12. Alice Ball: uma biografia para a divulgação da ciência feminina negra e para possibilidades de discussão da história e filosofia
Autora: Stephanie Silva Weigel Gomes. Orientador: Prof. Dr. Wilmo Ernesto Francisco Junior. Defesa de dissertação número 140. Data: 08/02/2022.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E ENSINO DE CIÊNCIAS E
MATEMÁTICA
Alice Ball: uma biografia para a divulgação da ciência feminina negra e
possibilidades de discussão da história e filosofia
Maceió
2022
STEPHANIE SILVA WEIGEL GOMES
Alice Ball: uma biografia para a divulgação da ciência feminina negra e
para possibilidades de discussão da história e filosofia
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós-graduação em Ensino de
Ciências e Matemática (PPGECIM) da
Universidade Federal de Alagoas
(UFAL), como requisito parcial para
obtenção do título em Mestre em Ensino
de Ciências e Matemática, subárea de
Saberes e Práticas Docentes, orientada
pelo Prof. Dr. Wilmo Ernesto Francisco
Júnior.
Maceió
2022
STEPHANIE SILVA WEIGEL GOMES
“Alice Ball: uma biografia para a divulgação da ciência feminina negra e para
possibilidades de discussão da história e filosofia”
Dissertação apresentada à banca examinadora como requisito parcial para a
obtenção do Título de Mestre em Ensino de Ciências e Matemática, pelo
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática do Centro de
Educação da Universidade Federal de Alagoas, aprovada em 08 de fevereiro de
2022.
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________
Prof. Dr. Wilmo Ernesto Francisco Junior
Orientador
(Campus Arapiraca/Ufal)
__________________________________________
Profa. Dra. Nyuara Araújo de Mesquita
(UFG)
__________________________________________
Profa. Dra. Silvana Paulina de Souza
(Cedu/Ufal)
“Desrespeitando os fracos, enganando os incautos,
ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando
o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus
filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos
outros[...]”
(Paulo Freire, 1997, p. 11)
À Deus e minha vó com sua fé inabalável que sempre
intercedeu por mim, para que eu tivesse forças para a
conclusão dessa dissertação.
AGRADECIMENTOS
À Deus, por me dar forças para a conclusão desse trabalho, por ter me dado saúde para
que eu conseguisse concluir mais essa etapa da minha vida acadêmica.
À minha vó Eurides por seus cuidados e conselhos, os quais me deram, em alguns
momentos, a esperança para seguir e por sempre acreditar e confiar que eu iria crescer
na vida. Sou grata por toda minha criação, por todos os esforços feitos durante meu
intercâmbio, por todos os congressos, livros, por todas as noites em claro em que você
ficou acordada mesmo sem entender, mas só pelo fato de ser vó e dizer que estava ali
torcendo, e tudo o que foi feito por mim até aqui.
Ao meu pai Edler e minha mãe Rita, sou grata não só pelo dom da vida, mas em especial
a minha mãe por sempre me colocar pra frente, puxar minha orelha quando necessário
me fazendo entender que permanecer estudando me faria ser uma mulher de grandes
conquistas. Sei o quanto foi difícil criar 3 filhos sozinha, e hoje me orgulho por conseguir
estar tomando os rumos que você me ensinou a seguir.
À minha tia Carla, que a vida não deu a ela o dom de andar, mas deu o dom de mostrar
a todos a leveza que devemos ter para viver. Ao meu tio Hoffman, que sempre rígido,
fez com que eu estudasse e buscasse os melhores caminhos, mesmo que as vezes
fosse dolorido.
Á minha irmã Natasha, entre brigas e mais brigas, nas horas mais difíceis, sempre
esteve do meu lado.
À minha turma PPGECIM 2018, pelos momentos de estudo, diversão, companheirismo
e congressos, todos foram fundamentais para incentivar na conclusão desse trabalho.
Em especial Cássia, Leila Carla, Rutnéia, Agda e Raio.
Ao professor Ivanderson, por ter sido fundamental em me lembrar o meu propósito
dentro do mestrado, sem saber suas aulas foram uma energia que me reergueu.
Aos meus eternos amigos Ângelo, Andressa, Manoella, João Paulo, Erisvaldo, Elmadã
e Paula que entendem meu jeito nada fácil, mas sempre me apoiam e chamam minha
atenção quando necessário.
À minha esposa e companheira Jô, por me incentivar, estar do meu lado, por me levantar
e ser meu porto seguro nas melhores e piores horas. E por no meio de um turbilhão, ter
me dado o maior bem que eu tenho: uma família! Você, Kauê e João, são as pessoinhas
que me fazem querer ser uma pessoa melhor todos os dias. Amo vocês!
À Regina Brasileiro, hoje não agradeço mais pelos puxões de orelha! Agradeço pela
amizade, pelos conselhos, por me incentivar a não querer desistir da vida acadêmica,
por sempre estar disponível para me aconselhar. Um dia eu disse que se fosse metade
da profissional que você é, eu estaria feliz. Hoje, eu digo que eu sou professora, com a
minha identidade, mas carrego seus ensinamentos. Muito obrigada por tudo!
Ao meu orientador Wilmo, por TUDO, por ter sido humano nas horas que mais precisei,
por ter apertado nas horas em que relaxei. Por toda paciência, e o principal: por ter
compartilhado conhecimento comigo, por ter sido um orientador que buscou tirar o meu
melhor. Você foi fundamental para a conclusão desse mestrado, acreditou em mim
quando eu mesma deixei de acreditar. Muito obrigada!
Às professoras da minha banca de qualificação, Bárbara e Silvana. Agradeço a
disponibilidade e por contribuírem com meu trabalho.
“Algumas pessoas marcam a nossa vida para sempre, umas porque nos vão ajudando
na construção, outras porque nos apresentam projetos de sonho e outras ainda porque
nos desafiam a construí-los”.
Stephanie Weigel
RESUMO
A presente pesquisa se debruça sobre o papel das biografias científicas como
instrumento para a discussão de aspectos da natureza da ciência, constituindose em possibilidade para o (re)conhecimento de cientistas e, sobretudo,
conferindo um caráter mais humanístico a estes. Especialmente neste trabalho,
a questão da diversidade - gênero e raça - também visa ser explorada com base
na construção de uma biografia feminina. Foi desenvolvida uma pesquisa de
caráter historiográfico, baseada em fontes primárias e secundárias sobre a vida
e o trabalho de Alice Ball. O objetivo foi compreender sua trajetória de vida e
identificar sua participação na ciência química do início do século XX, com vistas
a construir um material paradidático de divulgação científica para a discussão de
aspectos da natureza da ciência, incluindo questões de gênero e raça. A partir
deste material, que constitui o produto educacional desta dissertação, foi
empreendido um estudo com licenciandos no intuito de entender contribuições
da leitura da biografia na percepção dos fatores internos e externos à construção
da ciência, tendo como referência o caso de Alice Ball. Os resultados
demonstraram que a leitura potencializa reflexões acerca da condição de
mulheres e negros na produção do conhecimento. A identificação de fatores que
interferem na produção do conhecimento, ainda que realçadas no texto,
precisam de maior problematização. Dessa forma, infere-se sobre o papel da
mediação pedagógica da leitura, ainda que textos de divulgação científica, tal
qual a biografia produzida, busquem um público amplo.
Palavras- chave: História da ciência; Biografia científica, Natureza da ciência,
Gênero e ciência; Racismo e ciência.
ABSTRACT
This research addresses the role of scientific biographies as an instrument to
discuss Nature of Science, enabling acknowledgement and recognition of
scientists and, most importantly, giving it a more humanistic perspective.
Particularly in this research, diversity issues – gender and race – are also aimed
at establishing the development of a female biography. A historiography was
developed based on primary and secondary sources about the life and work of
Alice Ball. The objective was to understand her life trajectory and identify her role
in the science of Chemistry in the beginning of the 20th century, with the goal of
developing scientific educational materials to discuss aspects of the nature of
Science, including gender and race matters. From this source, which is the
educational component of this dissertation, a survey with Chemistry students was
carried out in order to understand contributions in reading the biography taking
into consideration internal and external aspects to the construction of science,
having as reference Alice Ball’s case. The results showed that reading enhances
reflections on the condition of women and blacks in the production of knowledge.
The identification of factors that interfere in the production of knowledge, although
highlighted in the text, need further problematization. In this way, it is inferred
about the role of the pedagogical mediation of reading, even though scientific
dissemination texts, such as the biography produced, seek a wide audience.
Keywords: History of Science, Scientific biography, Nature of Science; Gender
and Science; Racism and Science.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Representação estrutural do ácido chaumúgrico(C18H32O2) ..............34
Figura 2 -Representação estrutural do ácido hidnocárpico (C16H28O2) .............34
Figura 3- Equação para a reação de formação do sal de sódio de um ácido......34
Figura 4 -Representação estrutural de molécula componente do sabão...........35
Figura 5- Formação do éster de um álcool e um ácido carboxílico. R e
R ’representam dois grupos diferentes de hidrocarbonetos................................36
Figura 6- Formação do éster etílico do ácido chaulmúgrico...............................36
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Conhecimento sobre mulher na ciência durante a formação............43
Tabela 2: Cientistas mulheres citadas..............................................................44
Tabela 3: Cientistas homens citados................................................................45
Tabela 4: Dificuldades em citar mulheres cientistas.........................................46
Tabela 5: Aplicação da biografia científica na educação básica.......................50
Tabela 6: Importantes características da ciência e produção do
conhecimento ....................................................................................................51
Tabela 7: Fatores que interferem na produção do conhecimento.....................53
SUMÁRIO
Introdução.........................................................................................................14
Capítulo I: MULHERES NA HISTÓRIA DA CIÊNCIA E BIOGRAFIA CIENTÍFICA
COMO FERRAMENTA DE INSERÇÃO DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA..............18
1.1Mulher na história da Ciência............................................................18
1.2 Biografia como meio de inserção da História da Ciência.................21
CAPÍTULO II: O CASO ALICE BALL................................................................27
2.1 Histografia da ciência e ensino.........................................................27
2.2 Alice Ball: mulher, negra, química e revolucionária..........................29
2.3 A hanseníase e o óleo de chaulmoogra...........................................32
CAPÍTULO III: A PERCEPÇÃO DOS DOCENTES SOBRE O USO DA
BIOGRAFIA CIENTÍFICA..................................................................................40
3.1 Metodologia......................................................................................40
3.2 Caracterização dos sujeitos..............................................................41
3.3 Visão dos licenciandos sobre a mulher............................................42
3.4 Interesse pela história da ciência e uso da biografia em sala de
aula....................................................................................................................47
3.5 Influências da biografia sobre a compreensão epistemológica da
produção............................................................................................................50
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................56
REFERÊNCIAS.................................................................................................58
APÊNDICE I – QUESTIONÁRIO.......................................................................62
APÊNDICE II- PRODUTO EDUCACIONAL.......................................................65
14
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa se debruça sobre o papel das biografias científicas
como instrumento para a discussão de aspectos da natureza da ciência. As
biografias tornam-se assim possibilidade para que os estudantes conheçam
cientistas cuja contribuição foi relevante na história da ciência, sobretudo
conferindo um caráter mais humanístico e valorizando aspectos e personagens
que não seriam estudadas em outras oportunidades. Especialmente neste
trabalho, a questão da diversidade - gênero e raça - também visa ser explorada
com base na construção de uma biografia feminina.
Historicamente
a
ciência
sempre
foi
vista
como
uma
área
predominantemente masculina. Sendo assim, Leta (2003) nos traz que:
Durante os séculos XV, XVI e XVII, séculos marcados por
diversos eventos e mudanças na sociedade que possibilitaram o
surgimento da ciência que conhecemos hoje, algumas poucas
mulheres aristocráticas exerciam importantes papéis de
interlocutores e tutores de renomados filósofos naturais e dos
primeiros experimentalistas. Não obstante suas qualidades e
competências, não lhes era permitido o acesso às intensas e
calorosas discussões que aconteciam nas sociedades e
academias científicas, que se multiplicaram no século XVII por
toda a Europa e tornaram-se as principais instituições de
referência da ainda reduzida comunidade científica mundial.
(LETA, 2003, p. 271)
Dessa forma, durante esse período e ainda durante o século XIII,
mulheres só conseguiam se inserir no mundo da ciência se fosse através de
relações familiares, onde pais ou maridos estivessem ligados à ciência. Ainda
assim, essas mulheres não apareceram como protagonistas, mas estariam
fazendo atividades básicas, como limpeza, desenhos e assistência. Essa
mudança passa a ocorrer ativamente a partir do século XX.
A mudança nesse quadro inicia-se somente após a segunda
metade no século XX, quando a necessidade crescente de
recursos humanos para atividades estratégicas, como a ciência,
o movimento de liberação feminina e a luta pela igualdade de
direitos entre homens e mulheres permitiram a elas o acesso,
cada vez maior, à educação científica e às carreiras,
tradicionalmente ocupadas por homens. (LETA, 2003, p 271)
Há algumas décadas, uma das maiores lutas da sociedade é pela
igualdade entre os sexos. Atualmente, mulheres lutam por seus direitos de
igualdade e para provar que são capazes de produzir tanto quanto homens e
15
romper os pensamentos de uma sociedade sexista, na qual o papel da mulher
perdurou para a reprodução, afazeres domésticos e algumas profissões
determinadas.
Um exemplo marcante a respeito dessa divisão, é a representatividade da
figura feminina em prêmios de grande expressão mundial. Entre os laureados do
Prêmio Nobel de química, desde o início da premiação, foram contemplados 186
cientistas, no qual apenas 7 são mulheres. A situação ainda piora quando
olhamos os vencedores do Prêmio Nobel de Física, onde entre 216 laureados,
apenas 4 são do sexo feminino1.Vale ressaltar, que a falta de representatividade
e a desigualdade não ocorre apenas no mundo da ciência, mas em diversos
setores, tais como política, cargos de liderança no setor privado, artes, dentre
outros. Mulheres ainda hoje lutam por direitos de igualdade salarial e para se
impor dentro de seus cargos, tendo a necessidade de provar sua capacidade de
liderança e controle para ocupar cargos que são ditos para homens.
Em âmbito nacional, a situação se torna ainda mais crítica. De acordo com
o Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres no Brasil (WAISELFISZ,
2015), o Brasil é o 5o país que mais mata mulheres no mundo, o que mais chama
atenção é que quatro anos depois o país continua ocupando o mesmo lugar no
ranking. No relatório referente ao ano de 2018, os dados são alarmantes: 4.645
mulheres foram assassinadas no país, o que representa uma taxa de 4,5
homicídios para cada 100 mil brasileiras. O estado de Roraima aparece como o
mais crítico em relação a feminicídios, onde a cada 100 mil mulheres, 10
mulheres são mortas. O relatório ainda aponta para um aumento na taxa de
mortalidade feminina de 6,5% nos últimos 10 anos2.
Nesses termos, esta pesquisa parte da hipótese de que resgatar histórias
de mulheres bem sucedidas, neste caso no campo científico, pode ajudar a
discutir e combater as diferenças de gênero na sociedade, bem como inspirar
outras mulheres para trilhar caminhos próprios. Dubar (2005) aponta que quando
os sujeitos se identificam a determinados grupos, eles buscam meios para se
1
Dados referentes ao
(https://www.nobelprize.org)
2
ano
de
2020,
obtidos
diretamente
Dados
referentes
ao
ano
de
2018,
obtidos
no
mapa
(http://www.forumseguranca.org.br/publicacoes/atlas-da-violencia-2018/)
no
site
da
oficial
violência
16
fazerem pertencentes a eles. Assim, em segunda instância, as biografias
femininas de cientistas podem atuar na atração de jovens para áreas em comum.
No caso das meninas, é importante que elas se sintam
representadas por mulheres na História da Ciência e se
identifiquem com o conhecimento científico para construírem
identidades científicas. Para que as mulheres se identifiquem
com os grupos que fazem ciência, é, assim, necessário que, no
mínimo, haja diversos exemplos de mulheres nestes grupos. (EL
JAMAL e GUERRA, 2020, p. 315,)
O próprio universo científico desvaloriza a atuação de mulheres no âmbito
da ciência e pesquisa. Compreendemos que ao conhecer a história de outras
mulheres que ingressaram na ciência, através de suas biografias, outras jovens
podem se identificar com as lutas sociais e a necessidade de se afirmarem em
ambientes dominados pelo patriarcado, e se sentirem motivadas em seguir pelo
caminho da ciência. A fundamentação teórica a respeito da biografia como
possibilidade de discussão da história da ciência é debatida no Capítulo 1.
Por esses motivos, acreditamos que através da história da ciência, muitas
jovens podem ser influenciadas a partir do contexto biográfico de outras
mulheres,
que
conseguiram
se
impor
dentro
de
um
ambiente
predominantemente masculino, conhecendo os avanços, as inquietações, os
dilemas e os desafios dessas cientistas ao longo de sua vida pessoal e de suas
carreiras.
Esses são os motivos que permeiam a seguinte questão norteadora
desse projeto: Os professores da educação básica consideram que o uso da
biografia científica é capaz de aproximar os alunos da realidade dos cientistas,
auxiliando no processo de inserção na história da ciência?
A partir desta concepção, foi selecionada a química estadunidense Alice
Augusta Ball, que no início do século XX empreendeu pesquisas no campo da
química dos produtos naturais, contribuindo para um tratamento à hanseníase,
doença que na época não tinha cura. Alice faleceu muito cedo e permaneceu,
durante muito tempo, como uma figura “esquecida” na história da ciência. A partir
dessa escolha, foi desenvolvida uma pesquisa de caráter historiográfico. Tal
estudo foi baseado em fontes primárias e secundárias sobre a vida e o trabalho
de Alice Ball. O objetivo foi compreender sua trajetória de vida e identificar sua
participação na ciência química do início do século XX, com vistas a construir um
material paradidático para a discussão de aspectos da natureza da ciência,
17
incluindo questões de gênero e raça. A partir deste estudo, apresentado no
Capítulo 2, foi elaborado o produto educacional desta dissertação, a biografia
“ALICE BALL: Mulher, negra e química no início do século XX”.
Elaborado o produto educacional, foi arrolada uma segunda etapa de
pesquisa, que se configurou por uma investigação com professores que atuam
na educação básica de ensino. A escolha desses sujeitos surge da importância
de que como docentes e formadores de opiniões, tais sujeitos devem atuar
favoravelmente no incentivo de mulheres pelo caminho da investigação dentro
do mundo da ciência.
A biografia construída foi disponibilizada para os sujeitos da pesquisa a
fim de que eles tomassem conhecimento do assunto proposto. Posteriormente,
após a leitura do material, foram avaliadas as potencialidades da biografia na
construção de saberes sobre a natureza da ciência e sua possível inserção em
sala de aula. Esta etapa foi apresentada no Capítulo 3.
18
Capítulo I
MULHERES NA HISTÓRIA DA CIÊNCIA E BIOGRAFIA CIENTÍFICA COMO
FERRAMENTA DE INSERÇÃO DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA
1.1.
Mulher na história da Ciência
Desde o início da evolução da sociedade, a capacidade intelectual da
mulher sempre foi questionada. Esse tipo de pensamento deu origem a uma
sociedade patriarcal que parece ter sido construída para homens e apenas por
homens. Walkerdine (1995, p. 213) argumentando sobre a capacidade feminina,
diz que a mulher é “constantemente condenada por não raciocinar e igualmente
reprovada se o faz. Seu raciocínio é visto como constituindo uma ameaça à
masculinidade raciocinante”. Freud também já argumentou sobre como pouca
foi a participação da mulher ao desenvolvimento da sociedade. Para ele: “elas
careceriam da capacidade e do desejo de mudar o mundo”. Embora Freud tenha
dado muitas contribuições com seus estudos para a civilização, ele estava
enganado. As mulheres, mesmo que de forma oculta, contribuíram e continuam
contribuindo diretamente com a evolução da ciência. Mas por que será que elas
não são citadas?
Segundo Soihet (1997, p. 100)
a história das mulheres implica na negação do sujeito universal
da história, que exclui as mulheres, apontando para a
parcialidade da história e dos próprios historiadores. Para Citeli,
a negação da participação feminina nas ciências “tem sido
historicamente constitutiva de uma peculiar definição de ciência
– como indiscutivelmente objetiva, universal, impessoal e
masculina”, o que, segundo a autora, serve para diferenciar
“masculino de feminino, ciência de não ciência e, até mesmo,
boa ciência de má ciência” (Citeli, 2000:68)3, cabendo à mulher
os conhecimentos não científicos ou a má ciência.
O percurso das mulheres na ciência é guiado por uma cultura baseada no
“modelo masculino de carreira” (VELHO, 2006), este é caracterizado pelo
pensamento de dedicação em tempo integral e exclusiva ao trabalho e alto nível
de produtividade em suas pesquisas.
3 O autor citado cita outro autor junto com sua opinião.
19
Segundo Lowy (2009), a ciência, como um produto cultural, social e
histórico, foi moldada na dicotomia existente entre o masculino e o feminino na
sociedade, e pelo fato de que, durante a maior parte da sua história, foi
empreendida pelo representante do masculino: o homem branco, ocidental,
elitista e colonial. Por esses motivos, as críticas femininas à ciência começam a
surgir a partir do momento em que entendemos que a ciência só possui
legitimidade e racionalidade se surgirem de valores ditos masculinos, que
mulheres estão incapacitadas de possuir.
Com o passar do tempo, as mulheres entre tantas lutas têm conseguido
mudar o quadro e se impor. Segundo Leta (2003) apesar da institucionalização
da ciência brasileira ser um evento recente, houve uma significativa mudança na
universidade brasileira com respeito ao aumento da participação de mulheres
nos cursos de graduação e pós-graduação, a ponto destas serem maioria em
algumas áreas; entretanto, segundo a autora as mulheres atuantes no Sistema
de Ciência & Tecnologia Nacional ainda não ocupam cargos e posições de
destaque e reconhecimento como ocorre frequentemente com os homens.
Handelsman et al. (2005) mencionam que a falta de interesse feminina a
busca pela carreira científica não se deve somente a falta de habilidade, que
teoricamente seria apenas masculina, como já citado acima, mas ao fato de as
mulheres não serem motivadas a seguirem essa carreira, além de não
conhecerem modelos femininos que as motivem. Por esse motivo, se faz
necessário a divulgação de trabalhos realizados pelas grandes cientistas que
contribuíram com a sociedade, bem como as trajetórias de vida dessas
mulheres, para que outras conheçam suas lutas e conquistas.
Melo e Lastres (2006) afirmam que a organização de atividades
realizadas por homens e mulheres na pesquisa científica e tecnológica é um
processo social que precisa ocorrer de modo mais igualitário. Os resultados na
busca por essa igualdade vêm ocorrendo de forma lenta, pois só ocorrem através
de um esforço feminino na busca de melhores qualificações, e que isso se
manifestaria em um aumento de mulheres em várias áreas do conhecimento.
Por todos esses motivos, entendemos que através da história da ciência,
jovens mulheres podem ser incentivadas a ingressar no mundo da pesquisa.
Segundo Debus (1971):
20
Acredito que seja importante – talvez essencial – para um
estudante compreender o papel da ciência em nosso mundo – e
acredito que a melhor maneira de se fazer isso é através da
história. Este é um recurso precioso para os estudantes
entenderem os fatores que afetam a mudança de visão do
homem a respeito da natureza [...]. (DEBUS, 1971, p. 804).
Por meio da história da ciência é que estudantes conhecerão as batalhas
de cada indivíduo para se impor no campo científico, os conflitos pessoais e
profissionais envolvidos, os sucessos e até mesmo as derrotas dessas
cientistas. Através da história da ciência é que, outras mulheres e até mesmo
homens, entenderão os contextos não só históricos, mas também sociais que
fizeram com que as histórias de grandes cientistas do sexo feminino tenham sido
deixadas de lado e não tenham sido tão exaltadas como de cientistas do sexo
masculino.
É comum que entre historiadores, sejam utilizadas as biografias como
ferramentas para compreender processos e culturas científicos. Segundo Nye
(2006) e Terral (2006), as biografias são os gêneros literários que mais chamam
a atenção de jovens que ingressam no mundo da ciência, pois a partir dessas é
que surgem as ambições e os processos de identificação das próprias mulheres
com a ciência. Identidade essa que, segundo Dubar (2005, p. 136), seria um
“resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e
objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que,
conjuntamente, constroem os indivíduos e também as instituições”.
Dessa
forma, a construção da identidade e da identificação com o mundo da ciência se
dá a partir da socialização, aprendizagem e experiência com outros.
Sendo assim, compreendemos que ao descrever detalhes das pesquisas
de mulheres que fizeram parte da história da ciência, ocorra um processo
identitário de outras meninas/mulheres com a ciência e que estas se sintam
atraídas através de outras biografias de importantes mulheres cientistas.
Compreendemos que ao utilizar a biografia como ferramenta de ensino,
não será tratado apenas sobre os estudos específicos de determinado cientista,
mas este será visto de uma forma mais humana; além disso, a realidade do
cientista se tornará mais próxima à realidade dos estudantes, tornando a ciência
algo menos impossível aos olhos de quem a vê, podendo gerar uma provável
identificação.
21
Com os relatos de história de vida do biografado, entendemos não só seus
momentos de glória, mas as preocupações que o cercaram, o contexto social em
que estava inserido, suas frustrações ao longo da vida, assim como questões
políticas e culturais que estavam sendo vividas naquele momento (MORA,
2003).
1.2.
Biografia como meio de inserção da História da Ciência
Ao longo dos últimos anos, pesquisadores inseridos no universo do ensino
de ciências têm se preocupado em investigar alternativas que tenham por
finalidade inserir a história da ciência dentro de um contexto que se encaixe no
próprio conteúdo programático e que seja capaz de atrair jovens para o universo
científico. Como uma das alternativas, temos o uso da biografia científica.
Segundo Trindade et al. (2016, p 48): “Uma das formas fundamentais de se
interpretar o passado é através da vida das pessoas. A biografia científica nos
aproxima do cotidiano do cientista e relata sobre a natureza e a construção do
conhecimento científico”.
Dessa forma, ao utilizar a biografia como ferramenta de ensino, não será
tratado apenas sobre os estudo específicos de tal cientista, mas irá desmistificar
a ideia de que o cientista é alguém intocável, mas sim um ser humano, como
todo e qualquer aluno. Com os relatos de história de vida do biografado,
entendemos não só seus momentos de glória, mas a preocupações que o
cercaram, o contexto social em que estava inserido, suas frustrações ao longo
da vida, assim como questões políticas e culturais que estavam sendo vividas
naquele momento. Nesse sentindo, Mora (2003) nos diz que:
A divulgação científica como literatura é aquela que emprega
recursos literários, a que envolve preocupações humanas,
aquela que recria, no sentido de uma expressão pessoal e
inovadora. A que não olha para a ciência como conhecimento
isolado, mas a submerge no mar das preocupações intelectuais
partilhadas pelos seres humanos (MORA, 2003, p.109).
É importante destacar que não existe um modelo perfeito para se retratar
uma biografia científica; entretanto, existem pontos que são importantes para
análise e compreensão de fatos relacionados a história da ciência. Segundo
Trindade et al. (2016):
22
Levando em conta que o estudo da história da ciência se dá por
meio de 3 esferas da análise: epistemológica, historiográfica e
conceitual, a biografia se transforma em uma ferramenta para se
expressar a integração da vida individual e os contextos cultural,
intelectual e social. (TRINDADE et al., 2016, p 49)
Tais aspectos são importantes para a história da ciência, uma vez que
quando relacionados aos indivíduos em questão, irão deixar evidentes não só
seu trabalho, mas seus interesses e motivações. Além disso, entenderemos os
experimentos, interesses públicos e projetos governamentais envolvidos no
período em que está inserido o biografado.
De acordo com Helge Kragh (1989), o uso de biografias na história da
ciência é algo recente, principalmente quando a biografia envolve tópicos sociais
e intelectuais, os quais constituem uma importante ferramenta para estudos de
cientistas e historiadores. É importante destacar também que, ao analisar ou
escrever uma biografia, devemos ter cautela em como o biografado será
retratado ou interpretado, para que este não se torne herói ou vilão de sua
própria história. Segundo Trindade et al (2016, p 51): “Portanto o resultado da
abordagem depende da intencionalidade do biógrafo, que vai narrar a história
com termos e documentos escolhidos a dedo para que a finalidade seja
alcançada”.
Dito isto, entendemos que o uso de biografias científicas se faz
importante, considerando que através da curiosidade de como as coisas
ocorreram no passado, das lutas que foram enfrentadas e vencidas e com
desafios que foram postos para os cientistas, principalmente as de gênero
feminino, é possível estimular a curiosidade e incentivar as leitores e leitoras a
seguir pelo caminho da ciência.
[...]Mas pensando sobre o lugar da biografia na disciplina deve
nos levar a pensar sobre a relação entre as vidas de indivíduos
e argumentos históricos sobre cultura, política, movimentos
intelectuais, e assim por diante. Que lugar uma determinada vida
ocupa no quadro geral, no entanto que está emoldurado? O que
uma história de vida individual pode dizer sobre tendências
maiores ou questões mais amplas? Como a ciência é integrada
à vida, bem como à sociedade e à cultura? Não há respostas
simples para essas perguntas, é claro, mas indicam o potencial
de escrever uma biografia para ir além dos limites do indivíduo.
(TERRAL, 2006, p.307)
23
O propósito de uma biografia no ensino de ciências é mostrar como os
cientistas enfrentam desafios para a realização de seus trabalhos. No caso das
mulheres, é importante que as leitoras compreendam como foi o processo das
cientistas irem contra os padrões da sociedade para conseguir publicar seus
trabalhos e até mesmo realizarem suas próprias pesquisas.
Segundo Lowy (2009), a ciência, como um produto cultural, social e
histórico, desde o seu nascimento, foi moldada na dicotomia existente entre o
masculino e o feminino na sociedade, e pelo fato de que, durante a maior parte
da sua história, foi empreendida pelo representante do masculino o homem
branco, ocidental, elitista e colonial. Por esses motivos, as críticas femininas à
ciência começam a surgir a partir do momento em que entendemos que a ciência
só possui legitimidade e racionalidade se surgirem de valores ditos masculinos,
que mulheres estão incapacitadas de possuir.
Com o passar do tempo, as mulheres entre tantas lutas têm conseguido
mudar o quadro e se impor. De acordo com Leta (2003) apesar da
institucionalização da ciência brasileira ser um evento recente, houve uma
significativa mudança na universidade brasileira com respeito ao aumento da
participação de mulheres nos cursos de graduação e pós-graduação, a ponto
destas serem maioria em algumas áreas; entretanto, segundo a autora as
mulheres atuantes no Sistema de Ciência & Tecnologia Nacional ainda não
ocupam cargos e posições de destaque e reconhecimento como ocorre
frequentemente com os homens.
Handelsman et al. (2005) mencionam que a falta de interesse feminina a
busca pela carreira científica, não se deve somente a falta de habilidade, que
teoricamente seria apenas masculina, como já citado acima. Mas, ao fato de as
mulheres não serem motivadas a seguirem essa carreira, além de não
conhecerem modelos femininos que as motivem. Por esse motivo, se faz
necessário a divulgação de trabalhos realizados pelas grandes cientistas que
contribuíram com a sociedade, bem como a trajetórias de vida dessas mulheres
para que outras conheçam as lutas e as conquistas dessas cientistas.
Concordamos com Trindade et al (2016), quando nos dizem que:
[...], pode-se justificar o empenho em se organizar e difundir
biografias de mulheres que tiveram atuação na construção,
construção e comunicação de conhecimentos sobre a natureza
24
e as artes em diferentes épocas e culturas com o fim de apontar
e/ou analisar questões de gênero contribuindo para que os
jovens procurem carreiras em ciência e tecnologia. (TRINDADE;
BELTRAN; TONETTO, 2016, p. 13)
Nesse sentido, ao apresentar a biografia de outras mulheres que lutaram
para se impor dentro do universo científico, não esperamos que jovens mulheres
tenham apenas admiração, mas se sintam encorajadas a lutar e enfrentar os
obstáculos que permeiam o ingresso destas dentro das ciências. De acordo com
Trindade et al (2016, p. 10), “Ultimamente também tem crescido a preocupação
de atrair mais mulheres para a ciência, procurando questionar antigas ideias
referentes, por exemplo, à falta de inclinação feminina à matemática ou física já
desde o ensino médio.” Por esse motivo, se faz necessário conscientizá-las que
todas são capazes de desenvolver pesquisas e que estas podem ter grandes
influências dentro da sociedade, por meio de suas pesquisas e conquistas.
Estratégias de ensino que procuram contextualizar o conteúdo
programático da disciplina com o método cuja teoria foi
desenvolvida, levando em consideração o contexto da época em
que atuava o cientista, devem ser elaboradas dentro de uma
perspectiva que torne a ciência acessível aos educandos, mas
que não mistifique o trabalho do cientista e o próprio
desenvolvimento do conhecimento científico. Os alunos devem
ter acesso aos motivos pelos quais os cientistas se debruçam
sobre as teorias, pois, muitas vezes, existem objetivos políticos,
sociais, tecnológicos, interesses comerciais, prêmios, ascensão
acadêmica, entre outros, envolvidos nos projetos de pesquisa.
Além disso, muitas portas se abrem para um cientista que
desenvolve uma pesquisa de profundo impacto social. Nem a
pesquisa nem o pesquisador são neutros, muito menos
desconectados das coerções sociais. (URIAS e; ASSIS,2014,
n.p.)
A utilização de biografia dentro do ensino de ciências é importante,
considerando que serão enfatizadas questões que levantarão a curiosidade dos
alunos; entretanto, para que isso ocorra, é de fundamental relevância que o
professor tenha em mente o objetivo que deseja alcançar ao apresentar a história
de determinado cientista, assim como deve tomar cuidado com o biografado
escolhido e como é retratada sua biografia. Isso pode ser confirmado nas falas
de Urias e Assis (2014)
[...]o uso das biografias no ensino de ciências pode contribuir
para a apresentação da verdadeira ciência nas salas de aula e,
porventura, estimular o acesso de jovens nas carreiras
científicas. Fica a cargo do professor, apresentar aos alunos tal
25
concepção de ciência, já que na maioria dos livros de divulgação
científica ela é mitificada. Quanto menos idealizada for a ciência
apresentada pelo professor, mais significativo será o trabalho de
apresentação dos detalhes do processo científico. Quanto
menos a figura do cientista for monumentalizada, ou seja,
tornada inacessível, maior será o número de alunos que poderá
aspirar à carreira científica. (URIAS e ; ASSIS, 2014, p.3)
Por esses motivos, ao desejar incentivar jovens mulheres no ingresso no
meio científico, devemos ter cuidado em deixar explícito que houve lutas e
resistências das cientistas para que chegassem às suas conquistas e, deve ser
mostrado que o caminho percorrido, assim como nos dias atuais, não foi fácil.
Além disso, é importante destacar que as conquistas chegam, não por sorte ou
por influência, mas pelo esforço em mostrar que as mulheres iam muito além de
assistentes de laboratório, cuidando apenas da limpeza e serviços básicos, que
não envolvem a pesquisa.
[...] desde a antiguidade, atitudes como habilidadef4 e astúciaf
eram consideradas feministas por autores como Ptolomeu e
Aristóteles. Entretanto, àquela época, tais características não se
relacionavam positivamente a capacidade cognitivas, mas sim a
conhecimentos práticos muito pouco valorizados pelos antigos
gregos. Acrescente-se a isso que, mesmo a partir do
renascimento quando se buscou uma revalorização dos
conhecimentos técnicos (techné), as contribuições das práticas
feministas permaneceram quase que invisíveis. (TRINDADE et
al., 2016, p. 18)
Quando utilizamos uma biografia, principalmente de uma mulher, deve ser
valorizado toda e qualquer atitude tomada pela biografada para conseguir
alcançar os objetivos nos seus estudos, pois devemos levar em consideração
que existiram lutas para que fosse reconhecido e validado todo e qualquer
estudo realizado por elas. Assim, Trindade et al. (2016) nos dizem que:
[...], levantamentos biográficos sobre mulheres que realizaram
ou, de alguma forma, participaram de algum destacado episódio
científico, constituíram um dos pontos de partida das pesquisas
sobre mulheres na ciência. Essas pesquisas tiveram um grande
impulso nos anos noventa com a emergência dos estudos de
gênero e passaram a construir uma vertente ciência e gênero –
reconhecida no campo da História da ciência. (TRINDADE;
BELTRAN; TONETTO, 2016, p. 12)
É importante destacar que nem todas as mulheres que ingressaram no
ambiente científico tiveram histórias consideradas vitoriosa
4 As autoras utilizam o ‘f’ sempre que se referem a adjetivos relacionados às mulheres.
26
s, quando foram premiadas e aclamadas pelo meio. Mas isso não as torna
menos importantes e não tira o valor de suas pesquisas e minimiza suas lutas e
conquistas dentro de um universo com tantos homens. Esses fatos só nos levam
a compreender a importância de mostrar a outras mulheres as inúmeras lutas e
incentivá-las pelo interesse científico a fim de que elas tenham como exemplo
uma cientista e saibam onde elas podem fazer melhor para conquistar seu
espaço.
É interessante notar que muitos dos estudiosos dedicados a
elaborar biografias científicas consideram que esse gênero de
literatura é o que mais atrai os leitores que se iniciam nos
estudos sobre ciência. (TRINDADE; BELTRAN; TONETTO,
2016, p. 13)
Por essa razão, é importante que o professor não esteja apenas
empenhado em desenvolver o ensino tradicional, que muitas vezes desperta o
tédio e a aversão dos alunos em sala de aula, mas que ele traga a ciência para
a realidade dos alunos, despertando um possível interesse de ingressar no
mundo da pesquisa. É importante também que o professor se sinta encorajado
a despertar em suas alunas o interesse pela ciência, mostrando que isso não é
apenas coisa para homens e que existem mulheres fortes e que foram de grande
importância para a sociedade por suas descobertas.
27
CAPÍTULO II
O CASO ALICE BALL
Nesta seção é apresentada a Biografia da química estadunidense Alice
Ball. Para a elaboração de tal biografia foi realizada uma pesquisa historiográfica,
baseada em fontes primárias e secundárias. O principal objetivo dessa seção é
compreender a trajetória de Alice Ball e identificar sua participação na ciência do
século XX. A partir desse estudo foi elaborado o produto educacional desta
dissertação, a biografia “ALICE BALL: Mulher, negra e química no início do
século XX”.
2.1 Histografia da ciência e ensino
Sabemos que a história relata fatos acontecidos no passado. Já a
historiografia, irá tratar de como esses fatos históricos são descritos e narrados
pelos historiadores.
Pode-se chamar de “historiografia” a produção dos
historiadores, para diferenciá-la da “história” - entendida como
um conjunto de situações e acontecimentos pertencentes a uma
época e a uma região-, que é o objetivo e estudo dos
historiadores. (MARTINS, p. 115, 2005)
Através
da
historiografia,
os
historiadores
podem
dar
sentido
interpretando os fatos históricos relatados, considerando todo um contexto em
que aquele acontecimento estava inserido. Assim, a historiografia se preocupa
em pesquisar a história, por isso a escolha e análise de dados colhidos e a
fundamentação teórica utilizada, são de grande importância para que a reflexão
dos historiadores faça sentido e não seja uma simples versão da história. (CRUZ,
p.163, 2006)
Quando nos referimos à historiografia considerando a ciência, é
importante ter mente que nem tudo relacionado a ciência depende da ação
humana, por isso, determinados fatores podem interferir sem que haja a menor
intenção. Sendo assim, o historiador da ciência não irá se preocupar com a
história da ciência em si, mas sim sobre a historiografia da ciência, na qual não
irá ser analisado apenas o fenômeno científico que ocorreu, mas o contexto
histórico, social e até mesmo cultural que levou o cientista a chegar no estudo
de determinado fenômeno.
28
Podemos dizer então que a história da ciência vai existir, mesmo que não
haja historiadores, pois os fenômenos continuarão lá mesmo que não sejam
notados e estudados. Já a historiografia da ciência, só existe quando há
historiadores da ciência, estes serão os responsáveis pela publicação de artigos,
livros e outros instrumentos que irão descrever e refletir a respeito da atividade
científica (MARTINS, 2005).
É importante salientar que um estudo envolvendo história da ciência pode
ter dois tipos de abordagem: conceitual e não conceitual, a primeira irá discutir a
ciência em si, o fenômeno ocorrido que se pretende compreender. Já o segundo
irá refletir sobre os fenômenos externos envolvidos, como política, economia,
influências sociais da época, entre outros. Assim, uma pesquisa historiográfica
completa irá trazer esses dois tipos de abordagem, para que esta tenha o
máximo de clareza e compreensão para o leitor.
As fontes onde buscamos informações a respeito do que se está sendo
investigado, são de total relevância. Na história da ciência é comum buscamos
diversas fontes, tais fontes são divididas em primárias e secundárias. As fontes
primárias são os estudos dos pesquisadores que foram escritos pelos
pesquisadores estudados, e as secundárias são os estudos historiográficos
sobre os pesquisadores, seus estudos e o período em que os pesquisadores
viveram (MARTINS, 2005). Assim, quanto mais soubermos sobre o trabalho
original do autor que está sendo estudo, mais fiel serão os relatos sobre este.
Por isso, devemos ter bastante cautela ao buscar manuscritos que foram escritos
em outras línguas e traduzidos, pois tal tradução dificilmente será feita idêntica
ao original e fatos podem ser ocultados.
Por fim, ao realizarmos uma pesquisa historiográfica, voltada para a
história da ciência, devemos evitar que essa pesquisa se torne algo descritivo,
pois assim ela não terá grande relevância. Devemos refletir sobre o momento
em que estamos pesquisando e investigar todos os fatores que influenciaram o
pesquisador que está sendo investigado. É importante também que não
deixemos de lado pesquisadores que não concluíram seus estudos ou não
tiveram fases bem sucedidas, pois os erros também trazem reflexão e
aprendizado e contribuem para que novas pesquisas sejam feitas e corrigidas.
Salientamos que cada época estudada possui autores e pesquisadores de
estilos diferentes, não cabe a pesquisa historiográfica interpretar a identidade
29
desses pensamentos, mas conhecê-los para que possam ser distinguidos e
compreendidos. (MARTINS, 2005)
Dito isto, destacamos que a pesquisa historiográfica realizada nessa
dissertação é sobre a química americana Alice Ball, para tanto buscamos fontes
de natureza primária e secundária, a fim de compreender não apenas a pesquisa
realizada pela cientista, mas suas dificuldades, o contexto em que ela estava
inserida. Além de buscar compreender quem foi Alice Ball e o que a levou até
sua pesquisa.
Para a construção dessa biografia, foram empregadas tanto fontes
primárias quanto secundárias. Todavia, um dos desafios do caso em questão
foram justamente as fontes primárias sobre a própria Alice Ball e, em especial, o
contexto no qual desenvolveu seu trabalho na Universidade do Hawaí. Alice
quase foi esquecida na história da química, mas um dos primeiros documentos
a seu respeito foi publicado pela universidade de Washigton: Benzoylations in
Ether Solution(1914) (Benzoilação em soluções de éter), este artigo foi publicado
com seu orientador quando Ball era aluna de farmácia, no Journal of the
American Chemical Society. Em seguida Alice vai para a Universidade do Hawaí,
onde começa sua pesquisa com o óleo de chaumoogra, The Chemical
Constituents of Piper Methysticum (1915) (Os Constituintes Químicos do Piper
Methysticum) junto com o cirurgião Harry T. Hollmann. Como Ball morreu antes
de publicar sua pesquisa, o presidente e químico da Universidade do Hawaí,
Arthur L. Dean, continuou sua pesquisa e nomeou o método criado por Alice
como método Dean, até que Hollman, decidiu alertá-lo que a pesquisa havia sido
realizada por Alice Ball, dando os créditos da pesquisa a sua real pesquisadora.
Na tentativa de situar seu trabalho como cientista, foram consultados seus
dois artigos publicados, bem como o artigo de Hollmann (1922) em que as
contribuições de Alice para a síntese do sal de óleo de chaulmoogra são
evidenciadas.
2.2 Alice Ball: mulher, negra, química e revolucionária
Desde o início da sociedade, as mulheres fazem parte da construção do
pensamento científico, entretanto com raras exceções tiveram o mesmo
reconhecimento que cientistas do gênero masculino, por isso as barreiras de
30
gênero impostas pela sociedade sempre tiveram que ser rompidas por diversas
mulheres cientistas para que elas pudessem publicar suas pesquisas. (Ludwig,
Ludwig e Junqueira, 2019).
Podemos afirmar que existem diversas histórias de grandes mulheres que
atuaram em pesquisas importantes para a humanidade, mas essas cientistas,
não são sequer conhecidas pelas próprias pessoas do universo científico e
quando são conhecidas, são pouco citadas. Este é o caso de Alice Ball, uma
cientista que teve uma grande importância no tratamento da hanseníase,
considerando que o óleo criado por ela foi utilizado até a criação de antibióticos
mais eficientes e empregados até hoje.
Alice Ball foi a terceira filha, entre os quatro filhos de James Presley e
Laura Louise Ball. Nascida em 24 de julho de 1892, na cidade de Seattle, Estado
de Washington nos Estados Unidos, numa família que desfrutava de boas
condições socioeconômicas, especialmente para o contexto dos negros da
época. Ball era neta de um fotógrafo, sobretudo um dos importantes líderes
negros, que se tornou famoso por ser o primeiro afro-americano a imprimir
fotografias em placas de metal. James Presley se dividia entre fotografia,
advocacia e a editoria de um jornal local direcionado à comunidade negra. Sua
mãe, Laura Louise Ball, e uma tia, também eram fotógrafas. Essa atmosfera
provavelmente levou Alice a auxiliar nos preparos fotográficos e ao interesse em
aspectos químicos. Durante a infância de Alice, entre 1902 e 1904, a família se
mudou para Honolulu, no Havaí. Seu avô desenvolveu reumatismo e por essa
razão acreditava-se que o clima quente poderia ajudar em uma melhor qualidade
de vida. Após a morte do avô, em 1904, a família Ball retornou para Seattle.
(BIOGRAPHY, 2018)
Em 1906, Alice ingressou no Seattle High School (Escola de Ensino Médio
de Seattle), finalizado em 1910 com altas notas, especialmente em ciências.
Após a conclusão do High School, Alice iniciou os estudos superiores pela
Universidade de Washington. Em 1912 obteve a graduação em química
farmacêutica e dois anos depois recebeu seu segundo diploma, em farmácia,
também pela Universidade de Washington (BIOGRAPHY, 2018)
Em 1914 Alice publicou com seu orientador William Dehn um artigo no
importante periódico da Sociedade Americana de Química (Journal of the
American Chemical Society): “Benzoylations in ether solution” (Reações de
31
benzoilação em soluções de éter). Isso é um fato marcante na vida de Ball,
considerando o contexto altamente segregado para negros e mulheres no início
do século XX, especialmente no campo profissional e acadêmico, o que torna o
feito duplamente marcante. (WERMAGER e HELTZEL, 2007)
Após sua publicação, Alice passou a receber inúmeros convites de
diferentes universidades, entre elas a Universidade da Califórnia e Universidade
do Havaí. Ball decide então retornar sozinha ao Havaí, já que sua família ainda
residia em Seattle, ato de coragem para uma jovem garota negra. Em junho de
1915, torna-se a primeira afro-americana com mestrado em química, tendo
conduzido um estudo sobre a Piper Methysticum, uma planta medicinal utilizada
para tratar ansiedade e insônia. O trabalho intitulado Constituintes químicos da
Piper Methysticum (originalmente como The Chemical Constituents of Piper
Methysticum) investigava a composição química e o princípio ativo presente na
planta (WERMAGER ; HELTZEL, 2007). Aos 23 anos de idade, Ball conseguiu
outro marco histórico, sendo nomeada a primeira mulher a ser instrutora do
departamento de química na Universidade do Havaí. Foi neste período que ela
desenvolveu os estudos com o óleo de chaulmoogra para o tratamento de
hanseníase. (BIOGRAPHY, 2018)
Entretanto, pouco tempo depois, em pleno desenvolvimento de suas
pesquisas com o óleo de chaulmoogra, Alice Ball ficou doente e retornou para
Seattle com o objetivo de se tratar. Após o período de alguns meses sob
tratamento, em 31 de dezembro de 1916, aos 24 anos, a jovem química morre.
Um jornal na época publicou que a causa de sua morte teria sido intoxicação por
gás cloro, ocorrida durante suas aulas de ensino de laboratório. Ball estava
demonstrando o uso de máscaras de gás, em preparação para um ataque desde
a Primeira Guerra Mundial. Entretanto, não se sabe a verdadeira causa de sua
morte, uma vez que seu atestado de óbito foi adulterado, constando como causa
tuberculose (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Destacar a história de Alice Ball, como mulher negra, em pleno século
XIX, é também possibilitar uma referência a novas meninas que se interessam
por ciência e que, muitas vezes, não encontram representatividade neste meio.
conquistando seu espaço no mundo da ciência. Certamente, não foi uma tarefa
fácil e, com certeza, ainda não é para a maioria de mulheres, negras e
32
socialmente desfavorecidas que desejam se aventurar, mas história de Alice e
de seus estudos demonstra a importância de existir e, sobretudo, resistir.
2.3 A hanseníase e o óleo de chaulmoogra
Descoberto em 1873 pelo médico norueguês Gerhard Armauer Hansen,
o bacilo Mycobacterium leprae é o agente causador da lepra (nome muito
empregado inicialmente) ou hanseníase (nome dado em homenagem ao médico
que descobriu o causador). Hoje em dia sabemos que esta enfermidade é
transmitida por secreções, em geral a saliva que se espalha em gotículas pelo
ar pelo simples ato de falar, respirar, tossir e beijar. Entretanto, antigamente se
acreditava que o simples contato era suficiente para que alguém fosse
contaminado (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
A hanseníase é uma doença antiga, conhecida há pelo menos 4000 anos
e bastante retratada nos tempos bíblicos. Ela se prolifera com mais facilidade em
áreas úmidas e quentes, podendo contaminar desde recém-nascidos a idosos.
Quando desenvolvido, o Mycobacterium leprae pode afetar pele, nervos
periféricos, membranas mucosas do trato respiratório, olhos, rins, testículos,
fígado e baço. A deformação causada na pele por alguém infectado é visível,
podendo ser devastadora e irreversível. Historicamente, tentativas de tratamento
envolveram mercúrio, arsénio, antimónio, cobre, corantes, estricnina, dieta e,
num período mais recente cirurgia e raios-X. O óleo de chaulmoogra também já
era usado desde o século 14 na China e Índia (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Atualmente a doença tem tratamento e cura5.
Nos
Estados
Unidos,
a
doença
começou
a
se
espalhar
desordenadamente no início do século XX. A única solução encontrada para
evitar a proliferação da bactéria era o isolamento total do indivíduo contaminado.
Dessa forma, oficiais chegavam até as casas dos contaminados e os levava para
o leprosário de Kalaupapa, localizado na ilha de Molokai, no Havaí.
(WERMAGER e HELTZEL, 2007).
5
A doença pode ser tratada através do uso da chamada poliquimioterapia, em que se emprega uma mistura
de antibióticos e corticoides. O tratamento dura de 6 a 12 meses e interrompe a evolução da doença, mas
não reverte as possíveis deformações, por isso a importância de ser diagnosticada precocemente.
33
O óleo de Chaulmoogra havia sido introduzido no Havaí em 1879, mas
não teve seu uso difundido devido aos resultados pouco confiáveis, embora
alguns pacientes demonstrassem melhorias notáveis. As primeiras tentativas
faziam uso de aplicação na pele, com pouca efetividade. A ingestão oral do
óleo também foi utilizada. Todavia, este tratamento tinha muitos efeitos
colaterais, causando náuseas, uma vez que os pacientes tinham sérias
rejeições à ingestão devido ao sabor apresentado. Na última década do século
XIX o óleo começou a ser administrado por injeções intramusculares e
subcutâneas. Embora eliminassem as náuseas derivadas do uso oral, a
densidade elevada e sua pouca solubilidade em água, consequentemente baixa
solubilidade no sangue, resultavam em dor aguda, inchaços e febre, gerando
verdadeiro pânico entre os pacientes (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Foi entre 1915 e 1916 que Harry T. Hollmann, médico no Hospital Kalihi,
um dos hospitais que recebia enfermos de hanseníase para tratamento,
buscando alternativas mais efetivas para a doença, convidou Alice Ball para
realizar uma pesquisa sobre o óleo. Hollmann tinha trabalhado na Estação de
Investigação
da
Hanseníase,
aberta
em
Kalaupapa
em
1909
com
financiamento federal. Desde então, aprofundou seu interesse pelo óleo de
chaulmoogra. (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Alice Ball, que finalizara meses antes sua dissertação estudando a
planta Piper Methysticum e trabalhava como instrutora de Química na
Universidade do Hawaí, foi convidada em razão desta experiência e de seu
conhecimento químico, debruçando-se então sobre um trabalho experimental
com o óleo de chaulmoogra (WERMAGER e HELTZEL, 2007). A Chaulmoogra
é uma planta da família das Achariaceae, originária da Ásia, em países como
Malásia, Indonésia e Filipinas (SANTOS, SOUZA E SIANI, 2008)
Achariaceae são plantas com flor e, no caso da chaulmoogra esse
florescimento dá origem ao fruto. A obtenção do óleo é feita por extração das
sementes da planta que apresenta de 40-45% de óleo. (SANTOS, SOUZA E
SIANI, 2008)
A composição química do óleo havia sido investigada em 1904, em um
estudo que isolou uma série de ácidos graxos, incluindo os ácidos hidnocárpico
e chaulmúgrico, considerados os responsáveis pela ação terapêutica nos casos
de lepra. Os ácidos hidnocárpico e chaulmúgrico são compostos químicos de
34
longas cadeias carbônicas. Com isso, apesar de uma das extremidades exibir
características polares devido ao grupo ácido carboxílico, prevalecem as
características físico-químicas não-polares. Entre elas está a insolubilidade em
água do óleo de chaulmoogra, bem como uma textura viscosa devido às forças
de interação entre as cadeias carbônicas. Essas características impossibilitavam
bons resultados e trazia as complicações pelo seu uso direto. Os pacientes que
recebiam o tratamento com o óleo descreveram as injeções como algo que
queimava ao entrar em contato com a pele (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
O
HO
Figura 1. Representação estrutural do ácido chaumúgrico(C18H32O2).
O
HO
Figura 2. Representação estrutural do ácido hidnocárpico (C16H28O2).
Ao se formular uma droga, seja ela qual for, a solubilidade em água é uma
propriedade altamente desejável, na medida em que o percurso no organismo
(que é formado em sua maioria por água) é favorecido. Por esses motivos,
muitos dos medicamentos são produzidos em forma de sal. Pode-se preparar o
sal de um ácido carboxílico tratando-o com uma base de hidróxido de sódio
(WERMAGER e HELTZEL, 2007), conforme representação a seguir:
O
O
NaOH(aq)
+
HO
R
1
Na O
R
1
+ H2O
Figura 3. Equação para a reação de formação do sal de sódio de um
ácido.
35
O
Na O
CH3
Figura 4. Representação estrutural de molécula componente do sabão.
Assim, os sais de sódio dos ácidos chaulmoágricos e hidnocárpicos
seriam solúveis em água e poderiam ser administrados com maior eficácia. Este
foi o caminho adotado em 1916 por Sudhamony Ghosh, um médico que
trabalhava na Índia. A partir dos ácidos graxos isolados, ele os converteu nos
seus respectivos sais sódicos, que foram então testados pelo médico Leonard
Rogers no tratamento da hanseníase. Os resultados de Rogers indicaram que
40% de 51 pacientes tiveram suas lesões completamente eliminadas
(WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Todavia, um sério inconveniente derivava da possibilidade destes sais
agirem como sabão no organismo. Sabões e detergentes são compostos que
apresentam longas cadeias orgânicas cujas extremidades são polares,
permitindo-as interagir tanto com substâncias polares com a água ou apolares
como as gorduras. Assim, o efeito colateral para essa forma derivada do óleo
quando injetado no organismo seria uma possível hemólise (alteração,
dissolução ou destruição dos glóbulos vermelhos do sangue, tanto fisiológica
quanto patológica, com liberação de hemoglobina). Ainda assim, o uso se
mostrou mais eficiente e menos danoso do que sua forma natural. Foi justamente
para tentar resolver este problema científico que Hollmann convidou Alice. Nas
palavras dele: “Após um volumoso trabalho experimental, a senhorita Ball
resolveu este problema para mim produzindo ésteres etílicos dos ácidos graxos
encontrados no chaulmoogra” (BIOGRAPHY, 2018).
Observando a estrutura molecular do óleo de chaulmoogra, Alice
percebeu que eram cadeias de éster metílico de ácido graxo. O óleo não tratado
consiste em uma variedade de diferentes ácidos carboxílicos com elevadas
massas moleculares. Sendo assim, um éster poderia ser preparado a partir de
um ácido carboxílico, reagindo-o com um álcool, geralmente na presença de
outro ácido que funciona como catalisador. Um álcool tem como grupo funcional
˗OH, e um ácido carboxílico apresentam o grupo carboxila, representado pela
36
fórmula geral -˗OOH, ou ˗COOH. O éster etílico de um ácido é formado usando
etanol como o álcool.
O
R
O
OH + HO
R
1
R
Ácido
Carboxílico
Álcool
R
1
+
H 2O
Éster
Figura 5. Formação do éster de um álcool e um ácido carboxílico. R e
R ’representam dois grupos diferentes de hidrocarbonetos.
O
CH3- CH2-OH
+
HO
O
H2O
+ H3C
O
Figura 6. Formação do éster etílico do ácido chaulmúgrico.
O éster etílico criado por Ball a partir do composto do óleo foi capaz de
reduzir a viscosidade dos derivados do chaulmoogra. A técnica criada para tornar
o óleo de chaulmoogra injetável e absorvível pelo organismo, envolvendo
isolamento de compostos éster etílicos dos ácidos graxos do óleo, ficou
conhecida como “Método Ball”. Ao lançar o extrato solúvel, os médicos
começaram a relatar sucesso no tratamento, concedendo inclusive a liberação
dos pacientes para casa. As pessoas que contraíam lepra não precisavam mais
37
de isolamento, evitando-se mortes prematuras. O método permaneceu sendo
utilizado até 1940, com a chegada de novas formas mais eficazes que incluem
antibióticos (WERMAGER e HELTZEL, 2007).
Em função da morte precoce, Alice não chegou a publicar seus estudos
com o óleo de chaulmoogra. O presidente da Universidade do Havaí, Arthur L.
Dean, continuou este trabalho e começou a produzir grandes quantidades do
extrato do óleo para os pacientes. Ele chegou a publicar o trabalho chamando a
técnica de “Método Dean”. O nome da jovem química, teria caído em
esquecimento se Harry Hollmann não tivesse publicado em 1922 o artigo “Os
ácidos graxos do óleo de chaulmoogra e o tratamento da hanseníase e outras
doenças” (originalmente The fatty acids of chaulmoogra oil in the treatment of
leprosy and other diseases) na revista Arquives of Dermatology (Arquivos de
Dermatologia).
No artigo, Hollmann descreve com detalhes o trabalho experimental de
Ball, evidenciando sua participação e denominando o processo de “Método
Ball”, alegando que os procedimentos de Dean eram idênticos aos de Alice, e
que a única alteração promovida não teria qualquer efeito nos produtos
químicos finais.
Obviamente que o trabalho de Ball foi precedido de outros, que
identificaram as características bactericidas do óleo de chaulmoogra e
trabalharam no isolamento dos seus princípios ativos. A busca por compostos
solúveis, como os sais também auxiliaram a compreensão de que era precisa
modificar quimicamente os bioativos iniciais. Isso demonstra o processo coletivo
e social da construção do conhecimento científico. Ao mesmo tempo, este
conhecimento não é livre da neutralidade. Crenças e interesses intrínsecos ao
ser humano interferem, como a apropriação indevida dos procedimentos
experimentais de Ball por Dean.
Também não se conhece as reais condições em que Alice desenvolvia
suas pesquisas. É provável que ela tenha realizado os experimentos no período
noturno, já que trabalhava como instrutora durante o dia. Seria pouco provável
que uma jovem mulher negra cientista tivesse qualquer tratamento diferencia ou
compreensão num universo no qual existiam apenas homens.
Por fim, esse caso histórico também mostra como uma ideia científica que
é aceita em um determinado período histórico pode ser modificada e cair no
38
esquecimento. O tratamento com hanseníase usando derivados de chaulmoogra
foi muito empregado no início do século passado e permitiu, pela primeira vez,
que os enfermos fossem liberados para o contato social. Todavia, este tipo de
tratamento foi abandonado e não é mais difundido nos tempos atuais,
evidenciando a ciência como algo mutável. O desenvolvimento de antibióticos
trouxe novos produtos, mais sólidos no tratamento. Ainda assim, essa
mutabilidade mostra que o uso de antibióticos precisa ser cuidadoso. Seu
emprego em demasia e sem os devidos procedimentos está criando as
chamadas “super” bactérias, altamente resistentes devido a um processo de
seleção natural.
Em 2000, 90 anos depois, a Universidade do Havaí homenageou Ball
dedicando uma placa a ela na única árvore chaulmoogra presente na instituição
e reconhecendo sua pesquisa. O governador do Havaí, Mazie Hirono, declarou
em 29 de fevereiro do mesmo ano o “Alice Ball Day”, essa data é comemorada
a cada quatro anos no estado. Em 2007 Ball recebeu um Medalha de Distinção,
da Universidade do Havaí. Em 2016, a Hawaii Magazine publicou uma lista, onde
Alice Ball foi considerada uma das mulheres mais influentes da história havaiana
(EL PAÍS, 2018)
A produção do conhecimento científico envolve muitas engrenagens que
trabalham coletivamente. Algumas poucas personagens ficam marcadas para
toda a história, como se tudo fizeram sozinhas; enquanto a maioria são pouco
ou nada reconhecidas. Todavia, mesmo essas figuras menos conhecidas
tiveram e têm um papel relevante para que o conhecimento possa ser construído
e partilhado. Deste ponto de vista, a ciência não é construída por poucos
indivíduos heroicos, mas é uma construção social cujo trabalho desenvolvido
pelos protagonistas foi possível somente por causa de outros cientistas que, por
muitas razões, permanecem quase desconhecidos.
É importante destacar também, que muitas vezes, quando nos referimos
a determinados cientistas, costumamos citar apenas data de nascimento, morte,
e o que foi publicado, mas raramente é divulgado os detalhes daquela pesquisa,
ou seja, os procedimentos escolhidos pelo cientista, a análise dos dados, a
experimentação, entre outros detalhes (OLIVEIRA, 2019).
Ao utilizarmos uma biografia científica em um processo de ensinoaprendizagem, não se deve ter apenas o intuito de mostrar que aquele cientista
39
fez algo para sociedade, mas de explorar sua pesquisa como um todo, a fim de
não apenas descarregar informações, mas de criar caminhos onde os leitores
possam explorar e produzir algum tipo de conhecimento. Assim, abordar
conteúdos que podem ser ensinados e exemplificados e mostrar todos os fatores
científicos, externos e sociais que envolvem uma pesquisa em si, é de extrema
relevância na leitura de uma biografia científica para que os próprios leitores
compreendam o contexto em que aquele cientista estava inserido.
40
CAPÍTULO III
A PERCEPÇÃO DE LICENCIANDOS SOBRE POSSIBILIDADES DA
BIOGRAFIA CIENTÍFICA
Nesta seção serão apresentados os dados de uma pesquisa qualitativa.
Assim, após a disponibilizar a biografia produzida aos sujeitos da pesquisa, foi
avaliada as potencialidades da biografia científica na construção de saberes
sobre a natureza da ciência e sua possível inserção em sala de aula.
3.1 Metodologia
Esta é uma pesquisa qualitativa, cuja ênfase está mais no processo do
que no produto, se preocupando em retratar a perspectiva dos participantes.
Na pesquisa qualitativa todas as pessoas que participam da
pesquisa são reconhecidas como sujeitos que elaboram
conhecimentos e produzem práticas adequadas para intervir nos
problemas que identificam. Pressupõem-se, pois, que elas têm
um conhecimento prático, de senso comum e representações
relativamente elaboradas que formam uma concepção de vida e
orientam as suas ações individuais (CHIZZOTTI, 2001, p. 38).
Nesse sentido, como abordagem metodológica trata-se de uma
investigação exploratória. Estudos exploratórios baseiam-se na aproximação
inicial a um fenômeno de interesse novo ou relativamente pouco explorado.
Conforme já apresentado, os caminhos metodológicos seguidos se iniciaram
com a realização de uma pesquisa historiográfica para a construção do texto
biográfico. A partir desta, foi produzido o produto educacional e conduzida
investigação com licenciandos em química.
Os participantes foram 55 licenciandos em química de diferentes
universidades públicas, a citar: Universidade Federal de Alagoas (22),
Universidade Federal de Sergipe (22), Universidade Federal da Integração
Latino-Americana (dez) e Universidade Federal de Goiás (um). A escolha dos
participantes procurou contemplar variedade geográfica, além de um número
relativamente significativo de modo a aumentar a confiabilidade dos resultados.
A opção por docentes em formação está relacionada à necessidade de ampliar
a discussão e o incentivo de mulheres pelo caminho da ciência. Ao vivenciarem
diferentes perspectivas, esses sujeitos poderão compartilhar de suas
experiências e pontos de vista. Um critério adicional era de que os participantes
41
não tivessem cursado disciplinas que contemplassem história, filosofia e
natureza da ciência.
Para a obtenção dos dados da pesquisa foi elaborado um questionário
(Apêndice 1). O questionário foi organizado de modo a contemplar três diferentes
dimensões: I) a participação das mulheres na ciência; II) a história da ciência
como possibilidade pedagógica na educação científica e; III) aspectos da
epistemologia da ciência. Anteriormente à coleta de dados, o questionário
passou por um processo de validação externa para aumentar sua confiabilidade.
A biografia produzida e o instrumento foram lidos e avaliados por dois
pesquisadores da área de Educação Química com experiência em história e
filosofia da ciência. Para isso, foi elaborado um instrumento de validação
(Apêndice 1). Após essa análise externa, ajustes foram realizados no
questionário conforme recomendações.
Em função da pandemia de COVID-19, o estudo foi realizado de modo
remoto. Inicialmente foram contactados docentes de disciplinas sobre ensino de
química das diferentes universidades para apresentação da pesquisa e seus
objetivos, bem como do perfil para público participante. Os docentes
intermediaram os contatos com estudantes para a disponibilização da biografia.
A leitura foi realizada autonomamente, com a única orientação de acessarem o
formulário eletrônico de questões somente após findada a leitura. O prazo
estipulado foi de 30 dias após o envio da biografia. O formulário online continha
o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) e demais informações
éticas, como o número do parecer de aprovação.
Para a análise dos dados, as questões em escala de intensidade foram
contadas e apresentadas descritivamente. Já suas justificativas e as questões
foram lidas integralmente para tabulação e codificação. Em seguida, as partes
identificadas como significados foram selecionados, codificados e agrupados por
similaridade.
3.2 Caracterização dos sujeitos
Para melhor compreender quem são os sujeitos participantes dessa
pesquisa, optamos por caracterizá-los, considerando gênero, idade, instituição
onde cursaram ensino médio, instituição de ensino superior que estão cursando
atualmente e período que estão cursando.
42
É importante destacar que essa pesquisa possui um total de 55
participantes. Entre estes, 69% se declaram com o gênero feminino, 29% do
gênero masculino e 2% do gênero ensino6
Em relação a idade dos sujeitos, temos os licenciando participantes dessa
pesquisa tem uma média de 21 anos de idade.
Sobre a origem das redes onde os licenciandos cursaram seus
respectivos ensinos médio, a maioria (38) é oriunda da rede pública estadual de
ensino, 11 da rede federal e apenas 6 estudantes da rede privada de ensino.
Destacamos também que os participantes estão cursando entre o primeiro e
sétimo período letivo.
É importante ressaltar, que todos os licenciandos que responderam ao
questionário são alunos do curso de Licenciatura em Química. Assim, quando
nos referimos a formação inicial de qualquer professor, devemos ter o máximo
de cuidado possível, considerando na responsabilidade que esses indivíduos
terão em formar novos formadores de opinião. Por isso, não esperamos que
esses graduandos sejam apenas conhecedores de química, mas que
compreendam a importância de discutir determinadas questões com seus alunos
em sala de aula, sejam elas políticas, sócias, étnicas ou de gênero.
Após compreendermos quem são os sujeitos participantes dessa
pesquisa e o lugar de fala de cada um, iremos analisar as respostas dos
licenciandos dividindo-as em três blocos: Visão sobre mulher na ciência;
Interesse pela história da ciência e uso da biografia em sala de aula; Influências
da
biografia
sobre
a
compreensão
epistemológica
da
produção
do
conhecimento.
3.3 Visão dos licenciandos sobre mulher na ciência
Para melhor compreender como os participantes da pesquisa enxergam
o tema “Mulheres na Ciência”, foram analisadas as seguintes questões: Em
algum momento do seu processo escolar, seja na educação básica ou
universitária, você teve a oportunidade de discutir questões ligadas às mulheres
6
É importante destacar que esta era uma questão aberta, então quando perguntamos sobre o
gênero, alguns alunos podem ter interpretado de uma maneira equivocada e responderam
‘ensino’.
43
na ciência? Se sim, descreva brevemente, cite o nome de até duas cientistas
mulheres e suas contribuições científicas, cite o nome de até dois cientistas
homens e suas contribuições científicas. Além das questões de gênero, optamos
por selecionar algumas questões relacionadas à etnia, considerando que a
biografada nessa pesquisa é uma mulher negra. Sendo assim, também
consideramos: dentre os cientistas e as cientistas que você citou, algum/a deles
é negro/a? e por fim, discuta a razão de não haver a mesma facilidade em
lembrar de cientistas mulheres em comparação a cientistas homens. E em
relação à questão racial?
Ressaltamos que nenhum sujeito participante dessa pesquisa será
identificado, por esse motivo, os licenciandos serão classificados como “aluno
1”, “aluno 2”, e assim seguirá até o número 55, que é o número total de
participantes dessa pesquisa.
Dito isto, é importante abordar o tema mulher na ciência, ainda na
educação básica, para que outras jovens mulheres se sintam encorajadas a
ingressar no mundo da pesquisa e que os homens compreendam a importância
do tema. Como já dito ao longo do texto, compreendemos que o senso comum
considera que ciência é predominantemente masculina, mas seria isso verdade?
Ou há apenas uma escassez de conteúdos abordando o tema?
Existe uma contextualização histórica, onde há predominância do homem
em toda a trajetória e avanços da ciência. Por isso, é importante também que
essa reflexão ocorra no ensino de ciências, ainda mais em um contexto em que
o papel da mulher na ciência torna-se cada vez mais evidente.
Assim, perguntamos aos participantes da pesquisa se em algum momento
do processo escolar deles, seja na educação básica ou universitária, eles
discutiram sobre questões ligadas às mulheres na ciência. Além disso, pedimos
para que descrevessem sobre as mulheres que foram estudadas, em caso
afirmativo.
Apenas quatro alunos tiveram contato com o tema quando ainda estava
no ensino médio. Ainda assim, esses participantes7, não citaram o nome de
nenhuma cientista.
44
Tabela 18: Conhecimento sobre mulher na ciência durante a formação.
Exemplo de resposta
Educação Básica – 04 Tanto no ensino médio quanto na universidade já
participantes
houveram debates acerca do tópico em questão.
(Aluno 26)
Ensino superior – 28 Até o momento, somente na UFS. Através das
participantes
disciplinas optativas Tópicos Especiais para o Ensino de
Química I (Redação Científica), Tópicos E.E.Q II
(Direitos Humanos, Inclusão e Diversidade), hoje estas
disciplinas entram na grade curricular, obrigatório.
Conheci o trabalho e luta das quebradeiras de coco de
babaçu, e aprofundei partilhei (sic) com a turma sobre
as Catadoras de Mangabas de minha cidadã de Barra
dos Coqueiros. Depois na disciplina Redação Científica,
o Professor trouxe para leitura a vida de Carolina Maria
de Jesus em Quarto de Despejo, e de Conceição
Evaristo em Becos da Memória. Considero que os temas
de diversas realidades não forem (sic) debatidas e
conhecidas levam ao esquecimento, parte também da
competência dos Professores e Colegiado. (Aluno 6)
Apenas para realização de Sim, no programa de iniciação a docência PIBID com
trabalhos na Universidade- uma página de divulgação científica no Instagram
23 participantes
@simplesmenteciencia, onde temos postagens
direcionadas a mulheres na ciência. (Aluno 14)
Em relação aos nomes de cientistas citadas, os poucos que já discutiram
o tema em questão, poucos participantes conseguem citar nomes de mulheres
cientistas e comentar seus trabalhos, Marie Curie foi a que mais apareceu, por
ser uma das mais famosas. Ainda foram citadas Alice Ball e Rosalind Franklin,
alguns participantes citaram outras cientistas, entre estas algumas professoras.
Tabela 2: Cientistas mulheres citadas.
Cientista
Número de
vezes
Marie Curie
23
Rosalind
Franklin
8
14
Descrição
Exemplo de resposta
do
trabalho
18
Marie Curie (Radioatividade
12
conhecida como " mãe da Física
Moderna" por suas importantes
contribuições na ciência sobretudo no
campo da radioatividade, descobriu o
polônio e rádio e foi a primeira pessoa
a ganhar o prêmio Nobel em duas
áreas diferentes: Química e Física
Rosalind Franklin- descobriu a dupla
estrutura em hélice do DNA.
Foram respeitadas todas as escritas dos participantes da escrita, portanto, erros de escrita e digitação não
foram corrigidos na colunas “ exemplo de resposta”.
45
Alice Ball
09
06
Jaqueline
de Jesus e
Ester
Sabino
03
03
Alice Ball, estudos para o avanço do
tratamento da hanseníase.
Jaqueline de Jesus e Ester Sabino
sequenciaram o genoma do novo
coronavírus.
Em seguida, pedimos para que citassem o nome de dois cientistas
homens e comentassem sobre seus trabalhos. Os nomes de Albert Einstein e
Isaac Newton foram citados com bastante frequência. Além disso, percebemos
que os alunos conseguem comentar com maior propriedade sobre as
pesquisas desses cientistas.
Tabela 3: Cientistas homens citados.
Cientista
Número de
vezes
Albert
Einstein
20
Descrição
do
trabalho
16
Isaac
Newton
17
14
Lavoisier
06
06
John
Dalton
05
04
Exemplo de resposta
Albert Einstein Com vinte e seis anos
publicou uma de suas maiores
descobertas, a Teoria da Relatividade
Especial. A revolução no mundo da
ciência na época (1925) foi tão
grande que o ano ficou conhecido
como O Ano Miraculoso. Além de
explicar como o espaço e tempo se
relacionam e como são relativos
(contrariando a ideia de Galileu de
que eram absolutos), Einstein ainda
provou a existência do átomo e criou
a lei do efeito fotoelétrico, pelo qual
ganhou o Prêmio Nobel em 1921
Isaac Newton foi matemático, físico,
astrônomo e teólogo, que fez um das
descobertas mais importantes para a
ciência que foi a teoria da gravidade,
imaginou as leis básicas da Mecânica
e aplicou-as aos corpos celestes,
inventou os métodos de cálculo
diferencial e integral, além de
estabelecer os alicerces de suas
grandes descobertas ópticas.
Antoine Lavoisier; contribuiu na lei e
conservação da matéria.
Jhon Dalton- A primeira teoria
Atômica moderna.
Os participantes foram questionados se entre esses nomes que eles
citaram, se algum cientista é negro, e trinta e sete participantes responderam
46
que não. Ou seja, mais da metade dos participantes não citou nenhum cientista
negro. Dentre os que citaram, foram citados nomes como: Jaqueline Goes de
jesus, Jane Wright, Enedina Alvez, Jane cooker, Nise da Silveira e Alice Ball.
Por fim, pedimos para que eles discutissem a razão de não se haver a
mesma facilidade de citar cientistas mulheres, quanto há para citar os homens.
Além disso, perguntamos também sobra a facilidade de citar cientistas negros,
independente do gênero.
A maioria dos alunos atribuiu isso às influências
externas de gênero e raça.
Tabela 4: Dificuldade em citar mulheres cientistas.
Ciência Machista
Ciência Racista
Exemplo de resposta
Grande parte dos cientistas são brancos e homens,
isso sendo consequência do machismo e racismo que
por muito tempo a sociedade vem trazendo como
herança com o passar dos anos, porém esses fatores
vem perdendo força nos anos mais recentes, porém
negros e mulheres vem ganhando mais espaço dentre
os brancos e negros, contudo ainda há um caminho
longo para que seja possível a igualdade entre ambos,
pois para a ciência, a única característica que é
necessária e ser um "ser humano".( aluno 23)
Começando da hierarquia, as Universidades até a
Educação Básica, o negro/a não uma referência
bibliográfica e de vida. Quando não menciona nossos
nomes, e vemos um Sobrenome levando ao não
aprofundamento, isso é uma porta para o esquecimento.
Quando até hoje a presença das mulheres, mulheres
negras é invisível, ou um conhecimento privado, leva ao
esquecimento. Inclusive quem apresentou as mulheres
foi um homem, branco e não as mesmas. (aluno 6)
Podemos observar que mesmo a maioria dos participantes dessa
pesquisa se identificarem como gênero feminino, existe uma falta de referência
de cientistas mulheres. Assim, mesmo a mulher tendo livre acesso a uma
carreira científica, ainda existem muitas barreiras para que, de fato as
mulheres reconheçam aquele espaço como uma apropriação delas, e não
como intrusas em um ambiente dominado pelo patriarcado.
Em meio a todas as dificuldades apresentadas ao cenário
feminino, há de se destacar um panorama em constante
superação, em especial no âmbito da ciência, que ainda
apresenta obstáculos a serem superados. Nesse sentido, é
importante destacar as mulheres que participaram também da
47
história da ciência, procurando dar visibilidade a elas. O papel
da mulher na ciência é mais bem registrado a partir do século
XIX em que elas começam a ganhar reconhecimento nas áreas
científicas e nos movimentos sociais. (CAVALLI, p.12, 2017)
Por isso, ressaltamos a importância de o tema ser cada vez mais
abordado na educação básica, para existam referências femininas e os
trabalhos dessas cientistas passem a ter seu devido reconhecimento. Pereira
e Elias (2021) nos recordam que os discursos oriundos do período de
escravidão afetaram profundamente as mulheres, especialmente, as mulheres
negras, que ainda hoje sofrem com o machismo e o racismo ao mesmo tempo.
Ou seja, além da questão racial, ainda tem a luta contra o machismo, onde a
sociedade ainda se comporta gerando um poder predominantemente masculino,
que acaba gerando uma desigualdade de gêneros, onde as mulheres ainda
precisam provar o valor de seus estudos e de seu trabalho. Isso só se confirma,
com as respostas dos sujeitos desta pesquisa, onde estes tiveram dificuldade
em citar cientistas mulheres e mais ainda em citar cientistas negros,
independente do gênero.
3.4 Interesse pela história da ciência e uso da biografia em sala de aula
Nesta etapa da pesquisa, inicialmente buscamos compreender o nível de
interesse dos participantes em história da ciência, em seguida questionamos
sobre a biografia apresentada a eles, por fim indagamos a respeito da produção
de conhecimento científico.
Dos 55 participantes, em uma escala de 0 a 5, onde zero seria nenhum
interesse e 5 um alto nível de interesse, 28 participantes alegaram ser altamente
interessados por história da ciência. Esse resultado demonstra que a história da
ciência é um tema em potencial a ser explorado na formação de professores.
Além disso, como aponta Nye (2006), a briografia é um dos gêneros textuais de
maior penetração entre a população. Assim, o estudo da história da ciência por
meio de biografias para os licenciandos pode despertar a curiosidade de
descobrir e conhecer seu mundo, esclarecer suas dúvidas, bem como valorizar
o ambiente que o cerca. Dessa forma, o ensino de ciências pode preparar o
aluno para uma postura positiva em relação às mudanças cientificas e de forma
reflexiva com o mundo.
48
Por essa razão, buscamos compreender as justificativas dos licenciados
pelo seu nível de interesse pela história da ciência. Eles alegam a importância
que eles vêem e saber sobre a história da ciência.
“É de extrema importância saber sobre a história da ciência,
como chegamos até aqui e como ela muda constantemente.”
(Aluno 08)
“Acredito que a história da ciência faz com o que o aluno crie
mais interesse sobre o conteúdo científico abordado, por ele
abordar os obstáculos enfrentados pelos cientistas e seus
colaboradores, e mostras que a ciência não é algo simples, e
que as pessoas que a fazem não são seres humanos
intocados e geniais. A história da ciência é um incentivo para
o aluno futuramente se tornar um cientista e pesquisador.”
(Aluno 52)
“Interessante pois através da história da ciência (sic) nós
podemos enxergar a importância de haver registros ao longo
do desenvolvimento social, pois esses registros, na maioria
das vezes são importantíssimos para o desenvolvimento de
sociedades futuras, ou mesmo, para a manutenção da
sociedade atual.” (Aluno 41)
“Acredito que é importante saber como começou a química,
quem descobriu o que estudamos hoje, como era seu local de
trabalho, como desenvolveu sua tese, seus erros e acertos.
Sendo bom para o nosso futuro ter esse paralelo com o
passado.” (Aluno 10)
As respostas dos participantes corroboram com El Hani (2006), quando
estes compreendem que o estudo da história da ciência que não se trata
somente de incluir uma abordagem dos processos de construção do
conhecimento científico no ensino de ciências, mas de considerá-los no contexto
histórico, filosófico e cultural em que a prática científica tem lugar.
Em seguida, questionamos os participantes sobre assuntos relacionados
à biografia de Alice Ball. Inicialmente, pedimos que eles classificassem numa
escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixo nível e 5 para o mais alto), como a
leitura do texto influenciou seu ponto de vista sobre o tema (gênero e raça na
ciência). Assim, 26 participantes disseram que foram altamente influenciados
pelo texto, em seguida 21 alunos classificaram nível 4 de interesse. As
justificativas acenam para a contribuição da diversidade e das influências sóciohistóricas.
49
“Fiquei muito satisfeita e feliz em conhecer mais sobre a
história de Alice Ball, já havia escutado seu nome em uma aula
onde um professor citou o nome de cientistas mulheres, mas
não obtive conhecimento nenhum sobre ela até então. Creio
que sua trajetória como cientista, mulher e negra deve ter sido
difícil, pois se hoje, no século XXI, o racismo e o machismo
são tão presentes, não consigo imaginar o quão perturbador
era no século XX. Acredito que se a história de Alice Ball e
suas contribuições forem trazidas para dentro da sala de aula,
isso trará muito inspiração para todas as mulheres.” (Aluno 52)
O texto de fato foi muito importante para ter em mente a
situação de desigualdade racial e de gênero que mulheres
negras enfrentavam e enfrentam para ter seu lugar de fala para
demonstrar seu conhecimento e seu trabalho. (Aluno 07)
Como o texto foi bem elaborado, me trouxe a ideia de que as
mulheres são capazes de muito, com a descrição de detalhes
da vida corriqueira dela me deu o parecer de algo mais próximo
de se realizar, pois em momento algum colocou ela em um
pedestal e sim como merecedora dessa glória. (Aluno 53)
As falas dos licenciandos confirmam o que Trindade et. al (2016) nos
trazem a respeito do uso das biografias científicas. O biografado não deve ser
exaltado, mas sua história deve ser sempre relatada, considerando o contexto
histórico em que ele estava inserido e relatando em que condições a pesquisa
de fato ocorreu. É importante destacar, que antes de participar desta pesquisa
90% dos participantes relatou que não conheciam Alice Ball.
Assim, foi importante saber deles se esse texto influenciou na curiosidade
em saber mais casos sobre trabalhos de mulheres na ciência. E 42 dos 55
participantes disseram ter total interesse. Em seguida pedimos para que
justificassem o interesse e os alunos declararam o aumento da curiosidade a
respeito do tema.
“Quando eu leio trabalhos de levantamento histórico como
este, minha curiosidade é instigada e assim aumento meu
desejo pela leitura de trabalhos semelhantes.” (Aluno 2)
“Apesar de já ter interesse no assunto, a história de Alice fez
com que aumentasse a curiosidade sobre como é/foi a
participação das mulheres na ciência.” (Aluno 37)
“São histórias que nos(sic) motivam a permanecer na área, até
porque eu sou mulher estudante da química kkk. Então é um
incentivo para continuar” (Aluno 4)
50
Notamos a importância da inserção biografia científica na vida
acadêmica desses licenciandos, além de criar uma identificação com as
alunas, provando a elas que elas são capazes de realizar pesquisas de grande
importância independente das adversidades. Mas também mostram como
esses obstáculos são superados e a importância do estudo dos biografados.
Perguntamos também se os licenciandos acham que a biografia
científica seria adequada para ser aplicada na educação básica, classificando
numa escala de 0 a 5. Assim, 24 participantes classificaram em 5 a pertinência
do uso da biografia em uma sala de aula da educação básica e esses alunos
justificam que seria um tema adequado a abordado uma vez que jovens
meninas iriam se sentir motivadas com as histórias de outras cientistas, bem
como para abordar determinados conteúdos que são abordados ao longo do
ano letivo.
Tabela 5: Aplicação da biografia científica na educação básica.
Identificação de outras mulheres
Abordar conteúdos relacionados a
química
Exemplo de Resposta
“sim. Para incentivar mulheres negras e
de outras raças que elas têm as mesmas
capacidades de ser cientistas, que o
mundo precisa de muitas soluções, que
no Brasil é um País rico em espécies de
minérios, plantas, animais, solos,
temperaturas, e que há um universo de
novas possibilidades se a educação
fosse levada um pouco mais a sério
pelos gestores públicos e privados.”
(Aluno 45)
“Sim! Pode ser assunto de 3º Ano.
Compostos Orgânicos. Podendo propor
uma discussão busca da ancestralidade.
Tema sobre Mulheres e Ervas
Medicinais; fazer que os alunos
pesquisem as mulheres da família a
relação com as plantas e enfermidades”
(Aluno 6)
É perceptível a importância da biografia científica, não só para relatar a
história do biografado, mas também para ensinar determinados conteúdos que
podem ser explorados pelo professor da educação básica. Assim, o professor,
além de incentivar seus alunos com a produção do conhecimento científico, ele
51
pode mostrar a aplicação dos conteúdos programáticos que são ensinados ao
lingo do ano letivo.
3.5 Influências da biografia sobre a compreensão epistemológica da
produção do conhecimento
As últimas questões visaram estabelecer relações entre a leitura da
biografia e a compreensão de aspectos que interferem na produção da ciência.
A biografia destacava aspectos internos e externos relacionados à produção do
conhecimento com o objetivo de provocar reflexões nos leitores. Assim, foi
indagado: Que características da ciência e da produção do conhecimento
científico seriam importantes conhecer? Dentre as respostas prevalecem os
aspectos internos da própria investigação científica, com destaque para o
método, tendo aparecido menções à ciência como perseguição a um problema
e uma produção social (Tabela 6). Características que incluem as influências
externas também foram identificadas, enfatizando suas finalidades para a
sociedade, a divulgação para a população, bem como a complexidade de fatores
que entram em jogo na produção do conhecimento.
Tabela 6: Visão dos licenciandos sobre características da ciência e da produção do
conhecimento.
Categoria
Dimensão interna método
Quantidade
18
Dimensão interna problema
07
Exemplo de resposta
“Estudos, obstáculos, como foi estudado, como
chegou até o resultado”.
“Compreensão de que a ciência atende a um
procedimento metódico cujo objetivo é
conhecer, interpretar e intervir na realidade.”
“Nunca pensei a respeito, acho que é o "erro",
acho que o conhecimento científico é
constituído por tentativa e erro, e por isso
também que a ciência é mutável.”
“As etapas que fizeram com que os resultados
em questão fossem obtidos.”
“O desenvolvimento dos métodos científicos
por representarem a evolução de diferentes
fases da ciência e os percussores de diferentes
processos para resultar no atual.”
“O início de como foi descoberto tal assunto.”
“É importante sempre sabermos a base ou a
origem daquela descoberta ou de algum tipo de
experimento para tentarmos chegar na mesma
linha de raciocínio, para nos aproximar um
pouco mais das ideias e das teorias dos
cientistas.”
52
Dimensão interna
– ciência como
produção social
06
Dimensão externa
– implicações
sociais e fins da
ciência
07
Dimensão externa
– ciência como
anseio público
06
Dimensão externa
- complexidade
03
Outros
08
“Acredito que mostrar a trajetória dos cientistas
e seus colaboradores, e o contexto histórico
que viviam. Acredito que estes fatores
acrescentam muito na aprendizagem.”
“O processo de investigação que foi
influenciado por diferentes questões sociais e
quem foram aqueles que contrubuíram.”
“A pesquisa que chega ajudar no dia a dia,
serviço essencial; Tipo Alice Ball viu a realidade
sobre a enfermidade, pesquisou e produziu
uma solução para saúde.”
“A melhoria de técnicas e procedimentos e
também
o
descobrimento
de
novas
tecnologias.”
“Para que todos possam ter um amplo saber
mesmo que essa população não seja
acadêmica e serve para que a população veja
como tá se desenvolvendo os estudos no
mundo.”
“Acho que ajudar as pessoas a entender a
ciência no contexto geral e dar mais
credibilidade a mesma, para a sua própria
evolução, é preciso ter pessoas acreditando e
confiando.”
“Como os estudos e descobertas da ciência e a
produção
do
conhecimento
impactam
diretamente o social, financeiro e o
desenvolvimento de uma nação.”
“Que a ciência não é feita de verdades e é
mutável, e que a produção do conhecimento
científico é complexa, porém não inacessível.”
“Muitas coisas, eu não saberia especificar
agora.”
“Todas”.
“Acho que a história da ciência é um assunto
importante”.
“A ciência do contemporâneo”
Com base nos resultados, parece prevalecer uma perspectiva internalista,
ou seja, mais relacionada à atividade científica, como seus métodos e
problemas. Ainda se verifica uma forte crença no método científico, isto é, a
valorização dos procedimentos e etapas que conduziram ao conhecimento seria
o ponto mais importante segundo parcela dos estudantes. As respostas podem
ter sido influenciadas por visões pré-formadas a respeito da ciência, bem como
pela própria biografia que destaca, entre outras coisas, o desenvolvimento do
“Método Ball”. Ainda que se tenha outras características da produção do
conhecimento em realce na biografia construída, as visões pré-concebidas se
aliam ao principal produto fruto da investigação de Alice Ball, que se configurou
53
como um procedimento experimental para a obtenção de ésteres do óleo de
chaulmoogra. Juntamente com o método, a ênfase no problema que origina as
investigações também foram destaque.
Ainda que essas características sejam limitantes para a compreensão da
complexidade da atividade científica, elas compõem o que Dagher e Erduran
(2014) denominaram de dimensão cognitiva-epistêmica da ciência. São as
práticas próprias da ciência, dentro de uma comunidade de prática, que
conduzem à certificação social do conhecimento. Dentre essas práticas, os
procedimentos, os dados e sua confiabilidade, a argumentação, as hipóteses e
demais componentes que dão suporte aos resultados são fundamentais, mas
não emergem descoladas das variáveis sociais e dos mecanismos estruturais e
de poder institucionais, políticos e econômicos.
Nessa direção, outras características do conhecimento científico também
foram identificadas. Dentro do que ainda foi denominado de dimensão interna,
percebeu-se a ciência como uma construção social (06 respostas). A importância
da comunicação no processo científico, especialmente com o público amplo,
também foi destacada, assim como uma visão sobre a complexidade. Oito
respostas foram genéricas e não possibilitaram a construção de um significado
mais específico.
Esses resultados permitem inferir que apesar da biografia buscar um viés
mais complexo da ciência, realçando os interferentes das estruturas sociais e
políticas, o texto de necessita de uma mediação pedagógica para problematizar
esses diferentes aspectos. A construção de sentidos é idiossincrática a o texto
não é transparente, sobretudo considerando-se aspectos complexos que vão na
contramão de ideias pré-concebidas e difundidas por veículos midiáticos.
A última questão buscava triangular informações com a anterior,
solicitando que expressassem: Quais tipos de fatores interferem na produção do
conhecimento científico? As respostas foram múltiplas, mas abarcaram 3
grandes categorias: as estruturas hierárquicas institucionalizadas (sociais,
econômicas, políticas, históricas), estrutura interna (da própria produção
científica) e aspectos pessoais (relacionados aos interesses e aptidões
individuais). De tal modo, quando indagados mais diretamente os estudantes
pontuaram a organização social e hierárquica como um dos fatores que
influenciam a atividade científica.
54
Tabela 7: Fatores que interferem na produção do conhecimento segundo os participantes.
Categoria
Estruturas
institucionais
(sociais, culturais,
políticas)
Quantidade
31
Aspectos
individuais e
pessoais
07
Estrutura interna
04
Outros
13
Exemplo de resposta
“Muitos negros são impedidos de continua seus
sonhos só por serem negros mulheres só por
serem mulheres. O preconceito da sociedade
impede o conhecimento de avançar para novas
descobertas”.
“Fatores sociais ainda influenciam muito na
produção
de
conhecimento
social.
Primeiramente, porque muitas pessoas acham
que fazer ciência não é um trabalho, outra, que
a desigualdade social impede que muitas
pessoas se interessem por ciência consigam
alcançar e desenvolver essa aptidão.”
“fator social e econômico, porque como uma
pessoa vai produzir algo num ambiente em que
ela não é bem vinda, por ser mulher, ou por ser
negre, ou por qualquer outro motivo que não
justifique, e como se esperam que um aluno
produza algo enquanto ganha uma quantia
ínfima da faculdade (isso quando ganha) e tem
que dedicar 40h da sua semana, talvez até
mais, por algo que ele não saber até quando vai
durar.”
“Principalmente, a política. Sem políticas
públicas que permitam uma produção científica
nas universidades com equipamentos, salários
dignos para cientistas e até mesmo o
reconhecimento de "cientista" como uma
profissão.”
“A falta de leitura, e nosso apego ao
conhecimento cotidiano, pois esse apego nos
faz aceitar, qualquer resposta como "certa",
sem que haja se quer um questionamento de
nossa parte.”
“Assim os fatores que influenciam a termos
esse nível de conhecimento seria o nosso
interesse em pesquisar sobre determinados
assuntos de fontes confiáveis, assim formando
a nossa opinião sobre o assunto e podendo
elaborar ou teorizar para gerar um debate em
que possa ser produtivo, assim podemos
passar a outras pessoas aquilo que
conhecemos.”
“Pesquisas, artigos, publicações.”
“Para a produção do conhecimento científico é
necessário ter o conhecimento onde o
aparelhamento do sistema de pós-graduação,
muitas vezes demorado.”
“Trazer o acesso a todos que nem todos podem
ter o acesso a tal assunto.”
“Não sei”.
“Alienação.
55
“Vários fatores”.
“Na convivência do dia-a-dia.”
A maior parte das respostas teve por base as estruturas institucionais que
compreendem diferentes fases da produção da ciência, desde seu financiamento
à exclusão de grupos minoritários por meio de desigualdades históricas. Muitas
respostas sinalizam para uma atuação conjunta desses fatores, desvelando um
ponto de vista da complexidade inerente à ciência como uma atividade social
circunscrita num contexto histórico-social particular. A falta de investimentos, por
questões políticas, econômicas, de valorização social ou até negacionismo
surgiram, muito provavelmente em função do contexto atualmente vivenciado.
Parcela
das
respostas,
todavia,
ainda
atribui
uma
dimensão
essencialmente individual e pessoal, assim como a estrutura interna (pósgraduação, sistema de publicações) da produção científica. Essas categorias
denotam uma visão de ciência descontextualizada da sociedade, que precisa ser
problematizada em diferentes vertentes. A categoria “outros” foi significativa, ou
por apresentar respostas genéricas (diversos, alienação) ou por não permitir
uma construção de significado que representasse um ponto de vista.
Os resultados possibilitam aventar uma interrelação entre pontos de vistas
pessoais com influências da biografia, especialmente nas respostas que
mencionam as questões de gênero e raça com prevalecentes na atividade
científica. Ainda assim, infere-se que desde esse ponto de vista epistemológico,
a biografia interferiu em menor grau na problematização/reconhecimento de
características da produção da ciência.
56
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As questões relacionadas às mulheres na ciência, ainda nos tempos de
hoje, é um assunto controverso. Entretanto, é necessário inseri-las para que
outras mulheres compreendam os processos históricos em que se produziram
as desigualdades, bem como as possibilidades de superação. As biografias
científicas podem ser uma possibilidade de ferramenta metodológica no ensino
de história da ciência, não para exaltar a vida de qualquer cientista, mas para
mostrar as questões sociais, econômicas e todas as adversidades que um
cientista biografado enfrentou durante a realização de seu estudo.
Assim, essa pesquisa teve como objetivo avaliar se os licenciandos da
consideram que o uso da biografia científica é capaz de aproximar os alunos da
realidade dos cientistas, auxiliando no processo de inserção na história da
ciência. Para isto, foi escrita e apresentada a biografia da cientista Alice Ball para
que os licenciandos compreendessem sua trajetória e identificassem e
compreendessem sua participação na ciência no início do século XX.
A apresentação da biografia de Alice Ball com estudantes de cursos de
licenciatura em química de diferentes universidades, mostrou que a utilização da
biografia científica, gera uma identificação nos alunos com a história do
biografado. Além disso, pode abordar conteúdos programáticos que podem ser
explorados pelo professor que está aplicando a biografia.
Observamos também que existe uma grande dificuldade nos próprios
licenciandos, mesmo a maioria dos participantes da pesquisa se identificando
como gênero feminino, em citar cientistas mulheres que não sejam Marie Curie.
Além da questão de gênero, temos a questão de raça, onde foi notado
que ainda existe a necessidade da desconstrução de que a ciência segue os
padrões do homem branco e europeu.
A aplicação da biografia científica, nos trouxe que os participantes
acreditam nos métodos científicos, valorizando os procedimentos e etapas que
conduziram ao conhecimento. Mesmo com outras características da produção
do conhecimento em realce na biografia construída, as visões pré-concebidas se
aliam ao principal produto fruto da investigação de Alice Ball, que se configurou
como um procedimento experimental para a obtenção de ésteres do óleo de
chaulmoogra.
57
Compreendemos que uma biografia científica não deve ser utilizada de
modo desconexo em sala, somente para leitura e curiosidade do leitor. Portanto,
a utilização deste material em turmas da educação básica se torna
recomendável, uma vez que irá instigar e ensinar aos alunos como funciona o
universo da ciência, gerando assim, uma possível identificação e inserindo os
estudantes no universo da ciência.
O uso do material paradidático em sala de aula não irá resolver todas as
questões que ocasionam na deficiência de produção de conhecimento científico,
inserção na história da ciência e principalmente as discussões de gênero e raça
entre os cientistas que se fazem necessárias e vem sendo adiadas por décadas.
Entretanto, a biografia científica cria a possibilidade de ser não somente um
simples texto com curiosidades sobre o cientista, mas gerando identificação dos
alunos através das discussões sobre a vida do biografado e mostrando como a
ciência é feita.
58
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62
APÊNDICE I - QUESTIONÁRIO
Questionário a ser respondido pelos/as participantes (docentes da Educação
Básica)
1. Gênero: ___________.
2. Ano em que se graduou: _________.
3. Qual o seu nível de formação atual. Graduação incompleta Graduação
completa.
Especialização completa.
Especialização completa.
Mestrado em andamento.
Mestrado completo.
Doutorado em andamento.
Doutorado completo.
4. Atua há quanto tempo na educação básica? ________.
5. Em algum momento do seu processo formativo você teve a oportunidade
de discutir questões ligadas às mulheres na ciência? Se sim, descreva
brevemente.
6. Em algum momento da sua atuação docente, você sentiu necessidade ou
abordou o tema
“mulheres na ciência”? Se sim, como? Se não, já pensou sobre o
assunto?
7. Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 o nível mais baixo e 5 o mais alto), qual o
seu nível de interesse por história da ciência? Justifique.
8. Cite o nome de até três cientistas mulheres e suas contribuições
científicas.
9. Cite o nome de até três cientistas homens e suas contribuições científicas.
63
10. É mais difícil lembrar de cientistas homens ou mulheres? Por quê?
11. Qual seu ponto de vista sobre trazer para as aulas de química a história
de mulheres e
sua atuação dentro da ciência?
12. A leitura do texto influenciou seu ponto de vista sobre o tema?
( ) Sim ( ) Não. Justifique.
13. Antes de ler o material, você já tinha ouvido falar sobre Alice Ball? ( ) sim
( ) não
14. Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixo nível e 5 para o mais
alto), o texto lido foi interessante para você?
15. Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixo e 5 para o mais alto),
qual o seu nível de compreensão do texto?
16. Numa escala de 1 a 5, este texto seria adequado para a educação básica?
17. Você utilizaria esse material em suas aulas?
( ) sim ( ) não. Como? Para quais finalidades?
18. Que características da ciência e da produção do conhecimento científico
você acredita ser importante conhecer?
19. Quais tipos de fatores interferem na produção do conhecimento científico?
Justifique.
20. Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixa nível e 5 para o mais
alto), você acredita ser importante discutir a produção do conhecimento
científico com os estudantes?
Justifique.
64
Validação do questionário
1) As questões estão divididas em 3 blocos:
- Caracterização dos participantes
- Compreensão/dificuldade do leitor e avaliação do texto
- Uso do texto
a) Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixo e 5 para o mais alto),
tais aspectos estão contemplados no questionário?
b) Você propõe alguma alteração nas questões de modo a deixá-las menos
ambíguas e mais compatíveis aos 3 blocos?
2) As questões foram elaboradas para favorecer reflexões: I) sobre a
participação das mulheres na ciência; II) sobre a história como possibilidade
pedagógica para fomentar essa discussão; III) bem como sobre questões da
epistemologia da ciência.
a) Numa escala de 1 a 5 (sendo 1 para o mais baixo e 5 para o mais alto),
tais aspectos estão contemplados no questionário?
b) Você propõe alguma alteração nas questões de modo a deixá-las menos
ambíguas e contemplar os objetivos propostos para o questionário?
3) Caso tenha, apresente qualquer sugestão para a melhoria do questionário.
65
APÊNDICE II- PRODUTO EDUCACIONAL
ALICE BALL: Mulher, negra e química no início do século XX
Stephanie Silva Weigel Gomes
Wilmo Ernesto Francisco Junior
Você consegue imaginar estar doente, precisar ser isolado sabendo que
não irá voltar para sua casa, a ponto de não poder se despedir de sua família,
dar um abraço e pior, a área que você se encontrava estar totalmente inabitável?
Isso era o que acontecia com as pessoas que possuíam hanseníase, ou como
conhecida na época, a temida lepra. O isolamento era total e todos os locais que
você passou e tudo o que tocou ou usou entraria em desuso.
No início do século XX a doença começou a se espalhar de um modo
desenfreado, e, como não havia cura, a única solução era o isolamento para
evitar que mais pessoas fossem infectadas. Dessa forma, a busca por um
tratamento que fosse capaz de parar a doença e que evitasse a contaminação
de outras pessoas foi o objetivo de alguns cientistas. A partir deste interesse, em
1915, a cientista Alice Ball conseguiu desenvolver ésteres derivados dos ácidos
chaumúgrico e hidnocárpico que seriam solúveis em água e, portanto, poderiam
ser injetados no organismo. Estes ésteres se mostraram relativamente eficazes
no tratamento da hanseníase e foram uma das melhores opções para a doença
até aproximadamente 1940, quando antibióticos e corticoides passaram a ser
utilizados garantindo maior efetividade no tratamento.
Quem foi Alice Ball?
Figura 1: Alice Ball.
66
Fonte: Biblioteca da Universidade do Havaí.9
Filha de James Presley e Laura Louise Ball, a terceira filha entre os quatro
filhos do casal, Alice Augusta Ball nasceu em 24 de julho de 1892, na cidade de
Seattle, Estado de Washington nos Estados Unidos numa família que desfrutava
de boas condições socioeconômicas, especialmente para o contexto dos negros
da época. Seu avô era fotógrafo, sobretudo de importantes líderes negros, e se
tornou famoso por ser o primeiro afro-americano a imprimir fotografias em placas
de metal. Seu pai se dividia entre fotografia, advocacia e a editoria de um jornal
local direcionado à comunidade negra. Sua mãe, Laura Louise Ball, e uma tia,
também eram fotógrafas. Essa atmosfera provavelmente levou Alice a auxiliar
nos preparos fotográficos e ao interesse em aspectos químicos. Durante a
infância de Alice, entre 1902 e 1904, a família se mudou para Honolulu, no Havaí.
Seu avô desenvolveu reumatismo e por essa razão acreditava-se que o clima
quente poderia ajudar em uma melhor qualidade de vida. Após a morte do avô,
em 1904, a família Ball retornou para Seattle.
Em 1906, Alice ingressou no Seattle High School (Escola de Ensino Médio
de Seattle), finalizado em 1910 com altas notas, especialmente em ciências.
Após a conclusão do High School, Alice iniciou os estudos superiores pela
Universidade de Washington. Em 1912 obteve a graduação em química
farmacêutica e dois anos depois recebeu seu segundo diploma, em farmácia,
também pela Universidade de Washington. Em 1914 Alice publicou com seu
orientador William Dehn um artigo no importante periódico da Sociedade
Americana de Química (Journal of the American Chemical Society):
“Benzoylations in ether solution” (Reações de benzoilação em soluções de éter).
Isso é um fato marcante, considerando o contexto altamente segregado para
negros e mulheres no início do século XX, especialmente no campo profissional
e acadêmico, o que torna o feito duplamente digno de nota. Neste artigo são
descritas reações de sínteses de compostos químicos em que o grupo químico
denominado benzoíla (C6H5CO-) é introduzido a outra molécula em meio de éter
etílico. Benzoílas são radicais orgânicos (Figura 2) derivados do ácido benzóico.
9
Disponível em: < https://manoa.hawaii.edu/library/about/organization/artwork/alice-augustaball-1892-1916/> acesso em junho 2020.
67
Derivados de benzoílas possuem várias aplicações clínicas dermatológicas,
entre elas para acne.
Figura 2. Representação estrutural do grupo benzoíla.
Tais feitos fizeram com que diferentes universidades oferecessem bolsas
para Alice prosseguir os estudos, entre elas a Universidade da Califórnia e
Universidade do Havaí. Ball decide então retornar sozinha ao Havaí, já que sua
família ainda residia em Seattle, ato de coragem para uma jovem garota negra.
Em junho de 1915, torna-se a primeira afro-americana com mestrado em
química, tendo conduzido um estudo sobre a Piper Methysticum, uma planta
medicinal utilizada para tratar ansiedade e insônia. O trabalho intitulado
Constituintes químicos da Piper Methysticum (originalmente como The Chemical
Constituents of Piper Methysticum) investigava a composição química e o
princípio ativo presente na planta. Aos 23 anos de idade, Ball conseguiu outro
marco histórico, sendo nomeada a primeira mulher a ser instrutora do
departamento de química na Universidade do Havaí. Foi neste período que ela
desenvolveu os estudos com o óleo de chaulmoogra para o tratamento de
hanseníase.
Entretanto, pouco tempo depois, em pleno desenvolvimento de suas
pesquisas com o óleo de chaulmoogra, Alice Ball ficou doente e retornou para
Seattle com o objetivo de se tratar. Após o período de alguns meses sob
tratamento, em 31 de dezembro de 1916, aos 24 anos, a jovem química morre.
Um jornal na época publicou que a causa de sua morte teria sido intoxicação por
gás cloro, ocorrida durante suas aulas de ensino de laboratório. Ball estava
demonstrando o uso de máscaras de gás, em preparação para um ataque desde
a Primeira Guerra Mundial. Entretanto, não se sabe a verdadeira causa de sua
68
morte, uma vez que seu atestado de óbito foi adulterado, constando como causa
tuberculose.
A hanseníase e o óleo de chaulmoogra
Descoberto em 1873 pelo médico norueguês Gerhard Armauer Hansen,
o bacilo Mycobacterium leprae é o agente causador da lepra (nome muito
empregado inicialmente) ou hanseníase (nome dado em homenagem ao médico
que descobriu o causador). Hoje em dia sabemos que esta enfermidade é
transmitida por secreções, em geral a saliva que se espalha em gotículas pelo
ar pelo simples ato de falar, respirar, tossir e beijar. Entretanto, antigamente se
acreditava que o simples contato era suficiente para que alguém fosse
contaminado.
A hanseníase é uma doença antiga, conhecida há pelo menos 4000 anos
e bastante retratada nos tempos bíblicos. Ela se prolifera com mais facilidade em
áreas úmidas e quentes, podendo contaminar desde recém-nascidos a idosos.
Quando desenvolvido, o Mycobacterium leprae pode afetar pele, nervos
periféricos, membranas mucosas do trato respiratório, olhos, rins, testículos,
fígado e baço. A deformação causada na pele por alguém infectado é visível,
podendo ser devastadora e irreversível. Historicamente, tentativas de tratamento
envolveram mercúrio, arsénio, antimónio, cobre, corantes, estricnina, dieta e,
num período mais recente cirurgia e raios-X. O óleo de chaulmoogra também já
era usado desde o século 14 na China e Índia. Atualmente a doença tem
tratamento e cura10.
Nos
Estados
Unidos,
a
doença
começou
a
se
espalhar
desordenadamente no início do século XX. A única solução encontrada para
evitar a proliferação da bactéria era o isolamento total do indivíduo contaminado.
Dessa forma, oficiais chegavam até as casas dos contaminados e os levava para
o leprosário de Kalaupapa, localizado na ilha de Molokai, no Havaí.
O óleo de Chaulmoogra havia sido introduzido no Havaí em 1879, mas
não teve seu uso difundido devido aos resultados pouco confiáveis, embora
alguns pacientes demonstrassem melhorias notáveis. As primeiras tentativas
faziam uso de aplicação na pele, com pouca efetividade. A ingestão oral do
10
A doença pode ser tratada através do uso da chamada poliquimioterapia, em que se emprega
uma mistura de antibióticos e corticoides. O tratamento dura de 6 a 12 meses e interrompe a
evolução da doença, mas não reverte as possíveis deformações, por isso a importância de ser
diagnosticada precocemente.
69
óleo também foi utilizada. Todavia, este tratamento tinha muitos efeitos
colaterais, causando náuseas, uma vez que os pacientes tinham sérias
rejeições à ingestão devido ao sabor apresentado. Na última década do século
XIX o óleo começou a ser administrado por injeções intramusculares e
subcutâneas. Embora eliminassem as náuseas derivadas do uso oral, a
densidade elevada e sua pouca solubilidade em água, consequentemente baixa
solubilidade no sangue, resultavam em dor aguda, inchaços e febre, gerando
verdadeiro pânico entre os pacientes.
Foi entre 1915 e 1916 que Harry T. Hollmann, médico no Hospital Kalihi,
um dos hospitais que recebia enfermos de hanseníase para tratamento,
buscando alternativas mais efetivas para a doença, convidou Alice Ball para
realizar uma pesquisa sobre o óleo. Hollmann tinha trabalhado na Estação de
Investigação
da
Hanseníase,
aberta
em
Kalaupapa
em
1909
com
financiamento federal. Desde então, aprofundou seu interesse pelo óleo de
chaulmoogra.
Alice Ball, que finalizara meses antes sua dissertação estudando a
planta Piper Methysticum e trabalhava como instrutora de Química na
Universidade do Hawaí, foi convidada em razão desta experiência e de seu
conhecimento químico, debruçando-se então sobre um trabalho experimental
com o óleo de chaulmoogra. A Chaulmoogra é uma planta (Figura 3) da família
das Achariaceae, originária da Ásia, em países como Malásia, Indonésia e
Filipinas.
Figura 3. Planta de Chaulmoogra.
70
Fonte: Plants of Saint Lucia11
Achariaceae são plantas com flôr e, no caso da chaulmoogra esse
florescimento (Figura 4A) dá origem ao fruto (Figura 4B). A obtenção do óleo é
feita por extração das sementes da planta que apresenta de 40-45% de óleo.
Figura 4. Florescimento da planta chaulmoogra.
Fonte: Wikimedia commons12
Figura 5. Fruto da planta chaulmoogra.
Fonte:Wikimedia commons13
11 Disponível em:< Fonte: http://www.saintlucianplants.com/cultivated/hydnanth/hydnanth.html.>
Acesso em :maio 2020
12 Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=25006612. >Acesso em
maio 2020.
13 Disponível em: < https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Marotti.jpg> Acesso maio 2020.
71
A composição química do óleo havia sido investigada em 1904, em um
estudo que isolou uma série de ácidos graxos, incluindo os ácidos hidnocárpico
e chaulmúgrico, considerados os responsáveis pela ação terapêutica nos casos
de lepra. Os ácidos hidnocárpico e chaulmúgrico são compostos químicos de
longas cadeias carbônicas. Com isso, apesar de uma das extremidades exibir
características polares devido ao grupo ácido carboxílico, prevalecem as
características físico-químicas não-polares. Entre elas está a insolubilidade em
água do óleo de chaulmoogra, bem como uma textura viscosa devido às forças
de interação entre as cadeias carbônicas. Essas características impossibilitavam
bons resultados e trazia as complicações pelo seu uso direto. Os pacientes que
recebiam o tratamento com o óleo descreveram as injeções como algo que
queimava ao entrar em contato com a pele.
O
HO
Figura 6. Representação estrutural do ácido chaumúgrico(C18H32O2).
O
HO
Figura 7. Representação estrutural do ácido hidnocárpico (C16H28O2).
Ao se formular uma droga, seja ela qual for, a solubilidade em água é uma
propriedade altamente desejável, na medida em que o percurso no organismo
(que é formado em sua maioria por água) é favorecido. Por esses motivos,
muitos dos medicamentos são produzidos em forma de sal. Pode-se preparar o
sal de um ácido carboxílico tratando-o com uma base de hidróxido de sódio,
conforme representação a seguir:
72
O
O
NaOH(aq)
+
HO
R
1
Na O
R
1
+ H2O
Figura 8. Equação para a reação de formação do sal de sódio de um
ácido.
O
Na O
CH3
Figura 9. Representação estrutural de molécula componente do sabão.
Assim, os sais de sódio dos ácidos chaulmoágricos e hidnocárpicos
seriam solúveis em água e poderiam ser administrados com maior eficácia. Este
foi o caminho adotado em 1916 por Sudhamony Ghosh, um médico que
trabalhava na Índia. A partir dos ácidos graxos isolados, ele os converteu nos
seus respectivos sais sódicos, que foram então testados pelo médico Leonard
Rogers no tratamento da hanseníase. Os resultados de Rogers indicaram que
40% de 51 pacientes tiveram suas lesões completamente eliminadas.
Todavia, um sério inconveniente derivava da possibilidade destes sais
agirem como sabão no organismo. Sabões e detergentes são compostos que
apresentam longas cadeias orgânicas cujas extremidades são polares,
permitindo-as interagir tanto com substâncias polares com a água ou apolares
como as gorduras. Assim, o efeito colateral para essa forma derivada do óleo
quando injetado no organismo seria uma possível hemólise (alteração,
dissolução ou destruição dos glóbulos vermelhos do sangue, tanto fisiológica
quanto patológica, com liberação de hemoglobina). Ainda assim, o uso se
mostrou mais eficiente e menos danoso do que sua forma natural. Foi justamente
para tentar resolver este problema científico que Hollmann convidou Alice. Nas
palavras dele: “Após um volumoso trabalho experimental, a senhorita Ball
resolveu este problema para mim produzindo ésteres etílicos dos ácidos graxos
encontrados no chaulmoogra”.
73
A síntese de Ball
Observando a estrutura molecular do óleo de chaulmoogra, Alice
percebeu que eram cadeias de éster metílico de ácido graxo. O óleo não tratado
consiste em uma variedade de diferentes ácidos carboxílicos com elevadas
massas moleculares. Sendo assim, um éster poderia ser preparado a partir de
um ácido carboxílico, reagindo-o com um álcool, geralmente na presença de
outro ácido que funciona como catalisador. Um álcool tem como grupo funcional
˗OH, e um ácido carboxílico apresentam o grupo carboxila, representado pela
fórmula geral -˗OOH, ou ˗COOH. O éster etílico de um ácido é formado usando
etanol como o álcool.
O
R
O
OH + HO
R
1
Ácido
Carboxílico
Álcool
R
R
1
+
H 2O
Éster
Figura 10. Formação do éster de um álcool e um ácido carboxílico. R e
R ’representam dois grupos diferentes de hidrocarbonetos.
O
CH3- CH2-OH
+
HO
O
H2O
+ H3C
O
Figura 11. Formação do éster etílico do ácido chaulmúgrico.
O éster etílico criado por Ball a partir do composto do óleo foi capaz de
reduzir a viscosidade dos derivados do chaulmoogra. A técnica criada para tornar
o óleo de chaulmoogra injetável e absorvível pelo organismo, envolvendo
isolamento de compostos éster etílicos dos ácidos graxos do óleo, ficou
conhecida como “Método Ball”. Ao lançar o extrato solúvel, os médicos
74
começaram a relatar sucesso no tratamento, concedendo inclusive a liberação
dos pacientes para casa. As pessoas que contraíam lepra não precisavam mais
de isolamento, evitando-se mortes prematuras. O método permaneceu sendo
utilizado até 1940, com a chegada de novas formas mais eficazes que incluem
antibióticos.
A Ciência não é simples
Em função da morte precoce, Alice não chegou a publicar seus estudos
com o óleo de chaulmoogra. O presidente da Universidade do Havaí, Arthur L.
Dean, continuou este trabalho e começou a produzir grandes quantidades do
extrato do óleo para os pacientes. Ele chegou a publicar o trabalho chamando a
técnica de “Método Dean”. O nome da jovem química, teria caído em
esquecimento se Harry Hollmann não tivesse publicado em 1922 o artigo “Os
ácidos graxos do óleo de chaulmoogra e o tratamento da hanseníase e outras
doenças” (originalmente The fatty acids of chaulmoogra oil in the treatment of
leprosy and other diseases) na revista Arquives of Dermatology (Arquivos de
Dermatologia).
No artigo, Hollmann descreve com detalhes o trabalho experimental de
Ball, evidenciando sua participação e denominando o processo de “Método
Ball”, alegando que os procedimentos de Dean eram idênticos aos de Alice, e
que a única alteração promovida não teria qualquer efeito nos produtos
químicos finais.
Obviamente que o trabalho de Ball foi precedido de outros, que
identificaram as características bactericidas do óleo de chaulmoogra e
trabalharam no isolamento dos seus princípios ativos. A busca por compostos
solúveis, como os sais também auxiliaram a compreensão de que era precisa
modificar quimicamente os bioativos iniciais. Isso demonstra o processo coletivo
e social da construção do conhecimento científico. Ao mesmo tempo, este
conhecimento não é livre da neutralidade. Crenças e interesses intrínsecos ao
ser humano interferem, como a apropriação indevida dos procedimentos
experimentais de Ball por Dean.
Também não se conhece as reais condições em que Alice desenvolvia
suas pesquisas. É provável que ela tenha realizado os experimentos no período
75
noturno, já que trabalhava como instrutora durante o dia. Seria pouco provável
que uma jovem mulher negra cientista tivesse qualquer tratamento diferencia ou
compreensão num universo no qual existiam apenas homens.
Por fim, esse caso histórico também mostra como uma ideia científica que
é aceita em um determinado período histórico pode ser modificada e cair no
esquecimento. O tratamento com hanseníase usando derivados de chaulmoogra
foi muito empregado no início do século passado e permitiu, pela primeira vez,
que os enfermos fossem liberados para o contato social. Todavia, este tipo de
tratamento foi abandonado e não é mais difundido nos tempos atuais,
evidenciando a ciência como algo mutável. O desenvolvimento de antibióticos
trouxe novos produtos, mais sólidos no tratamento. Ainda assim, essa
mutabilidade mostra que o uso de antibióticos precisa ser cuidadoso. Seu
emprego em demasia e sem os devidos procedimentos está criando as
chamadas “super” bactérias, altamente resistentes devido a um processo de
seleção natural.
Enfim ... um reconhecimento
Em 2000, 90 anos depois, a Universidade do Havaí homenageou Ball
dedicando uma placa a ela na única árvore chaulmoogra presente na instituição
e reconhecendo sua pesquisa. O governador do Havaí Mazie Hirono declarou
em 29 de fevereiro do mesmo ano o “Alice Ball Day”, essa data é comemorada
a cada quatro anos no estado. Em 2007 Ball recebeu um Medalha de Distinção,
da Universidade do Havaí. Em 2016, a Hawai'i Magazine publicou uma lista,
onde Alice Ball foi considerada uma das mulheres mais influentes da história
havaiana.
A produção do conhecimento científico envolve muitas engrenagens que
trabalham coletivamente. Algumas poucas personagens ficam marcadas para
toda a história, como se tudo fizeram sozinhas; enquanto a maioria são pouco
ou nada reconhecidas. Todavia, mesmo essas figuras menos conhecidas
tiveram e têm um papel relevante para que o conhecimento possa ser construído
e partilhado. Deste ponto de vista, a ciência não é construída por poucos
indivíduos heroicos, mas é uma construção social cujo trabalho desenvolvido
pelos protagonistas foi possível somente por causa de outros cientistas que, por
76
muitas razões, permanecem quase desconhecidos. Isso (quase) aconteceu com
Alice Augusta Ball: mulher, negra e química do início do século XX.
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