Silvio da Silva Pena

Título da dissertação: O DISCURSO DOS EGRESSOS DO CURSO DE DESIGN GRÁFICO DO INSTITUTO FEDERAL DE PERNAMBUCO

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CENTRO DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
MESTRADO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA

O DISCURSO DOS EGRESSOS DO CURSO DE DESIGN GRÁFICO DO
INSTITUTO FEDERAL DE PERNAMBUO

MACEIÓ – AL
2011

SILVIO DA SILVA PENA

O DISCURSO DOS EGRESSOS DO CURSO DE DESIGN GRÁFICO DO
INSTITUTO FEDERAL DE PERNAMBUCO

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Educação da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em Educação, orientada pela
Professora Doutora Ana Maria Gama
Florencio.

MACEIÓ- AL
2011

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale
P397d

Pena, Silvio da Silva.
O discurso dos egressos do curso de design gráfico do Instituto Federal de
Pernambuco / Silvio da Silva Pena. – 2011.
123 f. : il.
Orientadora: Ana Maria Gama Florêncio.
Dissertação (mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de
Alagoas. Centro de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação
Brasileira. Maceió, 2011.
Bibliografia: f. 97-99.
Apêndices: f. 100-123.
1. Design gráfico. 2. Análise do discurso. 3. Ensino tecnológico. 4. Instituto
Federal de Educação. Ciência e Tecnologia de Pernambuco – Curso de design
gráfico. I. Título.
CDU: 373.6

SILVIO DA SILVA PENA

O DISCURSO DOS EGRESSOS DO CURSO DE DESIGN GRÁFICO DO
INSTITUTO FEDERAL DE PERNAMBUCO

Dissertação desenvolvida como requisito para
obtenção do título de Mestre em Educação
Brasileira.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________
Profa. Dra. Ana Maria Gama Florencio (orientadora)
Universidade Federal de Alagoas – UFAL

______________________________________________________________
Profa. Dra. Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante (Titular)
Universidade Federal de Alagoas – UFAL

______________________________________________________________
Profa. Dra. Kátia Maria Silva de Melo (Titular)
Universidade Federal de Alagoas – UFAL

Dedico este trabalho – “O DISCURSO DOS EGRESSOS DO CURSO DE DESIGN
GRÁFICO DO INSTITUTO FEDERAL DE PERNAMBUCO” – aos alunos e
egressos do IFPE que no decorrer desse processo me incentivaram, mesmo não
possuindo a consciência do incentivo, pois é no instigar ao professor que perpassa
o reconhecimento do outro, promovendo gestos de interpretações, para que no
movimento do discurso propicie o salto ontológico.

AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer inicialmente à Professora Drª Ana Maria Gama
Florencio, que acolheu e encaminhou-me com delicadeza e presteza pelos
caminhos da Análise do Discurso. Professora compromissada, em todos os
momentos em que estivemos juntos, com as práticas pedagógicas de
conscientização do sujeito. Meus votos de eterna gratidão.
A minha amada esposa Sandra Pena, cúmplice e companheira dos
momentos de incertezas ao longo desta caminhada, pelo apoio e confiança e
principalmente em manter um diálogo com os conceitos provenientes do campo da
pesquisa.
Aos meus queridos filhos, Rafael, Gabriela e Letícia, pelo carinho e
compreensão pelas ausências nos intermináveis dias de estudos, pesquisas e
produção científica.
Agradeço também a minha mãe Edelzuita, pela confiança e exemplo de
dedicação familiar e ao meu pai Edgar (in memoriam) um mestre formado pelas
experiências da vida e que me mostrou caminhos mais gloriosos.
Às Professoras Doutoras Maria do Socorro Aguiar de Oliveira
Cavalcante e Kátia Maria Silva de Melo, a minha gratidão e respeito pelas
orientações para o desenvolvimento dessa pesquisa.
Aos colegas professores do IFPE, Ana Costa, Edilene Guimarães,
Elizete Coelho, Eduardo Araújo, Graça Costa, Josinaldo Barbosa, Patrícia Arruda,
Rejane Rêgo, pelas contribuições e aconselhamentos ao longo da pesquisa.
Agradecemos a CAPES, pela oportunidade de participar do Projeto
Minter - UFAL/IFPE e aos colegas mestrandos pela convivência harmoniosa ao
longo desse processo.
Aos egressos do curso em Design Gráfico do IFPE que contribuíram
com os seus discursos, pois eles foram ação motivadora dessa pesquisa,
concedendo-me mais uma vez a oportunidade da convivência no sentido de
contribuir para o desenvolvimento do curso superior em Design Gráfico.
Uma menção especial ao egresso Thiaggo Morais (in memoriam) pela
contribuição quando estávamos procedendo às primeiras impressões na pesquisa,
através das entrevistas testes para consolidação desta.

RESUMO

A presente pesquisa intitulada “O Discurso dos Egressos do Curso de Design
Gráfico do Instituto Federal de Pernambuco” tem como objetivo contribuir para uma
reflexão acerca da trajetória dos egressos do Curso Superior Tecnológico de
Design Gráfico do IFPE Campus Recife, como subsídio de pesquisa para, através
dos discursos analisados, desvendar as posições assumidas por esses egressos,
em relação ao que o Curso lhes ofereceu para sua inserção no mercado de
trabalho, bem como criar possibilidades de futuras análises curriculares do curso
em questão. Para alcançar nosso objetivo, identificamos, a partir dos discursos dos
egressos, quais as condicionantes dos eixos temáticos dos módulos da matriz
curricular que influenciam na sua formação e na sua atuação no mercado de
trabalho. Como dispositivo teórico analítico, adotamos os pressupostos da Análise
do Discurso (AD) de Linha Francesa (PECHÊUX, ORLANDI, CAVALCANTE,
FLORENCIO, entre outros) atrelados ao materialismo histórico evidenciados por
(MARX, BAKHTIN). A AD de linha francesa entende que a produção dos sentidos
está associada à relação sujeito-língua-discurso e é sob essa perspectiva que nos
propomos a analisar as sequências discursivas (SDs) extraídas das entrevistas
realizadas com egressos do curso. A análise dos discursos, materializados nessas
entrevistas, aponta para uma trajetória afetada pelas condições sóciohistóricas,
submetendo o seu perfil acadêmico às exigências do mercado de trabalho, sendo
este fator de influência decisiva na formação profissional dos alunos. Pode-se
verificar, então, nas SDs, um sujeito atravessado pela formação ideológica do
capital, em seu direcionamento à adaptação na sociedade de classes, na exigência
de um curso que forme para o mercado.
Palavras-chaves: Análise do Discurso. Design Gráfico. Ensino Tecnológico.

ABSTRACT

This research entitled "The Discourse of Graduates of the Graphic Design
Technology Graduate Course at Instituto Federal de Pernambuco”, Recife Campus,
aims to contribute to a reflection about the trajectory of the Graduates of the
Graphic Design Technology Graduate Course at IFPE, Recife Campus, as a
research subside for future curriculum analysis of this course. In order to achieve
our goal, it was identified, from the graduates’ speeches, which the conditioning
factors in the thematic axes of the curriculum theory modules that influence their
training and their performance in the labor market. As analytical theoretical
references, it was adopted the assumptions of historical materialism evidenced by
(MARX, BAKHTIN) and Discourse Analysis (DA) French Line (PÊCHEUX,
ORLANDI, CAVALCANTE, FLORENCIO), among others. The DA French Line
believes that the production of the senses associated to subject-language-discourse
and it is from this perspective that it is proposed to analyze the discursive
sequences (SDs) from interviews with graduates of Graphic Design Course. The
Discourse Analysis embodied in these interviews points to a way affected by
historical and social conditions by submitting its academic profile to the demands of
the labor market. This factor has decisive influence in the professional training of
students. It can be verified, then, in the view of SDs, a subject crossed by the
ideological formation of capital in its focus on adaptation in class society, in the
requirement to form a course for the labour market.
Keywords: Discourse Analysis. Graphic Design. Technological Education.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

8

1

TRAJETÓRIA DO DESIGN GRÁFICO

14

1.1

Constituindo classes

14

1.2

Etimologia e prática do design

16

1.3

A definição do Conselho Internacional das Sociedades de
Design Industrial (ICSID)

17

1.4

Definição de Tomás Maldonado

18

1.5

Projetar design

21

1.6

A Escola Bauhaus

25

1.7

A Escola de Ulm

28

1.8

O Ensino do design em Pernambuco

31

1.9

Design Gráfico no IFPE

32

1.10

O perfil do aluno

33

2

REFLEXÕES TEÓRICAS

41

2.1

Análise do discurso de origem francesa

41

2.2

A Língua Inatingível

43

2.3

Condições de produção do discurso

47

2.4

Ideologia, formação Ideológica e formação discursiva

51

2.5

“A Ilusão Subjetiva”

59

2.6

Silêncio e silenciamento

60

3

O DISCURSO DOS EGRESSOS

65

3.1

O corpus em questão

65

3.2

Análise das entrevistas

67

CONSIDERAÇÕES FINAIS

91

REFERÊNCIAS

97

ANEXOS

100

Introdução 8

INTRODUÇÃO

O interesse que nos conduziu ao desenvolvimento da dissertação
apresentada advém da nossa formação acadêmica no âmbito do ensino técnico e
sob a ditadura militar brasileira, onde determinadas disciplinas como Filosofia e
Sociologia não eram ofertadas, sendo substituídas por disciplinas de conteúdos
moralizantes, tais como: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política
Brasileira.

Essa

formação,

desenvolvida

sob

as

reformas

educacionais

estabelecidas pelas leis 5.540/68 referente ao ensino superior, e 5692/71 do ensino
de 1º e 2º graus, marcou a educação dentro do chamado milagre econômico (19681976) desse período militar e a consolidação da educação tecnicista.
Na cidade de Recife, na então Escola Técnica Federal de Pernambuco
conclui o, então denominado, 2º grau concomitante com um curso técnico. Em
seguida ingressei na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no curso
superior de Comunicação Visual. Este curso sofreria outras posteriores
denominações, quando da mudança de conceitos1 em design e das aspirações dos
representantes dessa área de trabalho no estado de Pernambuco. Essas
alterações serão comentadas no capítulo referente à história e desenvolvimento do
design.
Ao término do curso superior, na década de 1980, passei a lecionar na
mesma instituição em que havia concluído a minha formação do 2º grau,
lecionando em todos os cursos técnicos que possuíam a disciplina de Desenho em
sua matriz curricular, pois esta, naquela década, era lugar comum nos cursos
técnicos. Nesse momento, evidenciaram-se as minhas inquietações em relação ao
acompanhamento dos egressos entre a instituição de ensino e sua inserção no
mercado de trabalho.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)
nº 9.394/962 [1] parágrafo segundo, Art. 1º, quando trata da Educação afirma que

1

Esses conceitos, em design, serão desenvolvidos mais à frente.

2

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) define e regulariza o sistema de educação
brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição. A primeira LDB foi criada em 1961,
Sílvio da Silva Pena

Introdução 9

“a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social” e
desta maneira preparar o indivíduo quando Dos Princípios e Fins da Educação
Nacional em seu Art. 2º, “para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho”. Portanto, teríamos como finalidade propiciar a aproximação entre o
propósito e a realidade de tornar o educando um trabalhador, empregado ou
mesmo empreendedor.
Nessa passagem de inserção do sujeito entre a sua formação e o mundo
do trabalho, no nosso caso, e da pesquisa, principalmente quando da
transformação das chamadas Escolas Técnicas em Centros Federais Tecnológicos
(CEFETs) e da incorporação por estas dos cursos tecnológicos superiores, Não
constatamos na instituição, na qual leciono, o desenvolvimento de estudos que se
direcionem aos egressos, no sentido de justificar um aparente modelo de ensino
para um mercado de trabalho, explicitado na LDB, diante de um mundo dito
globalizado e exigindo desse educando um aprimoramento profissional contínuo
para justificar uma pretensa empregabilidade.
Compactuamos com Franzoi, quando do entendimento do termo
profissionalização, afirmando que esta
não se realiza apenas na formação: só se completa com a inserção
no trabalho, por um lado, porque o conhecimento necessita da
prática para se efetivar; por outro lado, porque é com a inserção no
trabalho que se concretizam as relações de trabalho (FRANZOI,
2006, p.51).

Sendo assim, as relações de profissionalização e inserção no mercado
de trabalho estão condicionadas a contextos sociais onde só o aspecto educacional
não garantirá essa inserção. No entanto, em um sistema de formação bem
estruturado, acreditamos que poderá funcionar ele mesmo como uma rede de
articulação com a inserção. Assim, fazemos parte de um contexto social em
confrontos muito mais complexos que definirão essa barganha de espaços entre os
atores sociais.

seguida pela reforma de 1º. E 2º. Graus, em 1971, que vigorou até a promulgação da mais recente
em 1996.

Sílvio da Silva Pena

Introdução 10

O Decreto nº 2.208/97[2]3 estabelece que a educação profissional será
desenvolvida em articulação com o ensino regular ou em modalidades e a
estruturou em três níveis: nível básico, para formação inicial e continuada de
trabalhadores; nível técnico, educação profissional técnica de nível médio e
tecnológico e educação profissional tecnológica de nível superior. Esses níveis de
ensino regulamentado pelo Governo Federal, de modo mais explícito, buscam pôr
em destaque o seu discurso modernizador da empregabilidade urgente e da
flexibilização diante das novas tecnologias.
O conceito de empregabilidade, naquele momento, perpassa o Ministério
do Trabalho, quando, em conjunto com o da Educação, no âmbito do ensino
profissionalizante, procura desvincular a problemática do desemprego da estrutura
política e econômica existente em meados de 1990, colocando sobre os indivíduos
a responsabilidade de adaptação, competência e qualificação, instituindo uma
compreensão fragmentada e pouco crítica da realidade concreta. Nesse contexto
oculta-se a estrutura sobre a qual estaria montado o plano nacional de qualificação
profissional,

cujo

balizamento

seria

a

lógica

do

mercado,

e

não

um

desenvolvimento econômico fundamentado nas necessidades sociais.
Para atender àquela flexibilização, os projetos pedagógicos dessas
instituições procuram focar seus objetivos no desenvolvimento de competências
profissionais gerais e específicas, estruturando seus currículos em módulos para
ampliar e agilizar o atendimento das necessidades dos trabalhadores, das
empresas e da sociedade. O então Ministro da Educação, Paulo Renato Souza,
interessado em traçar novas diretrizes curriculares nacionais gerais para a
educação profissional de nível técnico faz consulta ao Conselho Nacional de
Educação com vistas a um novo encaminhamento desse nível de ensino e em
Parecer de nº 29/2002,4 elaborado pelo conselheiro Francisco Aparecido Cordão.
Esse mesmo apresenta um discurso de alinhamento aos novos parâmetros
almejados para o ensino profissionalizante:

3

Decreto da Presidência da República que regulamenta o § 2º do art. 36 e os arts. 39 a 42 da Lei nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
4
A consulta encaminhada pelo MEC apresenta os seguintes tópicos: a nova organização definida
pela LDB (Lei Federal nº 9.394/96); a articulação com os demais níveis de Educação; o perfil do
tecnólogo; a organização curricular; o acesso aos cursos superiores de tecnologia, bem como a
duração, a verticalização, a certificação intermediária e a diplomação em tecnologia.
Sílvio da Silva Pena

Introdução 11

A Educação Profissional não é mais concebida como um simples
instrumento de política assistencialista ou linear ajustamento às
demandas do mercado. Ela é concebida, agora, como importante
estratégia para que os cidadãos tenham efetivo acesso às
conquistas científicas e tecnológicas da sociedade, que tanto
modificam suas vidas e seus ambientes de trabalho. Para tanto,
impõe-se a superação do enfoque tradicional da educação
profissional, encarada apenas como preparação para a execução
de um determinado conjunto de tarefas, em um posto de trabalho
determinado. A nova educação profissional, especialmente a de
nível tecnológico, requer muito mais que a formação técnica
específica para um determinado fazer. Ela requer, além do domínio
operacional de uma determinada técnica de trabalho, a
compreensão global do processo produtivo, com a apreensão do
saber tecnológico e do conhecimento que dá forma ao saber
técnico e ao ato de fazer, com a valorização da cultura do trabalho
e com a mobilização dos valores necessários à tomada de decisões
profissionais e ao monitoramento dos seus próprios desempenhos
profissionais, em busca do belo e da perfeição (Parecer CNE/CP nº
29/2002, p. 12).

Assim, os alunos provenientes dessa formação, segundo o Parecer
acima, deveriam estar prontos para lidar com rápidas mudanças e serem mais
flexíveis a ponto de constituir seu próprio aprendizado, passando a refletir e ter
consciência da necessidade de buscar novos conhecimentos para acompanhar
essas mudanças.
São da interdependência, educação/trabalho e nos últimos tempos do
incremento da pesquisa no Ensino Superior tecnológico, as políticas públicas no
Brasil procuram destacar a necessidade de articulação entre o Ministério da
Educação e Cultura, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério da Ciência
e Tecnologia, considerando o ensino tecnológico estratégico e uma espécie de
conciliador entre o ensino doutrinário, o técnico e prático, para um desenvolvimento
dito, inovador.
Após a criação do Curso Superior Tecnológico em Design Gráfico, no
ano 2000, no então CEFET-PE5, e ao longo da nossa vivência, desde o inicio do
curso, vimos refletindo sobre tais articulações e sobre a formação que o curso de
Design Gráfico do IFPE6 vem oferecendo a seus alunos. Assim, na tentativa de
obter respostas para a nossa reflexão, elegemos como objeto de análise, nesta
dissertação, o discurso de egressos do curso, no que diz respeito às suas
5
6

Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco.
Sílvio da Silva Pena

Introdução 12

aspirações referentes ao mundo do trabalho, e aos resultados das primeiras
inserções no mercado, ao concluírem o curso. Além disso, temos, ainda, como
objetivo, proporcionar leituras que levem à reflexão sobre uma análise da matriz
curricular do Curso e sua relação com o retorno que os discursos dos egressos
deixa à mostra.
As marcas discursivas que evidenciam a formação a que foram
submetidos e as primeiras relações com o mercado serão analisadas com o
objetivo de contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento desse perfil,
influenciando, assim, as questões polêmicas desse mercado, em ações mais
coerentes e autônomas de sujeitos que possam contribuir para uma transformação
da sociedade.
Levantamos como hipótese que a instituição formadora (IFPE)
desconhece o desempenho dos egressos do curso de design gráfico, ocorrendo
uma desarticulação entre suas ações e a atuação dos profissionais.
Guiados por essa hipótese, buscamos respostas para as seguintes
questões:
1. Quais as condicionantes encontradas no mundo do trabalho que
influenciam na formação do egresso?
2. Faz-se

necessária

uma

adequação

dos

procedimentos

metodológicos de ensino-aprendizagem, para que os egressos
reflitam sobre as condicionantes da sociedade, quando da sua
inserção no mundo do trabalho?
Apoiamos a nossa pesquisa nos pressupostos teóricos da vertente
bakhtiniana e na Escola Francesa da Análise do Discurso (AD) fazendo uso dos
seguintes autores: PÊCHEUX; ORLANDI; CAVALCANTE; FLORENCIO, entre
outros.
Além do fator inovador já citado, da inexistência de estudos nesse
sentido nos outros cursos tecnológicos superiores implantados na instituição, nossa
estratégia metodológica optou por uma pesquisa de natureza qualitativa, por meio
de entrevistas gravadas em áudio com egressos do curso, levando-se em
consideração os concluintes, a partir da matriz curricular reformada pela Comissão
de Avaliação do Ministério de Educação e Cultura (MEC) em dezembro de 2004 e
implantada em 2005. Posteriormente, editamos essas entrevistas de acordo com
Sílvio da Silva Pena

Introdução 13

os objetivos do trabalho.
Nossa dissertação está estruturada em três capítulos. O primeiro tem
como objetivo situar o leitor no desenvolvimento histórico do design, suas
influências através das escolas no mundo; no Brasil; em Recife-PE e no
comprometimento deste com o mundo do trabalho ao longo de sua história.
O segundo aborda e discute as questões que embasam a teoria da AD
de

linha

francesa,

relacionando-as

às

necessidades

dessa

pesquisa

e

correlacionando os discursos dos egressos, sua formação e sua prática.
Fazem parte do terceiro capítulo as Sequências Discursivas (SDs)
retiradas das entrevistas com os egressos do curso de Design Gráfico,
constituindo-se o corpus da pesquisa. Objetivamos nesse capítulo analisar as
sequências e suas marcas discursivas que apontam as influências da ideologia
dominante no âmbito escolar e no mundo do trabalho e os conflitos determinados
por essas forças sociais. Assim, procuramos obter respostas às perguntas
norteadoras deste estudo, fundamentadas por categorias da AD, como disciplina
de entremeio que se volta para o discurso como objeto de estudo, numa relação
indissociável entre língua, história e ideologia.

Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 14

1.

A TRAJETÓRIA DO DESIGN GRÁFICO

1.1

Constituindo classes
O ensino profissional no Brasil encontra-se diretamente ligado às

constituições das classes sociais que fazem as correlações de forças estratégicas
de dominação em todas as esferas da sociedade brasileira. A divisão de classes foi
expostas principalmente quando Friedrich Engels publicou A situação da classe
trabalhadora na Inglaterra em 1845, obra que mostra perspicácia quanto às
repercussões dos grandes acontecimentos políticos e econômicos que expuseram
as correlações de forças nas formações sócio-políticas. Sob esta ótica, Martins
comenta as citações de Engels afirmando que:
“A revolução industrial reveste, para a Inglaterra, o significado que
tem para a França a revolução política e para a Alemanha a
revolução filosófica” (Engels, 1985a, p.25) [...] parece antecipar a
célebre assertiva marxiana de que as mudanças nas estruturas
econômicas repercutem nas superestruturas jurídicas-políticas e
ideológicas, determinando-lhes novas conformações. Ao dizer que
“[...] o nível cultural dos diversos trabalhadores está em íntima
ligação com as duas [sic] relações com a indústria e que, por
conseguinte, os operários da indústria são os que têm mais
consciência dos seus próprios interesses [...]”, indica muito
claramente uma relação profunda entre desenvolvimento do nível
de consciência e lugar do trabalhador no plano das relações sociais
da produção material (Engels, apud Martins, 2008, p.14-15).

Sob o calor das convulsões revolucionárias do século XVIII e no decorrer
do século XIX, com a consolidação do mundo industrial, temos no Brasil a
possibilidade de expansão das profissões. Algumas instituições, de forma direta, ou
mesmo indireta, lançaram as bases da formação do ensino profissionalizante, não
deixando de ser influenciadas pelos pensamentos filosóficos e políticos vigentes,
com destaque para aqueles que circulavam na Europa.
Instituições, como os Liceus de Arte e Ofícios no País, foram
fundamentais para a introdução dos primeiros conceitos do chamado desenho
industrial, expressão usada no País já na década de 1850, quando uma disciplina
correspondente a esse nome passou a ser ministrada no curso noturno da
Academia Imperial de Belas Artes. Essas instituições delinearam iniciativas para
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 15

promover projetos de educação, muitos deles de cunho assistencialista. O Liceu de
Arte e Ofícios, que iniciou suas atividades em 1858, possuía a finalidade de
proporcionar a todos os indivíduos, independentemente de
nacionalidade, raça ou religião, o estudo das artes e sua aplicação
necessária aos ofícios e indústrias. Instituição de caráter privado,
contava com o apoio oficial e recebia subvenção do Estado, tendo a
seguinte missão estatutária: “disseminar, pelo povo, educação, o
conhecimento do – bello – (sic), propagar e desenvolver, pelas
classes operárias, a instrução indispensável ao exercício racional da
parte artística e technica das artes, officios e industrias” (GONDRA e
SCHUELER, 2008, p.73).

Além do Liceu de Artes e Ofícios, podemos citar a Sociedade
Propagadora da Instrução pelas Classes Operárias da Lagoa, a Associação
Protetora da Infância Desamparada e outras de cunho semelhante nos estados da
federação, ofertando cursos noturnos de nível primário e profissional.
Em todas gravitava a preocupação com as crianças desvalidas e
desamparadas, termos que foram e seriam reutilizados pelas elites dirigentes,
quando da legitimação do ensino profissionalizante no início do século XX.
Assim, o que hoje denominamos Institutos Federais de Ensino perfaz
uma

história

que

se

iniciou

quando

aquelas

sociedades

civis,

citadas

anteriormente, almejavam o controle social, preocupadas, em meados do século
XIX, com os hábitos de mendicância das classes populares que passaram a se
fazer mais presentes. Em Gondra temos que:

ao longo do século XIX, diversos setores da sociedade imperial se
reuniram em agremiações privadas leigas e religiosas para
organizar modos de intervenção visando à constituição de escolas
primárias e profissionais, cursos noturnos pra trabalhadores, asilos
e educandários para a infância pobre (GONDRA e SCHUELER,
2008, p.79).

Justifica-se assim a intervenção nos hábitos e costumes desses
desvalidos visando a procedimentos de controle da classe dominante - sobre a
classe dominada - em busca de conformação das classes dominadas.
Segundo esses interesses, o então presidente do Brasil, Nilo Peçanha
através do Decreto nº 7566, de 23 de setembro de 1909, institui, em cada uma das
capitais brasileiras, uma Escola de Aprendizes e Artífices, tendo como objetivo
formar operários e contramestres, através do ensino profissional primário gratuito.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 16

Este é o princípio do ensino profissionalizante e o que posteriormente se constituirá
durante o século XX, as relações e constituições de forças sociais que
desenvolverão o ensino técnico brasileiro e em seguida a introdução do design na
área tecnológica.
Porém se faz necessário compreendermos os sentidos que constituem a
palavra “design”, em desdobramentos discursivos, no decorrer da sua formação
pelas diversas escolas que estabeleceram a teoria e a prática do design.
1.2

Etimologia e prática do design
Grande parte do debate sobre o significado da palavra design no Brasil

dedicava-se à etimologia do vocábulo, pois não é possível fugir às questões
relativas à definição de um campo ainda em construção. Devemos considerar
principalmente os conceitos implícitos na transição da noção de desenho industrial,
nos primeiros momentos das conceituações em torno do tema, e a transição para a
noção de design comumente aceita nos dias atuais.
A palavra do idioma inglês design, é de origem mais remota latina,
designo, que se aplica tanto no sentido de designar, indicar, representar, marcar,
ordenar, dispor, quanto ao de desenhar (drawing - desenho, representação de
formas, através de linhas e sombras). Design significa projeto, como termo
referente à idéia de plano, intenção e, portanto, vinculado a conceitos intelectuais;
e também como elemento concreto, idéia de configuração, arranjo ou estrutura.
O fato de misturar design com drawing demonstra um alheamento ao
caráter criador da atividade do designer como sujeito proponente de novas formas
e adequando-as às funções dos objetos. Os equívocos permanecem, e em
Niemeyer temos que:
A palavra design permaneceu sem uma denotação específica no
Brasil, não particularizando a profissão ou o seu conceito. No
momento há o emprego do termo design em áreas onde não há um
trabalho conceitual e de projeto. A conotação mais presente da
palavra é um trabalho formal, epidérmico e voltado para o projeto
de produto para consumo conspícuo. Não é raro notarmos o uso
indiscriminado da palavra designer para qualquer profissional que
faça algum tipo de interferência formal ou gráfica (NIEMEYER,
2000, p. 27).
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 17

Porém, essa forma de conotar não foi exclusividade do Brasil, como
veremos mais adiante, pois expressar-se nessa área passou pela indefinição do
termo como suporte profissionalizante em uma suposta distinção entre os fazeres
manuais e industriais, prerrogativas exclusivas de determinadas profissões. Só aos
poucos a profissão passa a ser enfatizada e vinculada à produção industrial a aos
meios informacionais com características projetuais.
Essa definição do termo e o uso desse como referência de um
determinado saber profissional passou por diversas definições no âmbito
internacional que veremos no próximo item.
1.3

A definição do Conselho Internacional das Sociedades de Design

Industrial (ICSID) 7
A partir da década de 1950, arquitetos, artistas gráficos, artistas
plásticos, tipógrafos e outros profissionais em áreas afins, começaram a expor
conceitos das diversas escolas européias.
A definição elaborada pela ICSID, fundada oficialmente em 1957, em
Londres, revela contradições e incertezas em função da postura em revisar
constantemente as atribuições à noção de design.

A primeira definição dessa

Instituição data do ano de 1959:
O designer industrial é alguém qualificado por meio de treinamento,
conhecimento técnico, experiência e sensibilidade visual para
determinar materiais, mecanismos, formas, cores, acabamentos e
decorações de objetos produzidos em quantidade por processos
industriais. O designer industrial pode, em diferentes momentos,
preocupar-se com todos ou somente com algum dos aspectos da
produção industrial de objetos.
O designer industrial pode dedicar-se também aos problemas de
embalagem, publicidade, exibição e marketing quando a resolução
desses problemas requer a valorização visual em adição à
experiência e ao conhecimento técnico.
O designer de indústrias ou comércios de base artesanal, em que
processos manuais são usados para a produção, é considerado um
designer industrial quando os trabalhos produzidos a partir de seus
desenhos ou modelos têm uma natureza comercial, são produzidos
em lotes ou, de qualquer forma, em quantidade, e não são
7

International Council of Societies of Industrial Design.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 18

trabalhos pessoais de um artista (CARA apud ICSID, 2010, p.22).

Essa definição busca a afirmação das atividades das quais o sujeito
designer se ocupa profissionalmente e objetiva garantir a prática profissional. A
preocupação no último parágrafo quanto à seriação, não só pretende estabelecer
distinção entre design e arte, mas também esclarecer as discussões sobre a
disciplina - presente na década de 1950 - e outras áreas do conhecimento,
especialmente em relação à arte a ao artesanato, como forma de afirmação da
disciplina.
1.4

Definição de Tomás Maldonado
Alguns designers, como Tomás Maldonado, se opõem a definições de

caráter eminentemente embelezador de produtos industriais. Segundo Cara (2010),
citação abaixo, essa abordagem produziria nefastas consequências à atividade do
designer, pois compreenderia somente garantia das etapas finais da concepção,
afastando o profissional das etapas projetivas e produtivas.
Uma nova definição veio com Maldonado, que almejava não somente as
propriedades formais dos objetos ou mesmo exteriores a este, mas sim a unidade
coerente tanto do ponto de vista do produtor quanto do usuário. Assim ao final dos
anos 1960 temos, por Maldonado a seguinte definição:
Projetar a forma significa coordenar, integrar e articular todos
aqueles fatores que, de uma maneira ou de outra, participam do
processo constitutivo da forma do produto. E, com isso, se alude
precisamente tanto aos fatores relativos ao uso, fruição e consumo
individual ou social do produto (fatores funcionais, simbólicos ou
culturais), como aos que se referem a sua produção (fatores
técnico-econômicos, técnicos-construtuivos, técnico-sistemáticos,
técnico-produtivos e técnico-distributivos) (MALDONADO, apud
CARA, 2010, p.24).

Porém, essas atividades de coordenar e integrar são condições que
certamente não estarão plenamente disponíveis, diante das forças produtivas e as
relações de produção que estão fortemente condicionadas pelas formações
discursivas do capital.
Comparando com as definições anteriores, apresenta-se assim o da
importância no campo do conhecimento pelo designer, o fato da consideração do
ambiente como elemento relativo à atividade, onde
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 19

há uma diferença fundamental em relação à orientação
anteriormente descrita: aqui não se considera o desenho industrial
como uma atividade projetual que parte exclusivamente de uma
idéia a priori sobre o valor estético (ou estético-funcional) da forma,
como uma atividade projetual cujas motivações se situam à parte e
precedem o processo constitutivo da própria forma (MALDONADO,
apud CARA, 2010, p.25).

Assim, projetar significa orientar várias ações que participaram do
processo constitutivo do produto e estará condicionado pela maneira como se
manifestam as forças produtivas e as relações de produção em um ordenamento
socioeconômico

constituído

por

formações

ideológicas,

que

podem

ser

dominantemente capitalistas ou socialistas. Relaciona-se, assim, a atividade do
profissional ao ambiente constitutivo e constituído e desenvolve-se uma noção
capaz de adequar-se a condições de produção amplas e restritas8 em que a
atividade se desenvolve.
Surgem, por outro lado, as indicações de um novo discurso, que
agregará as questões de método e não só especificamente para a aparência dos
produtos, arregimentando conceitos mais voltados para a linguagem do design.
Isso nos faz crer que o discurso do design decorre das diversas
formações sociais representadas na Formação Ideológica do Capital sofrendo
transição ou mesmo alterações, onde os processos de produção industrial não
ocorrem uniformemente e nem em um mesmo momento para cada uma condição
de produção. No Brasil essas conformações começaram a ser contextualizadas a
partir da década de 1950, levando-se em consideração, principalmente o
desenvolvimento dos aspectos industriais e econômicos do momento.
O desenvolvimento da siderurgia, do uso do plástico e outras evoluções
técnicas, associado a estas o incremento da utilização de forma mais ostensiva dos
meios de marketing dos produtos. Em Souza temos que:
O que diferencia a arte da modernidade da arte de outras épocas
seria o pensamento crítico, mas as vanguardas foram esvaziadas
de seu conteúdo crítico. Esse esvaziamento se configura na
construção de modelos que integrem arte, design e arquitetura nos
circuitos de produção e consumo da sociedade industrial, seja
como objeto ou como notícia (SOUZA, 2008, p.108).

8

O conceito de Condições de Produção – categoria da Análise do Discurso – será desenvolvido
adiante.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 20

A historicidade da sociedade industrial em plena efervescência na
segunda metade do século XX configura o objeto para o consumo. Nessa relação
sujeito e objeto, não se leva em consideração o que essa obra diz, mas sim o que o
sujeito diz sobre ela. Assim, as metodologias projetuais estão condicionadas, não
somente em como fazê-lo, mas também na interação social e ideológica das
formas que esse objeto assume nesse contexto.
Hoje, para o ICSID, o design procura estabelecer novos conceitos,
contextualizando temáticas presentes no debate contemporâneo e afirma que:
Design é uma atividade criativa na qual o objetivo é estabelecer as
qualidades multifacetadas dos objetos, processos, serviços,
compreendendo todo o seu ciclo de vida. Portanto, design é um
fator central de inventiva humanização das tecnologias e fator
crucial de mudanças culturais e econômicas (ICSID, apud CARA,
p.27).

Essa definição induz à crença de um fenômeno capaz de tratar dos
aspectos do ambiente humano, onde as complexas relações de produção e
economia, aspectos sociais e políticos, e mesmo psicológicos passam a exigir
ações de interdisciplinaridade na atuação desse profissional.
Hoje, essa atividade não se reveste como era anteriormente
interpretada, como atividade eminentemente estética e de construção do “belo”.
Essa passagem de um primeiro momento, dito industrial, para o de acúmulo de
novos paradigmas nas construções de significados na aquisição de objetos e
serviços na contemporaneidade, conduz o design para um planejamento ou mesmo
moldagem de um ambiente condicionado à construção de conteúdos e
necessidades imateriais.
No Brasil essa tomada de consciência só começa a acontecer em cursos
desenvolvidos em museus ou institutos de artes. O conceito de design exposto a
seguir é o que está majoritariamente consolidado hoje no nosso país. São três
vertentes que devem ser entendidas como forma integrada de atuar.
Em um primeiro momento conceitua-se, o design, como uma atividade
artística, razão pela qual é valorizado no profissional o seu compromisso como
artífice, resgatando, ou mesmo lembrando, o sujeito atrelado à prestação de
serviço para uma burguesia eminentemente industrial começando a surgir na
década de 1950. Em um segundo momento, temos um profissional que entende o
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 21

design como um invento, um planejamento, da criação de processos de fabricação
no uso das tecnologias. Em um terceiro momento, temos o conceito de
coordenação, onde o profissional tem a função de interagir com diferentes
especialistas para integrá-los, dependendo da finalidade da ação construtiva, para
que assim uma ideia inicial possa se configurar e conformar-se como produto ou
mesmo serviço.
Essas três atividades criaram nuances que suscitaram, em determinados
momentos, uma indefinição da profissão. Essa aparente indefinição, talvez tenha
sido um dos vieses para a expressividade da atividade e do profissional demorar a
se consolidar no nosso país, ou mesmo pela interferência de outros profissionais
de áreas correlatas, já que, o espaço de atuação não estava delimitado. Niemeyer,
para reafirmar as ações da profissão, expõe parte do texto da Lei nº 3515/1989,
cujo projeto foi apresentado pelo deputado Maurílio Ferreira Lima, onde temos que:
a profissão de designer é caracterizada pelo desempenho de
atividades especializadas de caráter técnico-científico, criativo e
artístico, visando à concepção e ao desenvolvimento de projetos e
mensagens visuais. Em design, projeto é o meio em que o
profissional, equacionando, de forma sistêmica, dados de natureza
ergonômica, tecnológica, econômica, social, cultural e estética,
responde concreta e racionalmente às necessidades humanas. Os
projetos elaborados por designers são aptos à seriação ou
industrialização que estabeleça relação com o ser humano, no
espaço de uso ou de percepção, de modo a atender necessidades
materiais e de informação visual. (NIEMEYER, 2000, p.23).

Essa definição está alicerçada sob o desenvolvimento da passagem do
desenho industrial para o design, quando dessa evolução de conceitos
desenvolvidos pelo ICSID.
Este último é o conceito básico para a definição do que vem a ser a
atividade do designer, a começar pelo sentido de projetar, em design. Assim,
desenvolveremos, em seguida, linhas discursivas que encaminharam para o modo
de projetar design e sua evolução, quando da transição da Idade Média para o
florescimento do Iluminismo.
1.5

Projetar design
O conceito de criação artística da Idade Média difere radicalmente do

conceito contemporâneo. O artesão daquela época criava sob normas rígidas, que
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 22

definiam temáticas e a própria realização concreta da obra. Os diversos modos de
trabalho artístico deveriam formar um conjunto harmônico, onde a expressão da
personalidade desse artesão era não só desnecessária como indesejável. A
maestria não se comprovava, através da criatividade ou da individualidade de sua
obra, mas na obediência às normas e na competência em aplicá-las o mais
fielmente possível.
Durante o desenvolvimento do comércio e da ciência nos estados
europeus, a Igreja perdeu parte significativa de sua influência sobre a sociedade. A
Renascença inaugurou uma nova era, em que o humano, o pessoal, a liberdade e
o lado material da vida se destacaram rapidamente. O significado proposto por
estas novas sensações, advindas desses novos conceitos, visa articulações em um
novo lugar e em novas funções no mundo, com a universalidade, propondo novos
sentidos. O que podemos conhecer e explorar são a imagem concebida pela nossa
consciência, a partir da organização das nossas sensações no tempo e no espaço.
Em Lessa, 2008 temos que essa
imagem do mundo pode variar tanto quanto a de Aristóteles,
Newton ou Einstein. O espírito humano, em seu processo interno
de desenvolvimento, vai construindo imagens do mundo. Ao
explorá-las, esse mesmo espírito vai descobrindo novas
contradições e problemas que ele antes desconhecia e, a partir
desses problemas e contradições, vai produzindo uma visão de
mundo mais sofisticada e desenvolvida. [...], a história passa a ser
vista como o resultado de uma luta de idéias (sic) e, de modo mais
geral, como processo constante de auto-aperfeiçoamento do
espírito humano. (LESSA, 2008, p.41-42).

São, pois, as imagens do mundo que constituem historicamente os
projetos, de acordo com as sociedades para as quais são idealizados, ao mesmo
tempo em que, tais projetos, vão produzir imagens outras para que possam intervir
nas formações sociais.
Esse é um processo sócio-histórico que, nessa visão, não é tratado
como categoria abstrata, e sim como processo de produção e reprodução da
sociedade capitalista em que estamos inseridos e determina as posições
ideológicas da produção dos discursos.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 23

Esse processo de (re) produção, com a finalidade de objetivação, funda
para Marx a diferenciação entre a capacidade de criar ideias, antes de objetivá-las,
visto que
toda objetivação produz uma nova situação, pois tanto a realidade
já não é mais a mesma (em alguma coisa ela foi mudada), quanto
também o indivíduo já não é mais o mesmo, uma vez que ele
aprendeu algo com aquela ação (MARX, apud TONET 2008, p.19).

Portanto, o movimento de converter em objeto uma prévia-ideação é
denominado por Marx de objetivação e esta ação gera sempre transformação, seja
desse sujeito, seja da produção de novos conhecimentos e habilidades, com novas
possibilidades

de

reconstrução

passando

pelo

chamado

“período

de

consequências”. Assim, altera-se o existente, pela objetivação de uma préviaideação, onde teremos consequências e resultados (in) esperados.
Queremos lembrar que, para Marx, a objetividade tem prioridade sobre a
prévia-ideação, na medida em que a matéria tem prioridade sobre a idéia.
Para o analista do discurso esse ir e vir, pleno dos discursos em novas
objetivações leva a novas causalidades, surgindo assim, espaços para análises,
dando origem a novos conceitos “que, por sua vez, desencadeiam novos nexos
causais”. Recorrendo à (LUKÁCS, apud LESSA 2007, p.45) quando este afirma
que: “Essa relação dialética entre teleologia (isto é, projetar de forma ideal e prévia
a finalidade de uma ação) e causalidade (os nexos causais do mundo objetivo)
corresponde à essência do trabalho” (idem, p. 45).
A objetivação do idealismo industrial no seu desenvolvimento das
manufaturas acelerou a dissolução da unidade entre conhecimento teórico, arte e
artesanato, produzindo diferenciação entre trabalho manual e intelectual. Em
Lessa, temos que:
este último é atividade organizadora do Estado, da política, de
todas as formas de ideologia (filosofia, religião, artes etc.), que são
complexos sociais necessários para as classes dominantes criarem
e reproduzirem seu domínio sobre os trabalhadores. A estes, agora,
cabe exercer na produção os ditames da classe dominante: esta
última “pensa”, os primeiros “trabalham manualmente”. O fato de
ser a classe dominante a organizadora cotidiana da sociedade
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 24

gerou a ilusão de que é atividade de organização, administração e
controle que produz a sociedade de classes e que, portanto, é a
atividade intelectual de administração, da política, do Direito etc.
que gera a vida social. (LESSA, 2008, p.38-39).

Nessa dimensão, escravos, servos e operários, considerados como
trabalhadores de menor importância social, são obrigados a produzir a riqueza das
classes exploradoras, que se constituem dominantes com a Revolução Industrial
(1776-1830) e a Revolução Francesa (1789-1815), pois, até então, o que existia
era um precário desenvolvimento e controle das forças produtivas.
Seguindo os conceitos vigentes da divisão do trabalho, os industriais
sentem a necessidade de anunciar o que é produzido pelos trabalhadores - mas
comercializado pelos que detêm a propriedade – com vistas ao crescimento do
lucro. Para tanto, não bastava expor o produto, mas fazê-lo de forma atraente,
capaz de despertar o desejo de possíveis compradores.
Para agilizar esse processo, cria-se o conceito de “projeto”, objetivandose a integração entre atividades intelectuais e atividades reprodutivas, marcando
assim a divisão entre trabalho artístico, utilitário e industrial.
A atividade do projeto passa a ser valorizada com a contratação de
acadêmicos de áreas afins do design, por proprietários de manufaturas para o
desenvolvimento de modelos para produção em série, com o intuito de agradar à
burguesia ascendente que passou a valorizar modelos da aristocracia, no sentido
de possuí-los e assim se igualar às “elites”. O projeto passa a ser mercadoria e
esse acadêmico chamado “Mestre da Forma” passa a ocupar espaços
disponibilizados por essas aspirações.
Nesse processo de transformação, o artesão perde gradualmente o
domínio da técnica e a posse dos meios de produção que diferenciavam suas
atividades. Com a subdivisão das tarefas para produzir um determinado objeto,
cada etapa do processo passa a demandar mais eficiência e controle do tempo de
execução. Especialistas acadêmicos, nas áreas do conhecimento científico e
artístico, passam a ocupar os espaços que antes pertencia ao artesão,
configurando-se a passagem do artesão para o futuro operário. Evidencia-se,
assim, certo controle, por parte do capitalista, sobre o conjunto de trabalhadores
detentores de conhecimentos, apesar de artesanal, com alguns procedimentos
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 25

técnicos que ainda impunham certa dinâmica própria ao seu trabalho.
O desenvolvimento tecnológico - substituindo gradualmente o trabalho
manual pelo mecanizado - e seus lucros possibilitaram o posterior controle do
processo tecnológico, fazendo surgir uma nova ordem social e produzindo um
conjunto de instituições como fábricas, escolas e organismos científicos, que
garantiram a permanência e o controle do capitalista sobre a técnica produtiva. O
resultado desse compromisso com o capital e não com o projeto, reflete-se no nível
de qualidade de criação dos produtos advindos desse processo, baseados
exclusivamente no lucro.
Essas passagens do artesanal para o controle das etapas da execução,
junto com a mecanização das tarefas e posteriormente pelos meios informacionais,
passaram por instruções normativas que, na maioria das vezes, eram
desenvolvidas nos bancos escolares. Algumas escolas no campo do design são de
fundamental importância para compreendermos essa passagem. É o que
desenvolveremos no item seguinte.
1.6

A Escola Bauhaus
Enquanto no Brasil, os primeiros projetos de ensino profissionalizante

começavam a ser esboçados, na Europa temos a formação de duas escolas da
forma, cada uma delas no seu devido tempo, que iriam influenciar diretamente as
concepções dos projetos em design no Brasil. Podendo-se afirmar que, uma delas,
a alemã Bauhaus, é o mito fundador dos cursos de design no Brasil. Seus métodos
de ensino, com a instituição de um ciclo básico e, em seguida, com ênfase nas
oficinas de modelagem, foram diretrizes que constituíram os referidos cursos.
Hoje, temos certa hegemonia dos laboratórios e aplicativos informacionais, mas,
dependendo das condições sócio-econômicas de cada região brasileira em muitos
cursos, também há concomitância da valorização do artesanal aplicado ao conceito
de design.
Em um contexto histórico europeu, a I Guerra Mundial representara a
disputa do mercado internacional pelas classes burguesas ascendentes, com as
revoluções Americana (1776), a Revolução Francesa (1789) e a Revolução
Industrial (por volta de 1800).
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 26

Após a guerra, a Alemanha endividada pelas chamadas reparações de
guerra, que implicaram, além desse endividamento, num comprometimento quase
que total da sua capacidade produtiva, opta definitivamente pela unificação,
integração e posterior unificação de diversos estados, processo que já havia
iniciado em meados do século XIX, configurando-se na passagem da monarquia
para uma república com sede em Weimar.
É nessa cidade, em 1919, já na chamada terceira fase do movimento
artístico expressionista, que surge a escola Bauhaus, a primeira e mais significativa
escola para o ensino moderno em design europeu, criada sob influência de
diversos movimentos, dentre eles o Arts e Crafts, surgido na Inglaterra, na segunda
metade do século XIX. O Arts e Crafts defendia o artesanato criativo como
alternativa à mecanização e à produção em massa e pregava o fim da distinção
entre o artesão e o artista, fazendo frente aos avanços da indústria. Pretendia
imprimir em móveis e objetos o traço do artesão-artista, que mais tarde seria
conhecido como designer.
Outro movimento também influenciador dessa escola, foi o movimento
francês Art Nouveau essencialmente de design e arquitetura. Teve grande
destaque durante a Belle Époque, nas últimas décadas do século XIX e primeiras
décadas do século XX. Relaciona-se especialmente com a 2ª Revolução Industrial
com a exploração de novos materiais como o ferro e o vidro, caracterizando-se
pelas formas orgânicas. Esses dois movimentos são raízes para o moderno design
gráfico, bem como para o desenho industrial e a arquitetura.
Walter Gropius (1919-1927), Hannes Meyer (1927-1929) e Mies Van der
Rohe (1929-1933), na escola Bauhaus, são os arquitetos da primeira fase de
influência expressionista, movimento cultural surgido na Alemanha nos primórdios
do século XX, que estava mais interessado na interiorização da criação artística do
que em sua exteriorização, projetando na obra de arte uma reflexão individual e
subjetiva. Esse conceito iria sofrer transformações a partir de 1923, com as
vanguardas européias, principalmente do construtivismo, do futurismo e do De

Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 27

Stijl9. Esse comprometimento do estudo da forma e a influência do contexto
histórico dos movimentos artísticos encontraram em Souza quando diz que:
Podem-se considerar como antecedentes das vanguardas
históricas as reações observadas desde Walter Whitman, Marcel
Duchamp e Francis Picabia, que se dedicaram a demonstrar a
carga poética de fusão entre o mecânico e o orgânico. [...]
Imaginaram ser impossível uma revolução na vida cotidiana sem
uma revolução da cultura material, sem a negação de toda a
tipologia de objetos herdada do capitalismo burguês-industrial.
(SOUZA, 2008, p. 64-65)

É nesse conglomerado de movimentos sociais e artísticos que as
percepções estéticas, envolvendo em determinados momentos a exaltação da
técnica e da indústria formalizadas em um neoplasticismo, a partir do formalismo
construtivo, criam novos critérios de composição da forma que seriam
capitaneadas de acordo com a expressividade de cada diretor da Escola Bauhaus,
até 1928. Nesse ano, com a escola já em Dessau, percebia-se a fragilidade
estrutural da República de Weimar. A ascensão política do partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista, e a
burguesia industrial viam na república uma forma política excessivamente liberal,
no trato com as questões trabalhistas e indiretamente nas concepções projetivas
da Bauhaus desenvolvidas pelos seus professores e alunos.
A ascensão do Partido Nazista em 1933 foi predição para o fim da
Bauhaus. Muitos professores e artistas migraram para outros países da Europa e
para os Estados Unidos. Essas influências, da migração, são sentidas em 1938 no
MoMa10, em Nova York, onde temos exposta a produção do período de Walter
Gropius; essa influência resultou em correntes americanas, em formas que
passaram a ser denominadas de Good design. A idéia era que alguns objetos

9

Arrancando a pintura do campo da representação e abraçando o abstracionismo total, objetivando
a síntese das formas de arte, o De Stijl ("O estilo") começou oficialmente nos Países Baixos em
1917, quando Mondrian, Van Doesburg e o arquiteto Bart van der Leck lançaram a revista que deu
nome ao movimento ou Neoplasticismo, nome dado por Piet Mondrian à sua filosofia artística. Foi
um dos grandes marcos da arte moderna e permaneceu ativo e coeso por menos de quinze anos,
sendo o auge do movimento entre 1921 e 1925.

10

Museu de Arte Moderna.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 28

criados pela indústria, deveriam ser considerados como exemplares. Certamente
elitizante da ascensão e recolocação do ideário burguês.
1.7

A Escola de Ulm
Ao final da II Grande Guerra a Alemanha estava dividida, um bloco

ocidental e outro oriental. No bloco ocidental, para conter o avanço soviético, os
norte-americanos lançaram – não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa - o
Plano Marshall, que visava reestruturar os países aliados ao pensamento
econômico capitalista do pós-guerra.
A Bauhaus era um referencial de conceitos, principalmente da forma de
economizar

fases

de

criação

e

organização,

para

tornar

eficiente

o

desenvolvimento da produção.
Max Bill (1908-1994) – escultor, pintor, arquiteto, designer e educador
suíço, ex-aluno da Bauhaus, funda em 1951 uma escola em Ulm, a Hochschule für
Gestaltung11, visando a continuar os experimentos da Bauhaus. Bill foi diretor de
1953 até 1956, privilegiando a questão formal e artesanal dos projetos. Essa
proposta desagradava os docentes, que pensavam uma escola mais voltada para a
reflexão e produção de design de base tecnológica.
Em 1956, assume a direção, Tomás Maldonado, pintor argentino citado
anteriormente, que imprime à escola os processos mais tecnológicos aspirados
pelos docentes. Ele propunha uma estrutura mais interdisciplinar, com matérias
como sociologia, antropologia e teoria da percepção. Não deixava de considerar as
contribuições da Bauhaus, mas almejando uma abordagem menos relativista, o
que ele chamava de “operacionalismo científico”, que propõe a substituição da
atitude intuitiva pela análise exata dos problemas e dos meios para sua solução,
afirmando que o design era parte do processo de produção, pregando, assim, a
padronização na produção de objetos.
Essa estética racional nos faz crer em uma indústria alemã estritamente
compromissada com os interesses do sistema econômico da sociedade de
consumo. Na década de 1960, quando as validades desses conceitos passaram a

11

Escola Superior da Forma.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 29

ser questionados, pela própria sociedade e pela imprensa, a escola se
autoextinguiu. Foram essas idéias da Bauhaus e de Ulm que, principalmente a
partir da década de 1950, junto com o movimento artístico concreto, chegaram aos
brasileiros que pensavam o design.
Historicamente, no Brasil, o ensino cujos moldes poderíamos chamar de
ensino de design embrionário, tem como primeira expressão o ano de 1934 quando
Eliseu Visconti, então diretor da Escola Politécnica da Universidade do Rio de
Janeiro, é convidado por Flexa Ribeiro, nome que se fará presente quando da
introdução definitiva do design no Brasil, a ministrar um curso de extensão
universitária de Arte Decorativa nos moldes da Escola Guérrin de Eugênio Grasset
(designer do Art Nouveau), onde estudou de 1895 a 1897, durante sua estada na
Europa, como bolsista do governo brasileiro.
Outras iniciativas semelhantes de cursos de extensão ocorreram no
Brasil após a Segunda Guerra Mundial, com a fundação do Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ e de São Paulo – MAM/SP e do Museu de
Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP. Em 1950, temos a primeira Bienal
Internacional de São Paulo, sendo o seu primeiro prêmio dado ao convidado e exaluno da Bauhaus, Max Bill.
Em 1951, foi criado o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), do MASP,
que foi a semente dos cursos de design no Brasil. Pequenos cursos eram
ministrados naquele espaço, com professores expoentes e de notório saber em
suas áreas, para alunos que seriam os professores de diversas gerações de
designers. Convidado pelo MASP, aproveitando a sua presença no Brasil, o
professor Max Bill passa a estimular a discussão sobre a relação design, arte,
artesanato e indústria.
Essa época desenvolvimentista, capitaneada por Juscelino Kubitschek,
trazia a acumulação de capital, aumentando o poder aquisitivo da classe média e
assim definindo novos ritmos de consumo. Essa nova classe consumista
constituída instala museus, teatros, companhias cinematográficas e outras ações,
dinamizando novas formas culturais no país.
Com a criação do Estado da Guanabara em 1960, fruto da transferência
do Distrito Federal do Rio de Janeiro para Brasília, o governo libera verbas para
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 30

viabilizar obras de reestruturação do novo Estado. Carlos Lacerda (1914-1977)
assumiu o governo, contando com aportes financeiros do programa Aliança para o
Progresso e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Lacerda queria marcar sua gestão com o cunho da inovação, do
desenvolvimento baseado na industrialização. Ele visava a grandes obras,
vislumbrando mais à frente a Presidência da República, com apoio à iniciativa
privada e ao capital estrangeiro. Um curso superior em design, que já se vinha
esboçando ao longo da década de 1950, estaria coerente com este projeto de
emancipação de um Estado industrial e, principalmente, com as suas intenções
eleitorais.
O citado anteriormente, Flexa Ribeiro, como secretário de Educação do
governo Lacerda é um dos responsáveis pela criação da Escola Superior de
Desenho Industrial (ESDI), sendo confirmado esse ato com o Decreto assinado em
cinco de dezembro de 1962, pelo governador Carlos Lacerda. A escola inicia suas
atividades em 1963, compondo seu corpo docente, com expoentes de notório
saber nas áreas da compuseram a matriz curricular do curso. Em Niemeyer, quanto
aos eixos temáticos abordados na matriz curricular do curso, temos:
Na primeira especialização seriam ministradas disciplinas que
tratariam de novas tecnologias da imagem, bem como cartazes,
expositores, publicidade e cinema. Na segunda seria estudada a
comunicação verbal, desde a dicção até a comunicação
audiovisual. Esta especialização visava formar pessoal para
trabalhar nos meios de comunicação de massa, cujo crescimento já
estava sendo percebido como iminente. A terceira especialidade
estaria dedicada a formar profissionais para desenvolver projeto de
objetos que compõem o cotidiano doméstico: aparelhos eletromecânicos, mobiliário, materiais têxteis, serviços de mesa, etc. A
última especialidade trataria do desenvolvimento de componentes
industrializados para a construção civil, visando à melhoria das
condições de execução e acabamento em arquitetura (NIEMEYER,
2000, p.90-92).

Resumia-se a orientação da escola, em pragmática e voltada para o
mercado de trabalho com possibilidades de adequação desse currículo à realidade
profissional, permitindo introdução e modificação do mesmo. Esse dinâmica passa
a fazer escola no território nacional onde se vislumbra o desenvolvimento desse
ensino. É o que vai acontecer em Pernambuco no início dos anos 1970.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 31

1.8

O Ensino do design em Pernambuco
No início da década de 1970, o governo ditatorial brasileiro, como reflexo

das reivindicações da classe média brasileira no final da década de 1960, procura
ampliar o número de vagas nas universidades brasileiras. Até àquele momento a
formação dos profissionais da área do incipiente ensino em design pernambucano
e da comunicação visual era a Escola de Belas Artes do Recife.
Em 1971, com o intuito de atender essas aspirações da classe média,
Instituí-se, uma comissão de docentes, cujo resultado seria a oferta de dois cursos
na UFPE: Comunicação Visual e Desenho Industrial e a transferência, em 1976,
desses cursos do centro da capital Pernambucana para o atual campus
universitário.
Com o histórico parecido com a criação da ESDI, constata-se a falta de
profissionais atuando na área e conhecedores das metodologias para o ensino do
design, o que fez surgir a necessidade da contratação de professores de outros
estados e do exterior.
Após a implantação, o direcionamento para atenuar a falta de
professores habilitados, foi contratar, a partir de 1977, profissionais locais com
formação, na medida do possível, da área ou mesmo de áreas afins formados pela
antiga Escola de Artes, e oriundos de cursos livres, como do movimento O Gráfico
Amador, conceituada instituição na área do design gráfico. Essas ações no âmbito
do Estado de Pernambuco, evidência o não comprometimento com aquele conceito
de design, já defendido e conceituado por Tomás Maldonado. O que tínhamos até
então no Estado era uma divisão da área gráfica visual e da área industrial.
Na década de 1980, consolida-se essa formação incipiente do design,
através de um núcleo de comunicação visual da UFPE, formado principalmente por
professores que passaram a questionar a matriz curricular e o programa das
disciplinas, a fim de direcioná-lo a uma realidade projetual, um embasamento
teórico e também os primeiros esforços para a iniciação científica na área.
Em 1987, o Ministério da Educação propõe a fusão dos dois cursos,
Comunicação Visual e Desenho Industrial, em um único, denominado Desenho
Industrial com duas habilitações: Programação Visual e Projeto de Produto,
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 32

principalmente no sentido de adequar estes a uma nova realidade da indústria
nacional. Nessa reformulação constam modificações no currículo dos cursos e a
sua implantação efetiva-se em 1988.
A década de 1990, na UFPE, é marcada pela incorporação em definitivo
das tecnologias computacionais no ato de projetar e do desenvolvimento da
iniciação científica na área do design. Nessa década, uma das modificações
curriculares foi a inclusão da realização de um trabalho de graduação, nos moldes
de um projeto gráfico ou de monografia, para obtenção do título de bacharel.
1.9

Design Gráfico no IFPE
As novas diretrizes do ensino técnico no País começaram a ser

esboçadas nos primeiros anos da década de 1990. No ano de 1994, quando a Lei
Federal nº 8.984 institui no país o Sistema Nacional de Educação Tecnológica.
Essa Lei estabelece a transformação das Escolas Técnicas Federais em CEFETs,
e abre também o caminho para que as Escolas Agrotécnicas Federais sejam
integradas a esse processo.
Logo em seguida, em 1996, a LDB nº 9.394, é aprovada e, no ano
seguinte, o Decreto nº 2.208/97[2] regulamenta os artigos dessa nova LDB que
tratam especificamente da educação profissional. A chamada “Reforma da
Educação Profissional”, um dos projetos do então presidente Fernando Henrique
Cardozo e implantado dentro do ideário de Estado Mínimo12.
Levando-se em consideração uma rede física já estabelecida e com
possibilidades de ampliação, o Governo Brasileiro em 1999, assina convênio com o
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a implantação do Programa
de Expansão da Educação Profissional (Proep).
É nesse contexto de transformação e de novas oportunidades de oferta
para a sociedade brasileira de novas modalidades de ensino técnico e tecnológico
que o CEFET-PE, passou a elaborar projetos para institucionalização de cursos
12

Termo derivada-se das consequências do pensamento oriundo da Revolução Francesa e
Revolução Americana, que prega o liberalismo. A burguesia consegue após essas revoluções fazer
com que o Estado interferisse minimamente. Porém nas últimas décadas do século XX, surgiu o
neoliberalismo que favoreceu, ainda mais, a redução do papel do Estado no mundo da economia.
Esse Estado passa a não ter mais obrigação de promover o bem-estar social e o desenvolvimento
produtivo.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 33

superiores, sendo condição para efetivar-se como instituição superior. O único
projeto que se encontrava em fase embrionária era o curso de Desenhismo e
Hipermídia.
O projeto de implantação do Curso de Tecnólogo em Desenhismo tinha
como objetivo geral:
Projetar e implantar o Curso de Tecnólogo em Desenhismo, no
Centro Federal de Educação de Pernambuco, que extrapolem as
necessidades e expectativas do mercado em todos os sentidos,
bem como realize plenamente o profissional nos aspectos social,
econômicos, cultural e ético. (ARAÚJO; COSTA; FERRAZ, 1998,
p.2).

Como objetivo específico busca:
Formar desenhadores capacitados às carências do mercado de
trabalho regional, através de pesquisa e definição do perfil
profissional solicitado pela estrutura educacional proposta pelo
governo e pela necessidade de atualização/modernização social e
econômica do ensino-aprendizagem no Brasil. (idem. 1998, p.2).

No transcorrer desses dez anos, o curso passou por diversas
modificações, tanto no sentido de atualização às novas tecnologias, como na sua
adaptação aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Tais mudanças se dão
motivadas principalmente pela definição da atuação desse profissional em
determinados nichos do mercado de trabalho e do comprometimento e
aprofundamento das reflexões causadas pela interdisciplinaridade, ao longo desses
anos.
O atual fluxograma do curso, pós-reconhecimento, em anexo, comporta
o procedimento de trabalhos pautados em projetos. São quatro módulos, sendo o
primeiro contemplado com disciplinas de perfil básico, para fundamentar processos
mais complexos nos módulos posteriores. Os outros três seguintes direcionam-se
aos projetos que estão relacionados com seus eixos temáticos e disciplinas
propiciadoras à interdisciplinaridade dessa matriz curricular.
1.10

O perfil do aluno
O desenvolvimento, a ampliação e a expansão do ensino tecnológico, na

última década do século passado, demandaram uma regulamentação mais
eficiente, bem como atribuições desses novos profissionais que as instituições de
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 34

ensino estavam formando.
O Decreto nº 2.406/97[3], regulamentando a Lei nº 8.948/94[4] em seu
Artigo 8º afirma que os CEFETs, transformados na forma do disposto no art. 3º
daquela Lei, gozarão de autonomia para a criação de cursos e ampliação de vagas
nos níveis básico, técnico e tecnológico da Educação Profissional, bem como para
implantação de cursos de formação de professores para as disciplinas científicas e
tecnológicas do Ensino Médio e da Educação Profissional, sob as condições
previstas nos parágrafos 1º e 2º desse Artigo, onde temos:
§ 1º - A criação de cursos nos Centros Federais de Educação
Tecnológica fica condicionada à existência de previsão
orçamentária para fazer face às despesas dos custos recorrentes.
§ 2º - A criação de outros cursos de ensino superior e de pósgraduação dependerá de autorização específica, nos termos do
Decreto n º 2.306, de 19 de agosto de 1997.

Com a consolidação das novas tecnologias informacionais e a criação
de um ambiente sócio-econômico favorável, no início do século XXI, o Conselho
Nacional de Educação cria uma comissão para analisar os Cursos Superiores de
Tecnologia que conduziam a diplomas de Tecnólogos, pelo Decreto 2.208/97[2].
As diversas reformas efetuadas durante essa década haviam conduzido
os cursos técnicos e tecnológicos de várias denominações e necessitavam de
definições em suas áreas profissionais de atuação, como também de uma carga
horária mínima para a sua efetiva consolidação. Diante do exposto, várias
consultas passaram a ser efetuadas, pelos CEFETs, em virtude das dúvidas
geradas nos segmentos da sociedade, pela afirmação dos cursos tecnológicos
superiores.
Dessas consultas é interessante salientar quanto às dúvidas do possível
prosseguimento dos estudos.

A Câmara de Educação Básica do Conselho

Nacional de Educação, procura sanar essas dúvidas, quando expõe o Parecer nº
436/2001, homologadas em 02/04/2001 pelo Ministro de Estado de Educação,
determinando que:

Os cursos superiores de tecnologia, sendo pós-médios, exigiriam
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 35

apenas, a princípio, para o seu acesso a conclusão do ensino
médio ou equivalente, podendo os seus egressos, portadores de
diploma de Tecnólogo, dar prosseguimento de estudos em outros
cursos e programas de educação superior, como os de graduação,
pós-graduação e sequências de destinação específica ou de
complementação de estudos (Parecer nº 436/2001, p.9).

O Parecer da Comissão instituída pela Câmara de Educação Superior
para analisar os Cursos Superiores de Tecnologia que conduzem a diplomas de
Tecnólogos, apresenta à Câmara de Educação Superior algumas considerações
pertinentes e esclarecedores sobre a instabilidade que as transformações
institucionais suscitavam naquele momento. O Parecer da CNE/CES13 436/2001,
em seu relatório esclarece, diante das novas tecnologias e do cenário econômico
do início de século XXI, que:
A educação para o trabalho não tem sido convenientemente tratada
pela sociedade brasileira que, em sua tradição, não lhe vem
conferindo caráter universal, colocando-a fora da ótica do direito à
educação e ao trabalho. Até a década de 80, a formação
profissional limitava-se ao treinamento para a produção em série e
padronizada. [...], as novas formas de organização e gestão
modificaram estruturalmente o mundo do trabalho. Um novo cenário
econômico e produtivo se estabeleceu com o desenvolvimento e
emprego de tecnologias complexas agregadas à produção e à
prestação de serviços e pela crescente internacionalização das
relações econômicas. Passou-se, assim, a requerer sólida base de
educação geral para todos os trabalhadores, educação profissional
básica, qualificação profissional de técnicos e educação continuada
para atualização, aperfeiçoamento, especialização e requalificação.
(Idem, p.1)

Toda esta conjuntura teve sua formação em meados de 1970, quando
da reestruturação do capitalismo para parafrasear os novos paradigmas
econômicos que se avizinharam com um novo plano político-econômico para
aquela década. Constituiu-se de um ideário neoliberal mais flexível que visava
substituir os modelos taylorista/fordista no intuito de amparar esse novo mercado
de âmbito globalizante.
Modernas tecnologias são incorporadas na substituição da força de
trabalho retrógada, para àquele padrão, e desenvolvimento de habilidades
cognitivas e comportamentais são exigidas para a formação desses “novos”
indivíduos. Essas novas exigências da globalização reverberam quando diz que:
13

Conselho Nacional de Educação/ Câmera de Ensino Superior.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 36

Conforme indicam estudos referentes ao impacto das novas
tecnologias cresce a exigência de profissionais polivalentes,
capazes de interagir em situações novas e em constante mutação.
Como resposta a este desafio, escolas e instituições de educação
profissional buscaram diversificar programas e cursos profissionais,
atendendo a novas áreas e elevando os níveis de qualidade de
oferta. A educação profissional passou, então, a ser concebida não
mais como simples instrumento de política assistencialista ou linear
ajustamento às demandas do mercado de trabalho, mas, sim, como
importante estratégia para que os cidadãos tenham efetivo acesso
às conquistas científicas e tecnológicas da sociedade. Impõe-se a
superação do enfoque tradicional da formação profissional baseado
apenas na preparação para a execução de um determinado
conjunto de tarefas. A educação profissional requer, além do
domínio operacional de um determinado fazer, a compreensão
global do processo produtivo, com a apreensão do saber
tecnológico, a valorização da cultura do trabalho e a mobilização
dos valores necessários à tomada de decisões. (CNE/CES,
436/2001, p.1-2).

Essa cultura do trabalho se valoriza em função da lógica do mercado
que atravessa as instituições de ensino. Estas passam a visar um ensino voltado
para atender às demandas da sociedade capitalista, ou seja, às necessidades que
o mercado impõe.
Desse modo, procura-se formar para adequar à sociedade, sem
qualquer possibilidade de levar o aluno a refletir sobre os parâmetros de ser no
mundo que lhe são colocados. Nesse sentido, não é viável que se tenha um sujeito
capaz de julgar o meio social do qual faz parte e realizar escolhas que melhor
atendam às suas aspirações.
Portanto, os cursos precisam ser definidos conforme tais padrões e,
onde prazos e ritos para reconhecimento foram estabelecidos conforme relatório do
Parecer em questão lembra a Portaria 1647/99, em seu Artigo 14 que prevê que
“as instituições credenciadas poderão abrir novos cursos de nível tecnológico de
educação profissional, nas mesmas áreas profissionais daquelas já reconhecidas,
independente de autorização prévia, devendo a instituição encaminhar, nos prazos
estabelecidos, projeto para reconhecimento dos referidos cursos”. E acréscimo em
dois parágrafos:
§1º - A abertura de novos cursos de nível tecnológico de educação
profissional, nas áreas em que a instituição ainda não tiver cursos
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 37

reconhecidos, depende da autorização de funcionamento na forma
desta Portaria.
§ 2º - Os Centros de Educação Tecnológica terão a prerrogativa de
suspender ou reduzir a oferta de vagas em seus cursos de nível
tecnológico de educação profissional de modo a adequá-la às
necessidades do mercado de trabalho, formalizando tal ato por
meio de comunicação à SEMTEC14/MEC (CNE/CES, 436/2001, p.
6).

Diante dessa legislação até então vigente, os relatores da comissão
instituída, embasaram seus pareceres afirmando que naquele momento:
Os cursos superiores de tecnologia parecem ressurgir como uma
das principais respostas do setor educacional às necessidades e
demandas da sociedade brasileira. Os Centros de Educação
Tecnológica parecem ser uma sólida e instigante estrutura
institucional para abrigar e desenvolver a educação tecnológica,
apresentando-se com características bastante interessantes para o
ensino superior tecnológico, especialmente para os cursos que
conduzem a diploma de Tecnólogo. Entretanto, cabe, certamente, à
Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação
definir em que modalidade de curso superior, entre os previstos no
artigo 44 da LDB, melhor se enquadram os de cursos de formação
de tecnólogos (CNE/CES, 436/2001, p. 7).

Com o rápido crescimento dos cursos superiores de tecnologia,
constatado pelo volume de processos nos quais é solicitada autorização para oferta
desses cursos, indicavam que havia uma demanda substancial desses cursos
superiores de tecnologia, inclusive com a oferta crescente no ensino particular,
visando principalmente à transformação destas em universidades.
O perfil desses cursos, principalmente quando estruturado em módulos,
abrangeriam todos os setores da economia e destinavam-se aos egressos do
Ensino Médio, Ensino Técnico e de matriculados e egressos do Ensino Superior.
Passa-se assim a construir-se um perfil que pudesse atender às demandas do
atual mundo do trabalho. Exige-se desse profissional aptidão em desenvolver de
forma plena e inovadora atividades em sua área, cobrando-se dele possuir
formação específica. Continuando com o Parecer, já no voto do relator, o mesmo
afirma que “este profissional deve estar apto a desenvolver, de forma plena e
inovadora atividades em uma determinada área profissional e deve ter formação
14

Secretaria de Educação Média e Tecnológica.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 38

específica para:”
a) aplicação, desenvolvimento, pesquisa aplicada e inovação
tecnológica e a difusão de tecnologias; b) gestão de processos de
produção de bens e serviços; e c) o desenvolvimento da
capacidade empreendedora. Ao mesmo tempo, essa formação
deverá manter as suas competências em sintonia com o mundo do
trabalho e ser desenvolvida de modo a ser especializada em
segmentos (modalidades) de uma determinada área profissional.
(CNE/CES, 436/2001, p. 9).

Essas características, segundo o parecer, trarão atrativos ao jovem por
possuir uma duração reduzida comparando-se a uma graduação atendendo às
mutações das necessidades do mercado e às possibilidades de verticalização nas
áreas profissionais mais específicas, sintonizadas com o mundo do trabalho.
Possibilita assim, a certificação por módulos, o acesso ou continuidade no
desenvolvimento de atividades no setor produtivo, ou mesmo abrindo novas
possibilidades de formação em torno de eixos determinados pela matriz curricular.
O Parecer assim classifica os Cursos Superiores de Tecnologia tanto
como Cursos Superiores Sequenciais de Formação específica quanto como Cursos
de Graduação. Nesse primeiro momento temos vinte áreas de habilidades e
competências. Na área profissional de número seis temos o design sendo que essa
caracterização do perfil proposto apresenta-se da seguinte forma:
Compreender o desenvolvimento de projetos de produtos, de
serviços, de ambientes internos e externos, de maneira criativa e
inovadora, otimizando os aspectos estético, formal e funcional,
adequando-os aos conceitos de informação e comunicação
vigentes, e ajustando-os aos apelos mercadológicos e às
necessidades do usuário. O desenvolvimento de projetos implica na
criação (pesquisa de linguagem, estilos, ergonomia, materiais,
processos e meios de representação visual); no planejamento
(identificação da viabilidade técnica, econômica e funcional, com
definição de especificidades e características) e na execução
(confecção de desenhos, leiautes, maquetes e protótipos,
embalagens, gestão da produção e implantação do projeto).
(Parecer 436/2001, p.19).

No sentido de atender ao cumprimento do Decreto nº 5.773/2006 [5],
que trata da atualização dos cursos tecnológicos superiores, o Ministério da
Educação elabora, atualiza e lança em 2010 uma segunda edição do Catálogo

Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 39

Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia15 como guia para referenciar
estudantes, educadores, instituições ofertantes, sistemas de redes de ensino,
entidades representativas de classes, empregadores e o público em geral.
O mesmo afirma que foi um produto de construção coletiva com a
participação de especialistas e pesquisadores, instituições de ensino superior,
entidades de representação corporativa. Procedimento que deveria legitimar e
trazer confiabilidade ao resultado exposto à sociedade por objetivar-se nas
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível
Tecnológico e em sintonia com a dinâmica do setor produtivo e os requerimentos
da sociedade atual16.
Dessa forma o catálogo define curso superior de tecnologia, como curso
de graduação,
que abrange métodos e teorias orientadas a investigações,
avaliações e aperfeiçoamentos tecnológicos com foco nas
aplicações dos conhecimentos a processos, produtos e serviços.
Desenvolve competências profissionais, fundamentadas na ciência,
na tecnologia, na cultura e na ética, tendo em vista ao desempenho
profissional responsável, consciente, criativo e crítico. É aberto,
como todo curso superior, a candidatos que tenham concluído o
ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em
processo seletivo. Os graduados nos cursos superiores de
tecnologia denominam-se tecnólogos e são profissionais de nível
superior com formação para a produção e a inovação científicotecnológica e para a gestão de processos de produção de bens e
serviços e estão aptos à continuidade de estudos em nível de pósgraduação (BRASIL, MEC. 2010, p.126).

Dentre as inúmeras denominações de cursos empregadas na área do
design durante a consolidação desse ensino tecnológico profissionalizante na
última década do século passado, a nova versão do catálogo, procura atualizar e
fazer convergir essas denominações para a titulação em Design Gráfico e dessa
forma atualizar a primeira versão de 2006.
Denominações tais como: Comunicação Digital; Desenho Gráfico;
Comunicação Digital: Desenho técnico; Comunicação Digital; Web Design;
Comunicação e Ilustração Digital; Comunicação em Computação Gráfica; Criação
e Produção Gráfica; Criação e Produção Gráfica Digital; Desenho de Animação;
15
16

Consultar o Portal do MEC em: http://portal.mec.gov.br/
Grifo nosso.
Sílvio da Silva Pena

A Trajetória do Design Gráfico 40

Desenho Gráfico Digital; Desenho Técnico; Design de Mídia Digital; Design de
Multimídia; Design Digital; Design Gráfico Digital; Programação Visual; Editoração
Eletrônica; Produção Gráfica Digital passam a ser denominados Design Gráfico
com uma carga horária mínimia de 1.600 horas.
A atualização desse catálogo caberá à Secretaria de Educação
Profissional e Tecnológica (SETEC), a partir das solicitações de inclusão no
Catálogo ao Conselho Superior de Tecnologia (CST) com denominações inéditas
por instituições ofertantes, decorrentes, segundo a Secretaria, do desenvolvimento
das inovações tecnológicas.
No atual catálogo constam 112 graduações tecnológicas organizadas,
no que antes eram 20 eixos, em 13 eixos tecnológicos. O Curso Superior de
Tecnologia em Design Gráfico pertence à área de Produção Cultural e Design e
afirma que:
O tecnólogo em Design Gráfico mobiliza competências das artes,
comunicação e design. Planeja e executa a programação visual de
jornais, revistas, livros e outros materiais impressos, produz
imagens, cria e edita infográficos, páginas e portais da internet e
animações em meio digital. Desenvolve linguagens eficazes para
usabilidade de suportes digitais, combinando conceitos de
navegabilidade e interatividade. Elabora projetos gráficos,
equacionando
fatores
estéticos,
simbólicos
e
técnicos,
considerando também questões socioeconômicas, culturais e
ambientais. Pode atuar (sic) em empresas jornalísticas,
cinematográficas, escritórios de design e agências de publicidade e
propaganda (BRASIL, MEC. 2010, p.87).

Assim, nesse momento, exclui-se a infinidade de denominações de
cursos na área até então surgidos e delimitam-se as competências e áreas de
trabalho que o tecnólogo em design gráfico poderá atuar, em acordo com as novas
conformações político-econômica do mundo globalizado.
Nesse sentido, para que possamos entender a relação entre a área de
atuação desse profissional e a formação que lhe é oferecida no IFPE, daremos
continuidade ao percurso da pesquisa que investiga os discursos dos egressos do
Curso Superior Tecnológico em Design Gráfico do IFPE, expondo, no próximo
capítulo, os percursos e principais princípios teóricos da AD de linha francesa,
teoria que embasa a nossa pesquisa.

Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 41

2.

REFLEXÕES TEÓRICAS

2.1

Análise do discurso de origem francesa
O objetivo deste capítulo é elencar os conceitos teóricos que nos

conduziram às formulações da Análise do Discurso (AD) de origem francesa, filiada
a Pêcheux, pois, diante dos nossos objetivos de pesquisa, consideramos essa
perspectiva profícua para sustentação teórica que fundamenta as análises dos
discursos dos egressos na área Tecnologia Profissional do Design Gráfico do IFPE.
Necessário se faz expressar nossa compreensão dos conceitos e assim
evidenciar o lugar teórico de onde falamos. A AD tem como referências os
conceitos de ideologia e discurso que contribuirão para a análise da dimensão
sócio-histórica dos discursos dos egressos, os anseios destes no mercado de
trabalho e as relações de forças provenientes da opacidade das margens
discursivas constituídas pelas Formações Discursivas (FDs) advindas desses
sujeitos.
Iniciaremos esclarecendo alguns conceitos, pois não é nossa pretensão
examinar exaustivamente todos os postulados da AD. Vamos expor alguns recortes
dessa teoria, dando ênfase às categorias Formação Ideológica, Formação
Discursiva, Condições de Produção do Discurso, Interdiscursividade e Silêncio.
Recorrendo a elas é que poderemos perceber as contradições e diferenças que se
encontram subjacentes a todo discurso.
Por

tratar-se

da

linha

francesa,

aportaremos

nossos

estudos

principalmente em Michel Pêcheux; nas formas do silêncio por Eni Orlandi, e nos
processos de determinações sociais em que os discursos são produzidos. É no
espaço discursivo que se constituem as relações sociais produzidas pelos efeitos
de sentidos da produção intelectual dos sujeitos. Em Amaral (2005), para
compreendermos o processo dessas determinações
sociais, políticas e econômicas da produção intelectual em geral,
designada pela teoria marxista como formas de consciência ou
formações ideológicas. A produção intelectual é concretamente
organizada e explicitada em forma de discursos. Isso significa dizer
que é como discurso que essa produção intelectual tem efeitos de
sentido, atua na realidade e provoca mudanças nas mesmas
relações sociais que a original (AMARAL, 2005, p.27).
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 42

A Análise do Discurso é um campo de pesquisa recente que tem sua
gênese no final dos anos 60, quando Pêcheux, em 1969, apresenta os seus
estudos, através de um dispositivo de análise do processo discursivo que seria
denominado de: Análise Automática do Discurso. A efervescência intelectual,
cultural e a bipolaridade dos sistemas econômicos no final daqueles anos
propiciaram

os

questionamentos

sobre

a

epistemologia

da

Línguística,

principalmente, por meio dos conceitos desenvolvidos pelo lingüista Ferdinand de
Saussure, que no início do século XX garante à Línguística um lugar de destaque
nas ciências.
Em desenvolvimentos posteriores como “A propósito da análise
automática do discurso: atualizações e perspectivas (1975)” e “A análise do
discurso: três épocas (1983)”, Pêcheux passa à busca de vestígios – da história e
da memória no discurso, e a consequente interrelação entre a ordem da língua, a
ordem da história e a ordem do discurso. Nesse sentido, no início da década de
198017
ele já acena para várias aberturas, para a confluência do seu
pensamento com outros caminhos, delineando novas trajetórias
para a análise do discurso. De Michel Foucault vem a
problematização sobre a ciência histórica, suas descontinuidades,
sua dispersão, que resultará na abertura do conceito de formação
discursiva18, na discussão das relações entre os saberes e os
(micros) poderes, na preocupação com a questão da leitura, da
interpretação, da memória discursiva. De Bakhtin vem a idéia da
heterogeneidade, do dialogismo, da inscrição da discursividade em
um conjunto de traços sócio-históricos, em relação ao qual todo
sujeito é obrigado a se situar. (GREGOLIN e BARONAS, 2007, p.
7)

A AD, que no seu início – década de 1960 - teorizava praticamente
sobre os discursos de cunho político, volta-se, também, para o discurso do
cotidiano, da reflexão sobre a inscrição na história, na ideologia. Esse
direcionamento de análise perpassava por outros teóricos como Christian Metz,
Roland Barthes, expondo a fecundidade da análise da materialidade não-verbal,
através da aproximação com a Semiótica e consequentemente com as formas não-

17
18

Michel Pêcheux faleceu em dezembro de 1983.
Essa categoria da AD será desenvolvida mais à frente.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 43

verbais e imagéticas. Essas mais novas apropriações conduzem à consciência de
uma língua que não pode ser delimitada ou nem mesmo alcançada.
2.2

A Língua Inatingível
Um dos primeiros linguistas a se debruçar sobre os estudos lingüísticos,

para estabelecer relações entre língua, linguagem e fala, foi Ferdinand de
Saussure19. Os princípios dessas relações, até então expostos, não conformavamse plenos para Saussure. Este imprimia os primeiros passos no sentido de
interrogar o próprio som articulado e seu valor semântico, ao afirmar que:
Quando se substitui a escrita pelo pensamento, aquêles (sic) que
são privados dessa imagem sensível correm o risco de não
perceber mais que uma massa informe com a qual não sabem que
fazer. [...] Ter-se-ia que substituir, de imediato, o artificial pelo
natural; isso, porém, é impossível enquanto não tenham sido
estudados os sons da língua; [...] Assim, os primeiros lingüistas,
que nada sabiam da fisiologia dos sons articulados, caíam a todo
instante nessas ciladas; desapegar-se da letra era, para eles,
perder o pé; para nós, constitui o primeiro passo rumo à verdade,
pois é o estudo dos sons através dos próprios sons que nos
proporciona o apoio que buscamos (SAUSSURE, 1975, p.42).

Saussure, teorizando sobre a língua como objeto puro, sistematizado e
alheio à fala, trouxe reflexões inestimáveis para futuras discussões sobre
língua/linguagem, no que se refere à estrutura linguística, embora não tenha
avançado na direção do discurso. Para esse autor, os estudos ficavam no nível dos
signos em sua composição, independente de qualquer situação. Em seu Curso
declara que “é o ponto de vista que cria o objeto” (SAUSSURE, 1975, p.15); ele
abre o espaço para a existência de outras visões sobre a questão da linguagem.
Freda Indursky e Maria C. L. Ferreira, ao fazer comentários sobre
teorizações de Francoise Gadet e Michel Pêcheux, sobre a língua como inatingível
se pronuncia da seguinte forma: “(os autores) nos propõem precisamente uma
reflexão sobre os limites e as fronteiras, sobre os espaços flutuantes e as
transgressões da língua” (INDURSKY; FERREIRA, apud JOB, 2007, p.213).

19

Saussure nasce em Genebra no ano de 1857 e seu livro Curso de Linguística Geral, coletânea de
textos escritos por seus alunos em cursos de linguística geral ministrados entre 1906 e 1911, só é
publicado, através da reunião desses textos, em 1916 após seu falecimento em 1913.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 44

É na interface produzida entre a Sintaxe/Discurso que nas zonas
fronteiriças estabelecem os fatos lingüísticos e criam-se os espaços de ruptura com
o sistema. Em Ferreira, temos que
Tais fatos se situam no espaço de tensão entre o que escapa a
uma sistematização e o que se encontra estabelecido pelas regras,
caracterizando uma zona tida como nebulosa, onde o não-sentido
faz sentido, o proibido é permitido e o impossível encontra lugar.
Para a AD, vai interessar e muito penetrar nesses limites fugidios e
nessas bordas da língua, deixadas à margem porque difíceis de
explicar e de enquadrar. Ao analista cabe tornar visíveis tais
opacidades, mostrando seu funcionamento (FERREIRA, in
Indursky, F.; Ferreira, Maria, 1999, p.62).

Essa zona fronteiriça é considerada pela AD, como espaço de tensão e
instabilidade, onde contradições suscitarão espaços fecundos de análises, não
propriamente demarcados, mas compostos, por vezes, de nuances de opacidades
geradoras de interpretação. Portando, para o analista de discurso, a língua é o
nosso objeto e fator desencadeador para analisar a materialidade do discurso.
Seria função predominante da língua a representação de algo? Esse é
um caráter redutor e simplificador. Adotar-se-ia a língua como função de código, o
que levaria aos enunciados a remeter sempre a um mesmo significado.

É,

portanto, no deslocamento das estruturas linguisticas, materializadas no texto, que
a AD considera a linguagem não mais como um sistema abstrato, mas como um
produto sócio-histórico, produzido e produtor, na interação entre sujeitos.
Impõem-se ao analista certas exigências para explicitar os processos
discursivos, quando dos estudos estruturalistas da década de 1960 na França.
Para atingir tal intento, Pêcheux recorre ao entrecruzamento da linguística, da
antropologia, da filosofia, da política e da psicanálise. Segundo Pêcheux (2008),
esses campos de estudo da linguagem nos levam a:
multiplicar as relações entre o que é dito aqui (em tal lugar), e dito
assim e não de outro jeito, com o que é dito em outro lugar e de
outro modo, a fim de se colocar em posição de “entender” 20 a
presença de não-ditos no interior do que é dito (PÊCHEUX, 2008,
p. 44).

Essas abordagens conduziam à descrição de arranjos textuais,
tornando-se paradoxal e simplista aos analistas do discurso as abordagens
20

Aspas do autor.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 45

estruturalistas advindas desses arranjos.

Essas estruturas começaram a ser

edificados no início do século XX, por Marx, Freud e o próprio Saussure que
formaram a base teórica revolucionária do pensamento humano daquele início de
século.
Em Freud, encontramos os primeiros indícios da suspeita do que
escutar, do que falar, a partir do inconsciente, duplo como um fundo, de onde
emanam as intenções que perpassam outros dizeres.
A primeira exigência reside na mudança de perspectiva, em que o
descrever se torna indiscernível de interpretar, deslocando-se da obsessão de
evitar-se a ambigüidade, para as expressões da língua no jogo do equívoco, da
elipse, do não-dito. Em Pêcheux, temos que:
Isto obriga a pesquisa linguística a construir procedimentos (modos
de interrogação de dados e formas de raciocínio) capazes de
abordar explicitamente o fato linguístico do equívoco como fato
estrutural implicado pela ordem do simbólico. Isto é, a necessidade
de trabalhar no ponto em que cessa a consistência da
representação lógica inscrita no espaço dos “mundos normais” 21
(PÊCHEUX, idem, p. 51).

Assim, comprova-se a opacidade da língua, pelas possibilidades de
equívocos, falhas e faltas. Partindo dessa visão de língua é que a AD tem como
pressuposto que:
Todo enunciado, toda sequência de enunciação é, pois,
linguisticamente descritível como uma série (léxico-sintaticamente
determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar a
interpretação. É nesse espaço que pretende trabalhar a análise de
discurso (PÊCHEUX, 2008, p.53).

Esse entrecruzamento entre a estrutura e o acontecimento, atesta um eterno
fluxo de sentidos, constituídos em dado momento histórico e num eterno processo
de releitura. Ferreira afirma que:
O ponto de deslocamento feito por F. Gadet e M. Pêcheux é
localizado não na poesia, mas no equívoco, o lugar que afeta e
corrompe o princípio de univocidade da língua, pois é aí onde o
21

Aspas do autor.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 46

impossível da língua se encontra com a contradição da história. A
irrupção do equívoco afeta o real da história, o que se manifesta
pelo fato de todo processo revolucionário afetar também a língua
(FERREIRA, In: INDURSKY; FERREIRA, 2007, p.216-217).

A AD remete, pois, para a compreensão de que o discurso é produzido
em um determinado momento histórico e é tecido através das relações sociais.
Ainda em Pêcheux (1988, p.160), vamos encontrar que “o sentido de
uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, etc., não existe ‘em si
mesmo’”. Essa expressividade será por vezes evidenciada ou mesmo silenciada,
em decorrência das posições ideológicas que estão em jogo, no processo sóciohistórico que determina o sentido das palavras. Assim, segundo Possenti (2009), o
problema de Pêcheux era:
como garantir uma teoria objetiva da leitura, se a língua ( com todo
o prestígio da lingüística) não podia ser sua garantia? Em outros
termos: como garantir que um sujeito lê adequadamente um texto
se não é verdade que seu conhecimento da língua garante a
compreensão do texto, de qualquer texto? A resposta primeira de
Pêcheux é que o discurso é tanto mais univocamente legível quanto
mais estiver ligado a uma instituição (e tanto mais quanto mais
antiga for a instituição à qual o discurso se liga). (POSSENTI, 2009,
p.13).

Assim, deduz-se que, tanto a língua como o discurso “não constituem
uma estrutura fechada, homogênea,

estável. Essa estrutura, esse todo

representável, que é a língua, comporta em si igualmente o não-todo, o nãorepresentável” (INDURSKY; FERREIRA, 2007, p.217). Portanto, se o analista só
observar o texto, e não estiver atento ao discurso que o atravessa, em suas
condições institucionais de produção ele estará impossibilitado de desvelar as
contradições de reprodução/transformação que constituem a luta ideológica de
classes. Desse modo, Orlandi, quanto ao sentido das marcas discursivas no texto
diz que:
nessa mesma direção, e agora pensando a contrapartida do sujeito,
ou seja, o sentido, estão os que defendem que o sentido pode ser
qualquer um ou os que propõem o sentido literal. Ambas as
posições se inscrevem no mesmo lugar, como a contraparte da
mesma coisa: a negação da história. O sentido, para a AD, não
está já fixado a priori como essência da palavras, nem tampouco
pode ser qualquer um: há a determinação histórica (ORLANDI,
2007c, p.27).
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 47

Dispositivos de análise da AD estão, aqui elencados e discutidos para
procedermos às análises das marcas discursivas que compõem as Sequências
Discursivas (SDs) de onde os textos, em questão nesse trabalho, se originam.
Esses dispositivos são instrumentos, que darão sustentação às análises que têm
por objetivo tornar mais lúcidas as zonas opacas e de limites pouco estabelecidos
nas fronteiras discursivas. Assim exporemos, em seguida, alguns conceitos que
compõem a AD e serão bases no desenvolvimento de na nossa análise.
2.3

Condições de produção do discurso
Poderíamos adiantar que na AD nos interessam, de início, as condições

de produção dos discursos “como categoria essencial no entendimento de como os
discursos se constituem, seus sentidos, sua atuação na realidade – com
transformação e/ou estabilização dessa mesma realidade em que é produzido”
(FLORENCIO et al., 2009, p.64-65).
As determinações sociais, políticas e econômicas da produção
intelectual de uma sociedade constituem as Condições de Produção do Discurso
(CPD). A produção intelectual cria efeitos de sentido22 sobre a realidade, e provoca
mudanças nas relações sociais, fazendo ressurgir novas significações, que foram
criadas pelas condições, em um sucessivo porvir de novos contextos históricos.
No espaço constitutivo das CPDs o sujeito é interpelado identificando-se
com determinadas formações discursivas. Em Pêcheux:
a Interpelação dos indivíduos em sujeitos (e, [...], em sujeitos de
seu discurso) se realiza através do complexo das formações
ideológicas [...] e fornece “a cada sujeito” sua “realidade”, enquanto
sistema de evidências e de significações percebidas – aceitas –
experimentadas (PÊCHEUX, 1988, p.162).

E continua evidenciando a identificação do sujeito com a formação
discursiva que o domina, onde:
A interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se efetua
pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o

22

Esse conceito será retomado mais à frente.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 48

domina (isto é, na qual ele é constituído como sujeito) [...] (idem,
p.163).

O sujeito interpelado enuncia através das palavras, texto ou imagem o
seu discurso, que constitui-se linguisticamente, e é representado por:
evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado
“queiram dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob
a “transparência da linguagem”, aquilo que chamaremos o caráter
material do sentido das palavras e dos enunciados (PÊCHEUX,
1988, p.160).

Esse caráter material do sentido, das palavras e dos enunciados, nos
textos constitui, para o analista de discurso, um ponto de partida para o
desvelamento de sentidos e do lugar social de onde o sujeito fala, o que nos faz
perceber a não transparência da língua, do texto, do sujeito. Temos em Florencio, a
seguinte explicação:
Para a AD, não há um sentido dado, único, verdadeiro, mas
sentidos vários que estão além das evidências. Procura-se
compreender como se constituem os processos de produção de
sentidos que se fazem presentes no texto e dão lugar, ao analista
do discurso, a investigar como tal texto produz sentidos. Isso
mostra que os dizeres não podem ser vistos como mensagens que
são transmitidas e compreendidas em sua transparência, mas em
seus efeitos de sentido, produzidos por sujeitos que realizam suas
escolhas, em determinadas situações, que se mostram no modo
como dizem. (FLORENCIO et al., 2009, p.65).

Expor as CPDs exige a tomada de consciência do conhecimento dos
processos sociais que engendram as políticas econômicas da produção intelectual.
Em Pêcheux, 1988, p.146, “em sua materialidade concreta, a instância ideológica
existe sob a forma de formações ideológicas (referidas aos aparelhos ideológicos
de Estado). É no discurso que essas posições políticas sócio-históricas, criam
efeitos de sentido nas superestruturas da sociedade, constituindo as estruturas
econômicas e sociais das relações sociais. Segundo Karl Marx:
Na produção social da sua existência, os homens estabelecem
relações determinadas, necessárias, independentes da sua
vontade, relações de produção que correspondem a um
determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas
materiais. O conjunto destas relações de produção constitui a
estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 49

eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciência social. O modo de produção
da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social,
política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser; é o seu ser que, inversamente, determina a
sua consciência (MARX, 1983 p.24).

Trata-se da negação do idealismo e do materialismo mecanicista, ou
seja, para Marx, o mundo dos homens nem é pura idéia, nem é só matéria, e sim
uma síntese que a transformação da realidade de uma situação previamente
ideada na consciência, permitirá superar e assim compreender as relações
jurídicas e as formas de Estado que conduzem as CPDs.
Essas asserções constituem o eterno antagonismo das classes sociais,
onde se apóia o modo de produção capitalista. As FI são encontradas em duas
formas básicas: a do capital e a do trabalho. É nesse conflito do nosso sistema
econômico-capitalista que ocorre o embate das classes sociais, cabendo ao
analista de discurso apropriar-se das marcas discursivas advindas dos processos
de reprodução e transformação das relações de produção.
As CPDs são apresentadas, como diz Maingueneau (1997, p.53), “em
um contexto social que envolve um corpus, isto é, um conjunto desconexo de
fatores, entre os quais são selecionados previamente os elementos que permitem
descrever uma ‘conjuntura’”.
Não é suficiente para o analista admitir a relação de interioridade e
exterioridade de um discurso; o modus operandi do funcionamento de uma
instituição, seu grupo e seu discurso, faz-se necessário, pois é preciso pensar a
imbricação de todos esses elementos. Nesse constante ir e vir do discurso tem-se
a produção de sentido, compreendida na AD como efeito de sentido entre sujeitos
em interlocução. Esse efeito de sentido passa pelo gesto de interpretação do
sujeito e esse gesto ocorre porque, segundo Orlandi, 2007c, p.18, “o espaço
simbólico é marcado pela incompletude, pela relação com o silêncio. A
interpretação é o vestígio do possível. É o lugar próprio da ideologia e é
‘materializada’ pela história”. E continua:
A interpretação está presente em toda e qualquer manifestação da
linguagem. Não há sentido sem interpretação. Mais interessante
ainda é pensar os diferentes gestos de interpretação, uma vez que
as diferentes linguagens, ou as diferentes formas de linguagem,
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 50

com suas diferentes materialidades, significam de modos distintos
(ORLANDI, 2007c, p.9).

Os deslizamentos constitutivos da linguagem verbal e não-verbal
agregam transformações em que o analista não só se detém no significado lexical,
mas também nos efeitos de sentidos que são produzidos em decorrência das
filiações ideológicas em que o sujeito está inserido, que são desenvolvidas no
âmbito de determinadas condições de produção.
A mensagem, até então vínculo de efeito de sentido entre dois pontos A
e B, é transpassada por processos imaginários, onde segundo Pêcheux, 2010,
p.83, “todo processo discursivo supunha, por parte do emissor, uma antecipação
das representações do receptor, sobre a qual se funda a estratégia do discurso”.
O termo mensagem, para Pêcheux, não é apropriado, porque mantém a
visão de transparência da linguagem, na medida em que entende que há uma
comunicação direta, sem falhas, equívocos, desvios, interrupções. Considerandose que o discurso não apresenta uma rigidez de sentidos estabelecidos na noção
de mensagem é que entendemos a constituição das Condições de Produção que
sustentam e determinam os discursos.
Essas condições são pensadas em dois sentidos: estrito, que diz
respeito às condições imediatas das relações de produção, que se mostram na
realidade em que os discursos foram produzidos; e no sentido amplo, que expressa
as relações de produção, a partir de um conjunto de elementos que se referem às
situações constituídas por fatores sociais, históricos e ideológicos mediatos e que
aparece nas formulações da AD, desde 1971, articulando-se à noção de Formação
Discursiva (FD) 23.
Portanto, para compreensão das CPDs em seus sentidos estritos e
amplos faz-se necessário superar as circunstâncias imediatas de produção e
enveredar pelas condições sócio-históricas que sustentam o discurso produzido. As
CPDs são constituídas das instâncias que articulam as relações de exterioridade
do discurso, como resultado das condições materiais que constituem o discurso, o
sujeito e as situações das relações sociais de um momento histórico, atravessado
pela memória sócio-histórica e ideológica de situações anteriores.

23

Esse conceito será explanado mais à frente.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 51

É das vertentes sócio-históricas da globalização seja ela no sentido
econômico ou cultural; as demandas das novas tecnologias e inserção destas na
área do design que recorremos a Cavalcante quando diz que:
No limiar do século XXI, uma das questões que atravessa os países
é lidar com o mundo globalizado. Os termos globalização, reordenamento mundial, reestruturação produtiva, flexibilização do
mercado fazem parte dos discursos políticos da atualidade para
expressar as mudanças ocorridas no mundo, após a Segunda
Guerra Mundial e sugerem mudanças no curso da sociedade
capitalista (CAVALCANTE, 2007, p.57).

O desenvolvimento de novas retóricas continua Cavalcante, não
implicam rupturas com o capitalismo e sim novas abordagens de configuração do
sistema, onde a base de sustentação dessas mudanças constitui-se: “da sua
natureza contraditória, a combinação de velhos pensamentos e práticas em uma
nova forma; as relações de produção dessa ‘nova sociedade’ continuam
sustentadas no processo de exploração do homem pelo homem” (AMARAL apud
CAVALCANTE, idem, p.57).

2.4

Ideologia, formação Ideológica e formação discursiva
Vamos, num primeiro momento, explanar o sentido de ideologia que

embasa nosso trabalho, fazendo uso de alguns autores que postulam definições de
ideologia e discurso.
Em a Ideologia Alemã, (Marx e Engels, 2004, p.9), comparam o
fenômeno da ideologia a uma câmera obscura que inverte o real, no sentido de
mascarar as contradições entre os homens e legitimar relações de dominação e
exploração. Essa inversão deveria criar uma espécie de penumbra, anteparo, não
permitindo a sua nitidez, deixando às classes dominadas a reprodução de sua
dominação. Esta fórmula segundo Louis Althusser,
aparece num contexto nitidamente positivista. A ideologia é
concebida como pura ilusão, puro sonho, ou seja, nada. Toda a sua
realidade está fora dela. A ideologia é portanto pensada como uma
construção imaginária cujo estatuto é exatamente o mesmo
estatuto teórico do sonho nos autores anteriores a Freud. Para tais
autores, o sonho era o resultado puramente imaginário, quer dizer
nulo, de “resíduos diurnos”, apresentados numa ordem e
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 52

composição
arbitrárias,
(ALTHUSSER, 1983, p.83).

por

vezes

mesmo

“invertidas”

Essa penumbra encontra-se na produção e reprodução da existência
dos homens em sociedade, é um processo que ocorre a partir de posições
teleológicas. Nessa capacidade de pré-estabelecer um fim em seus atos, temos o
conceito de “prévia-ideação” 24. Nessa busca de alternativas para seus atos, as
ações do homem vão se complexificando em suas escolhas. Em Lukács temos a
denominação dessas posições em: teleológicas primárias e secundárias.
A primeira está voltada à transformação da natureza, no processo de
troca orgânica entre os homens e o ser natural, transformando a natureza e por ela
transformado surgindo, à medida que estas necessidades são respondidas, novas
necessidades e novos sentidos mais complexificados. A segunda é voltada para a
persuasão de outros indivíduos, para que ajam de uma determinada maneira, e
assim organizem melhor a processualidade das respostas que um determinado
grupo organizado exige pela complexidade com que esse ser social vai se
estruturando.
Essas ações darão origem a contextos sociais específicos que têm a
função de regular a práxis social. É no desabrochar de uma classe social, que a
ideologia, não apenas justifica, mas opera essa práxis cotidiana, atendendo aos
interesses de classes e fazendo com que o processo de produção e reprodução
esteja de acordo com a ideologia implantada.
Assim Althusser, em seu livro Aparelhos Ideológicos de Estado (1983),
formula o que ele chamou de sua primeira tese, a de que: “A ideologia representa a
relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”.
Deixando evidente que trata-se das relações imaginárias dos indivíduos com sua
condições de existência. Não basta interpretar a inversão, como no exemplo da
máquina fotográfica, ou mesmo sua deformação para resgatar o seu conteúdo
verdadeiro. Pois para Althusser “o objeto da ideologia não é o ‘mundo’, mas a
relação do ‘sujeito’ com o mundo ou, mais precisamente, com suas condições reais
de existência”

24

No sentido atribuído por Lukács (1979, p.17) como prévia-ideação, capacidade de antever o
resultado com o planejamento da ação.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 53

Althusser (op.cit.) formula sua segunda tese: “a ideologia tem uma
existência material”. Essa existência material ocorrerá quando o sujeito vivencia a
ideologia à qual está submetido, numa representação do mundo determinada, seja
ela no âmbito educacional, militar, religiosa, compactuando com as relações de
produção e de classe. Quando o indivíduo,
em questão se conduz de tal ou qual maneira, adota tal ou qual
comportamento prático, e, o que é mais, participa de certas práticas
regulamentadas que são as do aparelho ideológico do qual
“dependem” as idéias que ele livremente25 escolheu com plena
consciência, enquanto sujeito (ALTHUSSER, 1983, p. 90).

É através dessa condição que o sujeito é “recrutado” para ser tecido
pelos fios ideológicos que determinarão as suas Formações Discursivas. Em
seguida, Althusser formula a sua terceira tese, onde extrai a sua noção de
“interpelação” de indivíduos em sujeitos, conduzindo-os para sua auto-sujeição
construindo-se a perfeição do processo de sujeição Ideológica. Segundo Pêcheux
& Fuchs:
isso ocorre de tal sorte que cada um é conduzido, sem se dar
conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a
ocupar o seu lugar em uma ou outra das classes sociais
antagônicas de modo de produção (PÊCHEUX & FUCHS, 2010,
p.166).

Esses são os princípios de conformações ideológicas básicos das teses
Althussurianas que conduzem o conceito de ideologia na AD, em suas origens,
encontramos em Brait (2010) que essas idéias vêm corroborar com Mikhail Bakhtin
e seu Círculo26 na crítica aos teóricos quanto à questão ideológica até então
exposta, afirmando que:
os teóricos marxistas procuravam estabelecer uma ligação direta
entre acontecimentos nas estruturas socioeconômicas e sua
repercussão nas superestruturas ideológicas. Além disso, o outro
ponto de partida para o estudo da ideologia é o combate da
perspectiva que vinha sendo defendida pelos estudiosos de então,
marxistas, lingüistas, psicólogos e teóricos em geral das Ciências
25

Grifos nosso.
O pensamento bakhtiniano não é constituído apenas pelos escritos desse filósofo da linguagem,
mas também pela produção de intelectuais de diferentes áreas que com ele participaram, nas
Rússias compreendidas entre os anos 1920 e 1970, de vários e produtivos Círculos de discussão e
construção de uma postura singular em relação à linguagem e seus estudos.
26

Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 54

Humanas, ao colocar a questão da ideologia ora na consciência,
ora como um pacote pronto, advindo do mundo da natureza ou
mesmo do mundo transcendental. (BRAIT, 2010, p.167-168).

Mas, subjetivada e interiorizada, como uma ação que estaria única e
exclusivamente na cabeça do homem, ou mesmo emanando desta como num
passe de mágica, a ideologia “degeneraria e morreria”. A troca de conceitos,
fazendo uso da linguagem, é inerente ao ser social, o que o conduz à tomada da
consciência de si mesmo, dessa troca; o reconhecimento do outro faz com que o
social preceda o individual.
O que se entendia de ideologia vai, pois ao encontro de um disfarce e
ocultamento da realidade oficial e não-percepção da existência das contradições e
da existência de classes sociais, promovida pelas forças dominantes. Essa
definição, conceitua ideologia oficial e do cotidiano. A primeira implantando uma
concepção única de produção e a segunda, nascendo e se constituindo dos
encontros casuais, nos nascedouros dos sistemas de referências pelas condições
de produção e reprodução da vida.
Essa relação é estabelecida e intermediada pelos sistemas de signos e
pela sua capacidade de estar presente em todas as relações sociais. É pelo signo
que temos a porta aberta, o caminho, para fazer a ponte entre língua, ideologia e
sujeito, pois as relações sígnicas encontram-se em constante mudança fazendo
saber “como o signo reflete e refrata a realidade em transformação” (BAKHTIN,
2006, p.41).
Em Konder, temos que:
O caminho por onde a investigação da ideologia pode avançar é,
então, o caminho proporcionado pelo estudo de todos os tipos de
atos de fala. É no que os sujeitos falam (ou então nos silêncios
sintomáticos, isto é, no que os sujeitos calam no interior do discurso
que estão fazendo) que se processa a criação ininterrupta da
ideologia. (KONDER, 2003, p.115-116).

Porém, a dialética interna do signo ideológico nos caminhos da
investigação, não é evidente. A linguagem, de modo geral, nos avizinha em
contradições mais evidentes: ela própria e sua capacidade de realimentar-se e ao

Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 55

mesmo tempo expor seus limites. É o Paradoxo da linguagem27 que “nos ajuda a
perceber, então, que a questão da ideologia não pode ser efetivamente resolvida
no âmbito exclusivo da linguagem” (idem, p.163).
A constatação de diferentes vozes feita por Bakhtin, através do estudo
das obras de Rabelais e de Dostoievski, que resultaram nos seus livros, onde o
estudo da polifonia está presente, “Estética da Criação Verbal” e ”Problemas da
Poética de Dostoiévski”, expõe o conceito de romance dialógico e polifônico.
Concebe a recriação dos seres e caracteres humanos à multiplicidade de vozes da
vida social, cultural ideologicamente representadas. Assim, na polifonia linguística,
esse signo se situa no nível da língua; já na polifonia da AD é um fenômeno do
discurso e, nesse sentido, fenômeno concreto.
Bakhtin constrói seus conceitos de monologismo, dialogismo e polifonia,
carregados de conteúdos histórico, social e ideológico. Brait (2010, p.193) afirma
que Dostoiévski não encontrou a multiplicidade de planos “no espírito, mas no
universo social objetivo”, onde “as relações contraditórias entre eles não são um
caminho ascendente ou descendente do indivíduo, mas um estado de sociedade”;
e a “multiplicidade de planos e o caráter contraditório da realidade social eram
dados como fato objetivo da época”. Nesse procedimento dialógico, se constrói a
imagem do homem, num processo de comunicação interativa, no qual eu me vejo e
me reconheço através do outro “eu”; na imagem que o outro faz de mim, descobrese o “homem no homem”.
Esse enfoque do homem em seu movimento interior nas reflexões
discursivas, vinculado ao histórico social e cultura de sua época, não é mera
linguagem de discurso de autor, mas reflexos das esferas em que esse sujeito está
inserido. Em Brait, lembrando a modernidade discursiva de Bakhtin temos que:
é possível entrar em contato com as repercussões das formulações
de Bakhtin sobre os gêneros discursivos no contexto das interações
de uma cultura dialogicizada não apenas pela palavra, mas por
linguagens da comunicação, seja dos ritos ou das mediações
tecnológicas. Afinal, ao refletir sobre o diálogo como forma
elementar da comunicação, Bakhtin valorizou, indistintamente,

27

Aquele pelo qual ela nos remete implacavelmente a uma realidade que vai além de seus
domínios. [...] e nos ajuda a perceber, então, que a questão da ideologia não pode ser efetivamente
resolvida no âmbito exclusivo da linguagem (KONDER, 2010, p.163).
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 56

esferas de usos da linguagem que não estão circunscritas aos
limites de um único meio (BRAIT, 2010, p.163).

Para Bakhtin, pela constituição de sentidos, o sujeito não se constitui
apenas pela discursividade, mas por toda atividade humana, oferecendo espaço
para encontros da subjetividade. “o domínio do ideológico coincide com o domínio
dos

signos:

são

mutuamente

correspondentes”

(BAKHTIN,

2006,

p.32),

comportando sempre uma ambivalência que reflete e refrata uma realidade, quer
dizer, pode apreendê-la com fidelidade ou não, mas sempre ressignificando-a.
A AD entende a ideologia como procedimento que se naturaliza pela
história, transubstanciando em formas outras e não entendendo como ocultação de
sentido e sim simulação em formas de “transparências”. Em Orlandi temos que na
AD trabalha-se com os processos de constituição da linguagem e
da ideologia e não com seus conteúdos. Na perspectiva da AD a
ideologia não é “x” mas o mecanismo de produzir “x” [...] é
interpretação de sentido em certa direção, direção determinada
pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos
imaginários. A ideologia não é, pois, ocultação mas função da
relação necessária entre a linguagem e o mundo (ORLANDI,
2007c, p.30-31).

Portando, a ideologia instaura-se, nas relações sociais de produção,
determinando os horizontes econômicos e culturais dos seus integrantes. Esse
processo não ocorre em condições iguais para todos os homens que fazem parte
de uma determinada sociedade, mas através do funcionamento da ideologia.
Instaura-se numa diversidade de controle através das Formações Ideológicas (FI)
que, numa dada circunstância, intervêm nas relações sociais, como forças em
conflito, no interior de uma conjuntura ideológica, estabelecendo valores, atitudes e
representações dos sujeitos parcialmente interpelados.
No desenvolvimento histórico dessa complexificação de uma sociedade,
as FIs são discursos de refração, representadas nas práticas sociais concretas,
pois, através destas, modificam-se, conformando-se à novos paradigmas
condicionantes das classes sociais em conflito.
A partir desse entendimento, temos em Florencio que:
O funcionamento da ideologia se dá, pois, nas relações sociais de
produção e abrange as determinações de classe (na sociedade
capitalista) e os horizontes culturais dos integrantes de uma
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 57

formação social, uma vez que a cultura é a condição dada para
consolidação e desenvolvimento da ideologia (FLORENCIO, 2009,
p.37)

Porém, encontram-se no gesto de interpretação do sujeito os equívocos
do discurso que é campo de interesse da AD. Para Orlandi (2007a, p.47) “É o gesto
de interpretação que realiza essa relação do sujeito com a língua, com a história,
com os sentidos”. Os gestos de interpretação expõem os fundamentos de
dominação de uma classe sobre outra e encontram-se no gerenciamento de duas
FIs fundantes: do capital e do trabalho.
Em Orlandi (idem, p.42) temos: “os sentidos” das formações dos
processos discursivos “não estão nas palavras elas mesmas. Estão aquém e além
delas”. “O sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas
colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são
produzidas”.
As palavras se transfiguram, propiciando novos imaginários, segundo os
lugares

discursivos

daqueles

que

as

empregam.

Essa

transfiguração

é

acompanhada de sentidos dados pelas FIs do contexto em que está inserido
aquele discurso. Conclui-se, portanto, por caminhos comuns a um conjunto de
discursos que visam a expressar posições assumidas pelos sujeitos, em diversas
práticas sociais. Esse sujeito se insere numa formação discursiva (FD), chamada
por Pêcheux como
aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma
posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da
luta de classes, determina o que pode deve ser dito (articulado sob
a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma
exposição, de um programa, etc.). (PÊCHEUX, 1988, p.160).

A noção de FD é assumida por Pêcheux, a partir do livro de Foucault
“Arqueologia do Saber” 28. Foucault usa o termo na perspectiva de enunciados
relacionados a um sistema de regras, historicamente determinadas. Pêcheux,
realizando uma releitura desse conceito, elaborou-o, como um lugar de articulação
entre língua e discurso, e formalmente envolvendo as noções de paráfrase e
polissemia.
28

Ver Foucault, Arqueologia do Saber, Vozes, Petrópolis, RJ, 1971
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 58

A paráfrase sustenta-se por uma relação de equivalência entre dois
enunciados, um deles podendo ser ou não a reformulação do outro, tentando
delimitar fronteiras tênues, próprias de uma FD. Tratando desses conceitos,
prefigurando tensões lingüísticas, em Orlandi temos que:
Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer
há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. A
paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do
dizer. Produzem-se diferentes formulações do mesmo dizer
sedimentado. A paráfrase está do lado da estabilização. Ao passo
que, na polissemia, o que temos é deslocamento, ruptura de
processos de significação. Ela joga com o equívoco. (ORLANDI,
2007a, p.36)

A paráfrase está na relação como a memória, o que se pode dizer, pelo
retorno aos mesmos dizeres, reformulados, mas sempre a partir de um dizer
sedimentado, reiterando a posição do sujeito de saber da FD. A polissemia, no
entanto, se dá como ruptura, deslocamento, no espaço do equívoco, repetindo-se a
formulação, mas com um novo efeito de sentido.
Já o pré-construído, introduzido por P. Henry (1975), segundo Pêcheux,
é concebido como um dos pontos fundamentais, o que remete a uma construção
anterior e exterior. Em Florencio temos que o pré-construido,
é sempre já-dito, como uma universalidade, objeto ideológico que
habita o enunciador em seu processo de assujeitamento/realização
de sua identificação com o Sujeito Universal de uma FD. [...] é a FD
que propicia a percepção de que sujeitos falantes, situados numa
mesma conjuntura histórica, concordam ou não sobre o sentido, [...]
é algo marcada pela contradição e pela pluralidade, estavelmente
delimitada em suas fronteiras com várias outras FDs, sujeitas a
deslocamentos causados pelas lutas ideológicas. Ou seja, toda FD
é atravessada por diferentes FDs, é definida a partir do
interdiscurso. (FLORENCIO, 2007, p. 46-47).

Essa interdiscursividade é que propõe uma multiplicidade de fios
ideológicos, como visto anteriormente, criando, através de uma instabilidade, novas
configurações de sub-campos discursivos, donde FDs se confrontam num equilíbrio
instável. Assim, criam-se espaços discursivos de onde o analista faz seus recortes,
levantando hipóteses dessas ressignificações produzidas pelas FDs, na relação
entre diferentes discursos. Temos, assim, o que a AD chama de interdiscurso,
próprio de toda FD dissimulado, em nuances de transparências transcorrendo
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 59

pelas suas opacidades; no interior dessa FD “algo fala” exposto que foi em outros
campos e tornando a significar e (re) significar sob complexos de FD que
conduzirão na formação de outros discursos, “num espaço de confronto ideológico
das relações de dominação/subordinação” (FLORENCIO et al., 2009, p.76).
2.5

“A Ilusão Subjetiva” 29
Na intervenção do sujeito no discurso, Bakhtin afirma a dimensão

dialógica da enunciação, onde todo discurso dialoga com outros discursos
incorporando elementos “pré-construídos”, produzindo outros discursos em outros
momentos históricos, e passando a constituir uma memória discursiva desse
sujeito.
Segundo Maingueneau:
toda formulação estaria colocada, de alguma forma, na intersecção
de dois eixos: o “vertical”, do pré-construído, do domínio da
memória e o “horizontal”, da linearidade do discurso, que oculta o
primeiro eixo, já que o sujeito enunciador é produzido como se
interiorizasse de forma ilusória o pré-construído que sua formação
discursiva impõe. O “domínio da memória” representa o
interdiscurso como instância de construção de um discurso
transverso que regula, tanto o modo de doação dos objetos de que
fala o discurso para um sujeito enunciador, quanto o modo de
articulação destes objetos (MAINGUENEAU, 1997, p.115).

Essa ilusão referencial que se estabelece na relação “natural” entre
palavra e coisa, surge como evidência de sentido e acontece graças ao
esquecimento, que denunciaria que a sintaxe significa e o modo de dizer não é
indiferente aos sentidos. A “ilusão subjetiva” é um esquecimento ideológico, já que
é da instância do inconsciente e resulta do modo pelo qual somos afetados pela
ideologia. “Por esse esquecimento temos a ilusão de ser a origem do que dizemos
quando, na realidade, retomamos sentidos pré-existentes.” (ORLANDI, 2007a, p.
35). Pêcheux explana essa condução, quando diz que:
o assujeitamento do sujeito como sujeito ideológico, interpelação,
de tal modo que cada um seja conduzido, sem se dar conta, e
tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o
seu lugar em uma ou outra das classes sociais antagonistas do

29

Termo spnozista - quer significar a ignorância das causas que nos determinam.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 60

modo de produção ou naquela categoria, camada ou fração de
classe ligada a uma delas (PÊCHEUX e FUCHS, 2010, p.162).

Essa ilusão opera em dois níveis, segundo Pêcheux inerentes à prática
subjetiva da linguagem, que é o “esquecimento”. Ele fala em esquecimento
número 1, onde o sujeito tem a ilusão de que é fonte do seu dizer, não percebendo
que retoma outros discursos que por ele circulam, apagando as determinações
ideológicas e discursivas.

E no esquecimento número 2, pelo fato de que o

sujeito passa a ter a ilusão de que controla o seu dizer, selecionando e induzindo
paráfrases, e assim expondo fronteiras entre o que pode e deve ser dito e o que
não pode e não deve ser dito, no que ele, Pêcheux, chama de imaginário
linguístico.
Nesse processo de reformulação e incorporação do já-dito, através do
interdiscurso, temos a formulação do intradiscurso que é compreendido como o
que está sendo dito em uma situação e momento dado, atravessado pelo
interdiscurso. Como falamos anteriormente, na relação eixo vertical (interdiscurso),
como lugar do já-dito anteriormente e esquecido e em seguida no eixo horizontal
(intradiscurso), discurso novo constituído, pertencente à esfera de formulação do
sujeito.
Temos então, o entrecruzamento do eixo interdiscursivo com o eixo
intradiscursivo levando à produção de um novo discurso. Esse trabalho de
ressignificação sempre estará alicerçado em bases construídas que são
ressignificadas com a instalação de novos sentidos, determinados pelas condições
sócio-econômicas de uma época.
2.6

Silêncio e silenciamento
O “efeito de sentido” que desenvolvemos anteriormente está presente

nas diferentes FDs, como um processo em que os sentidos podem sempre ser
outros, portanto instavelmente constituídos, como consequência da opacidade da
linguagem. Mas é a instabilidade que aponta para a tensão entre o efeito de
sentido produzido e a possibilidade constante de irrupção de outros sentidos, que
sempre poderão desestabilizar o efeito constituído. Pêcheux diz que:
o caráter material do sentido – mascarado por sua evidência
transparente para o sujeito – consiste na sua dependência
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 61

constitutiva daquilo que chamamos “o todo complexo das
formações ideológicas”. [...] o sentido é determinado pelas posições
ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual
as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é,
reproduzidas). (PÊCHEUX, 1988, P.160).

Essa instabilidade aponta para a possibilidade de no dizer haver sempre
um não dizer, “ou ainda que aquilo que é mais importante nunca se diz, todos
esses modos de existir dos sentidos e do silêncio nos levam a colocar que o
silêncio é ‘fundante’” (ORLANDI, 2007b, p. 14)
Pausas na interlocução dos sujeitos são constitutivos destes, no sentido
das reformulações e reconfigurações do dizer, pois o excesso do dizer poderá
resultar na ausência de sentido. Nesses entremeios da linguagem do silêncio,
“este, por sua vez, é o não-dito visto do interior da linguagem. Não é o nada, não é
o vazio sem história. É o silêncio significante” (ORLANDI, idem, p.23).
Esses meandros do discurso estão no que o texto silencia, pois em todo
enunciado podemos perceber a possibilidade de outro enunciado silenciado. Diante
desse movimento discursivo, essa relação silêncio e sujeito é assim exposta por
Orlandi:
Quando o homem, em sua história, percebeu o silêncio como
significação, criou a linguagem para retê-lo [...]. Assim, em face do
discurso, o sujeito estabelece necessariamente um laço com o
silêncio, um silêncio; mesmo que essa relação não se estabeleça
em um nível totalmente consciente. Para falar, o sujeito tem
necessidade de silêncio, um silêncio que é fundamento necessário
ao sentido e que ele reinstaura falando (ORLANDI, idem, p.27 e
69).

Na perspectiva assumida por Orlandi e corroborando com ela, temos
que:
o silêncio não fala. O silêncio é. Ele significa. Ou melhor: no
silêncio, o sentido é30. Podemos mesmo chegar a uma proposição
mais forte, invertendo a posição que nos é dada pelo senso comum
(e sustentada pela ciência), na qual a linguagem aparece como
“figura” e o silêncio como “fundo”. Desse modo, podemos dizer que
o silêncio é que é “figura” já que é fundante. Estruturante, pelo
avesso (Idem, p.31).

30

Grifo da autora.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 62

Eni Orlandi estabelece uma diferença entre o que ela chama de silêncio
fundador e a política do silêncio. Nesta, estabelece um recorte entre o que se pode
dizer e o que não se pode dizer, enquanto no primeiro, o fundador, não estabelece
nenhuma divisão: ele significa por si mesmo. Mas, ainda segundo ORLANDI
(op.cit.), encontramos o conceito de política do silêncio, dividida entre o
silenciamento e a censura. O primeiro, se refere a “algo que é dito para que não
seja dito o indesejável, o não permitido, porque há sentidos que, se não evitados,
podem trazer à tona sentido outros que apontam para uma formação discursiva
que precisa ser excluída” (FLORENCIO et. al, 2009, p.82). O segundo interdita
sentidos, impõe silêncio, impede discursos, exclui a possibilidade de uma FD vir à
tona.
Então naquela conjuntura ideológica dada, as FDs determinam “o que
pode e deve ser dito” (Haroche, Henry, Pêcheux, 1971), onde a censura
estabelecerá espaços de relações de forças onde “ela configura, de forma
localizada, o que, do dizível, não deve (não pode) ser dito quando o sujeito fala”
Assim, vê-se que a constante luta de classes de grupos aparentemente
homogêneos, presente no nosso sistema econômico-capitalista, tenta escamotear
através do apagamento/silenciamento as construções ideológicas do efeito de
sentido dos discursos produzidos em uma determinada FD onde algo é dito para
evitar que se diga de outro modo.
Faz-se necessário evidenciarmos as particularidades presentes nas
enunciações em que ocorrem os silenciamentos, nos parâmetros de uma análise
discursiva, pelas marcas discursivas que apontam ou não, para sentidos apagados
recusando-se, dessa forma, a opacidade do não-dito.
O silêncio, como vimos, não depende do dito para significar, não remete
ao dito; ele se mantém como tal. “não é o vazio, ou o sem sentido; ao contrário, ele
é o indício de uma instância significativa. Isso nos leva à compreensão do ‘vazio’
da linguagem como um horizonte31 e não como falta” (ORLANDI, 2007b, p.68). Ele
permanece em silêncio e significa, pois, ao dizermos algo, impreterivelmente
apagamos outros sentidos existentes e não desejáveis para o enunciador, em uma
situação histórico-social determinada. Em Orlandi temos que:
31

Grifo da autora.
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 63

O silêncio não está apenas “entre” as palavras. Ele as atravessa.
Acontecimento essencial da significação, ele é matéria significante
por excelência. [...] Se diz “x” para não (deixar) dizer “y”, este sendo
o sentido a se descartar do dito. É o não dito necessariamente
excluído. Por aí se apagam os sentidos que se quer evitar, sentidos
que poderiam instalar o trabalho significativo de um “outra”
formação discursiva, uma “outra” região de sentidos (ORLANDI,
2007b, p. 69 e 73).

A autora afirma também que nesse espaço discursivo estamos diante de
uma relação fundamental entre o dizer com o não dizer e estabelece uma distinção
entre o silêncio fundante e a política do silêncio (silenciamento). O fundante indica
que todo o processo de significação conduz para uma relação necessária ao
silêncio, já no silenciamento temos que o sentido é sempre produzido de um lugar,
espaço de posição do sujeito, onde ele estará, necessariamente, não dizendo
outros sentidos. Assim o dito apaga a produção de sentidos que se quer evitar e
impede que se instale o trabalho significativo de outra FD.
Expostos alguns conceitos teóricos, na perspectiva da AD, que
pretendemos utilizar para análise e interpretação em nosso corpus de pesquisa e
considerando a própria natureza do objeto, o discurso dos egressos de um curso
superior tecnológico nos faz crer que precisamos sair da materialidade linguística
em questão, para compreendê-la em sua exterioridade, no social, espaço em que o
linguístico, o histórico e o ideológico se imbricam, constituindo o sujeito pela sua
práxis social.
Essa constituição implicada pelas convenções e impedimentos sociais
da educação, passa pelo conceito de operário/educador quando no Livro I do
Capital, capítulo XIV, Marx afirma que “só é produtivo o operário que produz maisvalia para o capitalista, ou aquele que trabalha para tornar rentável o capital”. Em
Magalhães temos:
Marx acrescenta que um professor pode ser igualmente produtivo
se, além de promover mudanças na mentalidade dos alunos,
realiza seu próprio trabalho para enriquecer o patrão. E conclui que,
desse modo, não vê diferença entre um trabalhador de uma fábrica
de salsicha e um trabalhador de um fábrica de ensino
(MAGALHÃES, 2009, p.99).

Portanto, em nossa práxis social o ser humano está sempre construindo
novidades, produzindo e modificando sua forma de viver, já que é um ser que
Sílvio da Silva Pena

Reflexões Teóricas 64

realiza suas escolhas, apesar das determinações condicionantes do inconsciente e
das determinações sócio-históricas, em que o construir e reconstruir constituem a
teia complexa e delicada da dinâmica imposta pelas ideologias.
Na análise dos discursos dos egressos do curso em Design Gráfico do
IFPE que compõem o corpus de nossa pesquisa, aportamos na noção de
incompletude do sujeito, pois o mesmo sempre está em eterno processo de (re)
significação. Essa incompletude revela-se nos discursos, filiados a determinadas
FDs dominantes que escamoteiam as lutas de classes em uma condição
desenvolvida e imposta pelas classes dominantes.
Após elencarmos alguns dispositivos do referencial da AD, elegemos
algumas sequências discursivas32 que farão parte do nosso próximo capítulo e,
como critério orientador da seleção dessas seqüências, optamos pelas marcas
discursivas que nos conduziram na busca das respostas às questões formuladas
nas entrevistas aos egressos, expostas no capítulo seguinte. Essas sequências
fazem parte dos discursos circulantes constituídos na educação profissional
brasileira, atravessados, portanto, da condição histórica e ideológica em nossa
sociedade.

32

Segundo Amaral (1999, p.54), as sequências discursivas são as formas concretas do discurso,
onde se dá o encontro das duas dimensões discursivas, quais sejam: o intra e o interdiscurso. É
nessa concreção que se pode (m) identificar a (s) posição (ões) que o sujeito ocupa em relação às
formações ideológicas e às formações discursivas que representam essas formações ideológicas na
sociedade.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 65

3.

O DISCURSO DOS EGRESSOS

3.1

O corpus em questão
As categorias de análise discursiva de linha francesa expostas no

capítulo anterior, serão trazidas neste capítulo como dispositivo teórico analítico
para o nosso corpus que se constitui de sequências discursivas (SDs), extraídas
das entrevistas com os egressos concluintes do IFPE do Curso Superior
Tecnológico em Design Gráfico, em virtude de termos como objetivo desse trabalho
contribuir para uma reflexão acerca da trajetória dos egressos do Curso Superior
Tecnológico de Design Gráfico do IFPE campus Recife.
O nosso estudo verificou as práticas interativas dos sujeitos, quando da
sua associação com o mundo do trabalho e das relações com o seu perfil de
formação, no âmbito acadêmico-tecnológico. Os métodos dispostos caracterizaram
os procedimentos adotados, para desvelar os sentidos não transparentes, mas que
podem ser desvendados nas práticas discursivas do corpus delimitado.
Para essa pesquisa, fizemos uso da entrevista semi-estruturada, pois,
além de constituir-se uma técnica de coleta de dados mais utilizada no âmbito das
ciências sociais, se mostrou como forma de melhor atender ao objetivo de nossa
pesquisa qualitativa, através da análise.
Procuramos revestir as nossas entrevistas com parâmetros de
informalidade, no sentido de facilitar a desenvoltura, tanto do entrevistador, como
do entrevistado, mas não implicando, com esse procedimento, falta de foco no
tema específico. Essa atitude revestiu-se da intenção de permitir ao entrevistado
falar livremente sobre o assunto.
Elaboramos uma pauta, levando em consideração os meandros
dicotômicos da relação ensino técnico e tecnológico; perfil desse egresso e
mercado de trabalho; os eixos sociais e mercadológicos dessa área de ensino; a
relação entre a instituição e o egresso. Esses são pontos de interesse da pesquisa
que visam constituir, através da identificação das FDs, os parâmetros que nos
possibilitaram desvelar os interesses de classes, marcados nessas SDs
analisadas.

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 66

Em um primeiro momento, encaminhamos cinquenta e seis e-mails, para
os egressos que concluíram o curso, sob a atual matriz curricular, com um pequeno
texto, em anexo, explanando a intenção da entrevista, embora saibamos, conforme
nossa visão sobre texto33 que a compreensão não estaria garantida.
Após esse primeiro contato, procuramos agendar, via telefone, as
entrevistas, levando sempre em consideração a comodidade do entrevistado,
como, dia, local, hora, ou mesmo outras condições que facilitassem o
estabelecimento desse diálogo.
Ao chegarmos ao local estabelecido pelo egresso, expúnhamos o
TCLE34, uma cópia da matriz curricular cursada por ele e a intenção de gravar, via
áudio, a entrevista. Após o seu consentimento e, diante de já termos expressado a
intenção da entrevista via e-mail, procurávamos no início e durante a gravação não
tecer nenhum comentário que pudesse influenciar as respostas e a sua linha de
pensamento.
Seguem assim, as perguntas que elaboramos como possíveis de serem
respondidas e a quarta e última pergunta, possibilitando o egresso da conclusão do
seu pensamento.

Questões:

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente com o
mercado de trabalho?
4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações finais.
Após a conclusão da entrevista, gravada em áudio, o TCLE era assinado
e rubricado por ambos, egresso e entrevistador. Em posterior momento, essas
entrevistas foram transcritas e constam do material em anexo.
33

Estamos tratando texto como unidade significativa não fechada – embora possa ser considerada
uma unidade inteira com começo, meio e fim – “pois ele tem uma relação com outros textos”
(Orlandi, 1996, p.54), pela possibilidade de reflexão sobre sua exterioridade, o que dá margem a
múltiplas interpretações.
34

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 67

3.2

Análise das entrevistas
Após delimitarmos nosso corpus de análise, empreenderemos o

levantamento de pistas discursivas contidas nas respostas às questões levantadas
nas entrevistas, em busca dos sentidos que o discurso dos egressos produz, de
que lugar falam e o que silenciam, a partir do dispositivo teórico da AD, como
sustentação para a análise.
Para que haja melhor compreensão e rápida consulta as transcrições
das entrevistas no anexo, procedemos com algumas abreviações, como SD para
Sequência Discursiva, que está acompanhada de numeração decimal. Já a letra
“E”, corresponde ao Egresso, acompanhado também da numeração. Acreditamos
que dessa forma poderemos tornar a leitura e consulta mais eficiente.
Gostaríamos também de salientar que denominamos egresso para
todas as respostas, independente de gênero, pois não é nossa intenção, nem faz
parte da nossa pesquisa, identificar o gênero ou mesmo fazer relação de gênero
com as enunciações dos nossos sujeitos da pesquisa.

Questões levantadas:
1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
E1 SD135: É, eu acho que como profissional de comunicação, né36, no caso
comunicação visual, ele exerce uma função importante de aproximar empresas,
é, é, aproximar empresa, empresa com a sociedade, né? Tipo: tem esse papel
comunicativo, principalmente, é, é, que ele vai exercer através da linguagem
visual, eu acho que essa é a principal função do designer.

Esse discurso apresenta condições de produção que vão além das
imediatas (estritas) constituídas pelo momento de sua realização, em que o sujeito
está sendo inquirido sobre sua posição, a respeito de sua função social, como
profissional da comunicação visual. Mas, em busca das CP mediatas (amplas),
podemos constatar que os dizeres não se restringem às determinações
momentâneas e, muito menos, à materialização de um discurso, mas são,
fundamentados na história.
35

A numeração que foi colocada junto às SDs refere-se às que estão em anexo, para facilitar a
consulta.
36
As entrevistas foram transcritas literalmente, da forma como os entrevistados falaram.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 68

Tentaremos, pois, através das pistas que nos mostram o dito, mas que
nos apontam, também, para o que não está dito, o que está dito em outros lugares
e o que deixou de ser dito, mas, poderia sê-lo.
Ao dizer que ... ele (o profissional da comunicação) exerce uma função
importante de aproximar empresas, é, é, aproximar empresa, tem esse papel
comunicativo, o entrevistado E1 expõe sua visão do papel do profissional da
comunicação, de aproximar empresas. E ele continua dizendo que essa

“aproximação” é da empresa com a sociedade, através da linguagem visual. A
“aproximação”, entre empresas, logo acrescida de empresa com a sociedade, não
diz que, em se tratando de design gráfico, visa à fixação de um produto, de uma
marca, no mercado. Há um aparente sentido para “aproximação” como o
estabelecimento de um diálogo com a sociedade. Mas, como os sentidos não são

fixos e podem ser vistos a partir da Formação Discursiva (FD) em que são
produzidos, podemos deduzir, pela inserção do sujeito no mercado37, com bases
na ideologia do Capital, que o rege, que o que o profissional pretende, e não está
dito, nessa divulgação pela propaganda bem estruturada, com um design
adequado e atraente, é a “aproximação” com a sociedade na direção da
valorização do produto (ou marca), tendo como meta a venda que gere lucro ao
mercado.
Estamos diante de uma materialidade que nos traz um discurso inserido
numa formação social de dominação capitalista, em que se busca a manutenção
de um discurso da classe dominante.
Assim, sentido e sujeito se inserem na formação ideológica do capital
que dá lugar a discursos próprios da formação discursiva do mercado,
estabelecedora do que deve ser dito, procurando comunicar numa direção única,
induzindo o sujeito a aceitar as idéias que lhe são passadas como verdades únicas,
pela via da relação com o simbólico.
O profissional da comunicação aproxima empresa com a sociedade, mas,
apenas em seu papel comunicativo, conforme dito na SD em questão.
37

Segundo Amaral (2005, p.137) a “Formação Discursiva do Mercado se define como um lugar de
encontro de elementos de saber já sedimentados; ou seja, elementos pré-construídos, produzidos
em outros discursos, que são convocados no interior dessa formação discursiva, quer seja para
serem confirmados, quer seja para serem negados, mas sempre para organizar os discursos que a
representam”.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 69

Insistimos na expressão papel comunicativo, evocada num efeito de
sentido, em referência à posição ideológica do mercado, com seu “papel”
reconhecido como veiculo de informação (comunicativo) que procura aproximar as
empresa, empresa com a sociedade. No entanto, essa aproximação apaga o

sentido de que, no caso, comunica-se para cooptar, seduzir, instigar, contribuir
para a aceitação de determinado produto. A ideologia que sustenta tal posição dá
lugar ao discurso que põe à mostra a posição ideológica em que o sujeito se
coloca/é colocado, por “um conjunto de atitudes e representações que nem são
individuais, nem universais, mas, dizem respeito às posições de classe em conflito
(Haroche e alii (1971, p.102). São, pois, valores acionados, representativos da
classe dominante que oferece algo a ser aceito pelas diferentes classes, impondolhes, sem possibilidade de questionamentos. Comunicar traz, na SD, um efeito de
sentido de direção única e não de diálogo, no sentido de veicular uma mensagem
que parte da ideia de um emissor - a empresa via designer - para um receptor - a
sociedade. Chega-se a esse efeito pelo fato de que a audiência, de uma maneira
geral, é passível de assujeitar-se, sendo levada a aceitar o que lhe é apresentado.
Essa apresentação requer artifícios próprios da arte do designer na sua pretensão
de seduzir o consumidor, a exemplo da escolha das cores, formas e na direção de
instigar determinada usabilidade de um produto.
No entanto, assumindo a visão de que o sujeito, embora não esteja
isento de assujeitar-se à realidade, tem a possibilidade de realizar escolhas; a partir
dessa mesma realidade é que sabemos que sempre será aberta ao consumidor a
opção de reagir ao propósito mercadológico. Ou seja, ele (o sujeito), apesar de ser
passível de aceitar o que lhe é socialmente colocado, com a intenção de convencêlo daquele valor, é capaz de se rebelar e seguir uma direção contrária.
Evocando BAKHTIN (2006), lembramos que a relação dialógica somente
se dá entre enunciados de diferentes sujeitos falantes, na relação de sentido com o
outro, como constitutivo de uma outra voz que habita o sujeito e o seu discurso.
Convém lembrar que, nessa relação de sentido acontece uma ressignificação, pois
o sujeito reflete e refrata (cf. op. cit.) sentidos que o circundam.
O não-dito está silenciando a possibilidade de sentidos outros que
poderiam desestabilizar a formação discursiva dominante. Comunicar evita dizer
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 70

impor e estabelece a ilusão de interação mercado/sociedade. Assim, o sentido de
Comunicar aparece convocado de uma memória discursiva, um lugar de retorno a

discursos outros, sedimentados em sua formação profissional, que vieram à tona
pela via do esquecimento.
A AD refere-se à memória discursiva como um
lugar anterior, onde os já ditos, (estão) prontos a serem
convocados [...], como um lugar de retorno a outros discursos, não
como uma repetição, mas como ressignificação. Ao mesmo tempo
em que aciona a memória, essa memória sofre alterações na
medida em que ocorrem lacunas, falhas, apagamentos do que não
pode ou não deve ser dito (FLORENCIO et al., (2009, p.79).

Entretanto, esse esquecimento, provocado pelo silenciamento é sempre
instável e pode, a qualquer momento, ter seus limites ultrapassados pelo dizível de
sentido outros que afetarão a sua constituição. Numa outra formação Ideológica
(do trabalho), comunicar não poderia produzir um efeito de sentido de dialogar, de
dar lugar a outras posições, à interferência de discursos outros, mas de impor
verdades inquestionáveis e a posição ideológica do Capital.
Dando continuidade à análise, trazemos uma outra SD, ainda em
resposta à pergunta: Qual o papel do profissional designer gráfico na
sociedade?
E2 SD5: O designer gráfico ele, ele vai trabalhar com comunicação visual. Então, o
que é comunicação visual? É tudo que a gente vê, é tudo que a gente gesticula, é
tudo que, um símbolo que a gente vê, então o designer vai organizar esse processo
da comunicação visual, então é, é fazer, é justamente esse processo de
organização, de processo, pra fazer com que chegue uma comunicação mais,
digamos mastigada para o cliente, pra sociedade no geral.

Por que fazer com que chegue uma comunicação mais, digamos
mastigada para o cliente, pra sociedade no geral? Mastigar produz um efeito de

sentido de detalhar, deixar mais claro o que se quer transmitir, visando a uma
garantia de controle dos sentidos. É um trabalho discursivo que se realiza
apagando o não-dito de que, mastigando-se, evita-se que sentidos outros sejam
produzidos. O sujeito é atravessado por um sentido que lhe vem como único,
previamente definido, para que não haja a possibilidade de outros sentidos serem

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 71

produzidos diferentemente da FD que lhe dá lugar, a do mercado, incutida no
imaginário social, sem que os afetados por tal discurso se dêem conta disso.
Mastigada no sentido de não propiciar o pensar; o refletir; não haver

possibilidade de julgamento. É o consumidor que está na ponta do processo, como
sujeito a ser atravessado pela FD do mercado, silenciando-se que esse
consumidor, em vez de ser seduzido a comprar deveria ser chamado a um diálogo
que o permitisse avaliar a sua necessidade de adquirir o produto, em todas as
possibilidades de ganhos e perdas.
Essa posição ideológica do mercado se confirma, ainda, no trecho da
SD13 do E4, também em resposta à pergunta Qual o papel do profissional
designer gráfico na sociedade?

E4 SD13: Pra mim é isso, um facilitador da compreensão, do objetivo, digamos,
mentor do cliente, se chega um cliente para mim querendo que eu venda uma
banana, um exemplo, eu tenho que fazer de forma que atraia o público, aquele
público que ele quer que compre aquela banana, eu tenho de fazer de um jeito
que atraia o público.

Pela via de um sentido de submissão à determinação do cliente, pode-se
perceber, pelas marcas discursivas - eu tenho que fazer de forma que atraia o
público, aquele público que ele (o cliente) quer que compre aquela banana, eu tenho
de fazer de um jeito que atraia o público - que o enunciador se identifica à formação

discursiva do cliente como sujeito social, representando ambos os discursos do
sistema capitalista em sua FD do mercado, no que se refere indução do público: de
forma que atraia o público; promoção das vendas: se chega um cliente para mim
querendo que eu venda uma banana [...] eu tenho que fazer de forma que atraia o
público, aquele público que ele quer que compre aquela banana.

O sujeito desse discurso é o entrevistado, mas, tal discurso se constitui
de um interdiscurso da propaganda, da criação de desejos e necessidades
construídas pelo consumismo, constituído nas relações sociais de uma sociedade
capitalista, onde a lógica do mercado direciona dizeres e carências. O sujeito
identifica-se com esses discursos (o interdiscurso acima citado, produzido nessa
sociedade) trazendo em seu discurso o que é relevante em sua produção. São
sentidos que, na sociedade de consumo, estão historicamente sedimentados e
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 72

naturalizados através de um processo ideológico que dá lugar a um novo discurso
que, embora reproduza já-ditos anteriores, próprios do mercado – como: quem
adquirir o produto conseguirá prestígio, atingirá a felicidade - tem a “ilusão” de

produzir o novo, pois, os “sujeitos não se constituem sem memória, da mesma
forma que discursos não se produzem sem memória e sem inconsciente”
(FLORENCIO et al., 2009, p.79).
A reprodução dos discursos - de melhoria da qualidade de vida por ter que circulam na sociedade de consumo, (ratificamos: dentro da lógica do mercado),
aparece, também, de forma mais explícita, na fala do E5, em relação à mesma
pergunta:
E5 SD17: O papel do design gráfico na sociedade? Eu acredito que seja traduzir
visualmente as ideias da sociedade, é transformar, é traduzir propriamente, é, em
forma de cartazes, todo tipo de peça gráfica, o que a sociedade produz, o que ela
deseja, inclusive.
Traduzir visualmente as ideias da sociedade, deixa clara a posição de

porta-voz da sociedade que legitima os discursos circulantes – o valor da detenção
de propriedade de qualquer objeto ou bem -, articulando-o para que se efetivem
movimentos próprios da FD do mercado que precisa escoar a produção e, para
tanto, criar sempre novas necessidades disfarçadas pela idéia de que produzem o
que ela deseja, inclusive. Apaga, silencia o sentido desse desejo. Ou seja, de que

esse desejo é produzido pela ideologia do Capital, evocado, provocado e incutido
no consumidor.
O sujeito da SD acima, fala desse lugar da posição ideológica do capital
e se põe na individualidade do que ele supõe ser “seu discurso”. Assim, a
materialidade discursiva aponta para um sujeito determinado por tal formação
ideológica, inserido na lógica do mercado, pois as relações sociais lhe impedem de
colocar-se num outro imaginário social, levando-o a identificar-se com a formação
discursiva dominante – do consumismo.
Corroborando nesse sentido, quando em E6 na SD26 temos a afirmação
de que o papel dele (designer) é criar soluções visuais, acrescentamos, fazendo
uso da SD25 do E7 que afirma:
E7 SD25: Assim é... eu avalio muito a importância do trabalho com símbolos,
assim... imagem enquanto símbolo, eu acho que toda imagem dialoga com o
indivíduo, mesmo aquela placa que a gente ignora, mesmo aquele, aquela placa de
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 73

sinal que já tão batido, que a gente passa sempre, é... ela mantém um diálogo com
o indivíduo, inclusive, acho que foi uma aula do senhor, que o senhor lembrou,
chamou atenção pra isso da gente olhar com mais cuidado, pra determinados
pontos, determinados signos. Acho assim, a importância do trabalho da gente é
saber como manejar corretamente a... esses signos.
Toda imagem dialoga com o indivíduo, parece deixar ao sujeito a

possibilidade de refletir, de se interrogar a respeito do material visual que lhe é
apresentado. No entanto, quando o sujeito diz que a importância do trabalho da
gente é saber como manejar corretamente a... esses signos, ele (o sujeito) declara

sua posição ao recorrer ao termo manejar corretamente. Manejar sugere manipular,
de modo a cooptar, convencer, aliciar o leitor do design. Assim, esse discurso
aponta para o mesmo sentido de diálogo visto no discurso do entrevistado 1, como
comunicação direta, em direção única e não como possibilidade de o sujeito refletir
e refratar o sentido que lhe atravessa.
O criar soluções visuais tem o propósito de comunicar, no sentido de
manipular para persuadir a comprar e evidencia a importância do profissional do
design gráfico como sujeito que possui o domínio dos signos - ou que, pelo menos,
deve possuir - para servir aos interesses do capital.

Retornando ao entrevistado E8, vemos que continua afirmando que:
E8 SD29: o designer gráfico é instrumento da comunicação da sociedade. Ele é
o comunicador visual, ele é a pessoa que consegue dizer sem palavras, [...] ele é um
papel crucial pra comunicação, pra que as pessoas consigam se comunicar sem
necessariamente falar.

O designer é instrumento da ou para a sociedade? Na verdade, ele está
nas duas situações: é um sujeito que, como partícipe da sociedade de consumo,
representa-a a partir da ideologia do Capital que o atravessa, embora pertença à
classe trabalhadora, e, ao mesmo tempo, é um instrumento de manutenção dessa
ideologia,

ao

identificar-se

como

profissional

que

segue

os

parâmetros

determinados pela lógica do mercado.
Assim, representa a sociedade pelo assujeitamento à FD do mercado,
dominante na sociedade influenciada pelos ditames das regras do consumo.
Evidencia-se na ausência de diálogo, pois, segundo ele, não é preciso,
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 74

necessariamente falar, dialogar, basta persuadir, pela manipulação dos signos. Isso

produz um efeito de sentido de que ele detém os elementos compositivos do
design que lhe dão a prerrogativa de direcionar as escolhas do consumidor.
Novamente comunicação aparece silenciando que isso se dá, apenas numa via
única. Silencia-se para não deixar vir à tona que a escolha do consumidor, se fugir
ao seu controle reduz o efeito de sentido e, consequentemente, o lucro.
Passaremos então para a segunda pergunta feita aos egressos, onde
procuramos, nas marcas discursivas, a relevância social de um curso superior
tecnológico para esses egressos e, assim, desvelar a relação destes com a
sociedade diante do curso superior tecnológico que eles concluíram.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
A maioria dos discursos se encaminhou visando ao aspecto da busca de
uma racionalidade dicotômica entre o que é uma atividade prática e teórica. Ou
mesmo quais desses aspectos seriam mais relevantes para um curso superior
tecnológico.
Vejamos:
E1 SD2: [...] todo curso superior tem sua importância e pelo fato dele ser
tecnológico, talvez exista um aspecto muito mais da prática, o que, da prática,
do exercer as ferramentas tecnológicas, por assim dizer,...
Pelo fato dele ser tecnológico, talvez exista um aspecto muito mais da
prática nos remete à memória discursiva do aspecto dicotômico, que nos

conduzem à concepção, sempre presente, do ensino técnico sobre relação teoria e
prática, como separadas na relação ensino/aprendizagem. Nesse sentido,
podemos perceber a memória discursiva que se imiscui, da visão tradicional de
ensino/aprendizagem que trabalha com a separação entre teoria e prática. Além
disso, transparece aqui o discurso que permeia a relação de prestígio para os
estudos teóricos, em detrimento da prática, visto que há um discurso circulante na
sociedade de que os cursos tecnológicos não se fundamentam teoricamente, mas
trabalham a prática como imitação de modelos, o que nos leva a detectar, ainda, o
discurso do tecnicismo que preconizava a formação de profissionais técnicos, para
o atendimento da demanda do mercado de trabalho. Talvez exista um aspecto
muito mais da prática, aponta, ainda, para o aligeiramento que permeia as
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 75

decisões do MEC, na perspectiva de reduzir custos, mas produzir um sentido de
que o Governo está agindo para que haja profissionais sendo inseridos no
mercado. Além disso, há um silenciamento a respeito da separação entre trabalhos
manual e intelectual.
Essa visão está evidenciada na SD6, do E2, também em resposta à
pergunta qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?

E2 SD6: [...] fazer um curso técnico de design gráfico é meio complicado, porque
assim, um curso técnico é, já diz, é técnico, é prático, uma coisa prática e o
design gráfico não só é uma coisa técnica, prática, também, também é, é você
saber usar da técnica, mas, você também tem que saber da teoria, então, daí
um, um graduando, um, um curso superior, pra você também ter um apanhado de,
de teoria, teoria junto com a técnica, eu acho que a importância vem daí.

O sujeito confirma a visão de predominância da prática no curso técnico:
um curso técnico é, já diz, é técnico, é prático. Trazemos novamente o estatuto da

memória discursiva. O discurso do entrevistado se apresenta com marcas do
interdiscurso da relação teoria/prática, composto de discursos das diferentes visões
de ensino-aprendizagem acima citadas, bem como da relação de poder entre os
cursos profissionalizantes e os acadêmicos, este último considerado como
formação de prestígio, por constituir a elite do conhecimento, numa sociedade que
prima pela valorização das elites.
Lembramos, então, Courtine (In: FREDA; FERREIRA, 1999, p. 15) que,
tratando de memória discursiva, se utiliza de um exemplo que trata de uma
fotografia em seus aspectos icônicos de “veracidade”, muito comum ao longo do
século XX , como meio de expressão.
Segundo, Courtine, trata-se do apagamento de Clémentis, na imagem
fotográfica por Klement Gottwald38. Segundo a anedota, na ocasião da composição
fotográfica, Clémentis era um colaborador de Gottwald e, nessa oportunidade,
Clémentis havia emprestado seu chapéu de pele a Gottwald para protegê-lo do frio.
Após a inimizade política se constituir, por uma traição de Clémentis, apaga-se a
imagem, em todas as fotografias circulantes em Praga, do doravante inimigo
político, mas Gottwald permanece com o chapéu. Assim a iconicidade “chapéu”

38

Courtine traz, para ilustrar o conceito de Memória Discursiva essa anedota de Milan Kundera.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 76

restaura a memória discursiva. Ou seja, há um novo discurso, mas o chapéu
conserva esta memória, ressignificando-o.
O exemplo de Courtine o design gráfico também convoca em nós o
efeito de sentido produzido pela edição de imagens, onde o designer conduz
demandas que se ajustem às FDs inerentes ao consumo de uma determinada
sociedade. Como se viu, o design ao intervir na expressividade fotográfica procura
apagar a memória, mas a marca discursiva chapéu convoca-a. Assim, isso também
pode ocorrer na praticidade do ensino técnico e tecnológico. Ela é trazida em busca
da efetivação para o mercado de trabalho, pois a indústria procura o profissional
pronto, para preencher vagas do dito mercado.
Corroborando com essa visão, na resposta à pergunta qual é a
relevância social de um curso superior tecnológico, E5 afirma que o curso
técnico

E5 SD18: [...] preenche uma lacuna, principalmente, no Brasil, do camarada em
vez de passar cinco, seis anos dentro de uma faculdade, ter um curso muito
mais direcionado a um trabalho mais prático, [...], ele já pode sair diretamente no
mercado.

Ou seja, a indústria não precisa se preocupar nem com o tempo, nem
com a formação desses indivíduos, o importante é que eles estejam aptos para o
mercado, pois, já estarão familiarizados com a prática e esta indústria não precisa
investir na formação desses sujeitos, indo ao encontro da urgência desses em
adentrar o mercado.
Observemos ainda: do camarada em vez de passar cinco, seis anos
dentro de uma faculdade, ter um curso muito mais direcionado a um trabalho mais
prático, ou seja, “direcionado” à classe social menos favorecida. A situação se

inverte, pois o sujeito desse discurso desvaloriza o curso realizado numa
faculdade, como longo e não direcionado ao mercado de trabalho. A elite do
conhecimento de que falamos acima é no discurso dessa última SD vista como
inócua, incapaz de dar conta das necessidades mercadológicas. O sujeito aparece,
mais uma vez, impregnado pela lógica do mercado, que é a de ter profissionais
destinados a executar ofícios, com base na prática adquirida num curso
tecnológico, para preencher determinados lugares, na indústria, no comércio, como
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 77

máquinas de reprodução, diante das condições de produção, postas por essa
formação social. São, pois, as relações sociais de produção da ideologia do
Capital, determinadora da existência de classes, que consolidam os discursos e as
práticas sociais, conforme constatamos nas SDs aqui analisadas.

Verifica-se a mesma posição no egresso oito na SD40:
E8 SD32: Então assim, não adianta você saber filosofar sobre design e não
conseguir sentar na frente do computador, vai ser bacharel então, entendeu?
Então assim, pra ser tecnólogo, um cara que tem que tá preparado pro
mercado, tu tem que saber mexer, tu tem que saber fazer alguma coisa, vai se
especializar em alguma coisa, [...].

Ao responder à pergunta qual é a relevância social de um curso
superior tecnológico? E8 afirma que: não adianta você saber filosofar sobre
design e não conseguir sentar na frente do computador, vai ser bacharel, então,
entendeu? Nesse aspecto o egresso aponta para o discurso do elitismo do

conhecimento (intelectualidade), circulante nos meios em que se supervaloriza o
estudo técnico. Segundo ele, o curso de bacharelado, apesar de ser mais extenso,
não contempla os aspectos de uma praticidade imediata, para assumir um posto de
trabalho na indústria, posto de trabalho, que esse egresso aspira de forma
imediata. Para o entrevistado, deter-se em teorias é filosofar, ou seja, saber sobre,
não lhe parece oferecer condições para ser um profissional.

O discurso do E3 ratifica essas posições:
E3 SD10: É mais pelo fato de você na teoria, porque nem todo curso tecnológico que
lhe dá essa possibilidade tão boa de prática, você já sair pronto pra o mercado e
não ter apenas o conhecimento e não saber executá-lo, [...] já sai da faculdade pro
mercado de trabalho pronto pra executar, [...] muitas empresas, elas procuram o
profissional na área de tecnologia visando esse ponto, pensando nessa situação,
poxa, ele é um tecnólogo em determinada área, então, ele por ser tecnólogo, ele já
tá, é, familiarizado com a prática, o que acontece em muitas faculdades que vê muita
teoria, passa dois, três, quatro anos e não vê, e vê pouco de prática, vivência.

Essa prática passa pela intervenção econômica muito anterior às
práticas globalizantes do final do século XX, explanadas no primeiro capítulo, e
também, com o impacto das novas tecnologias, principalmente informacionais, no
nosso caso – as implicações da tecnologia na área do design gráfico do final do
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 78

referido século. São marcas discursivas que prevalecem e remetem a uma
memória discursiva proveniente da formação discursiva do Capital. Por outro lado,
a pretensão de apagar a memória discursiva, suscitada pelas dúvidas do
prosseguimento dos estudos, através do Parecer nº 436/200139, traz para o
discurso dos egressos a incerteza da plena efetivação do curso superior, diante da
sociedade.

Assim temos na SD do E4:
E4 SD14: [...] eu falo para algumas pessoas, não, eu tenho curso superior, mas tu
fez na Federal, na UFPE? Não, eu fiz no IFPE. Lá é superior ou é técnico? É
superior? Tem essas barreiras ainda, que o pessoal ainda não estão
compreendendo, que tecnólogo também é superior, aí, só chama de técnico. Tu é
formado em técnico, né? [...] mas, a nível nacional, acho que ainda tá crescendo
essa questão de aceitação de curso tecnólogo ser como superior.

Essas questões resvalam pelos aspectos dicotômicos entre prática e
teoria. Por tratar-se de um curso de curta duração, dois anos, e pela abordagem
voltada para a tecnologia, os alunos já ingressam com uma memória discursiva
estabelecida entre aspectos técnicos de um curso superior tecnológico e um curso
superior de bacharelado que incorpora, segundo o egresso, aspectos mais
teóricos, isto se dá, como já dissemos, pelo discurso da desvalorização do curso
técnico pela sociedade, apesar da procura do mercado pelo profissional e da
empregabilidade que diz o curso oferecer.

Vejamos a SD do E7:
E7 SD26: [...] o curso tecnológico ele tem uma diferença muito grande pro
bacharelado, pro bem e pro mal, é... já passei por dois, [...] e assim uma coisa que
eu via muito diferente assim, que então, você tem que aprender aquela técnica,
você tem que aplicar aquela técnica, em si, é o fato de que, o... por ele ser
superior tecnológico, ele vai muito direto ao ponto, então assim, a gente não se
perde de tanto, por assim dizer. Essa especificidade também gera dificuldades
pra gente, porque, como ele é tecnicista, então, você tem que aprender aquela
técnica, você tem que aplicar aquela técnica, e às vezes a gente acaba não
tendo tempo pra questão teórica, que também é muito importante dar essa
base para aplicação técnica, [...]

39

Verificar comentário sobre o Parecer na página trinta e cinco que trata do perfil do aluno.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 79

Evidencia-se assim essa relação com prioridade para a efetivação da
técnica pela possibilidade de ser aplicada: então, você tem que aprender aquela
técnica, você tem que aplicar aquela técnica. Não é qualquer técnica, é a que foi

repassada. Mas diz também que você tem. Ou seja, parece não haver escolha.
Além disso, ele inicia dizendo que: o curso tecnológico ele tem uma diferença muito
grande pro bacharelado, pro bem e pro mal. No caso – a dicotomia bem x mal - o
bem parece referir-se à prática e o mal à ausência de teoria no curso tecnológico.

Esse sujeito apresenta-se de acordo com a sua formação social,
construído pelas práticas sociais e ideológicas que o constituem, exatamente pelas
determinações sociais do Capital, que o colocam na posição de decidir pelo curso
que lhe colocará mais rapidamente no mercado. Mas, como se vê, embora
reconheça o valor da teoria, ele realiza a sua escolha pelo curso que lhe oferece a
prática, a partir da objetividade.
Esse mesmo sujeito conclui:
E7 SD26: [...] acho extremamente importante, porque ele doutrina a gente pra uma
conduta de mercado. [...] o CEFET aqui me ensinou a trabalhar rápido, a ter que
pensar em soluções rápidas, adequadas e rápidas, talvez num curso de
bacharelado precisasse de um tempo maior pra poder fazer uma análise, então
assim, claro que o ideal seria ter um tempo adequado, mas, o mercado nem
sempre age dessa forma, ele quer o trabalho fei..., ele quer, exige que o
trabalho seja feito naquele tempo, [...].

Ele aponta as diferenças básicas entre os cursos, embora deixe
entrever, pelas marcas discursivas, que há uma necessidade própria do mercado:
soluções rápidas, adequadas e rápidas. Mas a rapidez impede de fazer uma análise,

o que seria possível, segundo o sujeito desse discurso, num curso de bacharelado:
talvez num curso de bacharelado. Assim, as imposições do mercado levam o sujeito

a aceitar as condições de produção que prescrevem práticas reguladoras do
trabalho, pelo Capital: o mercado nem sempre age dessa forma, ele quer o trabalho
fei..., ele quer, exige que o trabalho seja feito naquele tempo.

Convém notar que o citado sujeito acha o curso tecnológico
extremamente importante, porque ele doutrina a gente pra uma conduta de mercado.

É extremamente importante porque doutrina. Isso confirma, como dissemos acima,
a ideologia reguladora do Capital que tem o mercado a seu serviço, criando
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 80

necessidades de sobrevivência, forjadas numa sociedade de classes, em que os
menos favorecidos lutam por “um lugar ao sol” - para manter posições de prestígio
da classe dominante -, reproduzindo as relações sociais de produção.
Outras marcas discursivas, em certo sentido, quando da nossa pergunta
- Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico? Apontam para
filiações à FI do trabalho, onde o aspecto social encontra-se mais presente:

E7 SD28: [...] você identifica dificuldades e vantagens que você, que você percebe
que talvez em discussão com a universidade, você consiga melhorar, a trazer o
lado social pra discussão do design é extremamente importante, por que é que eu
penso dessa forma? A gente tem uma visão muito de mercado, e o mercado, ele
(o mercado) nem sempre leva em consideração o que a sociedade
necessariamente quer, ele tá focado naquele grupo dele e ele só enxerga
aquilo.

Este entrevistado é o mesmo (E7) que, ao apontar a lacuna da teoria no
curso técnico, chama isto de mal, mas, diante das Condições de Produção estritas,
de um mercado que dá preferência ao profissional técnico, responde à nossa
pergunta: qual é a relevância social de um curso superior tecnológico,
valorizando a técnica que lhe rende uma condição imediata de inserção nesse
mercado de trabalho que põe necessidades prementes. Entretanto, o sujeito oscila
em diferentes posições: ao mesmo tempo em que realiza sua escolha pela situação
que atenderá à sua urgência e aponta a relevância do curso, reconhece a
necessidade de trazer o lado social pra discussão do design e acrescenta que A
gente tem uma visão muito de mercado, e o mercado, ele (o mercado) nem sempre
leva em consideração o que a sociedade necessariamente quer, ele tá focado
naquele grupo dele e ele só enxerga aquilo.

Essas marcas discursivas conduzem para uma possibilidade de um
trabalho social do designer e as implicações da intervenção deste em um mercado
que nem sempre leva em consideração o que a sociedade necessariamente quer.
Mas é o que a sociedade quer? Não seria um trabalho que permitisse levar à
sociedade a verdade sobre o produto oferecido, mostrasse vantagens e
desvantagens, evitando a persuasão e o aliciamento, permitindo que os sujeitos,
esclarecidos, escolhessem sem indução?

Conclui, acusando o designer de tá
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 81

focado naquele grupo dele e ele só enxerga aquilo. Ou seja, na sua formação e

quando no mercado de trabalho, esse profissional, filia-se ao discurso do Capital.
Ele vislumbra espaço para discussão, mesmo com a prerrogativa de um talvez,
quando afirma: talvez em discussão com a universidade, você consiga melhor, a
trazer o lado social pra discussão do design. Ou seja, se na universidade há espaço

para discussões teóricas, é a reflexão que humanizará mais o design gráfico.
Dando continuidade ao seu discurso, este mesmo sujeito diz:
[...] é importante pra gente compreender até onde vai e o que é que uma mensagem
que a gente veicula, o que é que ela suscita em terceiros. É uma dimensão que,
assim... a gente não discute a fundo, a gente fica na superficialidade.

Dessa forma, pode-se ver um discurso que avalia, a partir da pergunta
que lhe foi feita sobre a relevância social do curso que lhe foi ofertado, a
necessidade de uma reflexão sobre seus efeitos na sociedade. Ele faz uso do
termo superficialidade, como confirmação, de certa forma, da omissão em relação
aos males sociais, quando os interesses do Capital se sobrepõem a uma formação
ética.
Esse mesmo egresso afirma, ainda, que:
(se deve) ter cuidado com o grupo que tá ao lado, porque a gente tá em
sociedade, a gente não tá isolado e finaliza dizendo que sentiu muita falta disso no
curso, não que não tenha sido tocado, foi, mas foi de maneira superficial.

O sujeito reconhece a ausência no curso de um olhar para o outro, de
uma formação profissional mais voltada para o ser social, sem a dominância da
formação ideológica do Capital.
Ao ser questionado sobre a relevância social de um curso superior
tecnológico este sujeito parece refletir sobre o curso, a partir de uma diferente

perspectiva e aponta para outras aplicabilidades do design gráfico:

E8 SD32: [...] essa questão de estimular o, o papel social do designer pode ser
trabalhado também durante a faculdade. Joga ele (o designer) dentro de uma
escola pública e diz: e aí, como pode solucionar o problema disso aqui? Quais são
os problemas que existem aqui? Pra essa criança aprender melhor? Pra essa
criança se sentir confortável nesse lugar? Pra ela querer lanchar? Pra ela querer
almoçar aqui, oh! E não ficar subnutrida, então, então é o que? Por que isso tá
parecendo um presídio? Então, estimular, bota ele, bota ele, na sociedade, presta
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 82

atenção! Olha ao teu redor, o que melhorou? O que pode melhorar? expor mais ele
pra amadurecer em sociedade, porque é pra eles que ele vai trabalhar, ele não
vai trabalhar dentro de uma sala, pesquisando, vendo como o designer mi, mi, mi,
evoluir pa, pa, não é isso, ele vai trabalhar pro mercado, [...].

Esse repensar transporta o profissional para um espaço de trabalho
carente de condições mínimas para a educação, apontando que há possibilidade
de a profissão ser exercida a serviço da classe trabalhadora. No entanto, a FD do
consumismo, em que se produz o discurso da persuasão do possível comprador –
elemento indispensável na manutenção das relações sociais que valorizam os bens
de consumo - se mostra no uso do termo mercado, para falar do espaço educativo
público, no caso, a escola.
O egresso em design gráfico passa pelo dilema entre empreender, como
designer, mudanças que possam contribuir para uma sociedade mais justa e
igualitária e os ditames de um mercado de trabalho. Assim, poucos foram os
egressos que constituíram seus discursos em preocupações com os aspectos
sociais que o curso poderia suscitar.
A terceira pergunta que fizemos, como complemento de nossas
investigações, vem, de certa forma, desenvolver melhor a reflexão acima iniciada
pelo E8, porque vamos exatamente abordar a relação entre como o profissional do
design gráfico se vê e o que o mercado pretende dele:

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?

Falar do perfil do egresso nos remete ao desenvolvimento e formatação
do curso. Do processo de passagem dos CEFETs para IFs e da implantação do
curso tecnológico em design gráfico, na primeira década do século XXI,
desenvolvido no capítulo I
Estamos diante de uma mudança institucional, na transformação de um
curso técnico de nível médio em curso superior. É uma mudança que ocorre nos
meio educacionais, mas que vem atravessada por um processo discursivo eivado
de valores sociais historicamente sedimentados.

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 83

Vejamos, quanto a essa pergunta, o que nos diz o entrevistado
identificado por nós como número 1:

E1 SD3 [...] muita gente já sai realmente trabalhando com, na área, mas não sabe
explicar a teoria não sabe da história, não sabe explicar quem são os maiores
designers do mundo, sabe, não sabe dizer quais são suas influências artísticas,
sabe, mas realmente saem trabalhando, isso é bom, né? Mas, eu sinto falta de
um pouquinho a mais de teoria que muita gente num tem ainda, não saca.

O discurso dicotômico entre prática e teoria é, mais uma vez, esboçado
aqui com uma sutil insegurança: trabalhando com, na área, mas não sabe explicar a
teoria, não sabe da história, mas em seguida muda de posição, em virtude do

entrevistador - professor da área e também seu professor durante o curso procurando modalizar a crítica com isso é bom, né?

Para apoio à posição

assumida busca a aprovação do professor: “né”, precisando da concordância do
entrevistador para a aprovação da mudança de sentido, ocorrida para não
desestabilizar a FD da educação que estabelece uma relação de hierarquização. A
condição de produção de um discurso que tem como interlocutor o professor,
inquirindo sobre resultados da formação na escola em que estudou e,
principalmente, como ex-aluno deste mesmo professor, leva à transformação.
Estamos diante, pois, de uma relação indissolúvel entre sujeitos, língua, história
que constituem as posições ideológicas.
O uso do diminutivo, um pouquinho a mais de teoria, também modaliza e
silencia o fato que vem sendo questionado pelos entrevistados sobre a pouca
teoria abordada no curso do IFPE.

Apesar de essa teoria configurar-se como

“noção”, no âmbito do design gráfico, o egresso procura o uso do diminutivo para
expor a sua insatisfação quanto à pouca discussão teórica, por parte da
instituição/professores durante o curso tecnológico.
Com a colocação do “né”, tenta, ao reverter seu discurso, junto ao
interlocutor, apagar, amenizar suas críticas ao curso, como responsável pela
definição do perfil do designer gráfico. Em Courtine, temos que:
são posições de sujeito40 que regulam o próprio ato de enunciação:
o interdiscurso, sabe-se, fornece, sob a forma de citação, recitação
ou preconstruído, os objetos do discurso em que a enunciação se
40

Grifos das autoras.
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 84

sustenta ao mesmo tempo que organiza a identificação enunciativa
(através, do regramento das marcas pessoais, dos tempos, dos
aspectos, das modalidades...) constitutiva da produção da
formulação por um sujeito enunciador. E que acaba, assim, por
desaparecer aos olhos de quem enuncia, garantindo, na aparição
de um “eu”, “aqui”, e “agora”, a eficácia do assujeitamento (In:
INDURSKY; FERREIRA, 1999, p.20).

A memória discursiva dos cursos técnicos, como protagonizadores de
uma formação direcionada à prática, se mostra aos entrevistados como
responsável pelo perfil de egresso em design gráfico do IFPE.
Além disso, o sujeito do discurso diz que muitos designers egressos do
IFPE (muita gente) não sabe dizer quais são suas influências artísticas, sabe, mas
realmente saem trabalhando. Vê-se, pois, que o importante é – retornando à

pergunta feita - estar condizente com o mercado de trabalho e não com
compromissos para com uma sociedade de desiguais. Nesse sentido, o
compromisso existe, mas com os ditames do Capital. E seu perfil é produzido de
acordo com o que estabelece o mercado e, para tanto, ele não precisa na sua ótica
- que é a do mercado – saber quais são suas influências artísticas, até porque tal
conhecimento, se refletido, poderia levar a uma análise das sociedades, através
dos tempos, o que, consequentemente, incorreria no risco de desvendar a
ideologia que sustenta o design gráfico, como estudo voltado para atender ao
mercado.
Para definir o perfil do designer, todos discutem a questão da escassez
teórica do curso, mas sempre trazendo a contradição, apontando para a eficácia da
prática, pois é o que o mercado requer.
O E1 afirma ainda:

E1 SD4: [...] eu não vou dizer que deveria ter menos trabalho, porque no final das
contas é bom que exista esse, essa pressão exercida pelos professores em cima
dos alunos, éé mas, é basicamente isso, eu achei fraca a questão teórica,
realmente no geral, nos quatro módulos, mas, entendo que o foco do curso é
outro, mas senti.
E8 SD31: e você não aprende as partes de teoria, e assim, a parte teórica que já é
pouca, porque a gente tem que tá o tempo inteiro na frente do computador
trabalhando, você não vai conseguir atender bem ao mercado, [...] eu acredito
que o IFPE me preparou bem pro mercado, eu tenho condições de saber a hora,
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 85

de, uma coisa que eu sempre lembro que a gente brincava, os três pilares, né:
preço, tempo e qualidade do trabalho
E6 SD24: [...] embora a teoria seja uma coisa não tão aprofundada, mas, talvez
até nem precise ser assim, importante que você saiba do que se trata e consiga
fazer um projeto, até porque essa é idéia do curso tecnológico. É acho que é
importante incentivar, por essa razão, os alunos a fazer um maior estudo
literário, assim, de estar mais antenado com os livros,[...].
.

Mas, vejamos o que diz o E8 - já citado em outras FDs – em outro trecho
de seu discurso:
E8 SD32: [...] Eu acho, que assim, a estrutura da, da universidade, principalmente,
biblioteca é muito, muito, muito, fraca. [...] eu quase não li durante a faculdade,
eu quase não li nada, nada, nada, eu senti falta realmente, tanto que eu não fui
direto pro mestrado, porque eu fiz: meu Deus! Eu vou levar o maior acocho do
mundo se eu entrar num mestrado agora, porque eu não vou consegui ler a
quantidade de coisas que eu preciso ler.
Eu quase não li durante a faculdade, eu quase não li nada, nada, nada, eu
senti falta realmente, tanto que eu não fui direto pro mestrado. Aqui E8 sinaliza um

prejuízo na continuidade de sua formação, pela insuficiência da teoria no Curso.
Mas traz, também, um discurso que, dizendo dessa lacuna causadora de entraves
para o crescimento de seus conhecimentos na área, silencia que a necessidade de
um curso de mestrado também se inclui nas práticas sociais de competitividade,
que estabelecem perfis de vencedores e vencidos, ideais constituídos nas
determinações sociais da relação capital/trabalho e, de certa forma, assimilados no
meio acadêmico.
Em SDs dos discursos até aqui analisados vê-se o movimento de
processos discursivos de contradições, exercidos pelos sujeitos, ora determinados
pelas suas origens sociais, ora exercendo a relativa autonomia, que os impulsiona
como fazedores de história.
Noutra SD que compôs as respostas sobre o perfil desse egresso e sua
relação com o mercado, mediada pela instituição educacional tecnológica, o
egresso 3 expõe suas considerações diante da falta de conhecimento em
ferramentas, (aplicativos informacionais) pertencentes à área do design gráfico.
Nessa oportunidade, vale salientar que não se constitui como proposta

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 86

metodológica do curso, a inclusão do ensino sistemático dessas ferramentas dentro
da matriz curricular do curso:
E3 SD11: [...] me faltou muito dos conhecimentos em ferramentas, o que não é
proposta do curso, acredito, mas, que seja, mas, vê muito também da prática,
não é a toa que é tecnológica, mas, faltou conhecimentos em ferramentas, não é a
toa, que no final do curso, tem e durante o curso tive que fazer curso de
extensão fora, entendeu?

Retomando o discurso do E8, verifica-se que essa é, também, mais uma
carência apontada:
E8 SD32: [...] não adianta você saber filosofar sobre design e não conseguir
sentar na frente do computador, vai ser bacharel então, entendeu? Então assim,
pra ser tecnólogo, um cara que tem que tá preparado pro mercado, tu tem que saber
mexer, [...].

Mas, mexer em que? Nos meios informacionais, nos aplicativos
inerentes ao curso? O que aparece aqui aponta para a inexistência de treinamento
dessas ferramentas e de disciplinas específicas para esta prática.

Assim, o

egresso, num primeiro momento, retoma o discurso dicotômico teoria/prática, mas
com uma defesa para a prática: não adianta você saber filosofar sobre design e não
conseguir sentar na frente do computador, vai ser bacharel então, entendeu.

Aparece, então, um fato novo nas entrevistas – a maioria dos egressos
critica a falta de teoria - uma ironia sobre a teoria: não adianta você saber filosofar
sobre design. O sujeito veicula, em sua fala, idéias, valores dominantes na

sociedade da urgência, do pragmatismo, do tratamento à filosofia como inútil e
praticada pelos que não agem na direção da produção que toca as engrenagens do
mercado. Ou seja, é preciso chamar, induzir, cooptar, seduzir e isso só poderá ser
feito se o designer agir, criando meios para isso e, segundo o entrevistado, a
melhor forma de fazê-lo será sabendo mexer, fazendo uso do computador porque o
mercado ele exige que você aprenda software, conforme E5 aponta:

E5 SD20: Eu acho que não é só uma questão daqui, a universidade não é feita
pra tá ensinando software, mas, o aluno, o mercado ele exige que você aprenda
software, se não for aqui, que seja em outro local, entendeu, e ai eu não sei
como é que se, eu também não sei se a melhor opção é você colocar um
professor pra dá uma cadeira específica de software, entendeu?

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 87

Como resposta as suas inquietações sobre sua formação e no intuito de
buscar espaços imediatos no mercado de trabalho, o aluno aceita a possibilidade
de procurar fora da instituição essa atualização: se não for aqui, que seja em outro
local, entendeu. Novamente se mostra cuidadoso em relação às críticas ao curso

do IFPE: eu não sei como é que se, eu também não sei se a melhor opção é você
colocar um professor pra dá uma cadeira específica de software, entendeu?

Esse discurso, quando afirma que não é proposta do curso o ensino
dessas ferramentas, pois não consta na matriz curricular o ensino efetivo da
ferramenta, remete a uma memória discursiva presente no primeiro módulo do
curso, onde é lugar comum a afirmação pelos professores aos alunos, de que o
curso não possui esse perfil instrumentalizador de ferramentas informacionais.
Porém, o mesmo, contradizendo e subvertendo a sua afirmação como
um efeito de sentido de compensação para justificar seu dizer, acrescenta: mas, vê
muito também da prática. Prática esta, certamente não atrelada ao ensino em

disciplinas específicas para uso de aplicativo, por este motivo precisou de um curso
de extensão para preencher a aparente lacuna na área, apontando assim, para
uma suposta deficiência do curso.
O sexto egresso na SD23 incorpora ao seu discurso as incertezas de um
perfil, onde o mesmo não poderia avaliar até que ponto o IFPE contribuiu para sua
formação em designer:

E6 SD23: O meu perfil, eu achei, eu achei, que eu saí, assim, eu antes de entrar eu
já tinha uma noção, eu já tinha criado coisas pra área, mas, era aquela coisa
muito, digamos, jogada, uma coisa muito solta e o curso fez com que eu
conseguisse estudar um pouco de cada coisa e conseguisse moldar esse
conhecimento mais profissional, uma coisa mais aplicada, então eu achei que
eu saí de lá preparado pra entrar no mercado, essa foi a minha impressão, mas
assim, não sei se, como eu tinha alguma base, isso foi o meu perfil, não sei se para
todos os perfis, seria isso.

Como se vê, ele afirma: eu antes de entrar eu já tinha uma noção, eu já
tinha criado coisas na área.

Essa incerteza, da contribuição na sua formação,

aponta duas linhas de discurso que se constituem pelo uso da prática para entrar

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 88

no mercado quando diz: uma coisa mais aplicada, então eu achei que eu saí de lá
preparado pra entrar no mercado.

Outra FD alinha-se ao perfil doutrinário do ensino tecnicista afirmando
que: o curso fez com que eu conseguisse estudar um pouco de cada coisa e
conseguisse moldar esse conhecimento mais profissional.

Perpassa o compartilhamento de um conhecimento anterior que a escola
poderia aproveitar, já que o egresso fala em conhecimento anterior, tanto teórico
como prática “solta”, portanto, sem amarras.
Esse pré-construído em que o ensino tecnológico estenderá amarras
sobre o seu conhecimento que aparentemente estaria disperso, faz a Instituição de
ensino, segundo o egresso, moldar o seu conhecimento solto, preparando-o para
entrar no mercado, moldando seu perfil, sendo essa a sua impressão ao final do
curso de um ensino voltado para o mercado de trabalho.
O egresso afirma também que deveria, por conta do seu conhecimento
anterior, como eu tinha alguma base, ou seja, possuir uma compreensão dos
procedimentos teóricos e práticos do curso, fazendo da sua construção do
conhecimento, um diferencial no seu perfil e, assim, por ser possuidor dessa
condição, não ter certeza do perfil de saída de todos os egressos.
Voltando ao E8 encontramos, ainda, a presença de um discurso
paternalista sobre a instituição:

E8 SD32: [...] ele prepara você pra amadurecer, eu cheguei no IFPE, uma
menina, tinha acabado de sair da escola, que tava no mundo das fantasias, e, por
mais que eu não entendesse, muitas horas, o olhar seguro, não, a falta de
flexibilidade, (do professor) hoje eu sinto que isso foi importante pra me
amadurecer,[...].

E continua...

E8 SD31: [...] o IFPE não deixou de me dar uma tapa, não deixou de dizer, olhe eu
tive vários professores que olhava e dizia: não, eu sou um cliente exigente,
isso aqui não tá legal não, volta, e volta mesmo, então assim, eu me senti muito,
mas assim, eu acho que o IFPE por ser muito rápido, faz com que você tenha que
viver tudo aquilo de forma muito intensa, então, ou você acorda pra Jesus, ou
você fica, então, eu acredito que o IFPE me preparou muito bem, porque eu tive

Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 89

companheiros, eu tive colegas, eu tive professores que tavam lá, acochando, não
passava a mão em cima da cabeça de ninguém, [...]

O discurso do egresso transcorre de forma bem coloquial, mas com
marcas discursivas que evidenciam um traço de educação tradicional e repressiva,
ao mesmo tempo em que recorre à FD da família, no discurso da exigência na
formação, não passava a mão em cima da cabeça de ninguém, do incentivo ao
crescimento, fazendo uso do pré-construído me dar uma tapa, no sentido de levá-lo
a dar um salto nos desenvolvimento dos trabalhos, na solução de problemas a
serem resolvidos, inclusive posicionando o professor/instituição como seu cliente,
criando situações práticas, onde o mesmo não passará a mão em cima da cabeça de
ninguém, professores que tavam lá, acochando por conduzir um trabalho que não

esteja de acordo, pois eu sou um cliente exigente, a forma como você está
conduzindo o trabalho não tá legal.
Para ilustrar o objetivo dessa relação professor/aluno faz uso de outro
pré-construído, oriundo de uma FD religiosa, ou você acorda pra Jesus, ou você
fica, para trás, pois é preciso agir com rapidez e eficiência para acompanhar as

exigências dos clientes (do mercado).
Diante do que pudemos verificar nas SDs acima descritas, podemos
ratificar que os discursos apontam para práticas discursivas próprias das relações
determinadas por uma sociedade de classes que produz sentidos e sujeitos
voltados para exercer funções condizentes com a lógica do mercado. A ideologia
do Capital, em sua essência, cria a necessidade de acumulação do Capital, busca
a submissão dos sujeitos à corrida por sucessos, estes no sentido mercadológico
de aquisição de riquezas materiais.
Nessas Condições de Produção, os sujeitos se põem a serviço do
mercado, comprovando-se isto em suas falas que trazem sempre a relação entre
formar-se e o que o mercado exige do profissional do design gráfico. Ele critica o
curso, reconhece até que poderia ser dado um outro direcionamento, se o
profissional olhasse mais para o que realmente pode ser feito para mudar o rumo
de sua prática, quando o E8, diante das perguntas que lhe são feitas, sensibiliza-se
para uma função mais humanizadora do designer: estimular, bota ele, bota ele, na
sociedade, presta atenção! Olha ao teu redor, o que melhorou? O que pode
Sílvio da Silva Pena

O Discurso dos Egressos 90

melhorar? expor mais ele pra amadurecer em sociedade, porque é pra eles que ele
vai trabalhar.

Mas as contradições sociais de exploração do trabalho, em favor das
vantagens de uma minoria que lucra com esse trabalho, estão presentes nesses
discursos, vistos na constante relação sujeito, língua, história, ideologia, discurso.
Ao verificarmos essas contradições lembramos Florencio et al., (2009,
p.25) que nos diz que “ todo discurso é uma resposta a outros discursos com
quem

dialoga, reiterando,

discordando,

polemizando”.

O

lugar

social

e,

consequentemente, ideológico - em que o sujeito se coloca, porque colocado pela
busca de controle da sociedade mercadológica - é que o determina (o discurso).
No entanto, embora inserido nessas Condições de Produção, o sujeito
oscila nessas posições, não só defendendo alargamento do estudo teórico que
poderia levá-lo a refletir sobre os primórdios e fundamentos da profissão, como
aponta para a possibilidade de realizar suas escolhas, exercendo uma relativa
autonomia, ao pensar na profissão como um meio de estabelecer mudanças
sociais.

Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 91

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Examinar atentamente o funcionamento dos discursos dos sujeitos
egressos do curso de design gráfico do IFPE constituiu-se no desvelamento dos
espaços que ocupam instâncias de movimento nas articulações da história e da
ideologia, atravessadas por uma memória discursiva do desenvolvimento do ensino
técnico no país.
Fomos em busca de fatores históricos que possibilitassem a
interpretação para desvelar estruturas sociais e econômicas do design, bem como
a implantação do ensino técnico e superior tecnológico, em design, no Brasil e em
Pernambuco e a passagem dos CEFETs para IFs, priorizando o IFPE.
Nessa trajetória, houve necessidade de expor, de forma breve, o
desenvolvimento da história do design, para assim podermos evidenciar as
diferenças de concepções profissionais ao longo do século XX. Conceitos implícitos
nessa transição da noção de representação gráfica com a concepção industrial em
meados daquele século e a transição para a noção de design comumente aceita
nos dias atuais. Assim, podemos evidenciar os principais conceitos da formação
desse curso superior tecnológico.
Procuramos, então, compreender as estruturas que propiciam o
desenvolvimento do ensino superior tecnológico no IFPE, a partir da história e das
relações sociais intrincadas nos discursos de sujeitos ex-alunos do IFPE, no intuito
de identificar como ele vê sua atuação profissional como designer gráfico, a
relevância de um curso superior tecnológico e a relação de sua formação com o
mercado de trabalho.
A materialização dos discursos traz à tona a influência dos ditames do
capital, na condução da formação desse profissional, que visa a uma formação
voltada para o atendimento ao mercado, mesmo apontando que o curso carece de
reflexões teóricas, pois coloca a conduta mercadológica como objetivo maior e
indispensável à atuação nesse exigente mercado. O curso, primando pela prática,
prepara o aluno para tais Condições de Produção, mas ele (o aluno) não consegue
perceber o quanto tais condições alienam seu trabalho, sem deixá-lo reconhecer-se
Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 92

como produtor, pelo conhecimento e não pela reprodução de práticas –
consequência inevitável, quando uma formação se dá, apenas, através da prática,
em detrimento de teorias que darão ao sujeito a oportunidade de refletir sobre o
seu trabalho e criar o novo.
Como resultado dessa alienação, os sujeitos poderão, pela necessidade
de concorrência - e no caso, de estratégias de apresentação de produtos que
levem sujeitos consumidores a considerá-los imprescindíveis na sua vida e meio de
alcançar status, felicidade - tornarem-se sujeitos cada vez mais fechados em
processos de alienação e estranhamento que os distanciarão de reais
preocupações com o verdadeiro bem-estar dos sujeitos a quem dirigem seus
apelos gráficos.
Os processos de submissão dos sujeitos às exigências do mercado se
dão em decorrência de sua inserção na sociedade capitalista, em que há a classe
dominante que detém os meios de produção e a classe dominada, que produz,
mas não tem controle sobre a produção, exercendo um trabalho voltado para a
criação de necessidades e desejos para dominados e dominantes, no sentido de
que o movimento de compra e venda seja mantido e constitua sujeitos voltados ao
consumo.
Diante da análise empreendida nesse trabalho constata-se que a
ideologia materializa-se, pois, como expressão de posições que transparecem nas
relações sociais e passam a delimitar o espaço em que cada sujeito tem permissão
para habitar e produzir sentido.
Para que pudéssemos chegar a essa compreensão, recorremos às
categorias da Análise do Discurso que fundamentaram a análise dos discursos dos
alunos egressos do IFPE - corpus desse trabalho.
Assim, procuramos discutir as concepções de língua, discurso, sujeito e
ideologia, como fundamento para a análise das sequências discursivas, em seus
efeitos de sentido que subjazem os discursos em suas condições de produção.
Constatamos que existem, na enunciação de alguns egressos, conflitos
discursivos entre trabalho e capital, mas que a grande maioria destes são
atravessados pelas influências da absorção e subserviência desse egresso ao
Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 93

mercado de trabalho, onde prevalece a formação ideológica do capital. O efeito de
sentido produzido por estes discursos apresenta, na sua maioria, as contradições
próprias do discurso socialmente veiculado, e naturalizado pela FD do Mercado.
Mas, como o sujeito, em constante formação, está sempre passível de múltiplas e
diferentes identificações, alguns discurso trazem marcas que apontam para a
possibilidade de escolhas, a partir da realidade em que se inserem.
O corpus revela, assim, discursos que circulam na sociedade capitalista,
em que os objetivos se direcionam às relações mercantis, como centro do
imaginário social que legitima o design gráfico, como forma de representação de
valores sociais, do incentivo ao consumo.
Compreendemos, pois, que esses discursos provêm das estruturas do
Capital, ao mesmo tempo em que favorece a manutenção dessa mesma estrutura,
na tentativa de ter à disposição profissionais formados, conforme o que o mercado
determina como demanda de emprego. Isto se dá num movimento discursivo, visto
que todo discurso remete a discursos anteriores, ao mesmo tempo em que aponta
para novos discursos. Diante disso, os discursos circulantes atravessam os
discursos dos egressos entrevistados, que apresentam interesses voltados para o
mercado. Embora condenem o pouco estudo teórico que o Curso oferece
defendem que a necessidade na formação se dá na prática, porque o mercado tem
urgência, tem moldes que devem ser seguidos, prescindindo, assim, da reflexão
teórica.
Parece-nos, então, que a partir da relação com o mercado de trabalho,
as instituições tomam decisões no âmbito profissionalizante dessa área
educacional. Aceitação e cooperação para as Condições de Produção do mercado
são condições para manter as prerrogativas que sustentam as tecnologias
globalizadas e do não provimento desses egressos às condições de reflexão que
condicionariam estes à inserção na sociedade e no mundo do trabalho, de modo
mais reflexivo.
Essas condicionantes, no âmbito da instituição, refletem-se nos
discursos analisados e demonstram a indefinição de uma prática educativa, que
passa a favorecer, diante dessa indefinição, correntes educacionais não
progressistas, dando lugar a uma visão tecnicista que visa a preparar pessoas para
Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 94

um mercado de trabalho em que se dissimulam as diferenças e se ocultam os
problemas sociais. Dessa maneira, a reflexão é excluída e o aluno será o sujeito
que o capitalismo almeja, para atender ao que o mercado de trabalho necessita.
As SDs que compõem o corpus desse trabalho, apontam para as
influências da ideologia do capital, na urgência de atender as prerrogativas deste,
trazendo a memória discursiva do citado tecnicismo, no direcionamento do Curso
para a formação desses profissionais. Estes exigem da instituição de ensino, o
comprometimento da atualização desta e encaminhamento para o trabalho, no
sentido de atender as suas expectativas quanto à empregabilidade.
No entender desses egressos, perpassa uma memória discursiva do
atendimento às leis do ideário industrial capitalista; da pressa em respostas rápidas
para soluções das metodologias projetuais e assim empreender eficiência às
demandas momentâneas do lucro.
Por tratar-se da memória discursiva do ensino técnico de nível médio, o
Ensino Superior Tecnológico encontra-se atrelado a uma superficialidade
discursiva em comprometimento com o mundo do trabalho. Na análise da trajetória
das FDs dos egressos, foram poucas as incursões de uma influência mais efetiva
nos procedimentos de ensino-aprendizagem, com o intuito de levar para esta
formação, parâmetros que possam transitar por uma sustentabilidade social que
não vise somente a uma educação que favoreça o mercado.
O retorno e a realimentação são condicionantes presentes nos discursos
dos egressos, onde se encontram implícitas as interrogações sobre a eficiência
desse ensino. Entretanto, convém notar que todos os questionamentos giram em
torno do Curso se voltar para o que o mercado deseja, o que garantirá, em sua
visão social individualista, o seu emprego no mercado de trabalho existente, como
sujeito atualizado e eficiente, sempre sob a regência de novas tecnologias.
Porém, formar para a cidadania41 deve ser condição de toda instituição
educacional e esse transformar está imbricado em reflexões por parte de todos os
segmentos que compõem uma sociedade. As FDs que fazem parte do mundo do
41

Estamos nos referindo à cidadania como emancipação humana, como ser político, socialmente
reconhecido e inserido nas decisões coletivas, o que não pode acontecer numa sociedade de
classes.
Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 95

capital não têm como condição a libertação do sujeito. Seus fios ideológicos estão
a serviço do capital e, nessa condição, a sua educação deveria ser libertadora. O
que constatamos é um ensino subserviente ao capital industrial, nos discursos
plenos de esquecimentos e não conscientes, nas FDs como propiciadores de suas
próprias amarras.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) nº
9.394/96 artigo dois, segundo parágrafo “a educação escolar deverá vincular-se ao
mundo do trabalho e à prática social” e desta maneira preparar o indivíduo “para o
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Diante das análises,
desvela-se nas FDs dos egressos que a sua formação na área pesquisada, no
curso superior tecnológico em design gráfico do IFPE encontra-se mais direcionada
ao vínculo e à qualificação para o trabalho.
Como a prática social e o exercício da cidadania não refletem nem
refratam nos discursos dos egressos, pois só, de forma tênue, isto acontece em um
ou dois egressos, no nosso universo pesquisado, expõem a fragilidade das nossas
ações pedagógicas. No nosso entender, essa prática está aliada à FI do capital e,
para que a prática social e o exercício da cidadania tornem-se lugar comum no
ensino tecnológico, faz-se necessário ouvirmos os nossos egressos e tornarmos
essa pesquisa como uma forma de repensar o Curso de Design Gráfico do IFPE,
como instituição responsável pela formação de sujeitos que poderão mudar a
imagem do designer em suas funções sociais.
A Instituição não dispõe de dispositivos que analisem a trajetória desse
egresso. Ela viabiliza procedimentos, como na última reformulação da matriz
curricular do curso em 2005, através de suposições da atuação desse egresso e do
mundo do trabalho em que esse atua. Mas são decisões de gabinete, sem bases
em pesquisas de campo que possam revelar como o designer, oriundo da
instituição, está exercendo suas atividades, a partir de um diálogo com a
sociedade, através do qual poderão ser estabelecidos objetivos que possam levar a
reflexões direcionadas a um novo posicionamento da formação profissional dos
sujeitos que se formam no Curso de Design Gráfico do IFPE.

Sílvio da Silva Pena

Considerações Finais 96

Essas são as conclusões a que chegamos, embora saibamos que as
possibilidades de análise são várias, diante das múltiplas leituras a que os
discursos podem se submeter.
Esperamos, assim, como professor do citado Curso no IFPE, que esse
trabalho possa contribuir para levantar questões que poderão resultar numa revisão
sobre o curso, em releituras sociais, voltadas para mudanças efetivas no trabalho
de formação de designers gráficos, como agentes de transformações na ideologia
exploradora e incentivadora do consumismo, levando em conta uma visão mais
humana e humanizadora dessa profissão.

Sílvio da Silva Pena

Referências 97

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[4] BRASIL. Presidência da República. Lei nº 8.948/94, de 8 de dezembro de 1994.
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[5] BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 5.773, de 9 de maio de
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Sílvio da Silva Pena

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Sílvio da Silva Pena

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Sílvio da Silva Pena

Anexos 100

ANEXOS

Sílvio da Silva Pena

Anexos 101

ANEXO A
MATRIZ CURRICUALR DO CURSO SUPERIOR EM DESIGN GRÁFICO DO IFPE
- 2005

1º Básico

2º Editorial

3º Sistema

4º Hipermídia

M1

M2

de SIV – M3

M4

Comunicação em
Design

Retórica

Semiótica

Midiologia

Metodologia
Projetual

Metodologia de
Proj. Editorial

Metodologia de
SIV

Metodologia de
Hipermídia

Elementos
Compositivos
do Design

Fotografia e
Editoração de
Imagem

Geometria
Gráfica
Tridimensional

Tecnologia de
Hipermídia

Metodologia de
Pesquisa

Geometria Gráfica
Bidimensional

Produção
Gráfica

Produção
Digital

Legibilidade

Técnicas de
Impressão

Protótipos e
Maquetes

Ambientes
Virtuais

Gestão de Negócios

Diagramação

Relações
Interpessoais

História da
Tipografia

História do
Design

Cinema e
Vídeo

Projeto de
Composição Gráfica

Projeto
Editorial

Projeto de
SIV

Projeto de
Hipermídia

Sílvio da Silva Pena

Anexos 103

que, da prática, do exercer as ferramentas tecnológicas, por assim dizer, éé, eu
acho que é importante sim, existir um curso tecnológico nessa área, eu não sei
dizer, não, não sei se respondi bem.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 3 - É, deixa eu ver: talvez eu ache que, eu não sei, se vai ter uma
pergunta mais adiante, no primeiro, no primeiro módulo que a gente já entra já com
essa mentalidade de mercado de trabalho, talvez, perde um pouco para o lado
teórico, que é importante também a pessoa ter a noção, eu sei que o curso tem
esse enfoque tecnológico, mercadológico, mas, primeiro período talvez fosse, eu
não sei, se talvez fosse, você falou de aumentar pra três anos, eu acho que era
uma boa, porque muita gente já sai realmente trabalhando com, na área, mas
não sabe explicar a teoria não sabe da história, não sabe explicar quem são os
maiores designers do mundo, sabe, não sabe dizer quais são suas influências
artísticas, sabe, mas realmente saem trabalhando, isso é bom, né? Mas, eu
sinto falta de um pouquinho a mais de teoria que muita gente num tem ainda,
não saca. Em geral sim, tá, tá sim, mais por surpresa minha do que.
4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 4 - Eu meio que já falei aqui um pouco dessa questão teórica, muito
importante, essa questão de tipografia, que mais, eu não vou dizer que deveria ter
menos trabalho, porque no final das contas é bom que exista esse, essa pressão
exercida pelos professores em cima dos alunos, éé mas, é basicamente isso,
eu achei fraca a questão teórica, realmente no geral, nos quatro módulos, mas,
entendo que o foco do curso é outro, mas senti. Aumentando o curso, entendo
que o curso é pequeno, é muito pouco prá dar os aspectos necessários, porque é
uma disciplina, ou área multidisciplinada, porque é uma área, um designer gráfico,
recebe influência de tudo que é tipo, na cadeira de cinema, você falou isso no
início, que até o cinema precisa, o cinema, as artes plásticas, é muita coisa em
geral.

Sílvio da Silva Pena

Anexos 104

Egresso 2

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 5 - O designer gráfico ele, ele vai trabalhar com comunicação visual.
Então, o que é comunicação visual? É tudo que a gente vê, é tudo que a gente
gesticula, é tudo que, um símbolo que a gente vê, então o designer vai organizar
esse processo da comunicação visual, então é, é fazer, é justamente esse
processo de organização, de processo, pra fazer com que chegue uma
comunicação mais, digamos, mastigada pra o cliente, pra sociedade no geral.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 6 - Bom, é fazer um curso técnico de design gráfico é meio
complicado, porque assim, um curso técnico é, já diz, é técnico, é prático, uma
coisa prática e o design gráfico não só é uma coisa técnica, prática, também,
também é, é você saber usar da técnica, mas, você também tem que saber da
teoria, então, daí um, um graduando, um, um curso superior, pra você também ter
um apanhado de, de teoria, teoria junto com a técnica, eu acho que a
importância vem daí.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 7 - É... Eu acho que, que, assim desde o ano assim, que eu me
formei, até o, assim que eu to agora, eu acho que é bem, assim, eu acho que a
instituição, o CEFET, o IFPE (ri) me ajudou muito, muito, muito, eu, assim, a gente
tá comentando isso da grade, mas, eu acho uma boa grade, entendeu? E também
o aluno tem que fazer sua parte, enfim, arrumar estágio, e frila, enfim o que seja,
mas, eu acho que o IFPE me ajudou muito e pro que eu to trabalhando hoje em
dia, eu acho que eu to conseguindo progredir.

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.

Sílvio da Silva Pena

Anexos 105

SD 8 - É o seguinte, não é o que eu falei praticamente nessas
perguntas, era o que eu queria falar, disso das cadeiras, que eu comentei, História
do Design, puxar prá frente, primeiro período, pra, já que o básico você tem que
saber, você tem que saber o que é, de onde vem, história do design, de onde vem
o design, de onde começou e contemplar mais a parte, assim, sinalização, é essa
cadeira de Tri é muito legal, mas, assim não de, de, pegar um sólido e desenhar o
sólido, não sei que, ninguém faz isso, hoje em dia, entendeu? Então, assim essa
parte de geometria tridimensional, mas, eu acho que teria que ser voltada para a
parte de sinalização, mas, uma coisa funcional, que a gente possa usar mesmo, e
essa cadeira de Técnicas de Impressão, que acho que tem como contemplar, é,
cores, a parte de teoria de cores, e tal e tal e tal mais a parte também de
impressão, o que é impressão offset, o que é serigrafia, enfim, entendeu? E é
praticamente isso, eu acho que é, deixa eu ver, o quarto módulo, assim é legal que
a parte de hipermídia, tem a gente pega web, jogos e tal e tal, pra mim, eu,
particularmente, eu não trabalho nessa área, eu não tenho muito, muita intimidade,
então, mas é, muita gente trabalha com web, essa parte de jogos, Ziro que é
ilustrador, trabalha nessa parte de jogos, não sei o que, então assim é fantástico. O
legal é isso.Ah! Uma cadeira importantíssima que é a parte de Edu, que é Retórica
e Semiótica, não tirar de jeito nenhum, essas cadeiras de jeito, de jeito nenhum, é
praticamente, ah! sim, Fotografia, que eu lembre Silvio eu paguei até contigo, eu
não tirei, eu não peguei em uma câmera profissional. Assim quem já tinha câmera
profissional, que eu acho que alguém tinha, assim câmera profissional, aquela bem
grandona, não sei que, legal já entendia um pouco, eu lembro que Gabriel tinha. A
escola, naquela época tinha câmera, mas eu nem, nem peguei na câmera, então
assim, é vê mais essa parte de fotografia, pra parte, trazer pra parte mais prática,
eu lembro que assim, teve aula, mas na parte teórica, a gente fez até uma prova
teórica. O que é isso? O que é as partes da câmera? A parte assim? A lente da
câmera? Tal, tal e tal, mas assim, hoje em dia se eu pegar numa câmera, eu tenho
amigas, tenho amigas, uma amiga minha que faz publicidade, tá início assim só
que ela trabalha com fotografia, ela sabe tudo de fotografia, ta Ra Ra rá...beleza,
que ela trabalha, mas, assim ela não tira foto, mas, ela trabalha com produção
fotográfica. Mas, assim, eu que paguei cadeira de fotografia, não sei, não sei, nem
Sílvio da Silva Pena

Anexos 102

ANEXO B
e-mail encaminhado aos egressos

Prezado(a) Egresso(a)
Estamos realizando uma pesquisa junto aos egressos(as) do curso de Design
Gráfico do IFPE. Através desta pesquisa, nós, professores, pretendemos propor
mudanças na matriz curricular, junto ao MEC, em uma nova e próxima avaliação do
curso. A sua participação, nessa pesquisa, é um canal para ouvirmos suas opiniões
e assim termos propostas mais consistentes em um novo projeto de curso. Caso
aceite participar dessa pesquisa, favor encaminhar nome e endereço para contato.
Agradecemos.
Professor Silvio Pena.

ANEXO C

ENTREVISTA COM OS EGRESSOS DO CSTDG do IFPE

Egresso 1

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 1 - É, eu acho que como profissional de comunicação, né, no caso
comunicação visual, ele exerce uma função importante de aproximar
empresas, éé, aproximar empresa, empresa com a sociedade, né? Tipo: tem
esse papel comunicativo, principalmente, éé, que ele vai exercer através da
linguagem visual, eu acho que essa é a principal função do designer.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 2 - É, eu acho que... todo curso superior tem sua importância e pelo
fato dele ser tecnológico, talvez exista um aspecto muito mais da prática, o
Sílvio da Silva Pena

Anexos 106

pegar numa câmera, entendeu? Acho que é mais ou menos isso, assim, o resto eu
acho bacana, a grade, eu acho a grade muito legal, mas só ajustes.

Egresso 3

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 9 - Caraca, vamos lá. É, antes da existência do profissional designer
gráfico, o que é que existia, até porque, eu não tenho muitos conhecidos na área
de, de comunicação, conheci muito pessoal da área de publicidade, é desenho
industrial, mas, o que é que veio fazer o designer gráfico nesse mercado? Eu tenho
pra mim que o profissional na área de designer gráfico, mais especificamente, ele
veio com seu lado mais criativo, porque o que é que acontece, o pessoal formado
em publicidade, ele vê muita teoria, mas, pouco da prática, isso eu posso falar,
porque, eu tenho amigos que se formaram em outras faculdades, a maioria
publicidade, e tiveram bastante dificuldade na parte criativa, isso é o diferencial do
designer gráfico, ele busca ser criativo, o curso, ele é... ajuda a possibilitar a, a
alimentar essa criatividade do aluno, chegando lá no mercado, a gente consegue
desenvolver, a medida do possível, entendeu?

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 10 - É mais pelo fato de você na teoria, porque nem todo curso
tecnológico que lhe dá essa possibilidade tão boa de prática, você já sair pronto
pra o mercado e não ter apenas o conhecimento e não saber executá-lo, então,
ele já sai da faculdade, essa é a idéia, já sai da faculdade pro mercado de trabalho
pronto pra executar, não é a toa que muitas empresas, elas procuram o
profissional na área de tecnologia visando esse ponto, pensando nessa
situação, poxa, ele é um tecnólogo em determinada área, então, ele por ser
tecnólogo, ele já tá, é, familiarizado com a prática, o que acontece em muitas
faculdades que vê muita teoria, passa dois, três, quatro anos e não vê, e vê pouco
de prática, vivência.

Sílvio da Silva Pena

Anexos 107

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 11 - Sim, é, no entanto me faltou muito dos conhecimentos em
ferramentas, o que não é proposta do curso, acredito, mas, que seja, mas, vê
muito também da prática, não é a toa que é tecnológica, mas, faltou
conhecimentos em ferramentas, não é a toa, que no final do curso, tem e
durante o curso tive que fazer curso de extensão fora, entendeu?

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 12 - A gente já havia comentado bastante coisa na época de, do
curso, questão de acrescentar mais disciplina, melhorar as, os laboratórios, é, tem
que melhorar bastante coisa, não só pela questão da, do parte docente, não
melhorar no fato de isso aqui está inadequado, pra desenvolver um trabalho, ele é
adequado pra desenvolver o trabalho, no entanto ele tá sendo cobrado demais, tem
que ter mais profissionais pra melhorar isso, porque, afinal das contas isso vai
refletir no aluno, quando ele se formar, vai ter dificuldade lá no trabalho, pra
conseguir emprego na área, e tem que tá bem mais preparado, pra isso tem que
ter, uma melhor classificação dos professores, tinha pouco professor na época que
eu sai, não tô dizendo nada do que eu convivi lá, tinha pouco professor pra
desenvolver os trabalhos. Professores que tinham maior conhecimento na parte de
mercado, que isso foi, foi bastante comentado também na minha época entre os
alunos lá, faltou também uma, claro isso também depende da competência do
aluno, mas, ajudar o aluno a seguir da faculdade para o mercado, para uma
empresa, entendeu? Faltou bastante da instituição, é, ter bastante professor,
vamos dizer não bastante professor, vamos dizer que estavam lá na minha época,
o senhor, Josinaldo, Eliana tem conhecimento pra passar, o que faltou foi um outro
professor pra melhorar a qualidade das aulas, pra passar informação, pra nos
mostrar o que realmente está acontecendo lá fora, e a gente não sair perdido, nem
saber pra onde vai, eu mesmo, não tinha, eu sai do curso sem definir o que queria
fazer exatamente, vou seguir na parte impresso, na parte de web, na parte de
game, eu, por mais que eu desenvolvesse trabalhos como freelancer na parte de
Sílvio da Silva Pena

Anexos 108

impresso, eu queria muito seguir a parte de web, mas, tinha paixão por game, mas,
é essas coisas, esses pontos, sem saber o que realmente a a gente quer, por mais
que a gente tivesse o curso, as disciplinas de metodologias que ajudavam a gente
seguir um caminho, mas, não era suficiente, para decidir o que realmente a gente
quer. No meu caso, foi questão de oportunidade, tive oportunidade de seguir aqui,
eu vou aqui, mas, isso não ajuda basta, o suficiente, não é a toa que estou aqui, tô
investindo num ponto, mas, tem outro seguimento, que eu queria muito ter
conhecimento na época que estudo por fora, até pra melhorar, eu como
profissional, então, o que é que falta na instituição? Faltou ajudar o aluno a seguir o
devido caminho, a indicar uma empresa, mostrar o que realmente tem em
Pernambuco, pra você não sair querendo uma coisa, e não saber que aqui,
localmente, não dispõe de empresas que querem captar esse profissional,
entendeu? Então a gente sai muito cego, a gente saiu meio sem saber pra onde ir
(ri), por mais que a gente soubesse que tem bastante empresas na parte de web,
sim, mas, a parte de game, tem lá o porto digital, uma outra empresa Preloy, tem
outras empresas de game para celular, mas, tem outras empresas que nem a
gente imaginava que tinha, e ta vindo mais ainda, e essas informações, a gente vai
sair procurando do nada? Nem conheço, nem conhecia gente que trabalha,
pessoas que trabalhavam na parte de game, em empresas sejam lá qual for.
Então, o que eu gostaria que o IFET tivesse feito, captar essas empresas, saber
onde é, se realmente tem aqui em Pernambuco, seja a parte de game, seja a parte
de web, impresso, e de comunicação em geral, e passasse pra gente o que é que
tem, o que tá mais, o que que tem mais, o que é que tá mais evoluindo aqui no
estado. Claro a gente tem que ter uma visão mais, uma visão maior, uma visão
nacional, mas, é preciso a gente vê aqui, não adianta você capacitar um
profissional, se na sua localidade não tem mercado pra ela.

Egresso 4

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 13 - Para mim, o designer gráfico tem a obrigação de levar ao
publico, que é seu principal público, é o publico alvo do designer, de uma maneira
Sílvio da Silva Pena

Anexos 109

mais fácil de compreensão atrativa, cada elemento. Digamos o diagramador que é
meu caso, trabalhando agora, levar a informação mais fácil para o leitor, um diretor
de arte, criar um cartaz, um banner, uma propaganda, que o leitor, que o cliente,
daquela marca, aceite fácil, se identifique. Pra mim é isso, um facilitador de
compreensão, do objetivo, digamos, mentor do cliente, se chega um cliente para
mim querendo que eu venda uma banana, um exemplo, eu tenho que fazer de
uma forma que atraia o público, aquele público que ele quer que compre
aquela banana, eu tenho de fazer de um jeito que atraia o público.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 14 - Sim, ainda tem uma... algumas barreiras que eu falo para
algumas pessoas, não, eu tenho curso superior, mas tu fez na Federal, na UFPE?
Não, eu fiz no IFPE. Lá é superior ou é técnico? É superior? Tem essas
barreiras ainda, que o pessoal ainda não estão compreendendo, que tecnólogo
também é superior, aí, só chama de técnico. Tu é formado em técnico, né? Então
tem essa questão também, um amigo meu, acho que você conhece, é Diogo que
estudou na turma de Alle, que fez um projeto de estudar no Japão ou na China, se
não me engano, e não foi aceito porque o curso, o diploma dele era como
tecnólogo não era curso superior, porque depende, eu acho da, como posso dizer
da questão do outro país de aceitação, mas, a nível nacional, acho que ainda tá
crescendo essa questão de aceitação de curso tecnólogo ser como superior.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 15 - Sim, graças a Deus. Desde que eu estou aqui, no segundo
período que eu comecei a estagiar, no segundo, terceiro, quarto e saindo daqui eu
acabei estágio fiquei sem trabalho, mas, demorou coisa, uns dois meses pra eu
conseguir um outro trabalho, saí dele e já estou em outro melhor, tipo, o que eu
aprendi aqui é, são formas bem diretas de se aprender cada módulo, são básicas,
são poucos, como são dois anos, tem que ser bem, um pouco mais direto ao
assunto, mas é, sou, tive muita aceitação no mercado, não teve nenhum problema.

Sílvio da Silva Pena

Anexos 110

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 16 - Questão mesmo de opinião, mesmo assim sobre a grade daqui
do curso, que eu tenho em mãos, acho que muita gente reclamou, não reclamou,
pediu. Assim, essa questão de História do Design só vir apenas no terceiro módulo,
você passa o primeiro, o segundo, aí quando você chega no terceiro você vai
aprender coisas da Art Nouveau, Arst and Crafts que era pra aprender no início,
você passou dois períodos fazendo algo, digamos que, meio que avulso, sem
saber uma base da onde veio aquilo. E outro, é Gestão de Negócios, muita gente
não dá nem importância, no meu caso, as aulas eram no sábado pela manhã, a
gente vinha, não vinha às vezes, e é algo o que o mercado, tipo, quando você
começa a fazer frila, é negociar algumas coisas, você se sente desamparado, você
passou aquilo ali, nem viu, não sei se poderia ter algo de deslocar, passava mais
para o terceiro ou quarto período que é algo quando a maioria já estão fazendo frila
ou alguma coisa, desenvolvendo, o que ali já teria uma base, que eu conheço
gente mesmo, que já recorreu ao professor, tava aqui no terceiro, quarto período,
recorreu, ligou para ele, para pedir informações, porque esqueceu. Outra questão,
essa também da cadeira de Metodologia de Pesquisa, do módulo básico, você
elabora um projeto, a exemplo do TCC, bota toda, cria um problema pra resolver, aí
remete a tudo. Como é que você vai criar um problema de algo, que você nem
aprendeu ainda em Editorial, Hipermídia, SIV? Foi algo que, tipo, eu mesmo criei
algo, e pelo que eu me lembre foi sobre as marcas da FIAT, não, foi sobre a marca
da FIAT que sofreu um redesign ao passar dos anos. Eu tinha um conceito do
projeto que eu fiz aqui, quando cheguei no terceiro período que é do Sistema de
Identidade Visual mudei totalmente aquilo, pra mim o que escrevi aqui foi muita
besteira, aí é como você tivesse que fazer um retrabalho, reaprender aquilo que
você aprendeu. São duas cadeiras que eu acho que tão meia sem nexo aqui. Acho
que poderia passar pra outras, trazer Retórica pro primeiro período, que algo que
você aprendendo aqui já pode levando, é mexer, fazer um jogo de cadeiras, certo.

Egresso 5

Sílvio da Silva Pena

Anexos 111

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 17 - O papel do design gráfico na sociedade? Eu acredito que seja
traduzir visualmente as idéias da sociedade, é transformar, é traduzir
propriamente, é, em forma de cartazes, todo tipo de peça gráfica, o que a
sociedade produz, o que ela deseja, inclusive.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 18 - É fundamental, né? Porque preenche uma lacuna,
principalmente, no Brasil, do camarada em vez de passar cinco, seis anos
dentro de uma faculdade, ter um curso muito mais direcionado a um trabalho
mais prático, onde ele pode, é, a partir de, com três anos de um curso tecnológico,
ele já pode sair diretamente no mercado.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 19 - É,...

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 20 - Eu acho, que, é de uma forma geral, tudo bem que é,
acrescentar simplesmente por acrescentar, eu não sei se é o caso, mas, eu acho
que o curso ele é, ele poderia ser um pouco maior, quando eu entrei aqui, ainda
tava com aquele problema de greve, Federal tal e pá, hoje ainda são dois anos
basicamente, pronto eu acho que se fosse dois anos e meio ou três anos,
acrescentando algumas dessas cadeiras mais. Uma outra coisa que eu sinto falta
aqui, é um suporte maior, em relação à tecnologia, não em laboratório, eu tô
falando em conteúdo de sala, de que por exemplo, o designer no dia a dia,
principalmente o gráfico, ele é muito cobrado, por exemplo, em aprendizado em
linguagem de programação, não é, linguagem de alto nível, mas uma coisa simples
de HTML, de Web tal, e apesar da gente ter isso, não é uma cadeira específica,
não é uma coisa, entendeu? É vinculada a outras disciplinas, eu acho também que
isso, se tivesse mais um semestre, ou mais um ano, pra poder colocar essas
Sílvio da Silva Pena

Anexos 112

disciplinas que faltam, o curso, na minha opinião, ficaria perfeito. Eu acho que não
é só uma questão daqui, a universidade não é feita pra tá ensinando software,
mas, o aluno, o mercado ele exige que você aprenda software, se não for aqui,
que seja em outro local, entendeu, e ai eu não sei como é que se, eu também
não sei se a melhor opção é você colocar um professor pra dá uma cadeira
específica de software, entendeu? Porque é como eu disse, eu não sei se isso é
o papel da universidade, mas, enfim, eu acho que eu, não tanto no meu caso,
porque eu sempre fui mais dessa área, então eu, mas, eu sempre vejo o pessoal
que estudava comigo mesmo, quando falava de fazer alguma coisa em soft, não
tipo Corel essas coisas, mas soft de programação ou mesmo um Autocad da vida,
ou qualquer coisa, o pessoal pirava, por que o conhecimento é praticamente
inexistente. Tranqüilo?

Egresso 6

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 21 - Bom, o papel do designer vem com a resposta, do o que é
design? Que é aquela coisa de você resolver um problema pra alguém, para um
cliente, você criar uma solução para um produto, um artefato, na verdade, que
pode ser um produto, uma marca, uma imagem, então o papel do designer é,
design é projeto, então é criar projetos para resolver esse tipo de demanda. Então
é mais ou menos, por ai, o papel dele é criar soluções visuais pra esse tipo de
produto, de artefato.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 22 - Assim, por ele ser tecnológico, acredito, que ele atrai bastante o
público, é, já mais velho que tem a necessidade de concluir o curso em tempo
menor, né? Porque a primeira coisa que se pensa quando se conclui o ensino
médio é em fazer Universidade Federal, que é o que se conhece mais, que é mais
popular, então, quer o curso de quatro anos e que ninguém tem pressa para
concluir, por que acabou de terminar o ensino médio, é aquela coisa natural, é o
Sílvio da Silva Pena

Anexos 113

processo natural, então, o curso tecnológico tem essa diferença de ser, por
enquanto ainda não ser tão popular quanto os cursos de bacharelado,
naturalmente, a gente sabe disso, embora tenha ganho espaço no mercado, é mais
procurado por esse público, acredito mais velho, pela questão do tempo, embora
na minha turma também houvesse pessoas de várias idades, então assim, a
questão de ser dois anos é um fator decisivo talvez na, na escolha não sei,
também, se também

a questão da pessoa ter tentado na Federal e não ter

passado, não sei se tem haver com nível de dificuldade do vestibular, não tenho
idéia disso, é, e a relevância dele é porque assim o interessante, o importante, do
curso tecnológico é que ele é focado em projeto, muito mais do que conteúdo
teórico, o que faz com que você saia de lá, preparado, bem preparado pra poder
entrar no mercado, porque você já viu um pouco de tudo, em todas as áreas, você
já fez um projeto daquilo, você já fez uma revista, você já fez uma marca, você já
fez um curta-metragem, você já fez um pouco de tudo, então, basicamente essa é
a diferença, não sei se fugi um pouco da pergunta, a relevância.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 23 - O meu perfil, eu achei, eu achei, que eu saí, assim, eu antes de
entrar eu já tinha uma noção, eu já tinha criado coisas pra área, mas, era aquela
coisa muito, digamos, jogado, uma coisa muito solta e o curso fez com que eu
conseguisse estudar um pouco de cada coisa e conseguisse moldar esse
conhecimento mais profissional, uma coisa mais aplicada, então eu achei que eu
saí de lá preparado pra entrar no mercado, essa foi a minha impressão, mas assim,
não sei se, como eu tinha alguma base, isso foi o meu perfil, não sei se para todos
os perfis, seria isso.

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 24 - Eu gosto muito da estrutura que o curso tem, a quantidade de
computadores de tablets, de recursos tecnológicos, eu acho bem interessante,
assim, uma coisa que não é tão comum, principalmente,

para uma instituição
Sílvio da Silva Pena

Anexos 114

federal, para uma instituição pública, então, era muito interessante isso, de cada
um poder ter o seu computador , porque assim design hoje, e computadores estão
sempre ligados, assim design gráfico, então é importante isso. Eu acho, assim, as
cadeiras, elas têm um pouco de teoria e têm um projeto, isso é muito importante,
assim, embora a teoria seja uma coisa não tão aprofundada, mas, talvez até
nem precise ser assim, importante que você saiba do que se trata e consiga fazer
um projeto, até porque essa é idéia do curso tecnológico. É acho que é
importante incentivar, por essa razão, os alunos a fazer um maior estudo
literário, assim, de estar mais antenado com os livros, assim, ter um assunto, o
professor vai explicar a teoria sobre aquilo, mas, que ele consiga desenvolver isso
em casa, estudando, até porque, o curso, ele vai lhe dar alguma pequena
porcentagem do seu conhecimento, você tem que correr atrás por fora, ou seja,
natural. Essa questão do livro por que você aprende muito mais, assim, estudando
aqui, debatendo, voltando e tal, eu acho importante isso, o incentivo da leitura. Ah!
O que mais? Eu tenho muito isso na minha memória, todos os livros que eram
passados e, e que eu consegui ler, os capítulos e tal ficaram muito marcados,
assim pra mim, então, é uma coisa que talvez se incentivasse seja interessante.

Egresso 7

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 25 - Assim é... eu avalio muito a importância do trabalho com
símbolos, assim... imagem enquanto símbolo, eu acho que toda imagem dialoga
com o indivíduo, mesmo aquela placa que a gente ignora, mesmo aquele, aquela
placa de sinal que já tão batido, que a gente passa sempre, é... ela mantém um
diálogo com o indivíduo, inclusive, acho que foi uma aula do senhor, que o
senhor lembrou, chamou atenção pra isso da gente olhar com mais cuidado, pra
determinados pontos, determinados signos. Acho assim, a importância do
trabalho da gente é saber como manejar corretamente a... esses signos, certo,
isso pode gerar problemas e também pode é ajudar a ser mais funcional naquilo
que a gente se presta a fazer, qualquer trabalho, seja um trabalho comercial, seja
uma indicação de biblioteca. Por exemplo: a gente tem muito problema com isso lá
Sílvio da Silva Pena

Anexos 115

onde eu trabalho, porque a gente não tem um trabalho específico na área de
design, então são simples informações que poderiam ser trabalhadas com signos e
que não são assim, não são levadas a sério e a gente acaba tendo um problema
maior, então, assim... a gente percebe aí, importância no trabalho com signo,
assim... saber comunicar.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 26 - Ah! Eu avalio assim, o curso tecnológico ele tem uma diferença
muito grande pro bacharelado, pro bem e pro mal, é... já passei por dois, estou
no segundo curso de bacharelado, e assim uma coisa que eu via muito diferente
assim, que é uma vantagem pra mim, do curso tecnológico, também do CEFET em
si, é o fato de que, o... por ele ser superior tecnológico, ele vai muito direto ao
ponto, então assim, a gente não se perde de tanto, por assim dizer. Essa
especificidade também gera dificuldades pra gente, porque, como ele é
tecnicista, então, você tem que aprender aquela técnica, você tem que aplicar
aquela técnica, e às vezes a gente acaba não tendo tempo pra questão
teórica, que também é muito importante dar essa base para aplicação técnica,
mas assim, acho extremamente importante, porque ela doutrina a gente pra uma
conduta de mercado. Essa semana eu passei por uma situação nesse sentido,
tive uma proposta de trabalho de um amigo que tá bem na empresa e que queria
um trabalho feito pra dois dias. Acho que a universidade me ensinou, o CEFET
aqui me ensinou a trabalhar rápido, a ter que pensar em soluções rápidas,
adequadas e rápidas, talvez num curso de bacharelado precisasse de um tempo
maior pra poder fazer uma análise, então assim, claro que o ideal seria ter um
tempo adequado, mas, o mercado nem sempre age dessa forma, ele quer o
trabalho fei..., ele quer, exige que o trabalho seja feito naquele tempo, então
assim, acho pra gente é muito importante nesse sentido.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 27 - Sim, para a área que eu me interesso e trabalho, sim. Meu
interesse maior foi justamente nessa parte Editorial, a parte onde eu procuro mais
Sílvio da Silva Pena

Anexos 116

trabalhos, onde eu recebo mais propostas de trabalho freelance. Então assim,
nesse sentido, a... foi muito interessante, sim.
4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 28 - Assim, é claro que estamos falando de curso tecnológico, mas,
eu volto a frisar, assim... eu acho que é importante pra gente, pra gente que eu
falo, a comunidade inteira, quanto para os professores, quanto os alunos, quanto
os que já saíram da universidade, é muito importante pra gente manter um elo de
discussão, então, esse último ponto ai, eu vou me prender bem a ele porque eu
acho muito importante, porque você identifica dificuldades e vantagens que você,
que você percebe que talvez em discussão com a universidade, você consiga
melhorar, a trazer o lado social pra discussão do design é extremamente
importante, por que é que eu penso dessa forma? A gente tem uma visão muito
de mercado, e o mercado, ele nem sempre leva em consideração o que a
sociedade necessariamente quer, ele tá focado naquele grupo dele e ele só
enxerga aquilo, a gente percebe isso muito claramente, quando a gente tá
estudando administração, quando a gente vai estudar essa questão de, de público
alvo, então, é importante pra gente compreender até onde vai e o que é que uma
mensagem que a gente veicula, o que é que ela suscita em terceiros. É uma
dimensão que, assim... a gente não discute a fundo, a gente fica na
superficialidade, quando tem algum caso específico de, de má comunicação
visual, como reflexo que ela possa ter gerado, mas, eu acho que é coisa que a
gente tem que discutir dentro da universidade, porque se você não cria essa
consciência, é... das possibilidades que você tem com aquele recurso, das
vantagens e desvantagens que você pode acabar gerando, você vai pro mercado e
de lá você vai cego, porque você vai fazer simplesmente, assim... você não tem a
capacidade de diálogo, que eu acho que é extremamente importante, a área da
gente, ela permite um determinado diálogo, a gente não tá apertando um parafuso
que não tem uma segunda forma de ser feito, então assim... a gente tá trabalhando
com idéias, movimento de comunicação e, ai entra a responsabilidade, até a
questão ética mesmo, do profissional, em ter a capacidade de dialogar, certo? De
dizer, olha a gente tem formas diferentes de chegar ao público que você quer, a
Sílvio da Silva Pena

Anexos 117

gente tem que observar determinados pontos, certo, que são de interesse desse
público ou determinados pontos que são de interesse desse público, mas, que
afeta um público que pode ser alvo da empresa, mais à frente, então, a gente tem
que ter cuidado nessa comunicação. Quando você faz uma, uma propaganda que
diz que: A tem, B não tem, você tá trabalhando visualmente aquilo ali, você tá
então também, afastando terceiros, então tem assim a gente ter que ter muito
cuidado, é a boa comunicação visual é saber, é apresentar uma determinada
informação, mas, tendo cuidado com o grupo que tá ao lado, porque a gente tá em
sociedade, a gente não tá isolado, não dá pra trabalhar isoladamente, eu acho que
esta é uma discussão muito importante, eu senti muita falta disso no curso, não
que não tenha sido tocado, foi, mas foi de uma maneira superficial, acho que isso é
importante pra gente, porque gerenciar informação é sempre muito complicado,
muito complicado, eu trabalhei com isso e sei o quanto é difícil.

Egresso 8

1. Qual o papel do profissional designer gráfico na sociedade?
SD 29 - O designer gráfico é instrumento da comunicação da
sociedade. Ele é o comunicador visual, ele é a pessoa que consegue dizer sem
palavras, ele consegue organizar essas palavras, essas informações, pra que a
sociedade consiga compreender um sistema de sinalização, um sistema de
cardápio, pra que as pessoas consigam entender aquilo que, que precisam de
palavras, mas que precisa estar organizadas pra serem compreendidas, então, o
designer gráfico ele é um papel crucial pra comunicação, pra que as pessoas
consigam se comunicar sem necessariamente falar.

2. Qual é a relevância social de um curso superior tecnológico?
SD 30 - O curso superior tecnológico, ele consegue atender é... a
demanda da comuni..., da, da sociedade, de forma mais eficaz, no sentido do
profissional, da profissionalização. Como eu entendo isso? O curso superior
tecnológico ele treina você para o mercado, pra atender a necessidade do
mercado, então, são necessidades práticas, dinâmicas, é... objetivas, urgentes,
Sílvio da Silva Pena

Anexos 118

então, esse profissional, ele é um profissional que consegue ter mais dinamismo
pra atender as necessidades do mercado. Então, o curso superior em tecnologia,
ele consegue capacitar melhor esse profissional pra pegar esse ritmo de, de
mercado e então conseguir desenvolver os trabalhos que ess... que a sociedade
precisa, então eu, eu sinto essa diferença porque o bacharelado, ele tá mais ligado,
realmente à pesquisa, a aprofundar as bases pra prática e o tecnológico ele tá
pronto pra prática.

3. O seu perfil de egresso em design gráfico do IFPE é condizente
com o mercado de trabalho?
SD 31 - Sim, sim, o IFPE não deixou de me dar uma tapa, não deixou
de dizer, olhe eu tive vários professores que olhava e dizia: não, eu sou um
cliente exigente, isso aqui não tá legal não, volta, e volta mesmo, então assim,
eu me senti muito, mas assim, eu acho que o IFPE por ser muito rápido, faz com
que você tenha que viver tudo aquilo de forma muito intensa, então, ou você
acorda pra Jesus, ou você fica, então, eu acredito que o IFPE me preparou muito
bem, porque eu tive companheiros, eu tive colegas, eu tive professores que
tavam lá, acochando, não passava a mão em cima da cabeça de ninguém,
falta é falta, falta, se você não conseguiu tá aqui em sala de aula, como é que você
aprendeu, então, você não consegue, porque assim, o curso é muito rápido, não
tem condições de tá faltando muito, porque se você não aprende aquilo ali, se você
não aprende as partes de teoria, e assim, a parte teórica que já é pouca, porque
a gente tem que tá o tempo inteiro na frente do computador trabalhando, você
não vai conseguir atender bem ao mercado, você vai deixar conceitos básicos
da sua formação de lado. Então, eu acredito que o IFPE me preparou bem pro
mercado, eu tenho condições de saber à hora, de, uma coisa que eu sempre
lembro que a gente brincava, os três pilares, né: preço, tempo e qualidade do
trabalho, então, eu sei muito bem cobrar pelo meu serviço, se o trabalho, ah! Quer
pra ontem? Ok, o valor vai ser mais alto, pra ter qualidade boa, então assim, tem
muitas coisas ligadas, agora, por exemplo: o que eu acho, um, uma coisa que eu
acho, que poderia ser depois, no último módulo, essas, essas questões ligadas ao
empreendedorismo, porque no primeiro módulo você ainda tá, tipo entendendo o
Sílvio da Silva Pena

Anexos 119

que é design, entendendo como você vai fazer tudo aquilo, você não vai, então, no
último módulo você já tá sagaz, cara preciso ganhar dinheiro com isso, como é que
eu vou empreender? Como é que eu vou fazer pra fazer tudo isso? Então é uma
coisa importante no nosso, no nosso curso, no nosso curso, mas, eu acho que
poderia ser jogada mais pra frente, Gestão de Negócios, porque por exemplo: eu
não aproveitei, eu tô agora correndo atrás de: SEBRAE, SENAC, pra saber como
me estruturar pra abrir, um, uma coisa própria. Eu tenho experiência de pessoas
que se formaram em outros lugares, que abriram seus próprios negócios, e
quebraram a cara, porque acha que só com design vai dá certo, e tem que ter
administração, tem que ter visão empreendedora, tem que fazer atendimento bom,
então assim, tinha uma série de coisas, que eu acho que a gente foi conseguindo
construir dentro da, da academia, nos diálogos, né? Porque pô, você chega lá sete
horas da manhã, sai de meio dia, é assunto pra dedeu, e a gente sempre fica lá,
design, design, design, design, design, mas, eu acho que foi, que foi bacana assim,
eu acho que foi muito bom.

4. Agora, esse é o espaço para você fazer as suas considerações
finais.
SD 32 - A verdade é assim, eu acho que o, que o IFPE é uma
Instituição, o curso de design, ele é um curso muito bacana, que ele é bem
desenvolvido, que ele trás, um, que ele prepara você pra amadurecer, eu
cheguei no IFPE, uma menina, tinha acabado de sair da escola, que tava no
mundo das fantasias, e, por mais que eu não entendesse, muitas horas, o olhar
seguro, não, a falta de flexibilidade, hoje eu sinto que isso foi importante pra me
amadurecer, mas eu acredito, assim que, ... sempre é possível crescer, a gente
sabe que sempre é possível melhorar, então essas questões que eu tava
comentando, sobre a questão do ecodesign, sobre as políticas que estão ligadas
ao nosso trabalho, é também sobre, eu acho que o estágio deveria ser uma coisa
cobrada, assim, sabe, deveria ter lá, se você, se é um curso tecnológico, pra sair
de lá, você tem que ter pago umas quatrocentas horas de estágio, ter ficado na
frente do computador ralando a cabeça pra conseguir produzir alguma coisa
bacana. Porque assim, nossa! Tem pouquíssimas coisas que eu tiro do, do meu
Sílvio da Silva Pena

Anexos 120

portfólio da faculdade, que eu coloco no meu portfólio normal, porque, ainda assim,
o professor, ele tinha que olhar pra mim e entender que tava num processo que
talvez, um ano, dois anos não me ensinasse, mas que o conteúdo, o conceito me
preparou mesmo que, lá num botãzinho lá, não conseguisse desenvolver também,
então eu acho que o estágio poderia completar isso, porque fazia: bora nêgo, tu
tem que conseguir fazer isso aqui, porque senão tu vai se formar, e tu não vai
conseguir fazer um produto bacana, entendeu? Então assim, não adianta você
saber filosofar sobre design e não conseguir sentar na frente do computador,
vai ser bacharel então, entendeu? Então assim, pra ser tecnólogo, um cara que
tem que tá preparado pro mercado, tu tem que saber mexer, tu tem que saber
fazer alguma coisa, vai se especializar em alguma coisa, então vai lá, pode lá, só
fazer uma determinada coisa então, acho que estágio é uma coisa que eu senti
falta, da obrigatoriedade do estágio, só concluir ali, oh, quatrocentas horas, não sei
quantas horas, que você produziu alguma coisa de fato, entendeu? De acordo com
as necessidades do mercado. Então, o estágio é uma coisa que poderia ser
cobrado. Eu acho, que assim, a estrutura da, da universidade, principalmente,
biblioteca é muito, muito, muito, fraca. Eu acho que tem que conseguir
destrinchar esse perrengue que existe entre, o perrengue mesmo que existe entre,
em enviar a lista dos livros, com orçamento, com não sei o que, pa pa pa pa, gente
é muito dificuldade pra abastecer uma estante, sabe? Então assim, tem que ver
como é que pode sair desse problema, porque assim, eu quase não li durante a
faculdade, eu quase não li nada, nada, nada, eu senti falta realmente, tanto
que eu não fui direto pro mestrado, porque eu fiz: meu Deus! Eu vou levar o
maior acocho do mundo se eu entrar num mestrado agora, porque eu não vou
consegui ler a quantidade de coisas que eu preciso ler, então, durante a pósgraduação, que eu resolvi fazer a pós-graduação pra eu me preparar
academicamente. Tô fazendo em Gestão Ambiental. Então, é eu realmente voltei
pra uma coisa, tipo de conseguir ritmo de leitura, de conseguir embasar aquilo que
eu tava fazendo, então assim, eu senti falta disso, assim, da gente ter acesso a
livros que mostrassem assim, a evolução do design em Pernambuco, no mundo, no
Brasil, pra gente conseguir ter conteúdo pra embasar também os nossos trabalhos,
porque a gente sabe que durante a faculdade a quantidade de vezes que a gente
Sílvio da Silva Pena

Anexos 121

vem preparar o conceito assim, nas vésperas da apresentação, porque fez só um
grafismo bonitinho, a gente sabe que isso acontece. E uma coisa que eu vejo
também que ajudaria bastante, preparar as apresentações dos alunos, entrega de
trabalho, tudo, nos moldes de publicação. Você vai publicar seu trabalho numa
bienal, então, o que é que você vai ter que apresentar? Memorial descritivo, data,
conceitos, pa ra ra ra pa ra, então, você tem que me entregar assim, não adianta
chegar pra mim com um CD com o SIV inteiro, só isso, não. Cadê o memorial
descritivo disso aqui? Como é que esse projeto foi desenvolvido? Não essa marca,
o projeto, como é que ele foi desenvolvido? Então, adaptar essa apresentação
nesses moldes, por que ai, quando tiver, todo mundo pronto pra entregar, eu acho
que muito trabalho deixa de ser publicado, porque o aluno sabe fazer, mas não
sabe escrever sobre aquilo, não sabe falar sobre aquilo, e designer que não sabe
se vender, não trabalha, não trabalha. Você precisa vender seu projeto, você
precisa conseguir explicar aquele processo, pra que o cliente se identifique com
aquela marca, se identifique com aquele projeto gráfico, se identifique com o que
você está fazendo. Você precisa vender aquilo, então, eu acredito que, tem que ser
mais cobrada, apresente aqui pra mim, me venda, me convença de que eu tenho
que comprar esse seu projeto. Então, eu acho que é uma coisa pode auxiliar,
porque a gente sabe que tem um monte de gente que consegue falar com
computador, mas não fala com gente, e não dá pra ser um comunicador dessa
forma, não dá pra você, achar que designer é só o cara que faz coisa bonitinha, ele
é um comunicador, então, eu acho que, é uma coisa que pode ser mais
incentivada. Como é a forma que você vai me entregar esse trabalho? Memorial
descritivo, porque quando você for inscrever isso aqui na bienal, quando você for
inscrever isso aqui, no PID, tudo isso aqui, tá vendo, esses projetos, você tem
condições de inscrever, porque você vai saber defender esse projeto. Acho que é
uma coisa que poderia ajudar os alunos, estágios, isso, acho que é basicamente
assim, acho que as aulas práticas foram muito bacanas, elas são importante,
assim, eu faço isso até hoje, tem hora que eu vou pra campo mesmo, tive que
desenvolver uma marca lá em Manaus que ela é um projeto, uma marca de
souvenir, então, eu tinha que ir, pra ver o que é que, como os souvenires eram
trabalhados em Manaus, o que é o souvenir amazonense? Porque eu tenho uma
Sílvio da Silva Pena

Anexos 122

referência de souvenir pernambucano, por mais que esteja lá há um ano. Então eu
fui pro campo, fotografei, fui ver os traços, qual é o, o que tá sempre aparecendo?
Quais são os animais? Quais são as cores? É fruta? É o que que é? Então, você
vai pra campo, são processos que são realmente parte do, do trabalho. E eu acho
que assim, essa questão de estimular o, o papel social do designer pode ser
trabalhado também durante a faculdade. Joga ele dentro de uma escola pública
e diz: e aí, como pode solucionar o problema disso aqui? Quais são os problemas
que existem aqui? Pra essa criança aprender melhor? Pra essa criança se sentir
confortável nesse lugar? Pra ela querer lanchar? Pra ela querer almoçar aqui, oh!
E não ficar subnutrida, então, então é o que? Por que isso tá parecendo um
presídio? Então, estimular, bota ele, bota ele, na sociedade, presta atenção! Olha
ao teu redor, o que melhorou? O que pode melhorar? Tanto que hoje, quando tava
vindo prá cá, eu peguei a Caxangá todinha de novo, e eu tava observando isso: o
que é que evoluiu em cada canto? Eu fiz, caramba eu queria começar a fotografar
isso, fotografar, todo ano, todo ano, todo ano, fazer uma foto da Caxangá toda,
todo ano, todo ano, eu queria comparar depois, como foi, como é que cresceu?
Porque assim, eu tô vendo o pessoal indo pro minimalismo, sabe? Bicho Mimado,
todo verde com a marca, o, aquele outro é, Yoki, toda emadeirado, aí tem uma
padaria toda emadeirada. Então to vendo o pessoal procurar, começar a procurar,
mas também procurando um padrão, porque esse padrão existe, então assim, eu
queria fazer essa experiência, fotografar tudo e vê como é que isso tá evoluindo.
Por que tá evoluindo? O que é que tá sendo referência pra esse pessoal? Então
assim, se expor mais, olha ao teu redor e vê. Eu lembro que no primeiro período é,
o Weydson, ele pediu pra gente fotografar, fotografe todas marcas com elementos
orgânicos, com elementos da natureza, com elementos, um monte de coisa, e
botou a gente pra analisar aquilo, olhar, olhar, olhar, pra você ter visão crítica sobre
isso, então assim, e é ai que você começa entender o seu papel, entendeu?
Quando você começa a observar poucas coisas. Então, mesmo como o designer
gráfico, eu consigo entrar numa borracharia e dizer: bicho se tu organizar o layout
disso aqui melhora o teu trabalho. Sabe, tipo, eu não sou designer de interiores,
mas eu sei projetar, então se eu sei projetar uma página, eu sei projetar um
ambi...eu sei projetar uma sala, entendeu? Se olhar direitinho e vê como conseguir
Sílvio da Silva Pena

Anexos 123

melhorar a situação. Então, acho que expor mais o aluno, expor mais ele pra
amadurecer em sociedade, porque é pra eles que ele vai trabalhar, ele não vai
trabalhar dentro de uma sala, pesquisando, vendo como o designer mi, mi, mi,
evoluir pa, pa, não é isso, ele vai trabalhar pro mercado, ele vai ter que entrar na
Caxangá e dizer: caramba, tá todo mundo usando madeira agora, né? Vai ter que
fazer de outro jeito, porque senão, não se destaca, não vou ter como me destacar
aqui. Como olhar na prateleira e vê: catchup, catchup, catchup, catchup, como é
que eu vou me destacar aqui? Porque tem altas embalagens pra gente vê, olhar
ela sozinha, meu Deus isso não é embalagem de catchup! Quando você vê ela no
meio da prateleira, outra coisa. Uma embalagem de catchup branca, tá tudo lá
vermelhinho, vermelhinho, vermelhinho, todo mundo olha pra ela, é um exemplo,
então assim, botar o cara na sociedade, botar ele ao redor. Trás, pegue jornais, se
vire vá numa banca, vá no histórico, veja como é que evoluiu esse grid? Por que
que ele evoluiu assim? Onde é que estão as partes brancas? Sempre em contato
com os substratos da sociedade, com a própria sociedade, então eu acho que
expor mais o aluno, pra ele vê como ele vai ter que se, se soltar, então, acho que
nesse hora a aula de campo pode ser mais estimulada nesse sentido, porque às
vezes, a gente tinha uma por período, uma por disciplina, enfim, basicamente isso,
basicamente, né. (ri) mas, enfim...

Sílvio da Silva Pena