sentido, mas um atestado da propriedade reflexiva das línguas em que opera um
funcionamento da própria linguagem sobre si mesma. Neste diálogo interno o sujeito coloca
em cena possibilidades de outros dizeres, de outras formas de dizer, num movimento
retroativo, de escuta do que foi dito e permitindo uma possível reformulação.

70

3.4 Escuta, autoria e psicose

Nossos dados revelam este fenômeno em algumas cartas em que RK faz um retorno
sobre o que escreveu para explicitar o sentido do que foi dito. Nos recortes de enunciados de
sujeitos psicóticos esquizofrênicos não se observam comentários metaenunciativos. Na
esquizofrenia, de acordo com a observação de Novaes (1996), não há re-significação possível
no movimento de volta; o outro, como intérprete do dizer, vê-se confrontado com a
desestabilização provocada pela instabilidade e descontinuidade que causa estranhamento,
colocando a significação num ponto de suspensão.
Um trecho de uma conversa em que Novaes (1996) faz uma tentativa de diálogo com
um paciente diagnosticado como esquizofrênico, ilustra melhor o que estamos dizendo:
G: Então... é, é o seguinte o que ta perturbando hoje em dia se parece o seguinte
trago o seio da metamorf..... da bagunça.
INV: Mas você acha.... quem faz a bagunça?
G: Fez a bagunça? Fez a bagunça foi aquela (...) que nós falamos a respeito daquele
trato, e nós saindo.... não tá mais, compreendeu? (NOVAES, 1996, p. ??).

Conforme explicita Novaes (1996), a inacessibilidade aos dizeres na esquizofrenia
vem da inacessibilidade a uma estrutura em que nem tudo está simbolizado – a estrutura
psicótica.
A fala e a escrita são campos privilegiados de manifestação do inconsciente de tal
forma que ambos se confundem. A letra é, pois, o que possibilita que a verdade do desejo se
marque, bem como a do gozo, em que o objeto causa se apresenta como perda. A função da
letra é, nesse sentido, a de vir representar o objeto a, o real que o significante não pode
representar. Masagão (2004) reflete que seu personagem, Stela, assim como Schreber,
testemunha em sua escrita o paradoxo do psicótico que transita entre a totalidade das
significações e a significação vazia, encontrando neste “empuxo à escrita” uma forma de
representação do sujeito. A construção delirante através da escrita entra como metáfora
delirante que possibilita que o sujeito, através desta representação, coloque um limite à
demanda materna, ilimitada.
A escrita tem o poder de limitar os efeitos da pulsão de morte. Ela pacifica aquele que
escreve, bem como o que lê. Se a escrita conhece a morte porque se avizinha da angústia, ela

71

é amiga da vida, uma vez que fornece ao escritor um meio de perpetuar-se no escrito, de
mantê-lo vivo, ainda que voz morta (NAZAR, 2006, p. 167).
Escolhemos uma carta longa em que é possível ter uma idéia da extensão das rupturas
que ocorrem nos escritos de RK. Este documento é exemplar porque nele comparecem o
delírio de perseguição, as rupturas e a escrita da “língua própria”.

Figura 25: Carta 06 Face A

1. é muito interessante para uma pessoa que está
2. na sua situação está brincando muito, muito mesmo

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3. fez o que fez e (x) ainda abusa (b)muito bem
4. deixe estar a vingança é minha.
5. brincou com mamãe brincou com Nica e fez
6. uma coisa de proporções alarmantes com Meri
7. aliás o cumulo da covardia.
8. a coisa mais covarde que se pode fazer contra
9. um ser humano e eu acho que até se divertiu
10. com mamãe foi no (INSS) muito bem
11. com Nica foi no INSS e no Forum
12. e com Meri
13. nefotica congramatica
14. eu também acho que aprontou contra Cristina
15. e contra Dolfo
16. e agora eu estou com uma suspeita gravíssima
17. de uma coisa que fez com relação a mim
18. eu to quase chegando a certeza falta muito
19. pouco é uma questão de dias
20. se eu estiver certo a sua situação vai
21. se complicar ainda mais.
22. e eu ainda não descobri porque fez tanta
23. maldade mas eu descubro
Figura 26: Transcrição diplomática da Carta 06 Face A

Nas linhas de 1 a 12 o discurso mostra como ele delira enquanto o assunto gira em
torno da perseguição que acredita sofrer por parte da professora e dos colegas. Em seguida, na
linha 12 há uma ruptura para inserção de dois termos ininteligíveis que aparentam ligar-se às
cartas enigmáticas de números 05 e 29 em que o aluno cria palavras agrupando/separando
letras. Na sequência (linha 14) ele retoma as queixas de perseguição, afirma suas suspeitas e a
“quase” certeza que detém em relação às maldades dos amigos, ameaçando complicar a
situação da professora. Tantas rupturas tornam difícil a compreensão do texto, atravessado por
tantos sentidos e sem-sentidos. Nesta carta não há reflexões ou retornos, o que pode ser
indício de um momento de maior desestruturação do sujeito, o que reforça nossa
argumentação de que é na linguagem que o sujeito se apresenta em toda sua subjetividade
constitutiva.

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Figura 27: Carta 06 Face B

1. ae ainda fica me tratando mal qual é
2. saiba que isso só aumenta ainda mais alguma
3. suspeita que eu venha a ter
4. (o)um chocolate não faz mal de vez em quando
5. ou biscoito
6. é bom tratar bem pois quem trata bem hoje
7. amanhã pode ter uma grande surpresa
8. um chocolate não faz mal a ninguém
9. e biscoito também não.
Figura 28: Transcrição diplomática da Carta 06 Face B

Nesta Face B, a linha argumentativa se rompe ainda mais quando ele tenta retomar as
acusações de suspeita e perde o fio do enunciado para terminar divagando sobre chocolates e
biscoito. A dificuldade em retomar o dito ressignificando-o é característico das manifestações
lingüísticas nas psicoses. Como defendemos neste trabalho, a linguagem expõe a estrutura
subjetiva daquele que fala/escreve. Vamos aprofundar um pouco mais a noção das estruturas
psíquicas segundo a psicanálise para poder situar os escritos de RK e compreender como suas
cartas revelam sua singularidade.

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4 MODALIZAÇÕES AUTONÍMICAS NA ESCRITURA PSICÓTICA DE RK

A análise sobre os dados mostra que em vários episódios o aluno opera uma volta
sobre seu enunciado; suas reformulações parecem apontar para a necessidade de fixar um
sentido para os significantes que emergem na cadeia sintática. Elegemos algumas cartas em
que estão presentes modalizações autonímicas que nos possibilitam apontar movimentos de
retorno do sujeito sobre o que escreve, pontuando, comentando ou esclarecendo o que estava
escrito.
Segundo Authier-Revuz (1998) todo dizer possui uma heterogeneidade que lhe é
constitutiva, aquilo que da linguagem escapa ao sujeito. No caso específico de RK, pudemos
observar que a categoria nominada por Authier-Revuz (1998) de “modalização autonímica”
revela-se mais como um efeito metonímico, uma proliferação da linguagem sobre si mesma,
do que uma atividade intencional do sujeito sobre a “maquinaria conversacional”.
Se os fenômenos de reformulação revelam a propriedade reflexiva da linguagem
através de um “retorno sobre” o que foi dito/escrito também apontam para “movimentos de
autoria” conforme descritos por Calil (2008, p. 51). A reformulação, ainda que feita no fluxo
da cadeia sintagmática, traz a imagem de “diálogo em voz alta” entre algo que já foi dito e o
que falta estar lá. Esse diálogo coloca em cena possibilidades de outros dizeres, de outras
formas de dizer através de um movimento retroativo do falante sobre a própria linguagem,
sobre a própria fala, ou ainda sobre a fala de seu interlocutor. Para Calil (2008), a
reformulação indicia que o falante, em algum momento do processo enunciativo, interrompeu
o percurso para se voltar sobre o que foi falado, para marcar, anotar, substituir, deslocar,
acrescentar, dizer de outro modo algo que já tinha falado ou que poderia estar lá. Libertou
uma significação nova e equívoca e produziu um novo corte.
Estas estratégias comunicacionais não derivam da intencionalidade, elas estão afetadas
pelas negociações obrigatórias que todo enunciador precisa travar com o fato das nãocoincidências fundamentais que atravessam seu dizer. Uma maneira de dizer ou um sentido
não são inteiramente compartilhados, pondo em cena certa suspensão no dizer que introduz a
necessidade de esclarecimento para, segundo Authier-Revuz (1998), “tentar restaurar um UM
de co-enunciação lá em que ele aparece ameaçado”. RK faz uma tentativa de balizar seu dizer.
Retomemos o fragmento da transcrição da Carta 01 face A:

75

1. Vocês armaram uma farsa para
2. pegar o papel da minha aposentadoria.
3. e agora estão fazendo minha irmã
4. de palhaça porem isso não vai ficar
5. assim.
Figura 29: Transcrição diplomática da Carta 01 Face A

Nesse fragmento RK expõe um sentimento negativo por Val, personagem objeto de
seu amor a quem, na maior parte das cartas, ele declara um amor incondicional. Marcar “Val
como bandida” neste trecho do discurso está apontando para uma posição de reconhecimento
do sujeito em relação ao que está sendo dito por ele que, neste episódio, está revoltado contra
a colega, acusando-a de vingativa. Se nas outras cartas ele declara amor, neste trecho o aluno
vê a necessidade de pontuar que esta, não é “aquela” Val que ele ama é “Val, a bandida”. A
presença do adjetivo “bandida” marca uma oposição às declarações de amor contidas em
outras cartas. Entendemos este retorno sobre o nome próprio como um tipo de modalização
autonímica na forma de uma operação de precaução, diferenciação, especificação de sentido,
como descrita por Authier-Revuz (1998, p. 21).
Este comentário enunciativo expõe uma estrutura sintática organizada numa alusão a
um outro (Val) que se encontra no início da frase e para o qual urge fazer um comentário
mataenunciativo (sua bandida). Na relação com o sentido que se impõe, o sujeito é instado a
negociar para transmitir a mensagem que anuncia e para isso volta-se sobre o enunciado para
diferenciar as duas Val: a amada e a bandida. Observemos a transcrição da Carta 02 Face B.
1. é e agora mais essa professora qual é a sua
2. isso é uma ameaça ou uma crítica se for eu
3. só não trabalho porque não tem emprego
Figura 30: Transcrição diplomática da Carta 02 Face B

Nessa carta, o termo em negrito desencadeia uma forma de modalização autonímica
do tipo “X, no sentido de Y” que diz respeito às “não-coincidências das palavras consigo
mesmas”. Este elemento X (emprego) guarda relações com o que está sendo enunciado,
evidenciando um modo de representação do dizer de que fala Authier-Revuz (1998). Sua
emergência indiciaria o reconhecimento de uma diferença em que o enunciador busca no
discurso do Outro um apoio para discorrer sobre seu enunciado, destacando seu sentido.
Conforme se observa nas linhas um e três ao proferir “professora qual é a sua? ...eu só não
trabalho porque não tem emprego” há uma tentativa, de elucidar seu estatuto de
desempregado. Os enunciados mantêm relação entre si, ele não trabalha “porque não tem

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emprego”, mas não é qualquer emprego e sim algum “que esteja ao meu alcance”. O fluxo da
escrita segue com a amarração operada na linha cinco em que, para melhor delimitar o
elemento “X” representado pelo trabalho, ele dá um exemplo: “de zelador, por exemplo”. O
elemento modalizado é emprego que vai ser elucidado com o comentário não que esteja ao
meu alcance. A escuta do significante emprego provoca uma suspensão e uma deriva que o
sujeito tenta conter especificando de qual emprego se trata. Observemos a transcrição da
Carta 02 Face A:
1. eu quase não durmo só penso na
2. minha vida Val das doze as doze
3. eu estou morrendo por dentro pois já
4. morri por fora é e Val que é bom
5. nada ela sempre foi medrosa e agora mais
6. ainda porque xxx sabe que é verdadei
7. ro ela é a minha fofinha e cheirosa
8. resumindo para mim ela é Cleópatra a rainha do
9. Nilo Val é minha só minha de mais
10. ninguém.
Figura 31: Transcrição diplomática da Carta 02 Face A

Este episódio marca o antagonismo em relação à Carta 01 em que RK faz acusações a
Val. Aqui ela é seu objeto de amor, ele a compara a Cleópatra, a rainha do Nilo. A
modalização representada aqui na forma de uma glosa “resumindo” mostra um encadeamento
em sua escrita, que ao apontar para os adjetivos “fofinha” e “cheirosa” permite emergir o
significante Cleópatra como um personagem ligado à beleza, significante que “resume” as
qualificações atribuídas à colega. Este retorno mostra articulação em sua escrita e confere um
sentido ao texto que nos permite entendê-lo como um “movimento de autoria”. Observemos
as Carta 08 Face A e a Carta 08 Face B.

77

Figura 32: Carta 08 Face A

1. É como dizem, os humilhados serão exaltados. E eu fui
2. tão humilhado nesse mundo. Eu levei tanta porrada que as
3. vezes penso que se eu não morri até agora descon
4. fio que sou imortal “um passo para a eternidade”.
5. quem sabe de certa forma, a culpa era minha
6. que permitia, tinha medo de tudo e vergonha também
7. mas hoje eu penso diferente. Ter medo de que?
8.Ter vergonha de que? Antes eu vivia para os outros
9. e pelos outros. Aceitava tudo!!! Calado. Agora não.
10. É como se diz, quem tem boca vai a Roma.
11. (Valderígia!!!)
12. E também eu vivo em um país livre,
13. em uma democracia, mas não preciso lhe dizer isso
14. já sabe, pô!!! Sociedade hipócrita. Quer saber? Eu
15. quero, aliás, um mundo que acabe. Eu não estou nem
Figura 33: Transcrição diplomática da Carta 08 Face A

78

Figura 34: Carta 08 Face B

1. preocupado eu só quero sabe de (????????) eu sei
2. que não vai ser fácil isso é quase impossível (quase)
3. e também quero saber das mulheres elas são meu
4. consolo. As mulheres huuuum quanta tentação.
5. agora mudando de assunto o que fez foi uma
6. crueldade, não uma monstruosidade... como foi capaz, como
7. e até agora eu não entendo porque fez não entendo
8. foi por causa do óculos dona Clarice talvez não tenha
9. me perdoado mas eu espero que ela tenha entendido
10. minha situação eu estava desesperado não tinha ninguém
11. pra conversar todos contra mim
12. é como se diz um homem desesperado faz coisas desesperadas
13. por isso eu sei que não foi então eu quero saber
14. porque essa é uma pergunta que não me deixa calar
Figura 35: Transcrição diplomática da Carta 08 Face B

Na Carta 08 vamos encontrar modalizações autonímicas em três enunciados:
1. “É como dizem, os humilhados serão exaltados” (Carta 08 Face A, linha 1);
2. “É como se diz, quem tem boca vai a Roma” (Carta 08 Face A, linha 10);
3. “É como se diz, um homem desesperado faz coisas desesperadas” (Carta 08 Face B,
linha 12).

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A glosa “como se diz” é uma marca dialógica do discurso de RK que indicia uma
forma de não-coincidência do discurso consigo mesmo conforme apontado por Authier-Revuz
(1998) em que o discurso, embora atravesse o sujeito, não é da ordem do individual. Estas
glosas marcam as fronteiras interior/exterior nos dizeres; as palavras comparecem marcadas
por outros discursos: “X, como dizia minha mãe”. Observemos a Carta 09 Face A.

Figura 36: Carta 09 Face A

1. eu não me sinto bem como uma
2. cobaia pois é isso que eu
3. sou mas pra senhora alias eu
4. quero que pense assim mesmo
5. afinal eu sempre fui uma “cobaia”
6. mas que não se deixa estudar.
7. e ninguém nunca sabe qual será meu

próximo passo,

Figura 37: Transcrição diplomática da Carta 09 Face A

Identificamos nesta glosa, “cobaia”, que o sujeito tenta conter a proliferação de
sentidos que emana das palavras. O significante “cobaia” desencadeia um movimento para
tentar estancar um sentido: sentir-se como uma cobaia, ser uma cobaia, uma cobaia X, do tipo
que não se deixa estudar. “Uma cobaia” é uma autonímia, um signo autônimo que carrega
uma estrutura complexa: é um mamífero, um roedor que vive na natureza, mas é também um
animal utilizado em laboratórios para experiências científicas. É necessária uma glosa
metaenunciativa para fixar o sentido que o sujeito deseja destacar para o enunciado. Essa

80

possibilidade de usar os signos para remeter a eles próprios sustenta o discurso sobre a língua
e mostra o encontro dos enunciadores com o equívoco que permeia suas palavras no jogo
inevitável da nomeação. O termo “cobaia” também faz parte do que Authier-Revuz (1998),
numa referência ao dialogismo bakhtiniano, considera produzir-se por meio do já-dito dos
outros discursos. Um discurso habitado pelo discurso outro que remete o eu falo” aqui e agora
ao “algo fala em outro lugar”. Pelo histórico recente de RK, que na época em que escreveu as
cartas fora internado em hospital psiquiátrico, é compreensível associar sua situação a um
animal de laboratório que é submetido compulsoriamente a procedimentos nem sempre
agradáveis. Observemos a Carta 10 Face B.

Figura 38: Carta 10 Face B

14. você que sabe eu sou
15. o abestalhado, o louco alucinado, ou
16. o maluco beleza talvez eu seja (um) o
17. inteligente
18. em muitos sentidos.
Figura 39: Transcrição diplomática da Carta 10 Face B

Nesta enunciação o sujeito busca uma adequação (imaginária) a um nome
“abestalhado”, “louco alucinado”, “maluco beleza”. Quando parece haver encontrado um
significante que o represente “inteligente”, este lhe escapa e é preciso operar outra glosa
metalinguística para fixar o sentido de inteligente que acaba por dispersar-se “em muitos
sentidos”. Authier-Revuz (1998) considera que Lacan, como especialista em psicose, ao
referir o vínculo do sujeito com o tempo sob o caráter que ele denomina “diacrônico” do
discurso, destaca que a organização em direção a um termo, dessa “função diacrônica” da
frase “que só produz vínculo de significação com seu último termo, sendo cada termo
antecipado na construção dos outros e inversamente arrematando seu sentido através do efeito
retroativo” (LACAN, 1998, p. 819).

81

CONCLUSÃO

Vimos que as cartas de RK versam sobre dois assuntos predominantes: ele fala da
paixão pela colega de classe e queixa-se de perseguição acusando a professora, os colegas e
até a mulher amada de se voltarem contra ele. Alguns questionamentos foram tecidos durante
a análise dessas cartas. Dentre eles, podemos retomar: o que nos dizem os escritos de um
psicótico? A que nos remetem as enunciações deste sujeito? Que marcas linguísticas
singularizam essa escrita? O confronto com a materialidade própria desses escritos interroga:
há aí a possibilidade de reconhecermos algum “movimento de autoria”?
Tendo como ponto de partida essa noção cunhada por Calil (2004, 2008), analisamos a
possibilidade de falar em “movimento de autoria”, uma vez que este se instaura a partir de
uma articulação significante imprevisível e do reconhecimento, pelo sujeito, de uma diferença
e alteridade em sua escrita.
Reconhecemos que investigar o estatuto da autoria nos escritos de um aluno psicótico
amplia o raio de alcance das pesquisas com manuscritos escolares ao incluir uma estrutura
sobre a qual estudiosos da literatura especializada costumam considerar como impossível de
produzir re-significações.
Elegemos algumas cartas de RK em que estão presentes modalizações autonímicas
(Authier-Revuz, 2004) que nos possibilitam apontar movimentos de retorno do sujeito sobre o
que escreve, pontuando, comentando ou esclarecendo o que estava escrito.
A partir das análises empreendidas observamos que em vários episódios o aluno opera
uma volta sobre seu enunciado e suas reformulações parecem apontar para a necessidade de
fixar um sentido para os significantes que emergem na cadeia sintática. Assim, verificamos
que o sujeito apreende reflexivamente as glosas que se impõem como conflito, hesitação ou
apoio tentando restaurar o UM em que ele aparece ameaçado.

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ANEXOS

Carta 01 Face A

88

Carta 02 Face A

Carta 02 Face B

89

Carta 06 Face A

90

Carta 06 Face B

91

Carta 08 Face A

Carta 08 Face B

92

Carta 09 Face A

93

Carta 10 Face B

94

Carta 11 Face B

Carta 29 Face A

95

Carta 41 Face B

96

Carta 60 Face A